Rock in Rio II – 31 anos

Demorou, mas saiu. Essa foi a edição que sucedeu a primeira, ocorrida seis anos antes. Além de formar a trilogia raiz com o primeiro e terceiro, Rock in Rio II celebrou suas bodas de pérola no ano passado.  

Foi a única edição do festival carioca realizada fora de uma Cidade do Rock. Templo sagrado do futebol brasileiro, o Estádio do Maracanã virou o templo do Rock por nove dias de festival. As datas do Rock in Rio II foram 18, 19, 20, 22, 23, 24, 25, 26 e 27 de janeiro de 1991.

O fato de ter sido realizado no Maracanã, fez com que o público pudesse ter acesso fácil ao festival através das linhas de ônibus, trem e metrô (as duas últimas possuem estações de acesso ao estádio). Na primeira e na terceira edição, as empresas de ônibus municipais e intermunicipais do Rio emprestaram parte de sua frota para o público ir à Cidade do Rock. Lembrando que em 1985 e 2001 ainda não existiam estações de BRT.

Cidade do Rock no Maracanã

Como eu disse antes, o Rock in Rio II foi realizado no Maracanã. Mas qual foi o motivo dessa decisão? Após a primeira edição, em 1985, a Cidade do Rock na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, foi demolida por ordem do então governador fluminense Leonel Brizola devido a atritos políticos. Em abril de 1990, Roberto Medina realizou mais um empreendimento no Brasil: os dois shows memoráveis do ex-Beatle Paul McCartney no citado estádio. As apresentações foram chamadas de “Paul in Rio”, trocadilho lógico com o Rock in Rio.

Dois meses depois, Roberto Medina foi vítima de sequestro. Após ficar dias em cativeiro, o empresário foi libertado e se mudou com a família para Madri, na Espanha. Refeito do sequestro, Medina anunciou a realização do Rock in Rio II. No mesmo ano de 1990 ocorreram as eleições estaduais no Brasil. Nela, Leonel Brizola voltou a ser eleito governador do estado do Rio, quatro anos depois de ter deixado o cargo. Lembrando que, na época, ainda não existia reeleição no Brasil, que só foi permitida a partir de 1998. Portanto, Brizola foi sucedido por Moreira Franco, que governou o estado do Rio entre 1987 e 1991. Em sua segunda passagem pelo Palácio da Guanabara, Brizola ficou no cargo entre 1991 e 1995.

Temendo uma nova perseguição política de Brizola, somado aos dois shows de Paul McCartney, Roberto Medina levou o Rock in Rio II para o Maracanã. Para a realização do evento, o estádio teve que ser fechado para reformas a partir de novembro. Isso fez com que o Flamengo transferisse o primeiro jogo da decisão da Copa do Brasil para Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais. Quatro rampas foram erguidas para facilitar o acesso do público ao gramado do estádio. As lojas ficavam nos corredores de acesso à arquibancada, cadeira e geral do Maracanã.

Selo comemorativo

Para a edição do Rock in Rio II, a Artplan Produções, em parceria com a empresa dos Correios, criou selos em homenagem a Raul Seixas e Cazuza em tiragem limitada. Raulzito não teve a oportunidade de tocar no primeiro Rock in Rio, pois, na época, ele já carregava uma péssima fama, de sempre aparecer bêbado em cima do palco, deixando a plateia impaciente. Os promotores resolveram boicotar o cantor, criando a famosa expressão “vacinados contra Raul Seixas”. O maluco beleza morreu aos 44 anos, vítima de pancreatite aguda em 21 de agosto de 1989. 

Quanto a Cazuza, é de conhecimento geral a sua presença na primeira edição, como vocalista do grupo Barão Vermelho. Durante esse Rock in Rio, o poeta exagerado se lamentou pela ausência do amigo Lobão. Após o RiR, Cazuza saiu do Barão e se lançou em carreira solo. O cantor veio a falecer devido a complicações decorrentes do vírus HIV em 7 de julho de 1990. Medina recordou o lamento de Cazuza e decidiu incluir Lobão no Rock in Rio II

Quanto ao Barão Vermelho, o grupo chegou a confirmar presença no festival, mas depois de saberem que não teriam direito a passagem de som, desistiram de tocar. Outro confirmado, mas que não compareceu foi o internacional Robert Plant, ex-vocalista do Led Zeppelin. Uma gripe muito forte impediu o cantor inglês de vir ao Brasil. Ele tocaria na sexta noite (dia 20) e foi substituído por Santana, que já havia se apresentado na segunda noite (dia 19). Robert Plant veio ao Brasil pela primeira vez no festival Hollywood Rock, em 1994.

