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[Cinema] Benedetta

Paul Verhoeven é sempre impactante (para o bem ou, raras vezes, para o mal). Vendido equivocadamente como um filme sobre freiras lésbicas – e reduzi-lo a isso, sim, é uma blasfêmia – sua mais recente produção explora a polêmica figura da irmã Benedetta e a natureza tortuosa de seus desejos e sua fé. Continuar lendo [Cinema] Benedetta

Homem-Aranha: Sem Volta para Casa

“Three is the magic number”

O terceiro longa da trilogia do aracnídeo, estrelada por Tom Holland, se encaixa naquela categoria de filme-evento, em que o lançamento em si é considerado um evento cultural tão importante quanto a própria produção e os fãs aguardam ansiosos a estreia que vem cercada de inúmeras expectativas. Comparável ao alarde em torno de Vingadores: Ultimato, Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa também foi aquele filme em que o público digladiou por um ingresso para a pré-estreia, temendo o risco de spoilers que poderiam prejudicar a experiência dentro da sala de cinema – em que o fator surpresa é fundamental e desperta as reações mais interessantes dos espectadores presentes.

A Sony Pictures, responsável pela distribuição do filme, em uma estratégia para evitar o vazamento dos tão desagradáveis spoilers, barrou cabines de imprensa para outras praças fora de São Paulo, um verdadeiro desrespeito com jornalistas culturais… Mas não vou me delongar neste tópico. Vamos falar do terceiro filme do teioso que, sim, é um grandioso entretenimento e digno de se presenciar no grande ecrã. Continuar lendo Homem-Aranha: Sem Volta para Casa

Eternos

Há anos eu venho batendo na mesma tecla: de que os filmes da Marvel precisam fugir da zona de conforto. Por mais bem-sucedida que seja a fórmula adotada pelo MCU – filmes divertidos, coloridos e dinâmicos para toda a família e adotando, como em sua mídia de origem, o conceito de tie-in (histórias avulsas que se conectam à grande trama principal por meio de algum elemento da narrativa) – ela corria o risco do desgaste devido à intensa e frequente repetição. Por mais que me venha à cabeça o chavão “em time que está ganhando, não se mexe”, ele funciona enquanto dura a partida e, talvez, até mesmo o campeonato. Mas, recorrendo sempre aos mesmos passes, truques e táticas, o rival fica mais atento à forma como o outro time trabalha e, porquanto, o estilo de jogo se torna bastante previsível, fica fácil buscar meios de contornar, ludibriar e, por fim, vencer o tal time que está ganhando. O chavão é seguro, mas como tudo nessa vida, não pode ser utilizado em excesso.

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Duna

“Não terei medo. O medo mata a mente. O medo é a pequena morte que leva à aniquilação total. Enfrentarei meu medo.”

Obra seminal e clássico incontestável da literatura fantástica e de ficção científica, Duna foi considerado, por muito tempo, inadaptável. E esse mito em torno da obra de Frank Herbert perdurou e se fortaleceu diante das tentativas fracassadas de levá-lo ao cinema. Primeiro com o chileno Alejandro Jodorowsky, em 1975, cuja adaptação jamais chegou a sair efetivamente do papel, e permanece sendo o longa dos sonhos de muitos geeks e o melhor filme jamais realizado (se você, fã de Duna, não viu o documentário Duna de Jodorowsky, lançado em 2013, e que discute a pré-produção do audacioso projeto, não perca tempo e assista! É fantástico). Posteriormente, em 1984, o cultuado David Lynch o levou às telas, em um filme renegado pelo próprio diretor americano, mas que ganhou ares de trash cult. Compreendo que a experiência de filmar Duna não foi das melhores para Lynch devido às interferências do estúdio, mas considero sua posição bastante radical. Ele fez o que podia com recursos limitados e mesmo diante da falta de autonomia durante a execução do longa, o resultado não é tão ruim quanto clamam por aí.

Por fim, quase quarenta anos depois da adaptação de Lynch, chega aos cinemas (após diversos adiamentos por conta da pandemia), a nova versão de Duna. E coube ao cineasta Denis Villeneuve a tarefa de traduzir para o grande ecrã a obra de Herbert que inspirou, dentre outras obras, nada menos do que Star Wars Continuar lendo Duna

Everybody Hurts – R.E.M.

“Se você tiver vontade de desistir (aguente firme)
Se você achar que já suportou demais desta vida
Para prosseguir…
(…)
Bem, todo mundo se machuca
Às vezes, todo mundo chora
E todo mundo se machuca, às vezes
Mas todo mundo se machuca, às vezes
Aguente firme”

Everybody Hurts é uma das canções que melhor conseguiu traduzir o sentimento de melancolia inerente a todos nós em algum momento da vida. E Jake Scott é o diretor que conseguiu traduzir em imagens, de maneira inventiva e tocante, a mensagem transmitida por um dos melhores hits do R.E.M.

O clipe se passa em um cruzamento e mostra várias pessoas presas no trânsito. Engarrafamentos são estressantes, tanto para condutores de veículos quanto para passageiros. No início do dia, resulta em atrasos. No final do dia, pode levar a crises de ansiedade e agravar quadros de tensão provenientes de longos e árduos expedientes de trabalho. Te faz perder um precioso e irrecuperável tempo parado na estrada. Como o fluxo é lento e as paradas são constantes por quilômetros a fio, também é um momento em que, pode acontecer, de pensamentos indesejáveis inundarem nossas mentes.  Continuar lendo Everybody Hurts – R.E.M.

A Menina Que Matou Os Pais / O Menino Que Matou Meus Pais

Lembro-me da notícia como se fosse hoje. E nem falo por conta do tempo que passou voando, mas pelo fato de que a mídia cobriu o caso à exaustão. Em uma época em que grande parte da população brasileira (inclusive eu) não tinha acesso à internet, e se informava exclusivamente pelos meios tradicionais como televisão, jornais e revistas, era muito comum ligar a televisão em qualquer emissora e o crime ser a pauta, mesmo semanas e meses após o ocorrido. Igualmente comum era passar por uma banca de jornais e ver o caso estampando a capa e primeira página de todos os periódicos.

Com a quantidade de informação que consumi e absorvi até meio sem querer naquela época a respeito do crime, confesso que nem me espantei que, ao ver os filmes A Menina Que Matou os Pais e O Menino Que Matou Meus Pais, dirigidos por Maurício Eça e disponíveis no catálogo da Amazon Prime Video desde o dia 24 de setembro deste ano, os detalhes ainda estivessem tão vivos e parecessem até mesmo frescos em minha memória.

Para recriar e dramatizar os eventos na tela, foram utilizados como base os depoimentos reais de Suzane Von Richthofen e Daniel Cravinhos, a mandante e um dos executores do crime. O roteiro do longa, escrito a quatro mãos, é assinado pela criminóloga Ilana Casoy, autora de livros sobre crimes que ficaram famosos no Brasil, dentre eles Quinto Mandamento – Caso de Polícia, que aborda justamente o assassinato do casal Richthofen; e pelo escritor de literatura policial Raphael Montes, que também já colaborou com roteiros de produções televisivas, como séries e novelas. 

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