Venom

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No longínquo ano de 2007, os constantes conflitos entre o cineasta Sam Raimi e o estúdio Sony Pictures resultaram no fraco Homem-Aranha 3. Uma sequência abaixo da média, especialmente se comparado a Homem-Aranha 2, um dos melhores filmes do teioso e, durante muito tempo – especialmente em uma era pré-MCU – considerada uma das melhores produções baseadas em quadrinhos de todos os tempos.

Um dos aspectos mais problemáticos do terceiro longa do Aranha é o excesso de vilões. Além do Homem-Areia e da transformação de Harry Osborn em Duende Jr., o longa ainda trazia, contra a vontade de seu diretor, Venom. Este está longe de ser um vilão dos mais gostáveis, convém dizer. E é fato que Sam Raimi era um fã de longa data da velha guarda do Homem-Aranha, o que inclui toda a galeria de personagens clássicos da década de 1960 – era em que a Marvel conheceu seu auge no mercado de quadrinhos. Venom era relativamente jovem, mais propriamente dizendo, de 1988. O final da história, a maioria dos fãs do teioso conhece, e ele não foi tão feliz. Homem-Aranha 3 segue como uma das maiores patacoadas da Sony com o personagem, seu diretor e seu público.

No ano seguinte à estreia do supramencionado Homem-Aranha 3, chegou às telas o primeiro longa do Homem de Ferro, o pontapé inicial para o que depois foi denominado Universo Cinematográfico da Marvel, ou MCU. Antes da criação deste império, uma produção centrada em um vilão era impensável. Um filme-solo do Venom, menos ainda. Até mesmo pelos motivos citados nos primeiros parágrafos.

Mas a indústria de filmes baseados em HQs cresceu exponencialmente. E os estúdios têm apostado cada vez mais em personagens Lado B, coadjuvantes de heróis e anti-heróis pouco conhecidos do grande público para estrelarem suas próprias produções, uma vez que, pelo menos no que diz respeito às obras da Casa das Ideias de Stan Lee, todos os grandes heróis são de propriedade da Marvel Studios. Sobra, para os outros, se virarem com o que têm. Em um acordo entre a Sony e a Marvel Studios, o Homem-Aranha finalmente foi parar nas mãos desta última. Mas com a condição de que a Sony ainda pudesse trabalhar com outros personagens da mitologia do teioso. Desse acordo, surgiu Venom produzido pela Columbia Pictures (uma das divisões da gigante Sony Entertainment), um filme protagonizado pelo vilão que, aqui, ganha o status de anti-herói.

Eddie Brock (Tom Hardy) é um jornalista que investiga com afinco a Fundação Vida, uma corporação de bioengenharia que, durante uma missão de exploração no espaço, descobre formas de vida simbióticas em um cometa. O grupo traz quatro amostras para a Terra, porém, uma delas acaba se perdendo. De posse das outras três, o diretor executivo, Carlton Drake (Riz Ahmed), descobre que os simbiontes só conseguem sobreviver no Planeta Terra utilizando corpos de seres humanos como hospedeiros, por conta da oxigenação do planeta. Ele inicia uma série de experiências mal-sucedidas tendo humanos como cobaias, cujos corpos rejeitam o simbionte e acabam morrendo. Drake está atrás do hospedeiro perfeito, porém utiliza, como fachada, pesquisas de combate ao câncer. Confrontado por Brock, ele destrói a vida e a carreira do jornalista, inclusive demitindo a advogada Anne Weying (Michelle Williams), namorada de Brock e que vinha desenvolvendo um trabalho de defesa para a corporação. Revoltada, ela termina seu relacionamento com Brock e, assim, o repórter entra em uma espiral decadente que se arrasta durante meses.

O longa é permeado por uma overdose de conveniências de roteiro. Por exemplo: é coincidência demais que Drake esteja fazendo experiências grotescas, tentando fundir humanos e as criaturas alienígenas, utilizando moradores de rua como cobaias. E uma delas seja exatamente uma amiga de Brock. Ao ser alertado pela doutora Dora Skirth (Jenny Slate) – uma cientista da corporação que entra em conflitos éticos com os experimentos de Drake – de que os palpites que o levaram à franca decadência como jornalista estavam corretos, Brock consegue penetrar os laboratórios da Fundação Vida auxiliado pela mesma e, ao tentar resgatar sua amiga, Maria (Melora Walters), o estranho parasita acaba por utilizar seu corpo como hospedeiro.

Um ator notavelmente carismático, Tom Hardy entrega uma atuação bem fraca e risível. Nem mesmo é possível dizer que ele está se divertindo interpretando o personagem. Com trejeitos afetados e uma carranca que o acompanha durante todo o filme, infelizmente, ele é um dos vários desacertos da produção.

Se um de seus méritos é o fato de Venom não perder tempo com exposições e muita embromação, o que é frequente em filmes de origem, por outro lado o ritmo acelerado com que é conduzida a história, prejudica a metragem. Sem contar que a trama nunca se aprofunda. A história é extremamente superficial e resvala na mediocridade. É curiosa a decisão do estúdio em deixar que o filme descambe para o humor bizarro e nonsense, com diversos entrechos desajeitados. O timing cômico é constrangedor, especialmente na sequência do restaurante, quando Eddie, esfomeado e sentindo-se gravemente doente por conta do parasita que tomou conta de seu organismo, aborda a ex-noiva ao lado do atual namorado médico. A pretensão é ser engraçada, mas falha miseravelmente em tentar arrancar risadas do espectador, limitando-se a ser simplesmente desastrosa. Ao invés de amedrontador, Venom é caricato, faz gracejos até na hora de matar e devorar cabeças humanas. A relação simbionte/hospedeiro vai se tornando amistosa conforme a narrativa avança. O que só rende cenas ainda mais duvidosas.

Este é um personagem que não funciona isoladamente nem com muita boa vontade. O vilão genérico que se restringe ao estereótipo do cientista maluco e Michelle Williams no piloto automático como a namorada do anti herói não acrescentam em nada. A direção de Ruben Fleischer não possui a mínima identidade, tornando Venom um refém de decisões nada inspiradas de estúdio. Para completar, o clímax é enfadonho e imemorável. A trilha sonora canhestra e esquecível é a cereja do bolo.

Para não dizer que eu só apontei as falhas, existem, sim, algumas qualidades no longa. Para os fãs de filmes de ação de fim de semana, há um sem número de sequências de perseguições, explosões e batalhas. Ainda que não haja nada de inovador ou empolgante na coreografia das lutas. No entanto, os efeitos são funcionais e devem agradar aos amantes do gênero. O longa se assume mais como um produto sci-fi do que necessariamente um filme baseado em quadrinhos e não tem nenhuma pretensão de ser uma obra-prima, tornando até mesmo mais fácil digeri-lo e encará-lo como entretenimento passável e descompromissado. Porém, a total falta de escopo e função do longa deixam evidente o quão desnecessário ele é, ainda mais em uma era na qual tomou-se por hábito filmes e personagens se interligarem, sendo parte integrante e fundamental de um vasto universo compartilhado. Venom até ambiciona esse propósito em uma cena escondida nos créditos, mas não é bem sucedido em fazer o público ansiar por isso.

Parece que o destino de Venom nos cinemas é jamais deixar uma lembrança muito boa na memória de seus fãs ou uma boa impressão na cabeça dos cinéfilos em geral.

Andrizy Bento

 

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