Comes e bebes

Foi a partir do Rock in Rio 2 que a poderosa Coca-Cola se tornou o refrigerante oficial do evento. Só se ausentou na edição de 2015, quando foi substituída pela rival, Pepsi. Para incrementar, as faixas vermelha e cinza da marca dividiram espaço com o globo azul do logotipo do festival. 

Pai do fast-food no Brasil, o Bob’s se tornou a lanchonete oficial do Rock in Rio a partir da segunda edição. Só se ausentou na terceira edição, em 2001. Um ano antes do Rock in Rio 2, o mesmo Bob’s criou algo inovador para a época. Tratava-se de um copo de 1 litro (ou 1000 ml), também conhecido popularmente na época como copão. Na véspera do festival, a logomarca do Rock in Rio II foi adaptada ao copão e este passou a ser comercializado em suas filiais. Então, a Coca-Cola resolveu criar o seu próprio, que era vendido nas lanchonetes do Bob’s no Rock in Rio II e tratou-se de um item muito exibido pela plateia nos shows. 

O sucesso do copão fez com que o mesmo fosse comercializado para várias lojas e supermercados, fazendo dele um enorme sucesso entre o público infantil e adolescente no Brasil durante a década de 1990. Quanto à cerveja oficial do Rock in Rio II, vou ficar devendo a informação. 

Rádio e televisão

A questão da estação de rádio, eu também vou ficar devendo. Há muita desinformação nesse quesito, pois uns falam que foi a 98 FM, já outros alegam ter sido a Fluminense FM

Quanto à emissora de televisão, obviamente ficou a cargo da Rede Globo a transmissão do festival. Para a abertura e nas vinhetas de intervalo, a emissora dos Marinho utilizou a canção Welcome To The Jungle dos Guns N’ Roses. Para apresentar o festival pela TV, a Globo chamou Pedro Bial, que era correspondente internacional na época. O mesmo estava do outro lado do mundo, cobrindo a Guerra do Golfo, sobre a qual falarei mais adiante. 

O Rock in Rio II foi a primeira edição do festival a usar telão em cada canto do palco. As câmeras que geraram as imagens do palco pertenciam à MTV, tanto que, nos telões, eram exibidas legendas com um fundo colorido (característico da emissora), anunciando as canções que estavam sendo executadas pelos artistas. Os VJs americanos da MTV fizeram matérias nas ruas do Rio e entrevistas com as atrações do festival. Recém-instalada no país, a MTV Brasil também cobriu o Rock in Rio. Tornou-se altamente conhecido o fato de que Axl Rose, líder dos Guns n’ Roses, só aceitava ser entrevistado pela VJ Cuca Lazarotto

Guerra do Golfo

Como foi dito aqui, o primeiro Rock in Rio coincidiu com a primeira eleição direta para Presidente da República desde o golpe militar de 1964, elegendo Tancredo Neves. Já o Rock in Rio II foi realizado no mesmo período em que a Guerra do Golfo, que acontecia no Oriente Médio. Não faltaram manifestações anti-guerra, tanto da parte do público quanto dos artistas participantes. A mais conhecida do público foi “Paz no Golfo”. Alguns resolveram aproveitar o conflito para debochar do ditador iraquiano Saddam Hussein. Na noite do metal, o público exibiu uma bandeira com o trocadilho “Longa vida a Sattan Hussein”.

Primeiro dia

A segunda edição do Rock in Rio começou 100% internacional em 18 de janeiro. O pontapé inicial foi dado pelo cantor jamaicano Jimmy Cliff, que já havia estado no Brasil em outras ocasiões. Na época, o seu grande sucesso era Rebel in Me, que fez parte da trilha sonora da novela global Rainha da Sucata e do filme Marcado Para a Morte (com Steven Seagal). Claro que, na sua apresentação, não faltou o seu maior êxito: Reggae Night.

