Coringa

Sou eu… Ou o mundo está ficando mais louco?

O barulho em torno de Coringa tem sido ensurdecedor desde muito antes de seu lançamento. De um lado, estava uma escolha curiosa para assumir a direção – Todd Phillips, acusado de piadas sexistas, racistas e outros istas em exemplares pregressos de sua filmografia, como os longas da série Se Beber, Não Case, e cujas declarações recentes sobre como o humor politicamente correto acabou com a comédia não o tem ajudado – de outro, estava a preocupação diante do fato de o filme enaltecer o nêmesis de Batman como um herói, de celebrar a cultura incel, de levantar bandeiras fascistas e promover o Joker como um símbolo equivocado e irresponsável de subversão. Isso gerou debates acalorados nas redes sociais, com gente que sequer havia assistido ao filme classificando-o precipitadamente como tóxico e perigoso.

Coringa, de fato, é sombrio, furioso, violento, anárquico, perturbador. Exatamente como se esperava que fosse um filme sobre o personagem. A produção retrata uma conduta, mas não a defende ou valida, não legitima a violência. Em nenhum momento assume um tom apologético. Importante ressaltar que o comportamento e atitudes do vilão não são justificados por conta do bullying, agressões e traumas que o protagonista, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), sofre e com os quais convive desde a infância. Ele é um sociopata, afinal. Não precisa de grandes motivações para agir da maneira como age. A empatia por Fleck, no entanto, acaba quando ele se converte definitivamente em Coringa e começa a matar. E ele mata sem hesitações ou arrependimentos posteriores; sem ver nada de errado nisso. Jamais pondera sobre seus gestos. Fala com absurda normalidade sobre as atrocidades que comete. Não está atrás de justiça, mas de vingança.

Em uma sacada inteligente do texto, é durante um programa de televisão – cujo apresentador é interpretado por ninguém menos do que Robert De Niro – que Fleck, já inteiramente travestido de Coringa, afirma que seu ato não é político, que ele não dá a mínima para isso. Ele se torna um símbolo contra o poder da elite de Gotham City, mas não é o que intenciona. Esse é a forma como os outros o veem. O Coringa em si não se importa com a dor e sofrimento de outros, somente com os seus próprios.

O filme é centrado na trajetória de Arthur Fleck. De comediante frustrado que sofre de uma rara condição psicológica, o levando a rir de maneira incontrolável sem motivos aparentes (mesmo quando esta não é a emoção correspondente à situação que se desenrola ao seu redor), até o florescer de sua índole maníaca e psicopática que resulta no despertar sua natureza homicida. Desde o fracassado que ainda mora com a mãe, Penny (Frances Conroy), cuja saúde debilitada faz com que necessite dos cuidados constantes do filho, até o sujeito revoltado ao descobrir que toda sua vida não passou de uma mentira, mesmo a possível paternidade da qual suspeita lá pelas tantas.

Coringa encontra em Joaquin Phoenix um grandioso intérprete. Não há espaço para comparações com a também excelente atuação, premiada com um Oscar, do saudoso Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) de Christopher Nolan. A performance de Phoenix é assombrosa, especialmente no ato que foca na transição do personagem. O ator é convincente ao portar um tipo excêntrico, atormentado e completamente sádico, que sente um prazer sombrio na violência e encontra um meio de sanar sua dor executando desafetos sem moderação. A escalação do intérprete é um dos grandes acertos da obra. Porém, Coringa não é apenas um veículo para Phoenix brilhar ou concorrer a premiações.

O roteiro é preciso na abordagem da vida miserável do, então, futuro vilão e ao explorar as diversas camadas que compõem o personagem. Também se arrisca ao introduzir uma versão de Thomas Wayne (o pai do Batman, aqui vivido por Brett Cullen) que passa longe do bom-mocismo com o qual ele é constantemente retratado.

