Começar de Novo (2006)
Direção: Joachim Trier
★★★★

Longa norueguês de 2006 e dirigido por Joachim Trier, como a primeira parte de sua “trilogia de Oslo”, Reprise (no original, em inglês) transpira saudosismo na forma e conteúdo. Dentre livros e discos de punk rock, dois jovens escritores, amigos desde a infância, aspiram construir uma carreira na indústria literária. Lançando mão de uma montagem acelerada, quase videocliptica, muita câmera de mão e passagens que aludem, por vezes, a um um registro documental de uma banda de rock undeground, o filme exala uma aura noventista, guarda ecos do cinema de Jean-Luc Godard e referencia Trainspotting. Apresentando uma ótima construção de personagens e uma trilha sonora que é puro deleite para fãs de punk e rock alternativo, Começar de Novo é honesto em suas intenções, despretensioso e um retrato sensível de um bromance marcado pelos desafios da transição da juventude inconsequente para a vida adulta repleta de responsabilidades; e do poder de uma amizade sincera, além de ser cuidadoso na abordagem de temas como saúde mental, melancolia, solidão, autossabotagem e relacionamentos tumultuosos.
Paranoid Park (2007)
Direção: Gus Van Sant
★★★

O maior problema de Paranoid Park, de 2007, é que as comparações com Elefante (vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 2003), título que antecede este na filmografia de Gus Van Sant, são inevitáveis, pois as semelhanças entre os dois longas saltam aos olhos de imediato. Principalmente devido às escolhas estéticas adotadas em Paranoid Park muito reminiscentes às de Elefante. A ambientação, os personagens, ângulos, montagem. Mais uma vez, o diretor lança um olhar angustiante às aflições e inquietações da adolescência. Além dos dramas típicos dessa fase da vida com as quais o protagonista tem de lidar, o garoto se vê envolvido na investigação de um homicídio. Alex (Gabe Nevins) é um estudante do ensino médio que gosta de andar de skate e aparenta indiferença diante do iminente divórcio dos pais e do gradativo fracasso no relacionamento com a namorada Jennifer (Taylor Momsen), embora esteja em uma batalha interna com esses conflitos. Ao lado do amigo, Jared (Jake Miller), frequenta uma pista de skate em Portland cuja reputação não é das melhores, atraindo tipos considerados párias sociais, como punks e delinquentes juvenis. Um acidente em uma determinada noite traz um novo problema para Alex: a consequente culpa que ameaça corroê-lo por dentro. Van Sant mergulha no íntimo do personagem, exercitando sua câmera de modo a causar estranheza e desconforto no espectador, apostando na inserção de cenas filmadas com câmera caseira para garantir certo realismo à trama e investe na quebra de expectativa ao utilizar a trilha sonora de maneira até mesmo invasiva, abafando diálogos. Paranoid Park é até interessante, mas não alcança nem a profundidade e nem o refinamento narrativo de Elefante (muito mais impactante e contundente), ainda que emule o longa em diversos aspectos. A trama é bastante simples, baseada no romance homônimo escrito pelo autor americano Blake Nelson, mas, ao final, parece não levar de fato a lugar algum.
Assisti a esses filmes antes de eles deixarem a plataforma MUBI. Infelizmente, ambos já não se encontram mais disponíveis no serviço de streaming.
Andrizy Bento