A segunda atração foi o cantor e guitarrista escocês Colin Hay, que ficou conhecido por ter feito parte do grupo de rock australiano Men At Work. Ele estava em alta com a canção Into My Life, que também integrava a trilha sonora de Rainha da Sucata. Não faltaram canções de sua ex-banda, como It’s a Mistake e Overkill. A terceira atração foi o cantor inglês Joe Cocker, que já havia tocado no Brasil em 1978. O próprio enviou para a organização do evento a receita de uma torta de carne com batata, para ser consumida depois do show. Com a sua característica voz grave, Cocker encantou a todos no Maracanã com Up Where We Belong, Unchain My Heart (cover de Ray Charles) e sua conhecida versão de With A Little Help From My Friends dos Beatles. A última estava em alta na época, por ser tema de abertura do seriado infanto-juvenil Anos Incríveis

A primeira noite do RiR II foi encerrada pelo cantor americano Prince, em sua única passagem pelo Brasil. O saudoso músico fez três exigências na ocasião. Uma delas foi um piano de cauda branca no quarto de hotel onde estaria hospedado. A segunda, que ninguém o olhasse diretamente nos olhos. A terceira (não atendida) foi a proibição de venda de cervejas durante as suas duas apresentações, de modo a evitar a embriaguez de seu público. Divulgando, na época, o seu 12º disco, intitulado Graffiti Bridge (1990), Prince estava visualmente diferente do que nos acostumamos ver em anos anteriores, porém, a sua presença de palco encantou os brasileiros. Dos seus sucessos, faltou 1999, mas marcaram presença Let’s Go Crazy, Kiss e a icônica Purple Rain. Ele também tocou Nothing Compares 2 U, que é de sua autoria, porém, ficou conhecida na voz da cantora irlandesa Sinéad O’Connor. Prince voltaria ao Maracanã para fechar a sexta noite.

Sepultura

O grupo de thrash metal mineiro estava em ponto de bala na virada dos anos 1980 para os 1990. Tudo graças à divulgação de seu terceiro disco, Beneath The Remains (1989), o primeiro com uma grande gravadora e que permitiu ao quarteto realizar a sua primeira turnê internacional. O Rock in Rio II foi o segundo grande festival que o Sepultura tocou, pois o primeiro foi o holandês Dynamo Open Air em 1990. No mesmo ano citado, a banda começou a ser empresariada por Gloria Bujnowski (hoje, Gloria Cavalera), que mais tarde viria a se casar com o então vocalista e guitarrista da banda, Max Cavalera. Além de Max, a banda ainda contava com o irmão do mesmo, Igor Cavalera (bateria), Andreas Kisser (guitarra) e Paulo Jr. (baixo).  

No fim de 1990, o Sepultura começou a gravar o seu quarto disco, Arise (1991), que os colocou de vez na elite do rock mundial. Durante o processo de gravação, a banda recebeu o convite para tocar no RiR II. Dos quatro, apenas Andreas Kisser foi plateia do primeiro Rock in Rio em 1985. Os outros foram proibidos por seus pais e tiveram que conferir o festival pela televisão mesmo. Para aproveitar a atenção que a mídia dava ao quarteto, o Sepultura lançou no mercado brasileiro uma versão pré-mixada de Arise. Portanto, podemos dizer que a turnê do mencionado álbum começou no Rock in Rio II. Arise só chegou ao mercado em março de 1991.

Mas a exemplo de muitos outros artistas brasileiros do festival, o Sepultura não pode usufruir de privilégios, como, por exemplo, fazer a passagem de som no palco. No que diz respeito à alimentação, a banda só consumiu, em seu camarim, refrigerantes e sanduíches. Para piorar, o quarteto pode tocar por apenas trinta minutos no festival. Sua apresentação abriu a noite do metal, em 23 de janeiro, e o público foi imediatamente conquistado, passando a gritar o nome da banda sem parar. O Rock in Rio II representou um grande estímulo na carreira do Sepultura e seu nome foi amplamente divulgado no país inteiro. A banda retornou ao festival nas edições de 2001, 2011, 2013, 2017, 2019 e 2022. Só ficando de fora das edições portuguesas, realizadas em 2004 e 2012, além do Rock in Rio Las Vegas, em 2015. 

Guns N’ Roses

A banda de hard rock americana foi o grande nome do Rock in Rio II, sendo a atração de encerramento do terceiro dia (dia 20) e da noite do metal (dia 23), mesmo tendo lançado apenas dois discos até então, o Appetite For Destruction (1987) e o Lies (1988). Curiosamente, o início dos anos 1990 foi o melhor período da trajetória do grupo, marcada pela longa turnê de seu terceiro disco, o duplo Use Your Illusion, que chegou às lojas em setembro de 1991. Pode-se dizer que o Guns N’ Roses iniciou a sua turnê no festival carioca. 

