Favoritos 2018 – Cinema

E aí vem 2019. Outro ano que termina e chega a hora de fazermos nossos balanços do que de melhor rolou no glorioso universo da cultura pop. Abaixo, você confere os favoritos da equipe do Bloggallerya no quesito Cinema em 2018. Lembrando que a lista compreende apenas os longas lançados em território nacional no ano de 2018 e que listas são, por essência, subjetivas. Portanto, concordem ou discordem, estes são os nossos selecionados. Gostaríamos de aproveitar o ensejo para agradecer por todas as visitas, visualizações e compartilhamentos. Tivemos um número de leitores ainda mais expressivo do que no ano passado, então, fica aqui o nosso singelo obrigado!

Melhores Filmes:

ROMA
Diretor: Alfonso Cuarón

O talento do cineasta mexicano Alfonso Cuarón já foi comprovado em inúmeras obras díspares entre si, demonstrando também sua versatilidade e, sobretudo, criatividade na condução de seus longas. Roma, no entanto, se trata de um projeto mais pessoal, diferente de tudo o que ele fez anteriormente. A produção original da plataforma de streaming Netflix, e baseado em memórias da infância do próprio diretor na Cidade do México, leva sua assinatura em cada um de seus frames e, ainda, em cada etapa da produção do longa. Cuarón não apenas dirigiu e roteirizou, como produziu, co-editou e cinematogrofou Roma. A trama se passa na década de 1970, em um notável trabalho de reconstituição de época, e é centrada na empregada doméstica de uma família de classe média, cujas atribuições soam excessivas aos olhos de qualquer espectador, menos da própria. Cleo, interpretada com competência e graciosidade por Yalitza Aparicio, jamais reclama de seu trabalho, de ter de manter toda a casa em ordem e ainda cuidar dos quatro filhos de sua patroa, sendo recompensada, muitas vezes com críticas e ingratidão. Tanto a dona da casa quanto a modesta faxineira passam a enfrentar, em determinado momento do filme, uma situação de abandono similar, apesar da diferença de classes. No entanto, a dor é a mesma. Ambas acabam encontrando força juntas, impelidas pela vida e pelo ritmo constante e irrefreável do cotidiano, ainda que persista a relação opressiva de patroa e empregada. Não há espaço para moralismos ou julgamentos. O que vemos na tela é a força de uma mulher humilde e quase sem instrução para continuar sua dura jornada dia após dia, conformada com as dificuldades da vida, ao lado de outra que parece não se atentar para a força que também possui, procurando preservar as aparências, ao mesmo tempo em que encara o desafio de manter intactos os pedaços que ainda restam de seu coração e de sua família. De certa a forma, a primeira a inspira. Assim como sua história é inspiradora para todos nós. Roma, apesar do que o título parece sugerir, não se refere à capital italiana e, sim, a um bairro localizado na Cidade do México. Singelo, o longa é todo em preto e branco, prestando um tributo ao flertar nitidamente com neorrealismo italiano, movimento cinematográfico ocorrido durante o final da Segunda Guerra Mundial. Perceptivo na composição de seus quadros e na condução de sua trama, Cuarón concebeu uma obra imperdível e irretocável que merece constantes revisitas.

VIVA – A VIDA É UMA FESTA
Diretor: Lee Unkrich & Adrian Molina

Jamais subestime o poder da música. Impossível não se render ao discurso passional ao falar sobre as animações da Pixar. Geralmente, elas dialogam com aspectos muito subjetivos de nossa própria história e vivência. Viva – A Vida É Uma Festa fala sobre a morte de maneira bem-humorada, alegre, festiva e altamente emocional. Miguel é um garoto de 12 anos apaixonado por música e que sonha em ser um artista famoso a exemplo de seu ídolo, Ernesto de la Cruz. No entanto, devido a um acontecimento envolvendo gerações anteriores de sua família, a música é proibida em sua casa e Miguel tem de se conformar a um futuro tocando os negócios da família que se resumem à fabricação de sapatos. Após um conflito com sua avó e um incidente envolvendo o roubo do violão do sepulcro de Ernesto de la Cruz, em pleno e tradicional Dia de Los Muertos, Miguel acaba atravessando para o outro lado, o além, e um mistério sustentado por um século é, enfim, desvendado. Fui da risada às lágrimas nas mesmas proporções. Os momentos musicais são todos memoráveis e é na sua singeleza que reside o seu encanto. Viva é comovente sem grandes esforços. Uma história marcante e belíssima como só a Pixar sabe nos proporcionar.

