Homem-Aranha: Longe de Casa

Segunda aventura do Homem-Aranha produzida pela Marvel Studios traz frescor e uma leveza bem-vinda ao Universo Cinematográfico da Marvel, após os eventos trágicos do melancólico Vingadores: Ultimato, não economizando em cenas de comédia e sequências de ação hiperbólicas. Contudo, não escapa do padrão estabelecido pelo estúdio, de aventuras solo frívolas estreladas pelos heróis da casa.

No longa que compreende uma espécie de epílogo da Saga do Infinito – formada pelos 22 filmes já lançados do MCU – Peter Parker (Tom Holland) ainda lida com o luto pela morte de Tony Stark (Robert Downey Jr.), as inúmeras responsabilidades de ser um jovem herói com superpoderes e as demais consequências causadas pelo estalar de dedos de Thanos (Josh Brolin), que fez com que metade da vida no universo fosse reduzida a pó – aqui, referem-se ao ocorrido como blip. Para quem ainda está com os eventos de Guerra Infinita e Ultimato frescos na memória, deve se lembrar que houve um salto temporal de meia década entre o primeiro confronto do supergrupo com o Titã Louco e a reversão de seu fatal estalar de dedos. Pois bem, além do aracnídeo, muitos de seus colegas também foram vítimas do blip, de modo que permaneceram ausentes durante os últimos cinco anos e estão reaprendendo a se situar nesse mundo pós-Thanos. Portanto, alguns colegas outrora mais jovens, agora encontram-se mais velhos do que Parker, Ned (Jacob Batalon), MJ (Zendaya) e outros que também viraram pó.

Tudo isso é explicado desde a cena de abertura. Aliás, convém salientar que a vinheta da Marvel Studios embalada pelo clássico tema de O Guarda-Costas, I Will Always Love You, da saudosa Whitney Houston, seguido de um power point cafona em tributo aos heróis mortos em combate com Thanos (ou por conta deste), já deixa bem evidente que o caráter sombrio e o tom de seriedade presentes em Guerra Infinita e Ultimato limitou-se mesmo aos petardos bilionários estrelados pela super equipe. Já o novo longa do Aranha devolve o humor inerente ao estúdio, tratando com leveza surpreendente até mesmo as tragédias que permearam o quarto filme dos Vingadores. Longe de Casa é solar, dinâmico, bem-humorado e mergulha em um clima constante de aventura, apostando na vibe cartunesca desde seus minutos iniciais.

Tudo o que o jovem Parker precisa para desestressar e desanuviar a atmosfera carregada que se instalou sobre sua cabeça, bem como o peso do mundo que assumiu sobre seus ombros devido à morte de seu mentor, é curtir umas boas e merecidas férias à Europa ao lado de seus amigos, como qualquer garoto americano comum em idade colegial. Tanto que ele até tenta deixar o uniforme de Aranha para trás. Apenas tenta… Porém, aparentemente o mundo precisa do jovem herói e não demora até que Nick Fury (Samuel L. Jackson) e Maria Hill (Cobie Smulders) da S.H.I.E.L.D. entrem em contato com Parker por conta de estranhos ataques que estão ocorrendo pelo mundo.

Um destes ataques toma como palco Veneza, na Itália – justamente o local onde Peter se encontra com seus colegas de escola, desfrutando das férias. Um estranho ser denominado Elemental da Água surge devastador, arrasando a cidade e pondo em risco a vida dos amigos do Cabeça de Teia. Parker mal consegue deter a ameaça, porém, Quentin Beck – mais tarde apelidado de Mysterio (Jake Gyllenhaal) – que já havia derrotado um ser similar no México, surge para dar cabo da criatura. Beck conhece os Elementais e explana para Peter, diante de Hill e Fury, todo o seu background trágico com eles. Fury ainda se encarrega de entregar ao teioso a herança deixada por Stark: um óculos equipado com a inteligência artificial E.D.I.T.H, que obedece aos comandos de voz de seu proprietário, possuindo acesso integral aos bancos de dados das Indústrias Stark e sendo até mesmo letal, capaz de lançar armas conforme as ordens de quem detém o controle sobre o artefato.