Foi no Rock in Rio II que o baterista Matt Sorum (ex-The Cult) fez sua estreia na banda – o músico substituiu Steve Adler. Outro que fez seu debut no Guns no mesmo festival foi um músico de aluguel, o tecladista Dizzy Reed. O Rock in Rio também marcou um dos últimos shows da banda com o guitarrista Izzy Stradlin que, no segundo semestre de 1991, foi substituído por Gilby Clarke. Além de Izzy e Matt, Axl Rose (voz), Duff McKagan (baixo) e Slash (guitarra) fizeram valer o posto de headliner nas duas datas. 

Slash causou ao tocar, na guitarra, o histórico tema de O Poderoso Chefão (1973). Com um solo de bateria matador, Matt Sorum mostrou que veio para ficar no Guns N’ Roses. A banda toda colocou o público para cantar Knockin On Heaven’s Door, cover de Bob Dylan. Além dessa, o Guns executou no Rock in Rio algumas faixas que, posteriormente, integraram o Use Your Illusion, entre elas You Could Be Mine, que ficou conhecida por fazer parte da trilha sonora do filme O Exterminador do Futuro 2. O lenço na cabeça, moda usada por Axl Rose e Matt Sorum, fez tanto sucesso que foi o adereço mais utilizado pelo público no Rock in Rio II. O Guns N’ Roses ainda regressou ao Brasil para dois shows em dezembro de 1992.

Escalada do Rock

A fim de mostrar que o rock brasileiro estava vivo, em uma época dominada por lambada e sertanejo, o Rock in Rio II decidiu organizar a primeira edição do concurso Escalada do Rock. Com o intuito de dar oportunidade às bandas de rock do cenário independente no Brasil, o evento teve como vencedor o grupo Vid & Sangue Azul que abriu a segunda noite do evento.

A organização também deu oportunidade a dois artistas do rock brasileiro que perderam a Escalada do Rock. Caso da cantora gaúcha Laura Finocchiaro. Ela também foi descoberta por Cazuza, com quem compôs Tudo é Amor para o Burguesia (1989), quarto disco do poeta exagerado. Até hoje, Laura Finocchiaro (leia-se Finoquiário) é lembrada por ter se apresentado com uma roupa transparente de leopardo. 

Outro conhecido do cenário roqueiro brasileiro, e que ganhou publicidade com o Rock in Rio II, foi o veterano cantor carioca Serguei. Ele vinha fazendo música desde os anos 1960 e ficou marcado por conta do beijo que deu na boca de Janis Joplin. Em entrevistas, ele sempre falava que havia namorado ela. Serguei marcou sua passagem no Rock in Rio, indo para o meio da multidão e cantando Summertime da própria Janis Joplin. Tanto ele quanto Laura Finocchiaro se apresentaram no dia 24 de janeiro. 

Segunda noite

Realizada em um sábado, dia 19 de janeiro, a segunda noite teve presença de brasileiros, diferentemente da primeira. A começar pelo já mencionado Vid & Sangue Azul. A segunda atração foi o cantor Supla, que havia lançado o seu primeiro disco solo em 1989. Ele estava em ascensão com os jovens brasileiros, por conta de sua participação no filme Uma Escola Atrapalhada (1990), do grupo humorístico Os Trapalhões. Supla não esqueceu de sua ex-banda, Tokyo, e tocou o seu maior sucesso, Garota de Berlim no Rock in Rio II

A terceira atração foi o grupo de rock gaúcho Engenheiros do Hawaii que se apresentou com a sua formação mais lembrada: Humberto Gessinger (voz e baixo), Augusto Licks (guitarra) e Carlos Maltz (bateria). O trio dos pampas divulgava, na época, o seu quarto e mais popular disco, O Papa é Pop (1990). A apresentação foi elogiada pelo público e até pelo jornal americano The New York Times. A quarta atração ficou a cargo do guitarrista mexicano Santana, que já havia estado em nosso país em 1971 e 1973.