LOVE, SIMON
Diretor: Greg Berlanti

Love, Simon acompanha um garoto de classe média norte-americano –  o biótipo típico dos high-school – que vive uma vida pacata e normal, tem uma uma família bem-estruturada, estuda em um colégio bacana, e está cheio de amigos que curtem festas, filmes dos anos 90, música alternativa e muito café. Eles não carregam muitas preocupações e responsabilidades a não ser “qual faculdade vou cursar após o colegial?”. Um privilégio de poucos. Simon traz aquela vibe nostálgica que o torna cool e estiloso. Em seu quarto, vinis e uma velha vitrola dividem espaço com o iPhone e o notebook, artefatos indispensáveis da atual geração hiperconectada e que acabam desempenhando papéis fundamentais no desenrolar da trama e na busca de Simon por autoconhecimento. O jovem protagonista, aparentemente, leva uma vida perfeita. Mas ainda não sabe lidar com o fato de que é gay. Temperado por referências e permeado por quotes inteligentes, Love, Simon é uma tragicomédia familiar leve e que retrata, sem afetações, caricaturas ou estereótipos, o drama de um garoto para revelar sua orientação sexual para família e amigos. Como o próprio diz em dado momento do filme, ninguém precisa assumir que é hétero, portanto, por que a necessidade de se assumir gay? Nessa jornada, ele acaba chantageado por um garoto que é a própria definição de weirdo e que um dia, acidentalmente, tem acesso aos e-mails de Simon. A intenção desse garoto, ao tirar os famigerados prints, é usá-los para que Simon dê um jeito de aproximá-lo de uma de suas melhores amigas. Receoso de que descubram seu segredo, acaba manipulando os fatos ao seu redor, envolvendo seus próprios amigos e não percebendo o quanto isso pode ser nocivo para ele e para todos os demais. Love, Simon é delicioso, contagiante e emocionante em todos os sentidos. Acima de tudo, respeita e dialoga com seu público de uma maneira despretensiosa, objetiva e crucial. Vários momentos me arrancaram lágrimas e risadas na mesma intensidade. Seu maior mérito é garantir a fácil identificação do espectador com aquela realidade comum expressa na tela. Independente de gênero, sexualidade, raça ou credo, todos buscamos não a aceitação, mas um lugar que nos permita ser exatamente quem nós somos.

OPERAÇÃO OVERLORD
Diretor: Julius Avery

O petardo do diretor Julius Avery, produzido pelo pró-ativo J.J. Abrams, se aproxima dos bons e velhos splatter – sanguinolento e repleto de representações gráficas de violência. Contudo é mais sofisticado em sua forma e até no conteúdo. A trama, bem sacada, tem início em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, com a Operação Overlord do título, cujo objetivo era a invasão à Europa Ocidental, então ocupada pela Alemanha Nazista. Sendo assim, é na Normandia, pouco antes do Dia D, que a ação se desenrola. A última coisa que se pode esperar da produção é um drama de guerra e um compromisso solene com a história. Avery e Abrams estavam pouco preocupados com fidelidade aos fatos, inserindo um sem-número de licenças poéticas que podem vir a ser questionados pelo espectador mais cínico e cético, com dificuldades em suspender a crença e curtir um conto de zumbis que tem a o nazismo como plano de fundo. Para quem não tem problemas com isso, basta se deixar entreter por uma mescla bem-sucedida e insana de Guerra com Terror (palavras que se aproximam, gêneros cinematográficos que se distanciam). No mais, ele é bem ágil, gore e divertido, conta com uma das melhores fotografias do ano, e ainda se permite experimentações inusitadas ao combinar diferentes estilos, gêneros e referências visuais e narrativas. É por essas e outras que Operação Overlord se destaca como uma daquelas produções que nos faz lembrar porque o cinema é uma das mais geniais e fascinantes invenções criadas pelo homem.

