Vingadores: Guerra Infinita

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A estreia de Thanos no cinema ocorreu em 2012, no primeiro longa metragem dos Vingadores. Foram seis anos de espera, outras participações menores em filmes do MCU (como Guardiões da Galáxia e Vingadores: Era de Ultron), até que ele surgisse com seu poder devastador e seu ideal genocida de trazer equilíbrio ao universo, tomando a tela para si em Vingadores: Guerra Infinita. O maior fenômeno de bilheteria do universo cinematográfico da Marvel até o presente momento é, de fato, um filme sobre Thanos.

Embora seja a concretização do sonho dos marvetes – uma vez que todas as ramificações do MCU colidem neste filme – também é o longa que mais despedaçou o coração dos fãs mundo afora, ao tomar decisões corajosas, investindo no teor emocional e sublinhando os relacionamentos entre os personagens, de forma que a pirotecnia e as gloriosas cenas de luta ficassem em segundo plano. A história e como cada personagem toma parte nela é a espinha dorsal de Guerra Infinita. Não que as sequências de batalha não sejam épicas e memoráveis. Esses são os adjetivos que melhor se aplicam a elas, além do fato de serem necessárias e indispensáveis, levando-se em conta o escopo de um filme desse porte. Mas é a carga emocional que dá o tom à Guerra Infinita, da primeira à última sequência.

Para quem ainda tem os eventos de Capitão América: Guerra Civil frescos na memória, recorda-se que a super equipe denominada Vingadores sofreu uma cisão, dividindo-se entre aqueles que apoiavam Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e os que ficaram do lado de Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans). A princípio ideológico, logo o embate tomou proporções grandiloquentes, culminando em um confronto físico entre as duas frentes de Vingadores na antológica sequência do aeroporto. E é com a formação dividida que Guerra Infinita tem início. Porém, ao tomarem conhecimento da ameaça de Thanos (Josh Brolin), o grupo precisa esquecer suas diferenças, seguir em frente e se unir contra aquele que pode aniquilar metade da população universal com um estalar de dedos.

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Bem, essa união não acontece de fato, pois nem todos os heróis se encontram neste filme. Para quem esperava uma reunião entre Homem de Ferro e Capitão América, por exemplo, o longa passa bem longe de ofertá-la. Além dos heróis clássicos de Vingadores, finalmente os Guardiões da Galáxia ficam frente a frente com alguns deles.

O filme situa-se após os eventos de Thor: Ragnarok e tem início com uma Asgard destruída e alguns de seus sobreviventes – dentre eles, Thor (Chris Hemsworth), Hulk (Mark Ruffalo), Loki (Tom Hiddleston) e Heimdall (Idris Elba) – capturados por Thanos e seus filhos adotivos. De posse da Joia do Poder, adquirida no Planeta Xandar que já encontrou seu fatídico fim, o Titã está em busca das demais Joias para compor sua Manopla do Infinito e, assim, trazer o equilíbrio ao universo, destruindo metade de sua população e fazendo com que a balança pese igualmente para os dois lados.

Nestas primeiras cenas, já ocorrem algumas baixas na equipe e o universo, outrora colorido e bem-humorado da Marvel, cede espaço a tons opacos e melancólicos. Os minutos iniciais nos dão um aperitivo do que serão as próximas (quase) três horas de filme. Embora o tom divertido, de aventura extraída dos quadrinhos permaneça, Guerra Infinita não está para brincadeira. A batalha é real e temos de nos conformar com a perda de personagens queridos. As lágrimas são inevitáveis.

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Arremessado à Terra por Heimdall, por meio da ponte Bifröst, Hulk cai em Nova York, já de volta à sua forma original, como Bruce Banner, e alerta o Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) acerca da vinda de Thanos para a Terra. Tony Stark, em um momento descontraído e pacífico de sua vida, faz planos de ter herdeiros com Pepper Pots (Gwyneth Paltrow), quando é contatado por Strange. Stark se vê na obrigação de participar da batalha ao se deparar com dois dos filhos adotivos de Thanos que pretendem se apossar da Joia do Tempo do Doutor Estranho. O sentido aranha alerta  Peter Parker (Tom Holland) do perigo iminente e ele salta do ônibus a caminho de uma excursão escolar para auxiliar Stark, Strange, Banner e Wong (Benedict Wong) no confronto.

Paralelamente, Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany), que se encontram romanticamente envolvidos na Escócia, são atacados por outros dos filhos de Thanos. O objetivo é tirar a Joia da Mente que está na testa de Visão. Em meio a um embate violento, Rogers, Natasha Romanoff (Scarlett Johansson) e Falcão (Anthony Mackie) surgem para resgatá-los e os acolhem na sede dos Vingadores. Posteriormente, debatem com James Rhodes (Don Cheadle) um modo de remover a Joia sem sacrificar o androide. A melhor opção é rumar para Wakanda, onde Shuri (Letitia Wright), irmã de T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman) terá os recursos ideais para operar a remoção da Joia em Visão.

