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O Som do Silêncio

Da rotina barulhenta dos palcos para um cotidiano de brutal silêncio. Ruben (Riz Ahmed) é baterista em um duo de heavy metal com a namorada, Lou (Olivia Cooke). Ambos moram juntos em um trailer, que é o veículo que os conduz a diferentes cidades dos Estados Unidos, a fim de cumprirem a agenda de shows de sua turnê. A banda não é famosa, portanto, seu público ainda é bastante restrito e alternativo. Em uma dessas ironias cruéis do destino, Ruben perde a audição abruptamente. É óbvio que isso produz um impacto negativo certeiro em sua carreira.  Mas também impacta em outros aspectos de sua vida. É quando o músico parece, enfim, se dar conta da importância dos pequenos sons, ruídos e vibrações do cotidiano, do quão dolorosa é a ausência deles e, mais ainda, se ver repentinamente forçado a conviver com o peso esmagador do silêncio total.  Continuar lendo O Som do Silêncio

Nomadland

“O que é lembrado, vive”.

É de conhecimento comum que há um mito em torno da saudade, isto é, da palavra saudade que apregoa que esta só existe no idioma português, muito embora se trate de um sentimento universal. Fato é que a palavra “saudade” existe sim em algumas outras línguas românicas, porém, o seu sentido está mais próximo da “nostalgia de casa” do que do nosso significado em português, que é muito mais abrangente. Existem vocábulos equivalentes em outros idiomas, mas que não exatamente correspondem ao sentimento luso-brasileiro, por se tratar, sobretudo, de uma característica cultural, que conferiu a devida amplidão e magnitude à palavra saudade.

Algumas expressões estrangeiras funcionam de maneira análoga, porém, se tratam de traduções inexatas, termos que até se aproximam da nossa saudade, mas que não expressam tão bem o nosso conceito… É uma pena, pois saudade é uma palavra forte, intensa e delicada, que alcança o perfeito equilíbrio entre o doce e o amargo, entre a dor e o prazer, entre a tristeza e a alegria. Nostalgia é de uma melancolia brutal e dolorosa. A saudade até dói, mas é aquela dor bem vinda, que a gente recebe de braços abertos, com um sorriso no rosto e um suspiro entrecortado que tanto fere quanto alivia o peito. Pode até não existir equivalente à palavra em outro idioma (ou, pelo menos, um equivalente que lhe faça justiça), mas Nomadland da diretora sino-americana já altamente nesta award season, Chloé Zhao, traduz perfeitamente o seu significado.  Continuar lendo Nomadland

Meu Pai

Nos planos iniciais de Meu Pai, acompanhamos Anne (Olivia Colman) caminhando apressada pelas ruas, adentrando um edifício e subindo as escadas correndo, embalada por uma música catártica. Ao entrar no apartamento do pai (Anthony Hopkins) e chamar diversas vezes por ele, enfim o encontra, sentado em uma poltrona. A música passa de som não diegético para diegético, escapando pelos fones de ouvido de Anthony (sim, personagem e ator partilham do mesmo nome). E esse é só um dos exemplos de brilhantes transições com os quais nos deparamos ao longo do filme. O recurso é simbólico, pois ilustra perfeitamente a proposta do longa assinado por Florian Zeller – que chega hoje, 8 de abril, às plataformas digitais  – uma vez que nós, espectadores, nos vemos por diversas vezes tão confusos quanto Anthony ao tentar compreender o que faz parte ou não de sua realidade.

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Festa de Formatura

Musical não é um gênero que me agrada muito. Sim, há exceções pontuais, como é o caso do francês Canções de Amor, de 2007, (no qual a música surgia de maneira natural e espontânea) e Hairspray, do mesmo ano. Aliás, é com este último que Festa de Formatura guarda paralelos. Assim como o musical de Adam Shankman de 2007, o longa de Ryan Murphy também já ganhou os palcos em um espetáculo da Broadway e é engajado, versando sobre tópicos fundamentais (o primeiro sobre o racismo, o segundo trata da homofobia), mas com leveza no texto e no ritmo da trama, equilibrando bom humor e sensibilidade, sem nunca se levar a sério demais, mas não banalizando as questões que aborda. E o resultado de Festa de Formatura é uma trama divertida, simpática e agradável. Continuar lendo Festa de Formatura

Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa

Meu maior receio com relação à Aves de Rapina era que o longa privilegiasse o conceito em detrimento da narrativa. Que estivesse alinhado às pautas feministas, introduzisse um punhado de personagens femininas idealistas e empoderadas, com frases de efeito lacradoras egressas de redes sociais, mas que em termos de enredo, apresentasse muito pouco. Outro problema vinha do fato de o longa ser um spin-off do inócuo Esquadrão Suicida. Mais um porém – embora se trate de uma opinião pessoal: a caracterização de Margot Robbie como Arlequina jamais me agradou. Nenhum problema com a atriz que é bastante competente (vide Eu, Tonya, filme que lhe garantiu uma indicação ao Oscar em 2018 e não foi à toa).