LADY BIRD – A HORA DE VOAR
Diretora: Greta Gerwig

Greta Gerwig tem um jeito único de retratar o fracasso. Com desenvoltura e humor, temperados por uma melancolia genuína, ela apresenta sua relação com o mundo ingrato que não parece reconhecer seus talentos, valorizá-la devidamente e que se mostra sempre disposto a lhe dar uma nova rasteira ao invés de uma nova chance. Contudo, não há espaço para vitimismo; ela parece rir de sua própria desgraça. Como atriz e roteirista, já havia nos brindado com uma série de desventuras no excelente Frances Ha (2012). Neste, acumulando as funções de roteirista e diretora, presenteia o espectador com um texto esperto, recheado de diálogos brilhantes e intensos, fugindo – ainda que não completamente, mas com sabedoria – das artimanhas de uma autobiografia. A própria Gerwig assume que se espelhou em trechos de sua vida para compor Lady Bird – A Hora de Voar. Mas isso não significa que o filme seja necessariamente baseado em suas frustradas experiências pessoais ao longo da vida. Pode até parecer irônico, mas Greta confere doçura e leveza às vidas repletas de amargura e recheadas de dissabor nos filmes em que atua, roteiriza e dirige. Multifacetada e talentosa, ela deixa sua assinatura bem marcada e traz um sopro de inovação ao território do cinema indie – tão saturado pela fórmula costumeira dos últimos tempos – apostando na despretensão e em um retrato simples de pessoas e relações de verdade, sem emoldurar ou adornar demais seu longa. Ah, o filme se passa em 2002. E você percebe que está envelhecendo quando já existem filmes que olham com nostalgia para o início dos anos 2000 como é o caso.

Melhores Filmes Não Falados em Língua Inglesa:

VISAGES VILLAGES
Diretores: Agnès Varda & JR

Esse documentário de 2016 só aportou por aqui no início deste ano, registrando uma troca de experiências entre Agnès Varda, ícone da Nouvelle Vague (movimento cinematográfico francês da década de 1960) e o artista urbano JR. Os contrastes e as semelhanças entre seus universos pessoais e de atuação constituem o mote dessa excelente, bem como singela obra. Ela é oriunda de um movimento que sacudiu a cultura de seu país e revolucionou o cinema mundial. Ele é egresso da era digital. O encontro entre os dois expressivos artistas garante a reunião do clássico com o frescor da inovação. Duas gerações distintas da arte francesa que se unem para resgatar narrativas e registrar fotograficamente lugares longínquos de seu país e descobrirem que têm mais em comum do que poderiam supor. Produzido com um orçamento modesto, possível por meio de um financiamento coletivo, Visages Villages dialoga com o público através de imagens exuberantes, de maneira leve, saborosa, divertida, bem humorada e emocionante. Reflexivo, sem soar enfadonho, o filme todo é uma coleção de composições visuais criativas e inspiradas, de cenas da vida real que dizem muito mais do que as palavras são capazes de expressar.

120 BATIMENTOS POR MINUTO
Diretor: Robin Campillo

Este filme é um manifesto apaixonado. Sua intensidade é notória em cada frame, ainda que o diretor aproxime seu longa de um tom documental, o que se torna mais visível graças a entrega de seu elenco que atua com espontaneidade, conferindo um realismo impressionante à obra. O longa, dirigido por Robin Campillo, narra a luta e os esforços contínuos do grupo ativista Act Up em alertar a sociedade sobre o tratamento e prevenção da AIDS que, ano após ano, se prolifera em velocidade cada vez maior, gerando estatísticas alarmantes. Formado, em sua maioria, por soropositivos e pessoas que vivem bem de perto o drama do convívio com o vírus HIV, o grupo procura fazer um trabalho de conscientização e combater especialmente o descaso da saúde pública, orquestrando e executando intervenções e atos simbólicos em laboratórios. A ideia é justamente tirar todos da zona de conforto com relação à AIDS. Dado o seu teor político e de denúncia, 120 Batimentos Por Minuto resvala no panfletário e acaba soando até mesmo didático demais. Nada que tire os méritos do filme. A intenção é elucidar a situação o máximo possível. Destaca-se, sobretudo a excelente atuação de Nahuel Pérez Biscayart como Sean Dalmazo. Vê-lo definhando na tela é angustiante. A importância, bem como o caráter urgente de um filme que retrata três décadas atrás, justifica-se no fato de que esse é um assunto pouco debatido e sem grande evidência nos grandes meios de comunicação atualmente, o que leva muitos a acreditarem erroneamente que o HIV já foi erradicado. Por essas e outras, vale ser visto.

EM PEDAÇOS
Diretor: Fatih Akin

Um comovente e brutal retrato de uma mulher que tem a vida despedaçada após um atentado com bomba, orquestrado por dois neonazistas, vitimar seu marido e filho pequeno. Quando a busca por justiça – através dos métodos corretos e diplomáticos – falha, Katja Sekerci (excelente intepretação de Diane Kruger, vencedora do prêmio de melhor interpretação feminina no Festival de Cannes no ano passado), parte à procura de sua vingança pessoal. Seu comportamento autodestrutivo após a tragédia a leva a atitudes impensadas, inclusive ao final chocante. O filme é todo carregado por uma atmosfera de melancolia e tensão, corroborada pela trilha incidental. A câmera é ora inquieta, com elegantes travellings horizontais e panorâmicas; ora opta pelos closes nos rostos dos personagens, destacando a angústia e o terror constantes e inevitáveis. O franco-alemão Em Pedaços (Aus dem Nichts no original) peca um pouco em seu argumento, contudo acerta na execução.