Thor é resgatado por Peter Quill (Chris Pratt), Drax (Dave Bautista), Gamora (Zoe Saldana), Mantis (Pom Klementieff), Rocket (Bradley Cooper) e Groot (Vin Diesel) e, assim que abre o olho, e passada sua desorientação diante dos desconhecidos Guardiões da Galáxia, o filho de Odin apresenta sua tese de que Thanos, também pai adotivo de Gamora (a quem ela se voltou contra), está em busca da Joia da Realidade que se encontra em Lugarnenhum, nas mãos do Colecionador (Benicio del Toro).

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O paradeiro da Joia da Alma por sua vez, é revelado por Gamora uma vez que Thanos a sequestra e dá a opção a ela de informar a localização da pedra ou presenciar sua irmã, Nebulosa (Karen Gillan), ser torturada até à morte.

Dessa forma, todas as frentes de heróis planejam uma forma de derrotar o poderoso Thanos, impedindo-o de tomar posse de todas as Joias do Infinito e aniquilar metade da vida no universo.

Os irmãos Joe e Anthony Russo – também responsáveis pela direção de Capitão América: O Soldado Invernal e sua sequência, Capitão América: Guerra Civil, – já mostraram em suas incursões anteriores no MCU que são especialistas em filmar ótimas cenas de ação e sequências bem coreografadas de luta, valorizando todos os ângulos dos acrobáticos embates corporais. Neste filme, não é diferente. Por mais que o foco seja na interação entre os personagens, e a ação propriamente dita funcione como plano de fundo, em nenhum momento, os cineastas perdem a mão. Com o terceiro longa dos Vingadores, Os Russo também provam definitivamente algo que já vinham atestando desde Guerra Civil: que são capazes de administrar bem um numeroso elenco, dando tempo de tela e espaço adequado para cada um dos personagens mostrar seu potencial e trabalhando muito bem a dinâmica e a química resultante entre eles.

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Seja nas cenas cômicas, ou nas mais emocionais, nos diálogos espertos recheados de referências pop ou nos confrontos físicos corroborados por computação gráfica, cada um dos protagonistas, antagonistas e coadjuvantes tem seu momento e seu brilho, e trabalham muito bem em equipe. Sua interação é fluida, natural, respaldada por todo o background apresentado nos 18 filmes que precedem Guerra Infinita na cronologia da Marvel Studios.

Nivelar por baixo adaptações cinematográficas de histórias em quadrinhos, classificando-os como bobos e nulos, é uma constante desde os primórdios do casamento entre ambas as mídias. De ditos especialistas ao público em geral, de cineastas que se recusam a se aventurar pelo gênero, a atores que ou não nutrem interesse (ou não foram convidados) em integrar o elenco de uma adaptação; as críticas partem de todos os lados. Mas, desde que a Marvel deu início ao seu ambicioso plano de construir um universo compartilhado no cinema, interligando os filmes e reunindo na tela os mais diversos personagens dos quadrinhos da casa das ideias – compondo, assim, uma única grande franquia – é fato que a Marvel domina as telonas e também as telinhas, de modo que é impossível ser indiferente. Ame-a ou odeie-a, a Marvel formou um colossal império que não dá mostras de desgaste e vem sendo copiada por outras grandes marcas como DC e Universal, entretanto, sem o mesmo sucesso. É necessário reconhecer o patamar que o estúdio atingiu e admirar o seu feito.

Eu já falei em outra ocasião acerca do MCU e sobre a fórmula amplamente utilizada nos filmes da casa. Um personagem carismático em uma aventura bem-humorada, dinâmica e colorida. Muitas piadinhas sagazes, sequências eletrizantes de ação em uma típica narrativa de matinê regada a muita pipoca e refrigerante. Filmes de estúdio, quase nunca autorais. A saturação da fórmula vinha se mostrando cada vez mais evidente, até que Pantera Negra surgiu com proposta e enredo mais maduros. Enfim, os filmes da Marvel mostraram que não se restringem apenas a cinema pipoca, e é bom ver que a mais grandiosa das produções do MCU representa um marco definitivo, para além dos números em arrecadação mundial, pois dá um passo importante dentro do Universo Cinematográfico da Marvel, mostrando-se mais disposto a correr riscos e abraçar uma narrativa menos juvenil. É o mínimo que se poderia esperar após um filme como Pantera Negra. Por mais que ele ainda se apoie na citada fórmula de sucesso habitual, utiliza sabiamente os ingredientes ao seu favor, não se rendendo totalmente a ela, e apresentando um longa mais adulto e audaz.