Desejando desesperadamente curtir com seus colegas, ser um adolescente normal pelo uma vez na vida e acreditando não ser bom o suficiente como o Homem de Ferro, Peter passa a admirar Mysterio, vendo no talentoso novato um herói realmente capaz de substituir o seu mentor e, possivelmente, liderar os Vingadores. Contudo, assim que Parker lhe entrega os óculos de Stark, afirmando que ele é mais merecedor de possuí-lo, Quentin Beck revela ao espectador sua real natureza: os ataques não passam de ilusões holográficas projetadas por ele com o auxílio de uma tecnologia avançada que o vilão é capaz de manipular. Essa era a sua especialidade quando trabalhava nas Indústrias Stark… Até ser demitido por Tony devido ao seu temperamento instável. Ele só necessitava de um último artefato para prosseguir de maneira bem-sucedida com seu plano: justamente os óculos herdados por Parker.

Infelizmente, toda essa sequência da revelação constitui um dos principais deméritos do longa. Há todo um excesso de exposições, narrações e o exaurido recurso do flashback para explanar as motivações não apenas do vilão, como de seus asseclas – em sua maioria, ex-funcionários de Stark. Contudo, não é a única das falhas do longa.

O MCU, na maior parte das vezes, coloca seus heróis para estrelarem filmes de gênero. É visível o clima de thriller de espionagem em Capitão América 2: O Soldado Invernal; Guardiões da Galáxia, por sua vez, trata-se de uma space opera; Thor e Doutor Estranho apostam no gênero fantasia; Homem de Ferro era mais calcado na ação; Capitã Marvel já investe no clima de filmes policiais. Por sua vez, os longas do Homem-Aranha, protagonizados por Holland, bebem explicitamente da fonte das comédias high-school da década de 1980, especialmente as dirigidas por John Hughes, como salientado no texto do primeiro filme. E a verdade é que a produção consegue ser funcional na maior parte do tempo ao assumir esse tom. Nesse sentido, cabe enfatizar a química e a boa interação entre o jovem elenco que é um dos grandes destaques da obra e vital para que o estilo de narrativa adotada seja bem-sucedido. A premissa envolvendo a eurotrip de Peter e seus colegas é um ótimo gancho e permite que a trama toda se desenrole de maneira orgânica, fluida e até criativa. E quando o longa foca na humanidade e intimidade do herói, e no quanto ele preza e valoriza conceitos como amizade e família, fica evidente que é este o seu maior achado.

Em Longe de Casa, ainda temos um Peter Parker procurando se encontrar, distante de qualquer traço de maturidade e tentando entender melhor sua posição em uma super equipe de heróis denominada Vingadores – integrada pelos mais poderosos seres da Terra, salvadores da humanidade, quando o aracnídeo se limita a ser simplesmente o Amigão da Vizinhança. Falta ao personagem, nessa sua nova tradução para as telas, encontrar sua própria identidade. Ele ainda se ampara demais na figura dos outros Vingadores, os utilizando constantemente como referências, como se ser o Homem-Aranha não bastasse – o que é triste, afinal estamos falando de um personagem-emblema da Marvel desde os quadrinhos.

É de frustrar os fãs mais ardorosos do Cabeça de Teia ver como ele permanece à sombra dos Vingadores nesse segundo filme e se faz primordial que o estúdio livre o personagem dessa dependência criada. E não falo apenas de Tony Stark, no entanto, é inegável o impacto da influência que o Vingador Dourado exerceu sobre o teioso no MCU. Stark parece ter assumido o lugar de Tio Ben no coração deste jovem e imaturo Parker. O que é interessante, mesmo que fuja do cânone dos quadrinhos. Mas já está na hora de deixar que esta versão do Aranha siga seu caminho e construa sua própria personalidade e mitologia nas telas.

Aliás, convém citar também o fato de que este Homem-Aranha é mais hi-tech, lançando mão de poderosos gadgets (todos de propriedade das Indústrias Stark, obviamente), utilizando uniformes com designs futuristas no que é, definitivamente, uma releitura moderna do personagem. Preserva algo de sua essência e o espírito de aventura das HQs, mas está longe do amigão da vizinhança mais tradicional que conhecíamos. Algumas das características fundamentais do super-herói se perderam nessa nova incursão do aracnídeo nos cinemas.

