Capitã Marvel

A cena pós-créditos de Vingadores: Guerra Infinita, em que Nick Fury (Samuel L. Jackson), no auge do desespero e vendo todos virarem cinzas à sua volta, saca do bolso um anacrônico pager para enviar um pedido de socorro à Capitã Marvel, suscitou um amplo debate e fez emergir inúmeras teorias pela internet afora. Uma das mais populares era a de que Fury estava contatando a Capitã no passado. Daí a necessidade de um artefato tão datado como um pager. A teoria ganhou ainda mais força quando o estúdio revelou que o filme da Capitã seria ambientado na década de 1990. Depois de uma longa espera e diversas expectativas que cercaram a produção, enfim, o filme centrado nas aventuras de Carol Danvers (Brie Larson) chegou às telas em uma data que não poderia ser mais propícia: o Dia Internacional da Mulher, 8 de março.

E derrubando todas as conjecturas dos fãs por terra.

Pois, assim como Homem-Formiga e a Vespa, o filme apenas se conecta com Guerra Infinita e Ultimato através de sua cena pós-créditos. E a mensagem enviada por Nick Fury, solicitando ajuda, não passou de um longshot.

O filme, dirigido pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck, se destaca como a primeira produção da Marvel Studios protagonizada por uma super-heroína e, nestes tempos sombrios, é de uma importância inquestionável por mostrar ao mundo, através das telonas, que a personagem mais forte do MCU trata-se de uma mulher. Para a cultura geek, é de relevância histórica, mas quando analisado pelo ponto de vista cinematográfico, é um filme que deixa bastante a desejar.

Em meio a uma guerra intergaláctica entre duas raças alienígenas, Carol Danvers chega à Terra e envolve-se em uma investigação acerca de sua própria origem e passado –  por muito tempo nebulosos e manifestando-se em rápidos flashes através de sonhos. Enquanto persegue pistas a fim de desvendar os meandros dos conflitos entre os Kree e os Skrull, seu caminho cruza com o de Nick Fury da S.H.I.E.L.D. e figuras fundamentais de seu passado, como a amiga Maria Rambeau (Lashana Lynch) e sua filha Monica (Akira Akbar), ambas imperativas para a recuperação de suas memórias.

Danvers foi exposta à energia liberada por um motor de tecnologia Kree durante uma explosão enquanto trabalhava como pilota da Força Aérea dos Estados Unidos ao lado da misteriosa Dra. Wendy Lawson ou Mar-Vell (Annette Bening). Ao mesmo tempo em que desenvolve, aprimora e aprende a controlar os seus poderes, levantando-se a cada nova queda e se recusando a obedecer às ordens dos homens que a cercam (o que compreende duas cenas significativas do longa), Danvers se descobre o ser mais forte do universo, originando a Capitã Marvel.

Este é mais um filme de origem que não foge ao padrão do estúdio e se recusa a sair da zona de conforto estabelecida pelo MCU, sendo apenas um pouco mais moderado nas tiradas cômicas. Retomando a teoria expressa no primeiro parágrafo deste texto, talvez o filme tivesse realmente um resultado mais interessante e satisfatório se sua conexão com o vindouro Vingadores: Ultimato fosse mais sólida; se a ajuda da Capitã solicitada por Nick Fury fosse realmente tratada no longa; se a heroína houvesse sido contatada do futuro de modo a interferir na linha do tempo e consertar alguns dos eventos no passado que levaram ao caos em Guerra Infinita. Mas nada disso é abordado na produção. Capitã Marvel preza o conceito em detrimento do estofo narrativo.

Nas HQs, a Capitã é uma heroína forte, dinâmica e extremamente carismática – por mais que alguns geeks digam o contrário. Seus títulos em quadrinhos são sempre divertidos. Especialmente este que foi lançado por aqui, pela Panini Comics, um dia antes da estreia do filme. Infelizmente, o roteiro não conseguiu traduzir toda essa energia nas telas e nem mesmo Brie Larson que possui um Oscar no currículo, pelo seu desempenho em O Quarto de Jack de 2015, foi capaz de transmitir a complexidade da personagem em sua adaptação para o cinema. A produção pouco assume riscos no tocante ao enredo, optando por soluções fáceis e saídas mais lógicas. Obviamente, narrando a história da personagem por meio dos exaustivos flashbacks. Por isso mesmo, as idas e vindas do roteiro resultam em uma montagem confusa que prejudica o ritmo do longa.