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Outra das minhas críticas era o fato de que os filmes nunca se fechavam em si mesmos. Todos os títulos do universo compartilhado da Marvel, desde Homem de Ferro de 2008, sempre se apoiaram em uma narrativa episódica, com cliffhangers que apontavam diretamente para uma vindoura sequência. Eram parte de algo maior, não portando uma individualidade. Por incrível que pareça, Guerra Infinita tem um objetivo único a defender. Obviamente, o longa possui uma continuação, inclusive com data agendada de estreia. O público sabe que a história não se fechou ali, nas cinzas dos heróis e há até mesmo um cliffhanger que sinaliza para o filme solo da Capitã Marvel na cena pós-créditos, mas, por mais contraditório que isso soe, este é um dos filmes mais bem fechados da Marvel, como bem disseram seus diretores e produtores em diversas entrevistas acerca do filme durante sua divulgação.

Explico: Guerra Infinita conta uma história sobre o Thanos e o arco do Titã Louco é muito bem fechado, pois se molda a partir de seu ponto de vista. Enquanto público, nos acostumamos a presenciar na tela a típica jornada do herói e o que conferimos no 19º longa da Marvel Studios, é a jornada do vilão e esta se cumpre. Há um propósito almejado e ele é atingido com sucesso ao final da produção, quando o maior algoz dos heróis reúne todas as jóias em sua Manopla do Infinito e estala os dedos após um violento confronto com Thor. O antagonista é a grande estrela enquanto os Vingadores são seus coadjuvantes.

Outra das barreiras que os Russo encontraram pelo caminho, mas desviaram com louvor é o simples fato que trabalhar um vilão como Thanos é deveras complicado. O gigante roxo é onipotente e praticamente impossível de ser derrotado. Portanto, os cineastas acertaram em focar nos traços do personagem que lhe imprimem certa humanidade, nos aspectos que o tornam mais próximo dos heróis, por mais conflitantes que sejam seus objetivos. Fizeram de Thanos, apenas um antagonista pragmático e não necessariamente um carrasco. Ele possui uma meta e não descansa enquanto não a atinge, passando por cima de todos os que ousam impedi-lo, não se importando com o saldo negativo de vidas que deixa pelo caminho. Isso é um mero impasse. O importante é o equilíbrio do universo. Na cabeça de Thanos, isso soa como algo certo a se fazer, não apenas uma atrocidade mal justificada de um maquiavélico vilão sem muita espessura. O que faz com que o personagem do filme se aproxime bastante, ao final, de sua contraparte nos quadrinhos, quando o Titã se torna um modesto fazendeiro.

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E os heróis… Metade deles esvanecem, se desintegram, viram poeira uns nas mãos dos outros. Longe de mim querer comparar, mas essa mesma decisão foi utilizada em X-Men: O Confronto Final que, no último dia 26 de maio, completou 12 anos desde sua estreia. A diferença é que, naquela época, o público saiu extremamente frustrado e furioso com o final do filme, afinal afrontar a paixão e o apego desmedido dos fãs pelos seus personagens favoritos é quase suicídio artístico. Mais de uma década depois, o mesmo artifício é testado em um filme do gênero e, ao invés de enraivecidos, os fãs estão deixando as salas de cinema momentaneamente de coração partido, mas sabendo que existe uma sequência em que os heróis terão suas vidas de volta (quem sabe?).

A tocante cena entre Peter Parker e Tony Stark já se tornou emblemática. Impossível conter as lágrimas em um momento de tamanho peso emocional. Mas é mais um atestado de que Guerra Infinita é um filme corajoso e inteligente. E a Marvel acertou mais uma vez.

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Adendo 1: Em 2006, havia o agravante de X-Men 3 ter sido lançado como o encerramento da saga e, ao invés de aparar todas as pontas, como parecia ser a ideia inicial do estúdio, o final apresentava um gancho para uma possível (mas que ninguém tinha a mais remota ideia se sairia do papel) continuação.

Adendo 2: Talvez, hoje, a indústria cinematográfica esteja mais disposta a correr esse risco e os espectadores já não fiquem tão frustrados com a morte de personagens queridos porque séries como Game of Thrones e Grey’s Anatomy – dos títulos de suma importância na cultura pop atual – exercem o ingrato e difícil papel de fazer com que o público tema pela vida dos seus favoritos e trate de exercitar o desapego diante da morte possível de algum deles. Acabou aquela história de que o protagonista está sempre a salvo, pois, até mesmo mocinhos e heróis estão propensos a morrer no final.

Adendo 3: Por onde anda Adam Warlock?

Andrizy Bento

 

Uma consideração sobre “Vingadores: Guerra Infinita”

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