O longa é permeado por uma aura de tensão constante. A fotografia investe em um clima sombrio e tortuoso, corroborado por uma cartela de cores esmaecidas, tão contrastante com o figurino de um palhaço tradicional ou mesmo do próprio Coringa em histórias mais antigas do Batman (com seus tons vivos de roxo, verde e vermelho que conferiam a ele um ar ainda mais psicótico). A montagem, por sua vez, dá vazão à atmosfera de delírio na qual o personagem vive. Sobretudo, Coringa se destaca como um magistral estudo de personagem em toda a sua complexidade. Uma bem-sucedida leitura do tipo criado por Bob Kane e Bill Finger (ainda que carregada de licenças poéticas). Um pontual exercício de construção de um vilão. E não se trata de qualquer vilão, mas de um dos mais icônicos da cultura pop. E a despeito dos temores de alguns, ele funciona muito bem em um filme solo.

Este, aliás, não se trata de uma produção baseada nas histórias em quadrinhos de Batman pura e simplesmente, passando longe do padrão estabelecido para adaptações cinematográficas de HQs de heróis, mostrando como esse universo se expandiu nas telonas. Após os personagens de quadrinhos dominarem a indústria do cinema, é mais do que compreensível que obras do tipo apostem em gêneros e embalagens diferenciadas, visando mais do que a categoria “filme para todos os públicos”. Foi assim com Logan, é assim com Coringa. O importante, no entanto, é que o longa mantém a essência do vilão que conhecemos do material original.

É gratificante (na falta de outra palavra mais apropriada), para quem conhece o personagem de seu meio de origem, ver que não o transformaram em herói, anti-herói (como Venom), justiceiro, defensor dos fracos e oprimidos. Ele sequer luta por algo. Suas motivações são puramente egoístas. Fleck sempre age pensando em si mesmo. Portanto, não acredito que o filme possa resultar em uma influência negativa ou que celebra o comportamento incel. Não o vejo como um exemplar problemático ou perigoso, pois o texto deixa nítido que não há defesa para os atos do Coringa.

Dentro do gênero de filmes extraídos de quadrinhos, também é bom ver um longa que se fecha em si mesmo e não se rende à condição episódica.

Particularmente, eu sempre achei que o “charme” do personagem estava no fato de ele não possuir uma origem definitiva (nos quadrinhos, sempre foram tratadas como “supostas origens”, inclusive a de A Piada Mortal). E, talvez, possamos encarar dessa maneira a trama que é contada no filme, como uma história de origem alternativa. Como já dito, não há justificativa para sua insanidade. O Coringa não precisa fazer sentido.

A participação de Bruce Wayne (Dante Pereira-Olson), ainda como um garotinho, é inserida de modo eficaz na história, sem forçar a barra. Mesmo o lugar-comum dos pais de Bruce sendo alvejados e tendo suas vidas ceifadas é bem contextualizado na trama. Para os fãs, há um easter-egg interessante nessa sequência: pouco antes dos disparos que os vitimam, os Wayne aparecem saindo de um cinema que estava exibindo Um Tiro na Noite – mais propício, impossível – e A Outra Face de Zorro – personagem que serviu de inspiração para a criação de Batman.

Falando nisso, aqui, o Coringa tem uma importância ainda maior na história do Homem-Morcego, ao contribuir indiretamente para o surgimento do herói, sendo o responsável pelo motim e caos generalizado que tomam Gotham City já tão assolada pela corrupção e sordidez.

Se há deméritos, estes são o fato de o longa ser carregado de uma extrema seriedade (o que nos leva a exclamar quase involuntariamente “why so serious?” com o perdão da piadinha infame) e também algumas passagens que soam por demais expositivas, como o momento que mostra que a relação de Arthur com Sophie (Zazie Beetz) não passa de um desvario de sua mente delirante.

Para finalizar, deixo aqui uma reflexão: Nunca conheça seus heróis, pois você corre o risco de se decepcionar. Mas conheça profundamente os inimigos e vilões contra os quais se luta 😉

Andrizy Bento

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