Arquivo da categoria: Resenhas

The Outsiders – Vidas Sem Rumo

“Permaneça dourado, Ponyboy”

A escritora S.E. Hinton ainda era, ela mesma, uma adolescente quando traduziu para o papel as angústias, os desafios e os prazeres dessa fase tão atribulada da vida. Partindo da realidade que ela observava ao seu redor, a estudante de ensino médio sequer poderia imaginar o quão transformadora seria a sua narrativa naquela e nas décadas seguintes. É atribuído a Hinton o papel de responsável pela invenção de um mercado literário adolescente, o que conhecemos hoje como YA Lit. The Outsiders – Vidas Sem Rumo foi publicado pela primeira vez em 1967 preenchendo uma lacuna que existia na literatura: a de livros dedicados ao público jovem. 

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Paranoia Agent

Desde a abertura perturbadora, em que os personagens são mostrados um a um, rindo compulsivamente em meio ao caos que se desenrola ao redor deles – tendo como planos de fundo diferentes e trágicos cenários – até o encerramento com a música que soa como uma canção de ninar macabra bem oportuna, uma vez que os personagens surgem aparentemente dormindo (será que estão apenas dormindo?), já temos destacada a mensagem que a série deseja transmitir: a fuga da realidade. Outra das criações do sensacional Satoshi Kon, Paranoia Agent é um anime composto de 13 episódios, produzida pela Madhouse e transmitida originalmente pela emissora japonesa WOWOW entre fevereiro e maio de 2004. Continuar lendo Paranoia Agent

A Barata – Ian McEwan

A Barata

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.” Qualquer um reconhece o genial início de A Metamorfose de Franz Kafka, seja o verdadeiro bookworm ou mesmo o leitor casual. Ainda que não tenha lido a obra, já ouviu falar desta que é uma das mais célebres aberturas de livro da literatura e conhece de imediato sua procedência. E ainda que você não se encaixe em nenhum dos dois grupos citados, não curta e nem consuma livros, e ainda assim teve um clique ao ler o começo da desafortunada aventura de Gregor Samsa neste texto, deve ser porque certamente se deparou com o trecho em uma prova do vestibular ou Enem. 

Ian McEwan, o badalado autor de Reparação, dá início à narrativa de A Barata prestando uma evidente homenagem ao clássico de Kafka. No entanto, a situação se inverte. Neste, é a barata que, certa manhã, acorda em uma cama transmutada em uma criatura monstruosa: um homem. Mas não se trata de um homem qualquer e, sim, do Primeiro Ministro do Reino Unido. Com a metamorfose, vem uma carga ininterrupta e inesgotável de responsabilidades e decisões a serem tomadas. Como a barata não tem nada a perder em um corpo que não lhe pertence, mas que será devolvido ao dono em breve, metamorfoseado em Jim Sams, a criatura dá início à execução de um tão engenhoso quanto absurdo plano, o Reversalismo. Isto é, além de inverter a lógica da clássica obra de Kafka, a ideia é inverter também o fluxo do dinheiro. Desse modo, as pessoas pagam para trabalhar e ganham dinheiro para consumir.  Continuar lendo A Barata – Ian McEwan

Perfect Blue

“Não há como ilusões se tornarem reais”.

No universo de Mima Kirigoe, realidade e delírio se confundem, se mesclam e exigem que o espectador mantenha-se atento, sem tirar os olhos da estrada durante a tão fascinante quanto aterradora jornada da pop idol

Em Perfect Blue, lançado em 1997, o diretor Satoshi Kon trabalha com um conceito que se tornaria sua marca registrada e seria retomado quase dez anos depois, em Paprika. Nos dois filmes, os personagens transitam entre eventos reais e ilusões, se veem perdidos em um labirinto de paranoias, perturbados por constantes alucinações. Contudo, isso não é sinalizado ao espectador. O diretor, falecido em 2010, aos 47 anos, não subestimava a inteligência do público; construindo narrativas bem articuladas, sabendo que o espectador atento seria capaz de identificar o que era real e o que não era em suas animações.

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Minha Sombria Vanessa – Kate Elizabeth Russell

Alerta de gatilho: Minha Sombria Vanessa é um livro que fala sobre abuso sexual na infância e adolescência. Se você se sente desconfortável com o tema, a leitura do livro, bem como da crítica a seguir, pode não ser recomendada.

Este texto contém alguns spoilers… Leia por sua conta e risco.

Primeiro romance de Kate Elizabeth Russell, elogiado por Gillian Flynn (autora de Garota Exemplar e Objetos Cortantes) e pelo mestre do terror moderno, Stephen King, a verdade é que Minha Sombria Vanessa sequer precisava da validação de especialistas ou de grandes nomes da literatura, pois, uma vez que você toma o livro em mãos, é impossível parar de ler. Desde as primeiras linhas, o leitor se vê fisgado, ainda que não seja um livro de fácil digestão. Um dos títulos mais alardeados e controversos do ano narra a história de uma jovem abusada por um professor durante toda a adolescência e início da fase adulta. Mas que não consegue enxergar a si mesma como vítima, mesmo tantos anos após o ocorrido. Continuar lendo Minha Sombria Vanessa – Kate Elizabeth Russell

[O que ver na quarentena] Fleabag

A protagonista de Fleabag não tem nome. 

Ela atende por essa alcunha de Fleabag que significa literalmente “saco de pulgas”, mas pode ainda ser adaptado para algo como “vira-lata”, como se ela estivesse sempre por aí, pelas ruas sujas da cidade, sendo jogada pra lá e pra cá, sem raízes, sem afeto. Por não ter um nome e carregar um apelido tão desagradável, a personagem defendida (brilhantemente, diga-se de passagem) por Phoebe Waller-Bridge (também criadora e roteirista da série), converte-se em um símbolo, bem como os outros personagens sem nomes, tais quais o pai interpretado por Bill Paterson e a madrasta, vivida pela genial Olivia Colman. E o fato de quebrar a quarta parede desde a primeira cena, olhando diretamente para a câmera e dialogando com o espectador, torna mais visível o propósito da personagem. Afinal, a medida que avançamos pelos episódios, percebemos que Fleabag não está necessariamente falando com quem a assiste do outro lado da tela, mas com ela mesma. 

O que quer dizer que a ideia de Fleabag é a de nos projetarmos na personagem e reconhecer nela nossos próprios fracassos, inseguranças e problemas. Mas não em busca de aprender a lidar com isso, se aceitar ou encontrar uma resolução. É humor britânico, não livro de autoajuda. Não à toa, a série acionou em mim gatilhos para os quais eu não estava preparada. A identificação ocorreu em diversas passagens, chegando a ser dolorosa e até perturbadora de se constatar. Mas produção boa é aquela que aponta para você, insere o dedo na ferida e sacode com vontade. E isso Fleabag faz com louvor. Continuar lendo [O que ver na quarentena] Fleabag