Melhores Blockbusters:

VINGADORES: GUERRA INFINITA
Diretores: Joe e Anthony Russo

Não poderia ser outro. O título de arrasa-quarteirão mais emocionante do ano vai para Guerra Infinita que comprova de vez o talento dos irmãos Joe e Anthony Russo ao conduzir uma história desse porte. A estreia de Thanos no cinema ocorreu em 2012, no primeiro longa metragem dos Vingadores. Foram seis anos de espera, outras participações menores em filmes do MCU (como Guardiões da Galáxia e Vingadores: Era de Ultron), até que ele surgisse com seu poder devastador e seu ideal genocida de trazer equilíbrio ao universo, tomando a tela para si em Vingadores: Guerra Infinita. O maior fenômeno de bilheteria do universo cinematográfico da Marvel até o presente momento é, de fato, um filme sobre Thanos. Embora seja a concretização do sonho dos marvetes – uma vez que todas as ramificações do MCU colidem neste filme – também é o longa que mais despedaçou o coração dos fãs mundo afora, ao tomar decisões corajosas, investindo no teor emocional e sublinhando os relacionamentos entre os personagens, de forma que a pirotecnia e as gloriosas cenas de luta ficassem em segundo plano. A tocante cena entre Peter Parker e Tony Stark já se tornou emblemática. Impossível conter as lágrimas em um momento de tamanho peso emocional. Mas é mais um atestado de que Guerra Infinita é um filme corajoso e inteligente. E a Marvel acertou mais uma vez.

AQUAMAN
Diretor: James Wan

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Membro fundador da Liga da Justiça, durante anos o Aquaman foi subestimado pela cultura pop e tornou-se alvo de zombaria de produtores de memes pela internet afora. Talvez, sua representação na famigerada animação Superamigos, exibida entre as décadas de 1970 e 1980, tenha contribuído para que o personagem fosse relegado à condição de super-herói inútil, com os poderes mais “estúpidos” e apontado constantemente como a grande piada do universo dos super-heróis. Uma enorme injustiça, convém dizer. Para quem realmente teve contato com o personagem em sua mídia original, sabe que ele protagonizou arcos de qualidade nas HQs e que, neles, o Aquaman representava muito mais do que um mero objeto de sátira de South Park. Eis que o cineasta James Wan lhe devolve a dignidade perdida com uma adaptação cinematográfica divertida e empolgante, que resgata o clima épico das aventuras protagonizadas pelo herói nos quadrinhos. Ainda que fique aquém de Mulher-Maravilha, a melhor produção da DC/Warner até agora, o longa que leva o nome do herói fez muito mais por Aquaman do que apenas lhe devolver seu crédito perdido. O filme de James Wan é uma perfeita combinação de ação e fantasia, com um estilo até old fashion, envolvente e divertido. Com certeza, vale o ingresso.

Melhor Animação:

HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO
Diretores: Peter Ramsey & Bob Persichetti & Rodney Rothman

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Com a mais recente animação em longa-metragem Homem-Aranha no Aranhaverso, o teioso conseguiu atingir todo o potencial que os fãs dos quadrinhos sempre desejaram ver no grande ecrã. A animação é esteticamente primorosa, especialmente ao combinar diferentes estilos. Equilibra o traço mais realista da animação em computação gráfica com a vibe dinâmica de videogame, a atmosfera noir, a estética dos animes e o cartoon mais clássico. Isso tudo sem jamais abandonar o clima das comics, dividindo a tela em quadros e apostando na inserção de balões de fala e onomatopeias que indicam efeitos sonoros em diversas sequências. Além de um deleite em termos artísticos, Homem-Aranha no Aranhaverso surpreende pela qualidade do texto; por quão bem amarrada e intrincada é a trama e o modo eficiente como seus subplots são alinhados. Não bastasse os diálogos inteligentes e bem humorados que permeiam a narrativa, bem como o respeito ao cânone e essência do Aranha nas HQs, os momentos mais emocionais são bem dosados e impactam o espectador pela sua honestidade e o caráter genuíno com que se apresentam, sem induzir o público ao sentimentalismo barato. O que mais se destaca na animação é o fato de que ela é uma declaração de amor ao Homem-Aranha, a tudo o que ele representa para a cultura pop; às diferentes releituras que ganhou em todas as mídias nas quais ele imprimiu sua marca e lançou sua teia.

