Arquivo da categoria: Resenhas

Uma Noite em Miami

“This is one strange fucking night!”

Baseado na peça homônima de Kemp Powers, o longa de Regina King é um relato fictício de uma noite transformadora na vida de quatro personalidades lendárias. O que realmente se desenrolou naquele quarto de hotel, em 25 de fevereiro de 1964, apenas os protagonistas desse encontro – Sam Cooke (Leslie Odom Jr), Jim Brown (Aldis Hodge), Malcolm X (Kingsley Ben-Adir) e Cassius Clay (Eli Goree) – saberiam relatar com exatidão, visto que não existem registros da reunião. Mas, partindo do contexto histórico, sócio-político, econômico e cultural da época, bem como das particularidades e características que definem os quatro protagonistas e seus respectivos papéis na sociedade, Uma Noite em Miami imagina quais foram as pautas discutidas naquela informal conversa entre amigos, sem soar forçado, didático ou superficial. Ainda que os eventos tenham sido ficcionalizados, o modo como a trama é conduzida torna a atmosfera crível e natural, fugindo do caráter enfadonho que assombra outros longas adaptados de peças teatrais. Continuar lendo Uma Noite em Miami

Mank

“Não se pode capturar a vida de um homem em duas horas”.

A ideia parecia infalível. Uma revisita aos bastidores da criação do roteiro de um dos filmes mais prestigiados da história, constantemente no topo das listas de melhores longas de todos os tempos: o revolucionário Cidadão Kane, dirigido por Orson Welles. Sabemos que Hollywood adora se ver nas telas e isso é atraente e chamativo para a Academia. Quando se adota um verdadeiro clássico como ponto de partida, reproduzindo na tela todas as intrigas e polêmicas que envolveram sua produção, é inegável que irá despertar o interesse e a curiosidade.

Conduzindo essa história, simplesmente um dos mais talentosos cineastas em atividade: o meticuloso e audaz David Fincher. Para completar, o excelente e premiado Gary Oldman foi o ator escalado para protagonizá-la. Assim, temos a Era de Ouro de Hollywood retratada com todo o deslumbre e as polêmicas que caracterizam essa indústria, com direito a grandes intérpretes dando vida à figuras marcantes da época. Apesar de ambientada no final da década de 1930 e início dos anos 1940, o roteiro enfatiza a influência da mídia nos rumos políticos de um país como os Estados Unidos e o poder avassalador das fake news – tópicos, infelizmente, em constante evidência e discussão ainda na atualidade.

Soma-se a isso o fato de se tratar de uma história que, há muito, o pai do cineasta, Jack Fincher (falecido em 2003) desejava contar, tendo escrito o roteiro ainda na década de 1990 e nunca conseguido a oportunidade de filmá-lo. Portanto, era um projeto bastante pessoal e íntimo, no qual Fincher filho vinha trabalhando cuidadosamente ao longo dos anos. Realizado com um orçamento modesto, de cerca de trinta milhões de dólares, todo em preto e branco e com som mono, Mank finalmente garantiu seu espaço, sendo distribuído pela gigante do streaming, Netflix.

Com todos esses atributos, não havia como a produção falhar, certo? Bem…

Continuar lendo Mank

Judas e o Messias Negro

Logo no início, uma informação surge na tela: “baseado em eventos reais”. Então, o filme de Shaka King utiliza como ponto de partida um registro real – uma entrevista concedida por William O’Neal, em 1989, como parte da série documental Eyes on the Prize II: America at the Racial Crossroads 1965–1985, sobre o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, veiculada originalmente na emissora de televisão americana PBS. A forma como Shaka King opta por abrir seu filme evidencia,  desde esses primeiros momentos, o caminho convencional que a cinebiografia pretende seguir; sem grandes surpresas ou inovações no que tange à estrutura dramática, sendo um tradicional filme baseado em fatos, inclusive respeitando a cronologia dos acontecimentos e assumindo um caráter linear. Continuar lendo Judas e o Messias Negro

Bela Vingança

Eu tentei me limitar a escrever apenas a review do filme em si. Mas não consegui evitar tocar nos assuntos espinhosos que a produção traz à tona. Se você não tiver interesse em ler toda essa longa introdução, eu vou entender. Pula direto para o subtítulo Thriller catártico e comédia de humor ácido que é quando começa efetivamente a review do filme.

Ah, contém spoilers 😉 Continuar lendo Bela Vingança

Minari

Minari é uma planta originária do leste do continente asiático, com um forte sabor de ervas, utilizada para temperos na Coréia do Sul e que possui fins medicinais. Por aqui, no Brasil, alguns costumam se referir a ela como agrião coreano. O cultivo da planta na nova terra em que seus descendentes têm grande probabilidade de crescer e iniciar o seu legado, é o principal elo que se forma entre uma excêntrica avó e seu aparentemente frágil e esperto neto. Assim, Lee Isaac Chung – que acumula as funções de diretor e roteirista – compõe um delicado drama familiar, repleto de camadas e com um toque autobiográfico. Continuar lendo Minari

Os 7 de Chicago

O ano passado foi atípico por razões amplamente conhecidas. A pandemia do novo coronavírus resultou, dentre outras coisas, na interrupção de gravações de filmes, séries, telenovelas e outros produtos audiovisuais, em respeito à medida de distanciamento social estabelecida pela OMS (Organização Mundial de Saúde), para evitar que o vírus se difundisse ainda mais e para garantir a preservação da saúde e bem-estar de profissionais atuantes nessa indústria.  Outra recomendação de combate ao contágio e visando a contenção de uma pandemia de escala global, foi evitar aglomerações, tanto em espaços fechados quanto abertos, proibindo a realização de grandes eventos, como shows e convenções, incluindo, também, fechar temporária e indefinidamente as portas dos cinemas.

Isso explica a quantidade de filmes independentes selecionados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para concorrer ao Oscar (como eu citei no post sobre os indicados) e a visibilidade concedida a um filme como Os 7 de Chicago que, em um ano normal, possivelmente seria vítima das esnobadas da Academia. Não se trata de uma obra mediana, mas também é pouco memorável e dificilmente irá figurar como o filme favorito de alguém. É um drama histórico correto, mas estruturalmente problemático.

Continuar lendo Os 7 de Chicago