Depois, foi a vez do cantor inglês Billy Idol, um dos maiores ícones dos anos 1980. Promovendo, na ocasião, o seu quarto disco intitulado Charmed Life, o cantor não decepcionou, porém, não deixou de causar. Nessa noite, ele não tocou Dancing With Myself, mas a executou na noite seguinte (dia 20). Considerado o seu clone brasileiro, o cantor Supla queria conhecê-lo, mas foi barrado ao tentar entrar em seu camarim. A segunda noite do Rock in Rio II foi encerrada com o grupo australiano INXS. Liderada pelo saudoso vocalista Michael Hutchence, a banda promovia o seu sétimo disco, X (1990), cujo maior êxito foi a canção By My Side, conhecida no Brasil por ter feito parte da trilha sonora da novela global Meu Bem, Meu Mal. O INXS não desapontou o público brasileiro, que vibrou com os sucessos: Suicide Blonde, New Sensation e Never Tears Us Apart (só para citar alguns).

Primeira noite do Pop

Após um dia de descanso, o Rock in Rio II voltou em uma terça-feira, dia 22 de janeiro. Apesar das atrações internacionais estarem voltadas para a música pop, a turma brazuca que se apresentou naquela noite era originária do rock. A começar pelo grupo carioca Inimigos do Rei, que divulgava o seu segundo disco, Amantes da Rainha (1990). A banda não deixou o público parado com os seus sucessos Adelaide e Uma Barata Chamada Kafka.

A segunda atração foi outra banda carioca: o Roupa Nova. Mesmo tendo ficado de fora da primeira edição em 1985, foram eles que interpretaram e gravaram o tema musical do festival, composta por Eduardo Souto Neto. A banda divulgava o seu oitavo disco, Frente e Versos (1990), que ficou conhecido pelas canções Coração Pirata (que integrou a trilha sonora da novela Rainha da Sucata) e Esse Tal de Repi En Roll, que é uma regravação com letra alterada de Esse Tal de Rock Enrow da Rita Lee

A primeira atração gringa do dia ficou a cargo dos rappers americanos do Run-DMC, que promoviam o seu quinto disco, Back From Hell (1990). O trio também contou com a participação do grupo alemão Snap!, que tocou o seu grande sucesso I Got The Power. A noite foi encerrada com a boyband americana New Kids On The Block, que estava em alta com o seu  mega sucesso Step By Step, título de seu terceiro disco, lançado em 1990. 

Faith No More

Apesar de já ter falado desse assunto na resenha de seu terceiro disco, The Real Thing, seria injusto não lembrar deles aqui. Divulgando o mencionado álbum, o Faith No More conquistou o Brasil durante o festival. Eles contavam, na ocasião, com a sua melhor formação: Mike Patton (voz), Jim Martin (guitarra), Roddy Button (teclados), Billy Gould (baixo) e Mike Bordin (bateria). A repórter Sandra Passarinho da Globo tentou entrevistar Mike Patton, passeando pelo calçadão de Copacabana, mas a perseguição do público não deixou. A entrevista teve que ser no hotel mesmo, junto com o resto da banda.

Antes do Rock in Rio II, o Faith No More já havia começado a conquistar o público brasileiro com os videoclipes de Epic e Falling To Pieces disputando espaço nas paradas da MTV Brasil. O quinteto americano só se apresentou na terceira noite (dia 20), que ainda teve Hanoi Hanoi, Titãs, Billy Idol e Guns N’ Roses. Mas foi o bastante para obter aclamação no Brasil. No festival, a banda ainda mandou dois covers, um de War Pigs do Black Sabbath (e que está presente no bônus de The Real Thing); e o outro de Easy, clássico do Commodores, e que o quinteto gravou posteriormente, para o seu quarto disco, Angel Dust (1992).

Essa primeira passagem fez do Faith No More o grupo estrangeiro mais idolatrado no país em 1991. A banda regressou ao Brasil no mesmo ano para uma turnê. Foi também nos bastidores do Rock in Rio II que o grupo fez amizade com o Sepultura. Além de Lookaway, outra canção que o vocalista Mike Patton gravou com o quarteto mineiro foi The Waste, para a trilha sonora do filme Freddy vs. Jason (2003), crossover cinematográfico dos clássicos do terror A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13.

Noite do Metal

Devido ao sucesso do gênero no primeiro Rock in Rio, Roberto Medina resolveu tornar oficial a noite do metal no evento. Ela foi aberta pelo Sepultura, que acabou sendo o primeiro grupo brasileiro do gênero a tocar no festival carioca. Porém, como já citado, os mineiros só tiveram meia hora de show, deixando o público querendo mais. Pior para o cantor Lobão, que teve a “brilhante” idéia de levar a bateria da escola de samba Mangueira para abrir o seu show. Em seguida, ele deu continuidade ao show cantando Vida Louca Vida, canção que compôs ao lado de Cazuza. Durante a execução da segunda canção, Canos Silenciosos, Lobão foi vaiado pelo público. Ao receber uma latada na cabeça, o cantor parou o show, ofendeu a plateia com palavrões e abandonou o palco.