A ação só se torna empolgante mesmo da metade em diante da trama. Em termos de VFX, o filme é competente, embora não exatamente inovador. A Marvel dificilmente erra nesse quesito. As batalhas aéreas são bem executadas e as cenas que emulam splash pages dos quadrinhos – especialmente as concentradas nos poderes da personagem de absorção e manipulação de energia e a produção de explosões fotônicas – impressionam. O grande destaque, contudo, fica para a tecnologia utilizada para rejuvenescer Samuel L. Jackson e Clark Gregg.

As sequências de luta nem sempre são bem filmadas, devido aos movimentos de câmera pouco elaborados que acabam por não valorizar a coreografia e a dinâmica dos embates como estas mereciam. A maquiagem dos Kree e dos Skrull é um tanto quanto simplória, mas não compromete. O que prejudica mesmo o longa é a falta de profundidade do texto. A obra se empenha em expressar os conceitos de representatividade, liderança e força feminina, mas, na maior parte do tempo, é superficial.

Para uma trama situada nos anos 1990, mais propriamente em meados da década, como as Blockbusters com os pôsteres de longas como True Lies e Babe (e aí está um dos anacronismos), a capa de Mellon Collie and the Infinite Sadness dos Smashing Pumpkins e a tecnologia precária da época (com seus lentos computadores) fazem questão de salientar, faltou uma melhor ambientação da época, parecendo se satisfazer apenas com referências pontuais e a trilha sonora que inclui em sua maioria, bandas lideradas por mulheres, como Garbage, TLC, Elastica, Hole, além de Nirvana e R.E.M. Se há um ponto em que a trilha peca é na inserção de Just a Girl” do No Doubt em uma cena de luta. Um total desacerto.

Além de se amparar na fórmula certeira da Marvel, investe no carisma de seus personagens para conquistar o público, inclusive trazendo à trama alguns rostos de fácil reconhecimento, como Nick Fury, afinal, a protagonista trata-se de uma heroína praticamente desconhecida das massas. O querido Agente Coulson (Gregg) aparece aqui por puro fanservice, mas como a boa tiete de Agents of SHIELD que sou, não posso reclamar. Fury, por sua vez, restringe-se à mera condição de alívio cômico. A origem de seu tapa olho, por exemplo, funciona em um contexto bem-humorado, embora não deixe de soar forçada.

A tática da Marvel Studios é aquela mesma empregada nos quadrinhos da época em que as adquiríamos nas bancas por meio de formatinhos, com papel de qualidade ínfima, aqui no Brasil: produzir várias aventuras isoladas e triviais que soam como um fragmento de algo maior até culminar em um grande evento de proporções épicas e que realmente vale a pena enquanto obra cinematográfica. Assim, fatura várias cifras com entretenimentos menores. Em tese, o MCU emula o universo dos quadrinhos e soube construir nas telas uma grande estrutura na qual todos os filmes se interligam. Porém, na maior parte do tempo, as conexões tratam-se de meros detalhes e participações especiais de personagens secundários ou figuração de suas grandes estrelas. Vemos poucos reflexos dos eventos de Vingadores no restante da estrutura. Por isso, até então, o filme mais audacioso da Marvel é realmente o Guerra Infinita. No geral, a Marvel se arrisca muito pouco.

Capitã Marvel não é ruim. De jeito nenhum! Trata-se de uma aventura dinâmica, visualmente interessante e mais focada na humanidade e no desenvolvimento de sua protagonista, sem cometer o pecado de transformá-la em uma rasteira Mary Sue. E é neste ponto que a obra acerta em cheio. Mas eu esperava bem mais daquela que foi a grande inspiração de Fury na elaboração da Iniciativa Vingadores. Por fim, o que mais me impactou em Capitã Marvel foi mesmo a vinheta de abertura em tributo ao Stan Lee, o gênio da Casa das Ideias que faleceu há poucos meses. E quando não é uma cena do longa em si o item mais memorável de uma sessão cinematográfica, significa que o filme, infelizmente, vacilou em cativar esta espectadora que vos escreve.

Em tempo: Capitã conta com uma cena escondida no meio dos créditos – realmente importante – e uma pós-créditos menos necessária, mas engraçadinha, envolvendo Goose, o gato Flerken da Capitã, e o Tesseract, velho conhecido artefato dos fãs do MCU.

★★★

Ah, e vale a pena comprar o título mencionado neste post que saiu pela Panini: Capitã Marvel: Mais Alto, Mais Longe, Mais Rápido e Mais 😉

Mais uma coisa: Hoje saiu o novo trailer de Vingadores: Ultimato que estreia em 26 de abril nos cinemas e, justo a cena mais memorável e que encerra o trailer, conta com a participação da Capitã Marvel. Confira abaixo:

Ansiosos?

Andrizy Bento

4 comentários em “Capitã Marvel”

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