Gratas Surpresas Cinematográficas:

BOHEMIAN RHAPSODY
Diretores: Bryan Singer / Dexter Fletcher

O filme que narra a história de Freddie Mercury chegou às telas em novembro, causando alvoroço. Para os fãs, uma maneira de celebrar a vida do ídolo. Para uma nova geração que desconhece a importância da banda no cenário do rock mundial, uma oportunidade perfeita de se conectar ao legado do Queen, cujo repertório não apenas envelheceu bem, como está repleto de clássicos verdadeiramente atemporais capazes de conquistar novos fãs. Contudo, talvez seja o caráter nostálgico do longa e seu carinho para com a obra da banda que realmente exerça um fascínio inenarrável no primeiro grupo. E a curiosidade e a força das composições do grupo que atraiam o segundo. O filme é claramente imperfeito, mas essencialmente Queen. Permeado por um lirismo desenfreado, uma energia poética vibrante, Bohemian Rhapsody, não à toa, leva o nome da obra-prima do Queen. E, para quem, como eu, jamais pensou em realizar um sonho impossível – de assistir a um concerto da banda – o longa até mesmo supre essa necessidade e realiza esse sonho.

O ARTISTA DO DESASTRE
Diretor: James Franco

Eu não esperava muita coisa de um filme estrelado e dirigido por James Franco. Um ator que nunca me chamou muito a atenção e que sempre foi, no máximo, esforçado. No entanto, ao contar essa história baseada em fatos, sobre um personagem tão bizarro e misterioso quanto instigante, Franco acerta em cheio no timing cômico e leva às telas um dos filmes mais surpreendentes do ano. O longa acompanha o aspirante a diretor Tommy Wiseau que, ao lado de seu mais novo amigo, aspirante a ator, Greg Sestero, mudam-se para a cidade dos sonhos, Los Angeles, em busca de sucesso e consagração em Hollywood. Wiseau dá início à produção do filme The Room, uma ideia totalmente tresloucada, que ele roteiriza, dirige e interpreta. O elenco é numeroso; as cenas, além de bizarras, são intermináveis; o roteiro não faz nenhum sentido. Mesmo assim, ele segue em frente em uma compilação de momentos embaraçosos e humilhantes para sua equipe de produção e elenco. Considerado o pior filme de todos os tempos, The Room acabou tornando-se um celebrado cult justamente por conta de sua bizarrice e do quão ruim ele é. Atentem para as reproduções perfeitas das cenas do filme original. Um trabalho extremamente cuidadoso e bem executado.

Melhores Adaptações de HQ:

PANTERA NEGRA
Diretor: Ryan Coogler

O filme mais adulto da Marvel até agora, toca em pontos cruciais. É politizado, mas sem perder o senso de diversão e entretenimento. Trata-se de um longa de origem bem amarrado, mas não se rende ao excesso de exposições para justificar aquele universo concebido na tela e nem a existência do herói em um mundo já tão habitado por seres poderosos e uniformizados (lembrando que o filme é parte integrante do MCU). Pelo contrário, a introdução da nação de Wakanda, dos personagens e de suas lendas é retratada de maneira orgânica e tomando um tempo adequado de tela. O roteiro se preocupa mais com a representatividade e em transmitir uma mensagem, compreendendo o peso e relevância de um símbolo como o Pantera Negra para seu público, ao invés de se restringir a uma aventura isolada que apenas galga mais um degrau para o vindouro Guerra Infinita. É um filme que existe individualmente, independente de Vingadores, mas não nega ser parte do todo. Embora possamos enxergar bem claramente suas intenções como uma representação moderna dos movimentos negros da década de 1960, mas com contornos de fábula, Pantera Negra foge de um tom forçada e fundamentalmente ideológico. É um conto político com um background já conhecido, mas dotado de um olhar atual. Acima de tudo, a produção usa acertadamente sua abordagem e o fascínio que sua lenda exerce como um veículo preciso para narrar o conflito de ideias entre aqueles que, supostamente, deveriam estar do mesmo lado; e no qual os oprimidos mostram aos opressores que uma guerra se luta justamente. De fato, a arma mais poderosa de T’Challa não é seu uniforme feito de vibranium ou qualquer dos artefatos desenvolvidos brilhantemente por sua irmã Shuri, mas sua honra e nobreza. E, por isso, ele é um líder. Por isso é a figura ideal para governar Wakanda, ao contrário do radical Killmonger. Ryan Coogler comanda um longa inteligente, emocionalmente maduro, com uma narrativa bem estruturada, personagens carismáticos, um visual arrebatador e uma trilha sonora poderosa e característica que abrilhanta ainda mais este que pode ser considerado um dos melhores e mais completos filmes do MCU.