Agora vem a parte estrangeira da noite. A começar pela banda de thrash metal americana, Megadeth, que divulgava o seu quarto e melhor disco, Rust in Peace (1990). O quarteto se apresentou com sua melhor formação: Dave Mustaine (voz e guitarra), Nick Menza (bateria), David Ellefson (baixo) e Marty Friedman (guitarra). Mustaine, inclusive, pronunciou algumas palavras em português para o público. O Megadeth ainda tocou o cover de Anarchy in The UK do Sex Pistols. Em seguida, vieram os compatriotas do Queensrÿnche, que divulgava o seu quarto disco, Empire (1990). É desse álbum que saiu a balada Silent Lucidity, o maior sucesso comercial da banda. Entretanto, o grupo não a executou durante o RiR II.

O veterano Judas Priest foi mais um que carimbou sua presença no Rock in Rio II. Antes de subir ao palco, o grupo de heavy metal inglês teve um sério problema chamado Axl Rose. O último pediu (em vão) para a organização impedir o vocalista, Rob Halford, de subir ao palco com a sua motocicleta, de modo a não ofuscar o segundo show do Guns N’ Roses. Rob Halford ainda falou algumas palavras em português para o público: “Alô Rio, Brasil, América do Sul, o Priest está aqui”. O Judas Priest divulgava o seu 12º disco, Painkiller (1990), o primeiro com o baterista americano Scott Travis e o último com o vocalista Rob Halford, que saiu da banda em 1992, regressando em 2003. Durante sua carreira solo, ele tocou no Rock in Rio III em 2001. A versão de Grinder no Rock in Rio II está presente no bônus do DVD Classic Albums, que conta a história do British Steel (1980), o mais lembrado disco do Judas Priest

Samba Pa Ti

Antes de falar o conteúdo da foto acima, vou começar discorrendo sobre as atrações da quinta noite (dia 24). Eu já falei antes que Laura Finocchiaro e Serguei se apresentaram nessa data.

Veterano da primeira edição, o cantor Alceu Valença também marcou presença no Rock in Rio II. O show fez parte da turnê de seu 14º disco, Andar Andar (1990), o primeiro com a gravadora EMI. A noite foi encerrada pelo cantor americano Prince, que fechou a sua estadia no Rock in Rio e nunca mais regressou ao Brasil. Vinte anos depois, ele deveria voltar a se apresentar em nosso país no festival Back2black, no Rio de Janeiro, mas acabou cancelando o concerto. Convém dizer ainda que o finado músico sequer conversou com a imprensa brasileira durante o Rock in Rio II.

Agora vamos falar da foto acima. O guitarrista mexicano Santana já havia tocado na segunda noite. Divulgando o seu 16º disco, Spirits Dancing in The Flesh (1990), ele acabou preenchendo a vaga deixada por Robert Plant e fez com que o segundo show fosse mais inesquecível do que o primeiro. Santana abriu a apresentação com a instrumental Soul Sacrifice, que ficou conhecida por conta de sua performance no Festival de Woodstock em 1969. Seu segundo show no RiR contou com a presença de brasileiros. Um deles, o cantor Djavan, que interpretou duas de suas canções, Stephen Kingdom e Oceano. Santana encerrou sua apresentação no festival carioca com Gilberto Gil, com quem cantou Exodus.

Brock in Rio 2

Apesar de ter perdido a atenção da mídia brasileira para a lambada e o sertanejo, a turma do BRock manteve o seu lugar no maior festival do Brasil. O Rock in Rio II contou com os dois maiores representantes do chamado Rock Grande do Sul. O grupo Nenhum de Nós divulgava o seu terceiro disco, Extraño (1990), e se apresentou na penúltima noite (dia 26). Quanto aos Engenheiros do Hawaii, estes tocaram na segunda noite.

Na mesma noite, também se apresentou o Capital Inicial. O quarteto brasiliense divulgava, na época, o seu quarto disco, Todos os Lados (1989). Paulo Ricardo bem que tentou reunir o RPM, mas só conseguiu levar para o Rock in Rio II Fernando Deluqui (guitarra) e o xará Paulo Pagni (bateria). O tecladista Luiz Schiavon não aceitou voltar, devido aos ressentimentos que guardava do vocalista. Na época, o nome RPM estava registrado entre os quatro integrantes. Das atrações do BRock originárias da cidade do Rock in Rio, marcaram presença Hanoi Hanoi, Inimigos do Rei, Roupa Nova e Lobão.

