Black Mirror – 1ª Temporada

Concluí há poucos dias a primeira temporada de Black Mirror, antologia britânica de ficção científica criada por Charlie Brooker e transmitida inicialmente pelo Channel 4, no Reino Unido, e, posteriormente, pelo popular serviço de streaming Netflix. A série versa a respeito do lado obscuro das novas tecnologias que dominam a vida de uma imensa parcela da população global que se mantém conectada quase 24 horas por dia.

Você pode encontrar inúmeros comentários na internet – essa mesma que aparentemente é a vilã em totalidade dos episódios da série – de espectadores que simplesmente dizem que Black Mirror é ininteligível. E acho essa afirmação curiosa, uma vez que a produção perfeitamente compreensível. Pelo menos em sua primeira temporada.

Para começar, surpreende o fato de que seus três primeiros episódios tenham sido produzidos em 2011. E não se engane. Falando assim, até parece que a série não é lá muito antiga, mas quando paramos para pensar que 2011 não está logo ali, e que se passaram exatos sete anos de lá para cá, é até mesmo um choque. Uma série de coisas mudou nesse meio tempo no cenário sócio-político mundial e até mesmo nossos smartphones atravessaram uma escala de evolução impressionante em menos de uma década.

E, ainda assim, Black Mirror continua extremamente atual e refletindo os mesmos dilemas, conflitos e angústias que enfrentamos diante e por conta das mídias sociais, aplicativos e novos aparatos tecnológicos que adentram nossa vida como simples utilitários e ferramentas de entretenimento para, enfim, nos tornar completamente dependentes deles. Por nossa própria culpa, convém dizer. Ainda que os cenários representados na série indiquem uma ideia futurística e distópica, suas tramas não parecem assim tão distantes da nossa atual realidade. E é por isso que a produção é tão bem-sucedida. Ela funciona exatamente como aquilo que se propõe a ser: uma ficção especulativa.

Abaixo, uma breve análise de cada um dos três episódios que compõem a primeira temporada dessa brilhante antologia que deve ser vista pela geração da conectividade em tempo integral e por todos os públicos:

The National Anthem (O Hino Nacional)

O primeiro episódio, intitulado The National Anthem (O Hino Nacional em português), é uma crítica contundente à influência devastadora da mídia e da opinião pública e o impacto que esse poder exerce em assuntos de teor político, judiciário e que envolvam celebridades quando chegam ao conhecimento inevitável da população. Paralelamente, mostra como as notícias correm na velocidade da luz na era da hegemonia da internet e da conexão em tempo integral. As redes sociais cobrem de maneira mais efetiva do que as mídias tradicionais – até mesmo pautando-as – cada detalhe de um espetáculo tenso, inquietante e, por fim, nauseante.

O episódio tem início com o sequestro da Princesa Susannah, membro da família real britânica, queridinha das massas, e cujo resgate pedido em troca de sua liberdade é simplesmente bizarro: o primeiro ministro inglês, Michael Callow, deve praticar um ato sexual com um porco em rede nacional a fim de que ela seja libertada. Acompanhamos a degradação pública de um homem do poder, enquanto a audiência aguarda, em expectativa, na hora marcada, para ver todos os ângulos da ação libidinosa televisionada. O povo, em peso, mantém os aparelhos de televisão ligados, mesmo com todos os avisos de que as cenas serão de conteúdo forte e, provavelmente, traumatizante e sem precedentes. Mesmo o ruído que antecede a cena, capaz de causar um desconforto nos espectadores, não os impede de manterem os olhos pregados na tela da TV, deixando claro o quanto o as pessoas gostam de prestigiar a desgraça alheia.

De certo ponto de vista, o primeiro ministro toma uma atitude nobre em contribuir com o resgate da princesa. De todos os outros ângulos, o que resta são as marcas da humilhação ao qual foi submetido – a estrela e vítima de um espetáculo sensacionalista, tendo a imprensa e a audiência interferindo e ditando os rumos de sua vida política. A destruição de sua imagem naquele momento, no entanto, consegue salvar sua reputação futura. Aos olhos do povo, é visto como um herói. Porém, sua vida pessoal é extremamente afetada. Entre sua carreira política e sua vida privada, a primeira é passível de ser reinventada e renascer das cinzas. Entre as paredes de sua residência, porém, persiste a memória suja daquele ato transmitido em rede nacional.

