Shazam!

Clássico herói dos quadrinhos, ganha uma adaptação em live-action fiel ao espírito de seu material de origem, que utiliza sabiamente os clichês ao seu favor, diverte sem ser infantilóide e emociona sem ser piegas.

Ouço falar de Shazam desde meus mais tenros anos. Arrisco dizer que conheci (ainda que por transmissão verbal) Shazam antes mesmo dos icônicos Batman e Superman (aquele que veio primeiro). Outrora conhecido como Capitão Marvel, este era o super-herói favorito de meu saudoso pai e ele passava horas narrando as aventuras e desventuras do personagem para mim e minha irmã, o que só aguçava nossa curiosidade em conhecer os quadrinhos. O primeiro título do herói que tive em mãos foi lá por 1997, aos nove anos. O vi novamente em um episódio da animação Liga da Justiça, em 2004 – e essa constitui uma das lembranças mais doces que tenho de meu pai: seus olhos brilhando ao rever o seu herói de infância enquanto assistia ao desenho. Nunca me esqueci daquele olhar. Naquele momento, meu pai voltou a ser criança.

Obviamente, por se tratar de algo bastante pessoal e afetivo, tive certo receio justificado quanto à adaptação para as telas assim que tomei conhecimento de que ela estava prestes a sair do papel. Mas, felizmente, saí do cinema com um enorme sorriso de satisfação no rosto. O diretor, David F. Sandberg, conseguiu captar a essência do personagem e traduzi-la para as telas. O longa é divertido, bastante ágil e dinâmico. É um filme sobre família, como o próprio ator que interpreta o herói, Zachary Levi, fez questão de frisar. Uma metáfora do crescimento e do sonho que toda criança cultiva em ser um super-herói ou super-heroína.

Shazam! aproxima-se de aventuras dos quadrinhos e resgata a atmosfera de filmes de Sessão da Tarde – especialmente aqueles estrelados por grupos de jovens e espertos guerreiros – preservando o senso de diversão e entretenimento durante toda a projeção. A profusão de referências e easter-eggs só tornam seu clima ainda mais nostálgico. É um filme pipoca de fim de semana, mas longe do conceito de cinema descerebrado. Muito pelo contrário. Shazam tem cérebro, alma e coração.

Capitão Marvel nos quadrinhos

Herói da Era de Ouro das HQs, Shazam, ou melhor, Capitão Marvel surgiu nas páginas da revista Whiz Comics #2, publicação da editora Fawcett, em 1940. Criado pelo roteirista Bill Parker e pelo ilustrador C. C. Beck, as histórias em quadrinhos narravam o cotidiano do adolescente Billy Batson, um repórter de rádio que recebia os poderes do Mago Shazam, devido à sua pureza de coração. Desse modo, sempre que Billy gritava a palavra Shazam!, um raio o atingia o transformando em um super-herói adulto com poderes especiais. Para retornar à sua forma original, bastava gritar a palavra novamente. O herói ainda partilhava seus poderes com os demais membros de sua Família Marvel.

Infelizmente, devido a um processo judicial movido pela editora DC Comics – que alegava que Shazam era um plágio de Superman – o divertido herói teve suas aventuras interrompidas e a Fawcett deixou de publicar as histórias do personagem e outros relacionados em 1953. Irônico, pois em 1972, a mesma DC Comics licenciou o personagem, bem como os outros integrantes da Família Marvel, retomando sua produção.

Posteriormente, em 1991, a DC adquiriu a totalidade dos direitos dos personagens, contudo, o nome do herói teve de ser alterado, pois, após o processo sofrido e o cancelamento da publicação, a Marvel Comics decidiu batizar outro personagem de Capitão Marvel, cujo lançamento ocorreu em 1967. Dessa forma, o antigo Capitão Marvel da Fawcett e adquirido pela DC, teve de ser renomeado como Shazam! Daí toda a confusão gerada e que agora desorienta novos fãs, devido à proximidade do lançamento do filme do herói com o longa estrelado por Carol Danvers.