O grande nome do BRock no Rock in Rio II foi mesmo a banda Titãs. O então octeto paulista vivia o seu auge e encerrou no festival a turnê de seu quinto disco, Õ Blésq Blom (1989), que lhes rendeu a maior carga de shows e garantiu alto lucro financeiro, fazendo com que a banda chegasse a ser comparada ao Rolling Stones. Em algumas canções, o Titãs chamava ao palco o seu produtor musical, Liminha, que fazia a terceira guitarra nos shows. 

Primeira noite de George Michael

Antes de falar do headliner, vamos começar pelos brasileiros. A noite do dia 25 de janeiro começou com o cantor carioca Ed Motta, que deu conta do recado. Ele promovia o seu segundo disco, Um Contrato de Deus (1990), o primeiro sem a sua conhecida banda de apoio, Conexão Japeri. A segunda atração também era brasileira: a paraibana Elba Ramalho, que divulgava o disco Ao Vivo (1990). Ela também era veterana do primeiro Rock in Rio.

A primeira atração internacional foi a banda americana de dance music Deee-Lite. Eles promoviam, na época, o seu primeiro disco, World Clique (1990), que contava com o seu único grande sucesso, Groove is in The Heart, obrigatório em festas e boates da época. Há relatos de que o grupo decepcionou – o som estava embolado e sem peso. Para piorar, o DJ Towa Towa desmaiou duas vezes no palco. É aquela história do artista campeão em vendas de discos, mas que não corresponde às expectativas em cima do palco.

Atração principal, o cantor inglês George Michael salvou a parte gringa da noite. Ele estava na turnê de seu segundo disco solo, Listen Without Prejudice Vol. 1 (1990), que obteve sucesso mundial com a canção Freedom! ‘90. Além de seus hits, ele também investiu em covers, como Fame de David Bowie e Tonight de Elton John. Aliás, no fim de 1991, George Michael fez sucesso mundial com uma versão ao vivo de Don’t Let The Sun Go Down on Me, também de Elton John e com a participação do próprio. Ela foi divulgada primeiramente em single, e incluída no álbum Duets, que o pianista lançou no mercado em 1993.

Penúltima noite

Foi considerada a noite mais pop, tanto que foi chamada de Pop in Rio. Foi também a noite de maior público daquela edição – cerca de 198 mil pagantes. A abertura ficou a cargo dos brasileiros do Capital Inicial e Nenhum de Nós. Depois, vieram as atrações gringas, como o Information Society. Divulgando o seu terceiro disco, Hack (1990), a banda de synthpop não deixou ninguém parado no Maracanã, com direito a plateia viajando ao som da balada Repetition.

Debbie Gibson, que divulgava o seu terceiro álbum, Anything is Possible (1990) foi a atração seguinte. O disco mencionado não fez sucesso, mas a cantora veio para cá por intermédio da balada Lost in Your Eyes, que teve êxito no Brasil especialmente por ter feito parte da trilha sonora da novela global O Salvador da Pátria (1989). Em seguida, vieram os noruegueses do A-ha, que já haviam estado em nosso país dois anos antes. O trio pediu para tocar mais cedo e trocou de horário com Paulo Ricardo. Durante o show, o vocalista Morten Harket carregou um menino brasileiro pelo palco. Quanto a Paulo Ricardo, esse relembrou com maestria o seu antigo grupo, RPM

A noite foi encerrada pelo grupo inglês Happy Mondays, egressos da cidade de Manchester. Os integrantes faziam parte do movimento Madchester, que exaltava o rock alternativo da cidade inglesa. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o vocalista Shaun Ryder declarou que iria trazer para o Brasil mil tabletes de ecstasy. Porém, acabou não cumprindo a promessa, alegando (nas palavras do próprio), não estar a fim de experimentar as prisões brasileiras. O Happy Mondays iria tocar na primeira noite, mas devido a problemas técnicos, teve o seu show transferido para a penúltima noite.

