Arquivo da categoria: Resenhas

Ad Astra

É ao mesmo tempo curioso, interessante e sintomático como o cinema acostumou a transformar a exploração espacial em narrativas intimistas que se propõem a mergulhar no universo particular do indivíduo. Assim, a vastidão do espaço parece servir como metáfora ou alegoria, não apenas como plano de fundo, para um profundo estudo do íntimo do ser humano. O final do apoteótico 2001: Uma Odisséia no Espaço, seminal obra de Stanley Kubrick, atesta isso. O mesmo com o belo Gravidade de Alfonso Cuarón e o recente e experimental High Life de Claire Denis. O mote deste Ad Astra de James Gray é o relacionamento entre pai e filho. Desse modo, o cineasta traça um paralelo entre a jornada pelas profundezas do espaço com a jornada pessoal do protagonista em busca de autoconhecimento. Continuar lendo Ad Astra

Nós – David Nicholls

Acompanhar o crescimento da intimidade entre um casal é a melhor maneira de “desromantizar” um relacionamento. Nós é um livro sobre términos e descobertas. Sobre encerramentos e novos começos. O autor David Nicholls analisa o relacionamento a partir de uma perspectiva realista. Mostra como um casamento aparentemente feliz e bem-sucedido entre duas pessoas totalmente distintas, mas que parecem se completar em suas diferenças, pode vir a desmoronar. Continuar lendo Nós – David Nicholls

Coringa

Sou eu… Ou o mundo está ficando mais louco?

O barulho em torno de Coringa tem sido ensurdecedor desde muito antes de seu lançamento. De um lado, estava uma escolha curiosa para assumir a direção – Todd Phillips, acusado de piadas sexistas, racistas e outros istas em exemplares pregressos de sua filmografia, como os longas da série Se Beber, Não Case, e cujas declarações recentes sobre como o humor politicamente correto acabou com a comédia não o tem ajudado – de outro, estava a preocupação diante do fato de o filme enaltecer o nêmesis de Batman como um herói, de celebrar a cultura incel, de levantar bandeiras fascistas e promover o Joker como um símbolo equivocado e irresponsável de subversão. Isso gerou debates acalorados nas redes sociais, com gente que sequer havia assistido ao filme classificando-o precipitadamente como tóxico e perigoso.

Coringa, de fato, é sombrio, furioso, violento, anárquico, perturbador. Exatamente como se esperava que fosse um filme sobre o personagem. A produção retrata uma conduta, mas não a defende ou valida, não legitima a violência. Em nenhum momento assume um tom apologético. Importante ressaltar que o comportamento e atitudes do vilão não são justificados por conta do bullying, agressões e traumas que o protagonista, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), sofre e com os quais convive desde a infância. Ele é um sociopata, afinal. Não precisa de grandes motivações para agir da maneira como age. A empatia por Fleck, no entanto, acaba quando ele se converte definitivamente em Coringa e começa a matar. E ele mata sem hesitações ou arrependimentos posteriores; sem ver nada de errado nisso. Jamais pondera sobre seus gestos. Fala com absurda normalidade sobre as atrocidades que comete. Não está atrás de justiça, mas de vingança. Continuar lendo Coringa

Era Uma Vez em… Hollywood

Tarantino subverte novamente a história e compõe ode à velha Hollywood, especialmente aos westerns – o tributo ao gênero está presente desde o título que faz alusão ao clássico de 1968, dirigido por Sergio Leone, Era Uma Vez no Oeste.

A notícia de que o diretor responsável por clássicos cultuados como Pulp Fiction e Kill Bill abordaria em seu nono filme a noite perturbadora em que Sharon Tate, então grávida de oito meses de Roman Polanski, foi assassinada por um grupo de discípulos de Charles Manson soou, no mínimo, inusitada na época de sua divulgação. Quentin Tarantino dirigindo um filme baseado em fatos? Aquela noite se tratou, sem dúvida, de um filme de terror para os envolvidos, mas infelizmente muito real. E o cineasta, acostumado à violência gráfica em profusão em seus longas, teria um prato cheio para explorar esse cruel e terrível episódio na tela. No entanto, o que vemos em Era Uma Vez… em Hollywood é algo que passa bem longe de fidelidade aos eventos como estes se desenrolaram naquela noite fatídica. O longa se concentra nos antecedentes do crime, focando em histórias distintas que se entrelaçam, envolvendo um astro combalido, um dublê com má reputação, uma estrela em ascensão, um diretor prestigiado e uma comunidade hippie que, por acaso, é a família Manson.

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Chernobyl

Em 1986 ainda vivíamos em era de Guerra Fria. Já mais enfraquecida, é verdade. Porém, os dois grandes inimigos desse período ainda brigavam por protagonismo: Estados Unidos e União Soviética. O que me leva a pensar que vivemos mesmo em uma eterna dicotomia…

Uma das características do mundo, naquela época, e que causaria estranheza aos jovens de hoje, é o fato de que o que importava era manter a informação restrita. Quem mantivesse o segredo, portanto, era o vencedor. Talvez esse detalhe seja uma das justificativas para o encantamento que Chernobyl, minissérie da HBO, gerou. Continuar lendo Chernobyl

Homem-Aranha: Longe de Casa

Segunda aventura do Homem-Aranha produzida pela Marvel Studios traz frescor e uma leveza bem-vinda ao Universo Cinematográfico da Marvel, após os eventos trágicos do melancólico Vingadores: Ultimato, não economizando em cenas de comédia e sequências de ação hiperbólicas. Contudo, não escapa do padrão estabelecido pelo estúdio, de aventuras solo frívolas estreladas pelos heróis da casa. Continuar lendo Homem-Aranha: Longe de Casa