DEADPOOL 2
Diretor: David Leitch

O tom de zombaria é constante, embora não passe despercebido o fato de que o plot alude à trágica realidade americana de crianças que entram em escolas portando armas com o propósito de executar um massacre, muitas vezes argumentando que estavam fartas de sofrerem bullying e abusos de seus colegas. Mas nada é muito profundo. Deadpool existe com propósito de entretenimento chulo, de diversão escapista carregada de adrenalina e humor politicamente incorreto. Tanto que até mesmo denuncia as fragilidades do próprio roteiro, especialmente ao fazer uso de um exaurido, embora frequentemente utilizado, recurso de viagem temporal para consertar os erros do passado. De qualquer forma, aqui a estratégia manjada é executada como sabedoria, inclusive nas cenas escondidas nos créditos – seja para apagar a aparição de Deadpool em X-Men Origens: Wolverine, procurando consertar a linha do tempo ou até mesmo anulando Lanterna Verde da história (filme, este, também estrelado por Reynolds). Deadpool não perde a oportunidade de meter uma bala na cabeça do ator que o interpreta, evitando a tamanha sandice e tragédia que foi aquela produção. Em resumo, Deadpool 2 é ainda mais violento, debochado, escatológico, transgressor do que seu original e continua esbanjando estilo acompanhado de uma trilha sonora potente. Sem medo de exceder limites, aposta na linguagem de baixo calão e na ira e sarcasmo de um protagonista que não hesita em rasgar o verbo. É é justamente isso  que precisamos em um anti-herói. Cômico e dinâmico, munido de cenas indigestas que nem podem ser apontadas como desnecessárias dado o teor do filme e seu tom já característico, Deadpool 2, felizmente, não se limita a ser uma piada contada duas vezes como tantos temiam. E que venha um terceiro!

O Que Poderia Ter Sido e Não Foi:

OS INCRÍVEIS 2
Diretor: Brad Bird

Foram quatorze anos de espera até vermos a super-heróica família Pêra retornar às telas novamente sob a batuta de Brad Bird. A animação da Pixar que presta um tributo carinhoso e divertido aos super-heróis oriundos dos quadrinhos (especialmente da Marvel Comics) conquistou o público no início dos anos 2000 e trouxe uma proposta diferente das demais animações da casa, menos emocional e mais centrada na ação. Ainda que mantendo o tom bem humorado e de fantasia comum ao estúdio. A espera foi longa… E não valeu tanto a pena. Incríveis 2 é mais do mesmo com algumas alterações e surpresas. A batalha final, que constitui o clímax da animação, é empolgante e não fica devendo em nada às grandes produções em live-action estreladas por super-heróis. No mais, apesar dos poderes do bebê Zezé finalmente aflorarem (e ele é praticamente uma Mary Sue) e a Mulher-Elástica ser o centro das atenções, ganhando merecidamente o status de estrela da produção, Incríveis 2 não oferece nada de realmente memorável. É divertido, mas passável. Como um desenho qualquer que a gente assiste na TV quando não há nada de mais interessante para fazer.

HOMEM-FORMIGA E A VESPA
Diretor: Peyton Reed

Esta é uma aventura isolada, com uma trama que fica pelo meio do caminho e, talvez, tivesse mais sentido se fosse lançada antes de Guerra Infinita. Embora com um senso de diversão acima da média e sequências de ação mirabolantes, o roteiro apresenta diversas fragilidades. Uma das mais evidentes compreende a figura dos vilões: genéricos, como de costume, e com propósitos genéricos. Alguns elementos interessam mais aos fãs e leitores ávidos de quadrinhos – a produção está repleta de easter eggs –, mas não surtem nenhum efeito no público mais leigo que tem acompanhado apenas os filmes nos últimos dez anos e não conhece muito acerca dos personagens em sua mídia original. O longa se sustenta a partir de muitos fatores que soam convenientes, tendo como sua maior aliada a suspensão da crença, comum quando o espectador se vê diante de um filme desse porte, o que contribui bastante – ainda que, por vezes, patinando no gelo fino – para que a produção funcione. Homem-Formiga e a Vespa distancia-se, e muito, da profundidade e da carga emocional de Guerra Infinita, mas alivia um pouco a tensão pós-tragédia causada por Thanos. O que não impede que a cena pós-créditos nos traga o mesmo aperto no peito que sentimos com as consequências da instauração do equilíbrio do universo trazido pelo Titã Louco ao adquirir as Jóias do Infinito em sua totalidade. Contudo é, também, um dos únicos aspectos que contribuem para que o segundo longa do Formiga não seja de todo imemorável, rasteiro e superficial.

