Rádio Pirata Ao Vivo (1986) – RPM

Data de lançamento: Julho de 1986
Duração: 37:49
Faixas: 9 faixas
Estilo: BRock
Produção: Marco Mazzola
Gravadora: Epic Records (selo subsidiário da CBS)

Lado A:
Revoluções Por Minuto
Alvorada Voraz
A Cruz e a Espada
Naja
Olhar 43

Lado B:
Estação no Inferno
London London
Flores Astrais
Rádio Pirata

O aclamado disco ao vivo do grupo paulista RPM celebra 35 anos. Com a venda de 3,7 milhões de cópias, Radio Pirata Ao Vivo se tornou o álbum mais comercializado da história do rock nacional e o disco ao vivo mais vendido da indústria fonográfica brasileira.

O RPM fez o BRock ter momentos de beatlemania. Uma legião de fãs histéricas no encalço da banda, do hotel até os locais dos shows, era algo comum. O grupo também virou álbum de figurinhas e seus pôsters ocupavam boa parte das paredes dos quartos de adolescentes brasileiros na época. O detalhe é que a banda só lançou um disco de estúdio, o Revoluções Por Minuto (1985), que vendeu cerca de 500 mil cópias.

O grupo paulista era formado por Paulo Ricardo (voz e baixo), Luiz Schiavon (teclados), Fernando Deluqui (guitarra) e Paulo Pagni (bateria). O último carregava o apelido de P.A. e entrou no lugar de Charles Gavin (Ira! e Titãs), que teve uma breve passagem pelo RPM. Sua sonoridade foi inspirada nas bandas de new romantic, Duran Duran e Depeche Mode, sem falar da terceira fase musical do Rush, isto é, bateria eletrônica e excesso de teclado.

Aí você pergunta o porquê do RPM resolver gravar um disco ao vivo, mesmo só tendo um álbum de estúdio. As apresentações da banda contavam com a direção do cantor Ney Matogrosso. O próprio pediu para o quarteto tocar uma canção com voz e piano nos shows, de modo a fazer um descanso das canções rápidas. Eis que a banda (no caso Paulo Ricardo e Luiz Schiavon) resolveu tocar London London, uma canção de Caetano Veloso, que a compôs e gravou durante o exílio decorrente do regime militar. O RPM não gravou esse cover, mas as estações de rádios fizeram gravações dessa performance e a reproduziram sem parar, alcançando um sucesso pirata. O compacto deixou de ser comercializado no Brasil na mesma época.

Então, o empresário da banda, Manuel Poladian, pediu para eles gravarem um disco ao vivo. Poladian também foi empresário dos Titãs e da cantora Daniela Mercury. Seu jeito polêmico de empresariar artistas fez com que ganhasse do cantor Lobão o apelido de Manual Poladian. O RPM gravou Rádio Pirata Ao Vivo nos dias 26 e 27 de maio de 1986, no Pavilhão de Convenções do Anhembi, em São Paulo. Os dois shows tiveram a direção de Ney Matogrosso e a produção de Marco Mazolla. Este foi um dos primeiros álbuns a ser lançado em formato CD, o que, na época, era uma novidade no mercado musical brasileiro.

Apesar da justificativa de London London, em minha opinião, foi um grande erro do quarteto ter gravado Radio Pirata Ao Vivo. O que eles poderiam ter feito? Um segundo disco de estúdio e incluir a versão ao vivo do cover de Caetano Veloso para ser a sua última faixa. Outro motivo de eu considerar o disco um equívoco é o fato de ele ter esgotado todas as energias do quarteto paulista.

O RPM podia ter seguido o exemplo de duas bandas conterrâneas. Em seu aclamado primeiro disco, Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985), o Ultraje a Rigor incluiu como última faixa Independente Futebol Clube, gravada durante uma apresentação ao vivo. O Ira! gravou versões ao vivo de Gritos da Multidão e Pobre Paulista, que fecharam o seu segundo disco Vivendo e Não Aprendendo (1986). Aliás, esses dois discos foram resenhados aqui por minha amiga, Adryz Herven.

No palco, o quarteto já mostrava ser mais moderno do que os outros grupos do BRock. Uma das inovações era o uso da pirotecnia. E o que dizer dos instrumentos? Paulo Ricardo tocava o minúsculo baixo da marca Steinberger, que foi popularizado por Geddy Lee (do Rush). Mas, no Brasil, ficou marcado por conta de Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii). Apesar de usar bateria comum, Paulo Pagni tinha peças de bateria eletrônica em seu kit. Além de estar cercado por teclados, Luiz Schiavon ainda utilizava um teclado portátil, também conhecido como keytar e que fez bastante sucesso nos anos 1980. Fernando Deluqui tocava guitarras da marca Jackson, popularizada por guitarristas de heavy metal. Antes dele, Carlinhos Bartolini (do Ultraje a Rigor) já havia sido visto tocando guitarras dessa marca.