Das páginas amareladas das HQs para a tela:

No longa, Billy Batson é um garoto órfão, que se perdeu da mãe ao soltar, acidentalmente, a mão dela em um parque de diversões lotado quando tinha apenas três anos. Após fugir de diversos lares temporários a fim de procurá-la, aos 14 anos, Billy é adotado por um novo casal e chega a um lar comunitário no qual tem de aprender a dividir o espaço com cinco novos irmãos. Naturalmente, ele acha difícil se adaptar e, em sua mente, já começa a engendrar novas tentativas de fuga.

Ao fugir de valentões da escola, depois de uma briga, Billy vai parar na fortaleza de um Mago (Djimou Hounsou, brilhante!) que afirma que o garoto carrega consigo uma bondade e pureza interior que fazem dele o escolhido para salvar e proteger o mundo, conservando a paz, o equilíbrio e a justiça no universo. O Mago o faz tocar seu cajado e dizer seu nome – SHAZAM – em uma cena hilariante, de modo que todos os poderes deste sejam transferidos para Billy. Assim, cada vez que ele grita o nome do Mago, transforma-se em um super-herói com aparência de um adulto de trinta e tantos anos e dotado de super-poderes.

Alguns anos antes, porém, quem se viu diante do poderoso Mago Shazam, foi o jovem Thaddeus Sivana que, devido às tentações e fraquezas mostradas, não foi considerado bom o suficiente e nem digno de tamanho poder. Após provocar um catastrófico acidente de carro envolvendo seu pai e irmão – que sempre o menosprezaram por lhe julgarem fraco – ele passa a vida perseguindo um novo encontro com o Mago com o objetivo único de se vingar de todos aqueles que não acreditaram em seu potencial.

 

Aliás, o longa já começa surpreendendo por iniciar sua narrativa contando primeiramente a origem do vilão, para só então se focar no protagonista. Seguindo a cartilha das adaptações cinematográficas de super-heróis, o roteiro parece brincar com a ideia de que os vilões são geralmente mais interessantes, embora não seja exatamente o caso aqui. De qualquer modo, Mark Strong, na pele do psicótico e caricato Dr. Sivana, acerta no tom de seu personagem, compondo um legítimo vilão de quadrinhos. Contudo, não se presta a excessos. Seus atos são vis e megalomaníacos, mas ele mantém uma frieza e apatia em seu timbre e expressões. O casting de Zachary Levi como o herói Shazam não poderia ser mais acertado. O ator demonstra, em cada quadro do longa, o quanto está se divertindo.

Porém, é Asher Angel como Billy a principal revelação do longa. No auge de seus dezesseis anos, o ator mostra talento e competência, revezando o protagonismo com Levi sem jamais perder o brilho ao dividir seu papel com uma estrela já consagrada. O garoto parece, por vezes, mais maduro e centrado do que quando está transformado em um homem de seus trinta anos. Levi soa mais inocente e ingênuo do que Angel. Mas nem isso é capaz de comprometer.

Eficiente também é o jovem elenco que dá vida aos irmãos adotivos de Billy. Todos defendem seus personagens com energia e carisma, com especial destaque para Faithe Herman no papel da pequena, falante e acelerada Darla Dudley e Jack Dylan Grazer como Freddy Freeman que procura driblar as limitações impostas pela deficiência física com seu jeito esperto, engenhoso e bem-humorado de ser. De fato, a figura do irmão é importante para a narrativa, não apenar por ilustrar com precisão o encantamento e fascínio exercidos ao tomar conhecimento de que possui um novo irmão super-poderoso, mas também pelo fato de que, como um bom aficionado em heróis, ele entende tudo desse universo e é quem faz com que Billy, já convertido em Shazam, tente desvendar e explorar o máximo de suas habilidades especiais.