Filmes Mais Subestimados:

TRAMA FANTASMA
Diretor: Paul Thomas Anderson

“Longo, chato, monótono, não chega a lugar algum”. Essas foram algumas das palavras atribuídas à Trama Fantasma. Algumas delas vindas, até mesmo, de fãs do trabalho do cineasta Paul Thomas Anderson, alegando que ele perdeu a mão em seu mais recente longa. Trama Fantasma é, no entanto, uma obra prima e um filme incompreendido. Felizmente, PTA compreende a essência do cinema e seus meandros. Compreende que cinema vai muito além de uma simples narrativa. É a sinestesia absoluta entre sons e imagens. Perfeito como uma dança, Trama Fantasma versa, de maneira exemplar, original e profunda, acerca do caráter tóxico e obsessivo dos relacionamentos. Com o perdão do trocadilho, Anderson costura sua trama com precisão cirúrgica, acertando no contraste entre a elegância de requintados vestidos e a truculência do relacionamento entre o duo que o protagoniza. De maneira rara e original, a produção narra um jogo de poder em que nenhuma das duas partes se acomoda, ou está disposta a se anular pela outra. Cada um apresenta e define bem suas exigências, procurando demarcar território. Há uma busca insaciável por controle e uma briga em que não existem vencedores ou perdedores. Ambos cedem, ainda que a contragosto, em momentos pontuais da narrativa. Ainda assim, situados em lados opostos de um mesmo tabuleiro, são tenazes em procurar virar o jogo, cada um a seu favor, construindo uma relação doentia de co-dependência. A disputa é violenta, mas ocorre, sobretudo, em um plano psicológico. O que não quer dizer que a ameaça física esteja ausente. Ao contrário, ela é quase letal.

JOGADOR NÚMERO 1
Diretor: Steven Spielberg

Ao bater o olho no trailer de Jogador Nº 1, me vi interessada. Deixei passar no cinema por conta das ocupações diárias que me fizeram cortar alguns títulos da minha lista do que ver na tela grande. Acabei vendo em blu-ray e o resultado me agradou imensamente a ponto de incluí-lo na lista de melhores do ano aqui do site. O filme todo é uma delícia para os amantes de cultura pop. Tem tantas referências por metro quadrado que elencá-las é uma tarefa árdua, mas não menos divertida. Situado em um futuro não muito distante – 2044 para ser mais exata – Wade Watts (interpretado pelo eficiente Tye Sheridan) é um viciado no jogo Oasis, bem como todo o restante da humanidade que prefere viver dentro desse ambiente virtual a encarar o mundo real. A morte de um dos criadores do jogo, o biliardário James Halliday (Mark Rylance, ótimo), vem com uma surpresa: um dos jogadores poderá herdar sua imensa fortuna desde que desvende todas as peças de um perigoso e complexo quebra-cabeça que levará o vencedor à ascensão e glória. Com este, Steven Spielberg recupera o fôlego, a energia, o senso de aventura, a força criativa e a paixão que costumava exalar em seus longas infanto-juvenis da década de 1980. O espírito de Sessão da Tarde e as diversas alusões a obras cultuadas do universo pop garantem uma produção deliciosa que, infelizmente, passou despercebida por muita gente.

Filme Mais Superestimado:

DUNKIRK
Diretor: Christopher Nolan

Tecnicamente irretocável e emocionalmente vazio. Eis um modo preciso de definir o último petardo de Christopher Nolan. A proposta do longa é narrar os pormenores da Operação Dunkirk, ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial e cujo objetivo era evacuar quase quatrocentos mil soldados aliados das praias da cidade portuária que dava nome à operação, localizada no norte da França. Isso sob o intenso bombardeio das tropas nazistas que haviam invadido o país. Pra variar, Nolan é didático e detalhista. Tanto em termos visuais quanto narrativos. A trama é dividida em três segmentos: terra, mar e água. Assim, vemos a batalha se desenrolar em cada um desses planos, focando em um soldado específico. Curiosamente, apesar de toda a pompa visual, este parece ser dos trabalhos menos pretensiosos de Nolan nos últimos tempos. Talvez por não recorrer ao melodrama (excetuando-se a cena final) que destruiu a boa vontade de muitos espectadores no caso de Interstellar, por exemplo. Em Dunkirk, há acuro técnico de sobra, mas não se enxerga aquela paixão por parte do cineasta. Esteticamente soberbo, porém, um filme sem alma.