Além de London London, outro cover gravado no disco ao vivo foi Flores Astrais do Secos & Molhados, antiga banda de Ney Matogrosso. Quanto às inéditas, foram gravadas Alvorada Voraz e a instrumental Naja. Dessas, apenas Alvorada Voraz alcançou sucesso nacional. O título é uma menção ao Palácio da Alvorada, sede do governo brasileiro. Sua letra falava das expectativas sombrias, de que o mundo iria acabar com a proximidade do fim do século 20. Ela também menciona crimes marcantes ocorridos no Brasil, como por exemplo, o “crime da mala” em 1928, que se refere ao imigrante italiano Giuseppe Pistone, que matou a esposa, Maria Féa, e ocultou seu cadáver em uma mala. Na canção Rádio Pirata, Paulo Ricardo adaptou o refrão de Light My Fire do The Doors.

Não posso esquecer que um dos shows da turnê foi lançado em VHS pela extinta Globo Vídeo, fazendo do RPM a banda pioneira em lançar um show em home video no Brasil. Esse VHS foi gravado no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Tamanho êxito fez também o RPM virar tema de uma edição do programa Globo Repórter da Rede Globo. O programa era apresentado por Sérgio Chapelin e a reportagem foi feita por Pedro Bial, que entrevistou a banda e as fãs.

Em 1987, o RPM lançou um disco mix em parceria com o cantor Milton Nascimento. O LP trazia uma faixa de cada lado, no caso, Feito Nós e Homo Sapiens. A banda chegou a criar um selo chamado RPM Discos, mas não obteve êxito. Fora que, na época, o quarteto já dava indícios de que ia se separar.

Em 1988, o grupo fez uma tentativa de retorno através do seu segundo disco autointitulado, chamado simbolicamente de Quatro Coiotes, que é uma de suas faixas. O álbum teve a participação do percussionista brasileiro Paulinho da Costa, que trabalhou com Michael Jackson no antológico disco Thriller (1982). Outra faixa de destaque é O Teu Futuro Espelha Essa Grandeza (extraído da letra do Hino Nacional Brasileiro), gravada em parceria com o sambista Bezerra da Silva. O segundo disco vendeu 250 mil cópias, abaixo dos padrões do RPM. Após mais atritos entre Paulo Ricardo e Luis Schiavon, o grupo anunciou a sua separação em 1989. O nome RPM estava registrado pelos quatro integrantes e somente eles poderiam usar a marca.

A banda paulista anunciou seu retorno em 2002, aproveitando a onda de revival da década de 1980 no inicio do século 21, no Brasil. O RPM gravou o MTV Ao Vivo no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo. O grupo ainda trouxe algumas faixas inéditas, como é o caso de Vida Real, versão de Leef, do holandês Han van Eijk, que ficou conhecida por ser a música-tema do famigerado reality show Big Brother Brasil, cujas duas primeiras temporadas foram exibidas no mencionado ano. O RPM ainda se apresentou na final da terceira temporada, em 2003, e em seguida voltaram a se separar.

Em 2008, a banda voltou com o intuito de lançar a versão em DVD do show que havia sido lançado em VHS. O DVD também possui a apresentação do RPM na Praia da Macumba, no Rio de Janeiro, para o programa Mixto Quente da Globo, além do famoso Globo Repórter, dedicado ao grupo, ambos de 1986. Em 2010, o RPM teve a sua história contada no programa Por Toda a Minha Vida, também da Globo. Nesse embalo, a banda lançou seu último disco de inéditas chamado Elektra (2011).

Com Paulo Ricardo sem interesse de prosseguir no RPM, Deluqui, P.A. e Schiavon conseguiram na Justiça o direito de usar a marca sem o seu vocalista original. Em 2018, o trio contratou como vocalista e baixista Dioy Pallone. Em 22 de junho de 2019, o baterista Paulo Pagni morreu aos 61 anos, vítima de broncopneumonia. Em seu lugar, entrou Kiko Zara. Em 2021, Deluqui e Schiavon conseguiram, por meios legais, proibir Paulo Ricardo de tocar as canções do RPM em suas apresentações solo.

Muitas revoluções por minuto e um FELIZ NATAL! 😉

Windson Alves

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