Fifteen Million Merits (Quinze Milhões de Méritos)

Este segundo capítulo da antologia é uma precisa, inteligente, assustadora e melancólica alegoria de nossas vidas, tão pautadas pela crescente e mutável tecnologia e pela superficialidade das relações humanas que se alimenta do caráter fake dos aplicativos.

O cenário é futurista e recluso. Bing dorme em um quarto repleto de telas por todos os lados, com dimensões bem restritas. Todos os dias, assim como seus colegas, abandona seu quarto para pedalar em uma bicicleta ergométrica de modo a angariar mais Méritos, a moeda recorrente dessa sociedade distópica. As moedas são utilizadas para que as poucas pessoas que vivem ali, consigam se alimentar e comprar alguns “entretenimentos” que se limitam a diversões televisivas como vídeos pornográficos e um reality show em busca de novos talentos. Algumas vezes, eles surgem nas telas que os cercam sem que o indivíduo solicite e, até mesmo para dispensá-los, é necessário pagar uma quantia em Méritos.

Essa é a rotina dos membros dessa espécie de sociedade. Pedalar em veículos pouco eficientes, uma vez que eles nem mesmo saem do lugar, diante de monitores que os alienam e incutem em suas mentes desejos irreais. Tantos as bicicletas quanto as telas produzem apenas ilusões. Ilusões de que eles estão correndo rumo aos seus sonhos.

A única coisa real que surge na vida de Bing, um destes moradores, é Abi. Ele a ouve cantar, sem querer, no banheiro e sua maviosa voz o emociona. Dessa forma, ele gasta todos os Méritos que possui comprando para Abi um ingresso para o concurso de talentos – que representa a única oportunidade de parar de pedalar e conhecer uma vida diferente fora dali. Antes de subir ao palco, Abi ingere uma bebida cujo conteúdo ela desconhece, mas trata-se de uma substância que torna sua mente confusa e pronta para concordar com qualquer proposta que lhe ofertarem. Ela canta e encanta os impiedosos e cruéis juízes do popular e famigerado show de talentos. Mas eles lhe garantem que seus dotes como cantora não a levarão muito longe, uma vez que o mercado fonográfico está irremediavelmente saturado. Porém, ela pode conhecer uma nova vida como estrela de vídeos pornográficos, priorizando sua aparência às suas reais habilidades. Ela aceita pela condição de ter uma vida melhor, por não estar pensando com clareza devido ao líquido ingerido e para que Bing, que foi quem a presenteou com o ingresso, não tenha investido seu dinheiro e esforços em vão.

Revoltado com o destino de Abi, Bing retorna à sua rotina imutável e deprimente de pedalar ergométricas frente a monitores com conteúdos alienantes. Em seu quarto, as telas começam a transmitir a primeira cena erótica protagonizada por Abi. No auge de sua fúria, Bing se descontrola, quebrando alguns dos monitores, não conseguindo evitar que os sons do ato sexual estrelado por ela adentrem seus ouvidos, mas aproveita a oportunidade para guardar um pedaço pontiagudo da tela consigo.

Bing recupera seus Méritos e, ao atingir quinze milhões, compra um novo ingresso para o show de talentos. Desta vez, para desafiar o sistema. O final é impactante. Ele chama a atenção dos jurados, primeiramente simulando uma dança e, depois, ameaçando se suicidar, pressionando a ponta do pedaço do monitor em uma artéria de seu próprio pescoço. Bing desabafa e esbraveja acerca do sistema corrompido, cruel e ilusório em que vivem. Os juízes lhe dão uma chance de estrelar seu próprio canal, onde fará críticas ao sistema, sempre simulando que irá se suicidar ao final. Pela oportunidade única de parar de pedalar e escapar da reclusão que o sufoca diariamente, ele topa.

E quantas pessoas você conhece que criticam o sistema, mas acabam se tornando parte dele devido a uma irrecusável proposta? Enquanto isso, continuamos pedalando e consumindo conteúdos televisivos superficiais, esperando a nossa oportunidade de mostrar nossas capacidades em concursos de talento.

The Entire History Of You (Toda a História de Você)

The Entire History Of You (ou Toda a História de Você) é o sugestivo título do terceiro episódio que apresenta alguns dos quotes mais brilhantes desse primeiro ano da série.

Boa parte de nossas memórias orgânicas são puro lixo, não são confiáveis.