Cenas Mais Marcantes do Ano:

ME CHAME PELO SEU NOME
Diretor: Luca Guadagnino

Me Chame Pelo Seu Nome é solar, com foco no desenvolvimento do protagonista, em sua jornada de crescimento e autoconhecimento, na descoberta da paixão e do desfrute da sexualidade. A conversa reveladora entre o protagonista e seu pai é, sem dúvida, uma das melhores do ano.

O DESTINO DE UMA NAÇÃO
Diretor: Joe Wright

Não raramente, cinebiografias de personagens históricos pecam justamente ao não desconstruírem a aura de herói em torno de seus retratados, ao não desmitificá-los. Decepcionando o espectador que espera conhecer mais do ser humano por trás do símbolo. Felizmente, não é o caso de O Destino de Uma Nação. O longa passa longe de ser dos melhores ou mais memoráveis, mas é com inegável eficiência que Joe Wright compõe um drama biográfico que despe Winston Churchill da lenda. A sequência do metrô, em que Churchill decide conversar e ouvir a opinião dos passageiros, é totalmente ficcional, todavia, a indulgência poética do diretor, utilizada para trazer efeito dramático, é acertada em sua composição, um verdadeiro achado e praticamente vale o filme.

Piores Filmes:

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME
Diretor: Martin McDonagh

Tentando a todo custo evocar o trabalho dos Irmãos Coen, mas falhando em suas intenções, o cineasta Martin McDonagh não sustenta bem a história; falha no ritmo e especialmente no timing cômico, que é constrangedor, para dizer o mínimo, além de sua existência ser inexplicável. Toda a tentativa de humor soa equivocada, forçada e mal inserida – salvo uma ou duas piadinhas. O problema é que o filme se vende como um exemplar de drama inquietante, permeado por um humor politicamente incorreto. No entanto, a comicidade soa fora de contexto e até mesmo agressiva em uma trama que retrata a indignação e revolta de uma mãe diante da falta de resolução de um crime bárbaro cometido contra sua filha, que inclui estupro e assassinato. Perpetuando o extremismo como uma solução sempre válida, o longa leva à galhofa involuntária, tornando-o irremediavelmente burlesco. Três Anúncios Para Um Crime bem poderia se chamar, aqui no Brasil, de Anúncio Para uma Piada de Mau Gosto.

VENOM
Diretor: Ruben Fleischer

O ritmo acelerado com que é conduzida a história prejudica a metragem. A trama nunca se aprofunda. A história é extremamente superficial e resvala na mediocridade. É curiosa a decisão do estúdio em deixar que o filme descambe para o humor bizarro e nonsense, com diversos entrechos desajeitados. O timing cômico é constrangedor, especialmente na sequência do restaurante (a pior do ano), quando Eddie Brock esfomeado e sentindo-se gravemente doente por conta do parasita que tomou conta de seu organismo, aborda a ex-noiva ao lado do atual namorado médico. A pretensão é ser engraçada, mas falha miseravelmente em tentar arrancar risadas do espectador, limitando-se a ser simplesmente desastrosa. Ao invés de amedrontador, Venom é caricato, faz gracejos até na hora de matar e devorar cabeças humanas. A relação simbionte/hospedeiro vai se tornando amistosa conforme a narrativa avança. O que só rende cenas ainda mais duvidosas. Um ator notavelmente carismático, Tom Hardy entrega uma atuação bem fraca e risível. Nem mesmo é possível dizer que ele está se divertindo interpretando o Venom. Com trejeitos afetados e uma carranca que o acompanha durante todo o filme, infelizmente, ele é um dos vários desacertos da produção.  Parece que o destino de Venom nos cinemas é jamais deixar uma lembrança muito boa na memória de seus fãs ou uma boa impressão na cabeça dos cinéfilos em geral.

Concordam? Discordam? Enfim, bons filmes em 2019 para todos vocês e obrigada pela companhia 😉

Andrizy Bento
Kevin Kelissy
Kaio Dantas

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