O que se destaca na trama é sua veia bem-humorada. O tom de comédia é constante, afinal, o que faria uma criança de quase quinze anos, ainda sem muita consciência de seus atos, ao descobrir que possui poderes sobre-humanos como ser imune a tiros, ter hipervelocidade, superforça a ainda saber voar? Iria se divertir! O longa brinca com a fantasia infantil de ser um super-herói com a dura, ainda que, aparentemente, divertida missão de salvar o mundo e colher os louros da fama. Acerta também ao trazer o personagem para um contexto atual, tirando proveito da tecnologia avançada dos smartphones. O público não se limita a assistir boquiaberto aos embates entre heróis e vilões. Preferem gravá-los em seus celulares de última geração. O próprio Billy, transformado no herói, cobra para tirar selfies com o público, em um plano mercadológico quase bem-sucedido. Nessa de era de influencers de instagram, o herói vê a si mesmo mais como um símbolo de adoração, um fenômeno do youtube. Aos poucos, passa finalmente a compreender seu papel no mundo e descobre que, com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades (opa, esse é outro herói).

Sobretudo, Shazam! é um filme sobre adaptação e amadurecimento. E isso está expresso não apenas em como o personagem vai descobrindo e aprendendo a lidar com seus poderes, como também no fato de que, ao longo da narrativa – e em um ritmo certeiro – Billy vai se tornando um jovem mais ajuizado e responsável, ciente de seus gestos e atos e do quanto eles podem afetar aqueles ao seu redor, especialmente as pessoas com quem se importa. Ele cresce de uma forma difícil, não apenas temeroso ante o desafio de lidar com um vilão poderoso e se sentindo despreparado para tal, como também ao enfrentar a dura verdade acerca de sua mãe e de seu abandono no passado.

Visual colorido e tom debochado.

Diferentemente de outras incursões cinematográficas recentes da DC, Shazam! não se rende aos excessos pirotécnicos. Há um bom emprego do CGI e os embates físicos são executados com destreza, tanto na terra quanto no ar. Ainda sobra espaço para desenvolver uma boa história, munida de clichês bem desenvolvidos, divertindo e emocionando o público na medida certa.

A escolha dos matizes que compõem a paleta cromática – apostando em cores saturadas é outro de seus méritos. É por ser autorreferente e autossatírico, além de apostar em uma vibe cartunesca, que o longa funciona tão bem. Afinal, como levar a sério um herói de roupa vermelha gritante e uma capa branca? E ainda com um símbolo berrante de um raio no peito? Só debochando de si mesmo. Claro que poderia adotar uma estética mais sóbria, mudando o uniforme e trazendo para um cenário mais realista. No entanto, isso comprometeria a identidade do herói e tiraria todo o barato e a diversão de sua adaptação cinematográfica.

E é embarcando na onda autossatírica que surge também a piada com relação ao seu nome de super-herói. Ele ganha vários títulos ao longo da trama –  embora Shazam fosse bastante óbvio, uma vez que é a palavra que ele grita para se transformar. No entanto, o gracejo surge justamente por conta de seu antigo nome: Capitão Marvel que não pode ser utilizado por motivos já explicitados anteriormente.

Convém citar também arte dos créditos, remetendo aos quadrinhos. Sem falar nas citações a Superman e Batman – o primeiro até faz uma ponta curiosa no filme – o que dá indícios de que, futuramente, ele será integrado ao mesmo time destes colossais super-heróis.

Veredicto

Embora esteja nítido que o seu público-alvo não é o mesmo de Batman Vs Superman: A Origem da Justiça – sendo considerado um filme para toda a família, Shazam passa longe de ser infantil. Afinal, seguir essa linha seria um equívoco imperdoável nestes tempos em que já foi provado que super-herói não é coisa de criança. Alguns trechos que enveredam pelo lado mais dramático, emocionam sem se render à pieguice. Todos os elementos narrativos são bem dosados e tudo é apresentado em um tom ideal.

Shazam! não se leve excessivamente a sério, também não se restringe a ser uma comédia rasteira como Venom. O roteiro é engenhoso, reserva um espaço ideal para cada um dos coadjuvantes do herói brilharem e até quando é expositivo, o faz de maneira divertida e sem fatigar o espectador com os excessos de explicações – aludir à inveja inerente ao vilão é um dos achados.

Felizmente, livre de Snyderismos, Shazam! se revela a produção mais divertida e despretensiosa da DC/Warner nos cinemas. Uma aventura cômica e exuberante sobre a amizade, família, partilha e crescimento.

★★★½

Andrizy Bento

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