De fato, manipulamos muito as nossas próprias memórias, acrescemos detalhes, modificamos eventos, omitimos palavras. Não que se tornem mentiras, só são um pouco mais incrementadas. Assim como os demais episódios da série, este é situado em um futuro não definido, em que os seres humanos têm implantados atrás de suas orelhas chips de memória que os permitem filmar e gravar tudo o que veem e ouvem, de modo que possam revê-las quando bem entenderem.

Sem memória, as pessoas passariam por essa vida sem deixar nenhuma marca, nenhum rastro. Ausentes as lembranças, viveríamos e morreríamos sem que ninguém se apercebesse ou desse pela nossa falta. A questão é que, por mais que as recordações sejam fundamentais (afinal, recordar é viver), devemos, dia após dia, nos preocuparmos em construir novas memórias ao invés de apenas viver de revisitar as que já possuímos, de rememorar, de lamentar um passado que se foi. Devemos investir em nosso presente e desenhar nosso futuro. Do contrário, a vida permanece estagnada.

Paranoico e inseguro, Liam desfruta dos recursos de reprodução de suas lembranças – que podem ser revistas nos próprios olhos ou em qualquer monitor de vídeo – para repassar seus dias, analisar cada detalhe de suas memórias, identificar os pontos em que fracassou, em que sofreu rejeição, até mesmo avaliar a entonação de voz das pessoas ao conversarem com ele. Durante uma confraternização com antigos amigos e colegas, a interação entre sua esposa, Fi, e um dos integrantes do grupo, Jonas, lhe chama a atenção.

Na hora do jantar, Jonas começa a relatar, de modo extremamente indiscreto o que deu errado em seu fracassado casamento, chegando ao ponto de revelar que masturbava-se no sofá ao rever as lembranças de episódios de sexo casual que teve no passado, enquanto a esposa dormia no quarto, no andar de cima, sem suspeitar de nada. Liam nota mudanças curiosas na expressão, no tom de voz e na risada de sua esposa ao ouvir essas declarações impróprias. Tudo piora quando ele descobre que sua esposa teve um caso com Jonas alguns anos atrás e passa a suspeitar que o que houve entre os dois ainda não terminou.  O ciúme obsessivo com relação ao passado de sua esposa leva Liam ao limite.

Outra frase contundente surge quando da descoberta de que houve uma traição: O melhor da suspeita é quando ela prova ser real. Atormentado pela velha história “traiu ou não traiu” – que constitui o mote de um clássico da literatura brasileira, Dom Casmurro, protagonizado por um intransigente e turrão Bentinho e uma luminosa e cativante Capitu – em Black Mirror, temos a certeza do adultério e um desfecho melancólico após Liam se deixar enlouquecer pelo ciúme a ponto de trazer à tona sua índole violenta e explosiva.

A paranoia e a obsessão dentro de um relacionamento compõem a principal pauta desse terceiro capítulo, que ainda alude ao vício quase doentio de registrar cada momento de nossas vidas em smartphones. Detalhe para uma personagem que, na cena do jantar, revela que teve seu chip roubado durante um assalto e que é imensamente mais feliz sem ter suas memórias gravadas. Algo parecido como quando excluímos nossas redes sociais e aproveitamos muito mais nossas viagens, shows, momentos em família e happy hour com os amigos; deixando o celular de lado e curtindo plenamente o momento em si. E é com esta gloriosa reflexão que se encerra a primeira temporada da série.

O mais interessante, no entanto, é observar como o sexo é sempre o ponto de virada em Black Mirror, esfarelando relações e modificando o curso dos personagens principais. Seja a transa do primeiro ministro com o porco no primeiro episódio, a cena erótica de Abi que perturba Bing no segundo ou a aventura sexual de Fi e Jonas durante a viagem do marido, Liam, no terceiro episódio da série. Todas essas relações sexuais representam a ruptura na narrativa que leva os personagens a tomarem decisões drásticas e terem de conviver com seus desafortunados destinos.

Nem o sexo e nem a tecnologia, no entanto, são pintados como os vilões da trama. É a forma como os seres humanos lidam com eles e os manipulam (ou se deixam manipular por eles) que criam os demônios que permeiam Black Mirror.

Escolher o melhor episódio da primeira temporada da antologia é uma tarefa extremamente complicada. Julgo até mesmo impossível. Todos são brilhantes ao seu próprio modo. E vamos para a segunda!

Andrizy Bento

 

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