De qualquer forma, o longa explora uma verve interessante do herói. Sob a direção segura de Jon Watts, Tom Holland continua convencendo no(s) traje(s) do Aranha, como o ingênuo e, ao mesmo tempo, brilhante Peter Parker, que procura equilibrar a vida de super-herói com as situações típicas da fase da vida em que se encontra, incluindo o amor secreto que nutre pela melhor amiga. É impagável vê-lo engendrando planos para conquistá-la, ficar a sós com ela e, por fim, declarar sua paixão. Zendaya, na pele de MJ (que aqui não é Mary Jane e, sim, Michelle Jones) é muito mais gostável do que a MJ de Kirsten Dunst. Que me perdoe a atriz anterior que é, sim, bastante competente e talentosa, mas é muito bom ver o par romântico do herói fugindo do arquétipo da donzela indefesa, sendo inteligente, determinada, segura de si, irônica, afiada e até apresentando um lado sombrio (tratado de maneira cômica, mas ainda assim válido).

E mesmo quando ousa resvalar no clichê, o roteiro é esperto o suficiente para assumir um tom metalinguístico que evita que o filme enverede por lugares-comuns tão típicos do gênero e o faz escapar ileso das armadilhas de situações genéricas. O grande trunfo de Longe de Casa é mesmo seu humor desmedido. E também um de seus pontos fracos, já que o recurso é uma constante, fazendo com que mesmo as cenas de teor mais emocional sejam sobrepujadas pela comédia e não encaradas com a seriedade que lhes é devida. Há, também, uma série de conveniências narrativas, mas é possível fazer uma concessão quanto a elas em nome da diversão.

O vilão, Misteryo, é bem incorporado por Jake Gyllenhaal que lhe atribui um tom afetado certeiro. E é responsável por uma das melhores cenas do longa, quando aprisiona Parker em um labirinto mental e emocional, forçando o Aranha a encarar seus traumas bem de perto e confrontá-los antes que enlouqueça completamente. É até assustadora. Ainda sobra espaço para uma subtrama envolvendo Happy Hogan (Jon Favreau) – o guarda-costas de Tony Stark – e a Tia May (Marisa Tomei) que consegue arrancar algumas risadas, ainda que amarelas, da platéia. Não acrescenta muito ao enredo, mas também não ofende.

Mais pirotécnico do que o anterior, o filme investe em uma estética videoclíptica, com uma montagem acelerada e até mesmo em um visual mais próximo dos videogames, rendendo alguns fotogramas que evidenciam o caráter artificial das tomadas, pois abusam do uso do chroma key para inserção de elementos de computação gráfica. Contudo, a cinematografia valoriza os espaços nos quais a ação ocorre, que compreendem cenários como Veneza, Praga, Londres e, obviamente, Nova York (embora, faz-se necessário mencionar que algumas paisagens das localidades europeias retratadas no longa foram reproduzidas em estúdio…).

No que se propõe, Homem-Aranha: Longe da Casa é bem-sucedido. Mantém a fórmula Marvel de ação colorida e ágil para toda a família (afinal, em time que está ganhando não se mexe). Como tributo às comédias leves e adolescentes da década de 1980, ele reflete as angústias e inquietações atemporais inerentes à juventude com bastante eficiência. Ao mesmo tempo, equilibra essa dinâmica com um retrato bem preciso dessa geração hiperconectada e imediatista que atende pelo nome de Geração Z. E, para completar, é, de fato, um bom blockbuster baseado em um personagem de histórias em quadrinhos.

A produção dá sequência à estratégia da Marvel de investir cada vez mais na expansão desse universo nas telas, introduz o bem-vindo conceito de multiverso, apontando para inúmeras possibilidades – futuros incertos, mas instigantes -, está repleto de ótimos pontos de virada, de reviravoltas bem sacadas e há diversas inserções de easter eggs para deixar os fãs com os olhos brilhando e salivando pelas próximas aventuras cinematográficas da Casa das Ideias.

Falando nisso, há diversas referências aos episódios anteriores da estrutura Marvel, bem como às cenas icônicas dos antigos e, hoje, clássicos filmes do Homem-Aranha dirigidos por Sam Raimi (inclusive subvertendo o clichê da mocinha viajando pelos ares nos braços do herói com o cabelo impecável, totalmente despreocupada e deslumbrada pelo seu salvador). O pós-créditos também reserva algumas surpresas tão chocantes quanto hilariantes. Inclusive, com direito ao retorno de um personagem querido pelos fãs e que é um dos grandes detratores do Aranha desde às HQs.

Não é o melhor filme do aracnídeo. Longe, muito longe disso. Esse crédito ainda pertence a Homem-Aranha 2 de 2004 e à recente animação Homem-Aranha no Aranhaverso. De qualquer forma, é um filme bem leve, repleto de dinamismo e de tiradas cômicas espertas, amparado pelo carisma de Tom Holland e que certamente vale o ingresso.

Andrizy Bento

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