Última noite

Divulgando na época seu sexto disco, Sexo, Drops e Rock ‘n’ Roll (1990), Léo Jaime abriu a noite de despedida do Rock in Rio II. Seu show ainda contou com a participação de seus amigos do João Penca & Seus Miquinhos Amestrados. Conhecidos por terem sido integrantes do grupo Novos Baianos, Pepeu Gomes e Moraes Moreira eram veteranos do primeiro Rock in Rio. Divulgando o disco Moraes e Pepeu (1990), conhecido pela canção A Lua e o Mar, a dupla foi a segunda atração da última noite. 

O Deee-Lite voltou ao Maracanã para tentar salvar a sua presença no Rock in Rio, em vão. Já a cantora inglesa Lisa Stansfield fez as honras da casa. Ela divulgava o seu primeiro disco, Afecction (1989), que inclui a dançante All Around The World (outra que fez parte da trilha sonora de Rainha da Sucata).

George Michael encerrou o Rock in Rio II com chave de ouro. Ele ainda aprontou uma surpresa para o público brasileiro: chamou ao palco o guitarrista Andrew Ridgeley, com quem tocava no grupo Wham!. Nessa única vinda ao Brasil, George Michael teve um breve romance com o estilista brasileiro Anselmo Feleppa, antes de tornar pública sua homossexualidade. Anselmo morreu devido a complicações decorrentes do vírus HIV em 1993 e, em sua homenagem, o cantor compôs a canção Jesus to a Child, presente no terceiro disco do músico, Older (1996). 

Saldo negativo

Das três edições do chamado Rock in Rio raiz, essa foi a que menos agradou. A foto acima é de funcionários do Bob’s que, misteriosamente, foram barrados no Maracanã, mesmo com ingresso na mão. Eles aproveitaram a presença da imprensa e protestaram, mostrando os ingressos. Como eu disse acima, o fast-food foi um dos patrocinadores do evento e realizou promoções entre seus funcionários nas filiais do Rio de Janeiro. O vencedor de cada filial ganhou um ingresso com a data de sua escolha.

Foi também nesse Rock in Rio II que ocorreu algo raro na história do festival: registro de mortes. Nos nove dias do evento, três pessoas foram a óbito – uma devido a um acidente (um dos portões do Maracanã caiu em cima da vítima); outra de overdose e mais uma baleada. Roberto Medina perdia a paciência quando alguém da imprensa lhe perguntava sobre essas tragédias.

Para quem foi espectador do Rock in Rio II, o festival foi um prato cheio. Mas para quem acompanhou a primeira edição (na plateia ou pela TV) reprovou o evento, pelo fato de ter sido realizado no Maracanã. Aliás, essa foi, por muito tempo, a única vez em que a catedral do futebol brasileiro recebeu um festival de música. O Maracanã só voltou a receber uma atração musical em 1993, quando a rainha do pop, Madonna, se apresentou. Por essas e outras, Roberto Medina demorou dez anos para tirar do papel o Rock in Rio 3.

Rock in Rio Café

Acompanhando na época o período de habitação no bairro da Barra, zona oeste do Rio, Roberto Medina decidiu criar a boate Rock in Rio Café. O empreendimento foi inspirado no já existente Hard Rock Café. A boate foi inaugurada em março de 1997 e teve como convidados não só amigos e sócios do Medina, mas também artistas participantes do Rock in Rio. O show de inauguração da boate coube à banda Os Paralamas do Sucesso, que tocaram como um trio, sem a presença dos músicos de aluguel.

Outro show histórico no Rock in Rio Café foi o do trio americano Hanson, em 29 de abril de 2000. O grupo era conhecido pelo mega sucesso MMMBop. Nessa apresentação, a plateia era formada por sorteados da Rádio Cidade do Rio. O Hanson estava lançando o quarto disco, This Time Around, que teve como destaques as faixas If Only e Save Me. Ainda em 2000, a boate recebeu a segunda edição do Escalada do Rock, cujo vencedor foi o Diesel (hoje Udora), que tocou no Palco Mundo do Rock in Rio 3.

No dia 25 de março de 2002, o Rock in Rio Café recebeu a festa de lançamento do DVD e disco ao vivo Rock in Rio, do grupo de heavy metal inglês Iron Maiden. Assim como o show do Hanson em 2000, só quem compareceu foram pessoas sorteadas pela Rádio Cidade. A boate fechou as portas em 2003. Ela também teve filiais em outros estados brasileiros que deixaram de existir, bem como sua matriz.

Windson Alves

Uma consideração sobre “Rock in Rio II – 31 anos”

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