Arquivo da categoria: Resenhas

A Barata – Ian McEwan

A Barata

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.” Qualquer um reconhece o genial início de A Metamorfose de Franz Kafka, seja o verdadeiro bookworm ou mesmo o leitor casual. Ainda que não tenha lido a obra, já ouviu falar desta que é uma das mais célebres aberturas de livro da literatura e conhece de imediato sua procedência. E ainda que você não se encaixe em nenhum dos dois grupos citados, não curta e nem consuma livros, e ainda assim teve um clique ao ler o começo da desafortunada aventura de Gregor Samsa neste texto, deve ser porque certamente se deparou com o trecho em uma prova do vestibular ou Enem. 

Ian McEwan, o badalado autor de Reparação, dá início à narrativa de A Barata prestando uma evidente homenagem ao clássico de Kafka. No entanto, a situação se inverte. Neste, é a barata que, certa manhã, acorda em uma cama transmutada em uma criatura monstruosa: um homem. Mas não se trata de um homem qualquer e, sim, do Primeiro Ministro do Reino Unido. Com a metamorfose, vem uma carga ininterrupta e inesgotável de responsabilidades e decisões a serem tomadas. Como a barata não tem nada a perder em um corpo que não lhe pertence, mas que será devolvido ao dono em breve, metamorfoseado em Jim Sams, a criatura dá início à execução de um tão engenhoso quanto absurdo plano, o Reversalismo. Isto é, além de inverter a lógica da clássica obra de Kafka, a ideia é inverter também o fluxo do dinheiro. Desse modo, as pessoas pagam para trabalhar e ganham dinheiro para consumir.  Continuar lendo A Barata – Ian McEwan

Perfect Blue

“Não há como ilusões se tornarem reais”.

No universo de Mima Kirigoe, realidade e delírio se confundem, se mesclam e exigem que o espectador mantenha-se atento, sem tirar os olhos da estrada durante a tão fascinante quanto aterradora jornada da pop idol

Em Perfect Blue, lançado em 1997, o diretor Satoshi Kon trabalha com um conceito que se tornaria sua marca registrada e seria retomado quase dez anos depois, em Paprika. Nos dois filmes, os personagens transitam entre eventos reais e ilusões, se veem perdidos em um labirinto de paranoias, perturbados por constantes alucinações. Contudo, isso não é sinalizado ao espectador. O diretor, falecido em 2010, aos 47 anos, não subestimava a inteligência do público; construindo narrativas bem articuladas, sabendo que o espectador atento seria capaz de identificar o que era real e o que não era em suas animações.

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Minha Sombria Vanessa – Kate Elizabeth Russell

Alerta de gatilho: Minha Sombria Vanessa é um livro que fala sobre abuso sexual na infância e adolescência. Se você se sente desconfortável com o tema, a leitura do livro, bem como da crítica a seguir, pode não ser recomendada.

Este texto contém alguns spoilers… Leia por sua conta e risco.

Primeiro romance de Kate Elizabeth Russell, elogiado por Gillian Flynn (autora de Garota Exemplar e Objetos Cortantes) e pelo mestre do terror moderno, Stephen King, a verdade é que Minha Sombria Vanessa sequer precisava da validação de especialistas ou de grandes nomes da literatura, pois, uma vez que você toma o livro em mãos, é impossível parar de ler. Desde as primeiras linhas, o leitor se vê fisgado, ainda que não seja um livro de fácil digestão. Um dos títulos mais alardeados e controversos do ano narra a história de uma jovem abusada por um professor durante toda a adolescência e início da fase adulta. Mas que não consegue enxergar a si mesma como vítima, mesmo tantos anos após o ocorrido. Continuar lendo Minha Sombria Vanessa – Kate Elizabeth Russell

[O que ver na quarentena] Fleabag

A protagonista de Fleabag não tem nome. 

Ela atende por essa alcunha de Fleabag que significa literalmente “saco de pulgas”, mas pode ainda ser adaptado para algo como “vira-lata”, como se ela estivesse sempre por aí, pelas ruas sujas da cidade, sendo jogada pra lá e pra cá, sem raízes, sem afeto. Por não ter um nome e carregar um apelido tão desagradável, a personagem defendida (brilhantemente, diga-se de passagem) por Phoebe Waller-Bridge (também criadora e roteirista da série), converte-se em um símbolo, bem como os outros personagens sem nomes, tais quais o pai interpretado por Bill Paterson e a madrasta, vivida pela genial Olivia Colman. E o fato de quebrar a quarta parede desde a primeira cena, olhando diretamente para a câmera e dialogando com o espectador, torna mais visível o propósito da personagem. Afinal, a medida que avançamos pelos episódios, percebemos que Fleabag não está necessariamente falando com quem a assiste do outro lado da tela, mas com ela mesma. 

O que quer dizer que a ideia de Fleabag é a de nos projetarmos na personagem e reconhecer nela nossos próprios fracassos, inseguranças e problemas. Mas não em busca de aprender a lidar com isso, se aceitar ou encontrar uma resolução. É humor britânico, não livro de autoajuda. Não à toa, a série acionou em mim gatilhos para os quais eu não estava preparada. A identificação ocorreu em diversas passagens, chegando a ser dolorosa e até perturbadora de se constatar. Mas produção boa é aquela que aponta para você, insere o dedo na ferida e sacode com vontade. E isso Fleabag faz com louvor. Continuar lendo [O que ver na quarentena] Fleabag

[O que ver na quarentena] Kuzu no Honkai (Scum’s Wish)

Mangá do gênero seinen de autoria de Mengo Yokoyari e publicado pela revista mensal Big Gangan – pertencente ao gigante grupo Square Enix – entre 2012 e 2017, totalizando oito volumes, foi adaptado para o formato anime pelo estúdio Lerche e exibido entre 12 de janeiro e 30 de março de 2017 pela Fuji TV, no bloco Noitamina – faixa destinada exclusivamente a animes. Kuzu no Honkai, que recebeu, em inglês, o título de Scum’s Wish (Desejo da Escória, em tradução livre para o português), é uma obra impregnada de melancolia. E não poderia ser diferente, uma vez que o elemento nuclear da narrativa é o amor não correspondido. Continuar lendo [O que ver na quarentena] Kuzu no Honkai (Scum’s Wish)

[O que ler na quarentena] Simulacron-3

Daniel F. Galouye não figura na lista de autores aclamados do gênero ficção científica como Arthur C. Clarke ou Isaac Asimov. Nem mesmo teve sua obra reconhecida postumamente como Philip K. Dick. E, infelizmente, nem parece correr o risco de vir a ser redescoberto por uma nova safra de leitores aficionados por sci-fi. Talvez seja pelo fato de não possuir a mesma energia narrativa transformadora, o texto denso e complexo dos demais citados. Mas, ainda assim, vale a pena dar uma oportunidade e descobrir sua obra. Continuar lendo [O que ler na quarentena] Simulacron-3