Mesmo com tantos poréns, e talvez devido às minhas parcas expectativas, Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa, dirigido pela realizadora sino-americana Cathy Yan, se mostrou não apenas uma grata surpresa, mas um dos melhores entretenimentos de 2020. Está certo que, como eu disse no post sobre os favoritos do ano passado, não houve muitas estreias e as poucas que vi, não me cativaram tanto quanto eu gostaria. De qualquer modo, dentre os lançamentos que pude conferir no ano que passou, esse é um dos mais divertidos, dinâmicos e, quem diria, despretensiosos. Continuar lendo Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa

Indicados ao Oscar 2021

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood finalmente anunciou os indicados ao Oscar 2021, em uma temporada de prêmios atípica, em que todo o calendário de premiações sofreu alterações e adiamentos em virtude da pandemia. O casal Priyanka Chopra e Nick Jonas foram os encarregados da divulgação dos nomeados às 23 categorias, na manhã desta segunda-feira, dia 15.

Confira:

Uma das consequências da pandemia, foi o fechamento por tempo indeterminado de cinemas. Muitos dos grandes títulos que poderiam ter chances nessa temporada de prêmios tiveram seus lançamentos postergados. Até mesmo a cerimônia de entrega dos Oscars foi adiada de modo a alongar o prazo de elegibilidade dos longas, visando a nomeação dos tão aguardados lançamentos hollywoodianos, que acabaram não entrando em cartaz. Resultado: assim, meio sem querer, o cinema indie tomou de assalto as listas de indicados de importantes premiações. E, diferentemente de anos anteriores, há mais diversidades nas categorias, especialmente as de atuação.

Dentre as nomeações, a surpresa ficou por conta do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, indicado em Melhor Direção por Another Round, que também concorre na categoria de Melhor Filme Internacional, sendo um dos favoritos ao prêmio. Deste modo, Aaron Sorkin de Os 7 de Chicago e Regina King de Uma Noite em Miami ficaram de fora da disputa. Bom no caso de Sorkin, pois como diretor, ele é um excelente argumentista. Triste no caso de King, pois perdemos a chance de ter três mulheres indicadas em Direção. Falando em Uma Noite…, o longa ainda foi solenemente esnobado na categoria Melhor Filme. Outro ignorado foi o reverente Relatos do Mundo, que disputa apenas em Trilha Sonora e em categorias técnicas – fotografia e mixagem de som. Judas e O Messias Negro, além de conquistar uma vaga entre os melhores filmes, ainda teve dois de seus atores indicados à categoria de Melhor Ator Coadjuvante e disputa outros três prêmios: Roteiro Original, Canção e Fotografia.

Mas é Mank que lidera as indicações, concorrendo em dez categorias, incluindo a principal de Melhor Filme. Na sequência, está o belo Nomadland, com sete indicações, e Minari (maravilhoso!), Meu Pai, Os 7 de Chicago, O Som do Silêncio e Judas e o Messias Negro disputando 6 prêmios.

Sobre as minhas apostas: meu resultado foi mediano desta vez. Na categoria de Melhor Filme, acertei todos os oito indicados, mas a validade do meu palpite é contestada devido ao fato de eu ter apostado em dez filmes e a categoria contar apenas com oito títulos desta vez. Fui precisa nas categorias de Melhor Atriz, Ator, Atriz Coadjuvante e, pasmem, Animação – aquela que eu nunca faço questão, por não gostar muito e nem ter paciência para animações (salvo raras exceções). Podem me chamar de chata, eu deixo.

Em Melhor Ator Coadjuvante, acertei 4 dos 5 nomes que disputam o prêmio e em Direção, Roteiro Adaptado, Roteiro Original, Filme Internacional e Documentário, fui parcialmente feliz, tendo um total de apenas três acertos em cada uma delas. Em Direção, acertei na possibilidade, já que Emerald Fennell foi indicada por Bela Vingança (aliás, assisti ontem. Ótimo filme, vejam!). Mesmo caso de Roteiro Original, com Judas e O Messias Negro. Já Roteiro Adaptado, foram duas possibilidades certeiras.

A 93ª edição do mais tradicional prêmio da indústria cinematográfica está marcada para 25 de abril (originalmente, seria 28 de fevereiro) e contará com transmissão simultânea para inúmeros países, incluindo o Brasil, que exibe a premiação com exclusividade pelo canal a cabo TNT. De acordo com a organização do evento, a cerimônia de entrega das estatuetas será presencial, mas realizada e transmitida de diversos lugares, com apresentadores em pontos distintos para evitar aglomerações.

Abaixo, você confere a relação de indicados ao Oscar 2021.

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