Mulher-Maravilha 1984

Desejos são perigosos. Eles vivem de sua insatisfação. Você já deve ter ouvido milhares de vezes a frase: “tome cuidado com o que se deseja. Às vezes, os desejos podem se realizar” e variantes dela. Pois bem, esse é o mote de Mulher-Maravilha 1984, sequência do bem-sucedido longa lançado em 2017 que, infelizmente, em termos de narrativa, não manteve a qualidade de seu predecessor.

Patty Jenkins novamente ocupa o posto de diretora, enquanto Gal Gadot assume mais uma vez a indumentária característica da amazona. O filme ainda conta com o retorno de Chris Pine e as importantes adições de Kristen Wiig e Pedro Pascal ao elenco. Aproveito que comecei o texto com frases de efeito e peço licença para utilizar outra “em time que está ganhando não se mexe”. Não se mexe, mas podem-se fazer uns acréscimos. De qualquer modo, essa máxima não funcionou com Mulher-Maravilha 1984.

O roteiro, escrito a seis mãos – uma parceria entre Jenkins, Geoff Johns e Dave Callaham – é repleto de furos e soluções simplistas. Gadot tem um biótipo ideal para encarnar a heroína nas telas, mas neste fica devendo no quesito dotes interpretativos. Ok, ter carisma e boa presença de cena, além de contar com um bom diretor que o ajude a contornar essa falha, por vezes, é o suficiente (Keanu Reeves é uma prova concreta e incontestável disso), mas infelizmente, não é o que acontece aqui. Continuando a sequência de desastres, a volta de Steve Trevor (Pine) é mal resolvida e até mesmo bizarra. E, falando em bizarrices, Wiig e Pascal se esforçam para dar alguma dignidade e substância para suas caricatas personagens, vítimas de um péssimo trabalho de tradução das comics para as telas, mas o roteiro não colabora, não estando a favor dos dois.

O longa é ambientando no ano de 1984, como o próprio título deixa evidente. Diana Prince (o alter ego da heroína) se adaptou bem ao cotidiano de Washington, onde mora, dividindo seu tempo entre a humana aparentemente comum que trabalha no Museu Smithsonian, e a heroína superpoderosa que se empenha na tarefa de combater a criminalidade, salvar pessoas indefesas de assaltos e atropelamentos e vem sendo notícia constante em telejornais. Como a narrativa se situa na década de 1980, convém lembrar que os Estados Unidos se encontravam em plena Guerra Fria com a União Soviética (conflito que se arrastava desde a década de 1960); o consumo desenfreado pautado pela cultura telemaníaca andava a passos largos; e a moda espalhafatosa e exageradamente colorida estava em alta. Tudo isso é bem representado esteticamente, mas surge de maneira frágil, tendenciosa e superficial na narrativa.

O elemento que move a trama trata-se de um artefato conhecido como Dramstone (Pedra do Sonho em bom português). A relíquia misteriosa é investigada pela gemologista e arqueóloga Barbara Ann Minerva (Wiig), colega de Diana no museu em que trabalha e que não poderia ser mais diferente da protagonista. Barbara é tímida, desajeitada e totalmente desprovida de autoconfiança. Aparentemente, a pedra é capaz de conceder desejos a quem tocá-la. Pelo menos é isso o que diz a inscrição em latim contida no artefato e que é lida sem dificuldades por Diana.

Obviamente, Diana, ainda melancólica pela perda de seu grande amor no filme original, deseja que Steve retorne à sua vida. Barbara, por sua vez, deseja ser bela, sofisticada e poderosa como Diana. Para completar, o empresário, pseudo-milionário e personalidade da televisão, Maxwell Lord (Pascal), famoso pelas propagandas enganosas que estrela, surge no caminho de Barbara. Enquanto a gemologista estuda o artefato e busca avidamente por pistas relacionadas a ela, o principal antagonista da história a seduz, convencendo-a a entregar a pedra a ele. De posse do objeto, Lord deseja ser a pedra. Desse modo, quem o tocar terá seu desejo concedido, não importam as consequências. Obviamente, não demora muito para que se instale um caos generalizado abrangendo diversos cantos do mundo.

Visualmente fantástico, o longa se excede aqui e ali e soa por demais contemplativo em alguns momentos. Algumas passagens, ainda que esteticamente exuberantes, soam forçadas e desnecessárias. A sequência do 4 de julho, por exemplo, é um espetáculo pirotécnico, mas não faria falta se não estivesse lá e se apresenta como pura conveniência narrativa. Contudo, nos quesitos fotografia, direção de arte e efeitos especiais, o longa mais acerta do que erra. O grande problema está mesmo no texto.

É divertido ver a inversão de papeis entre Diana e Steve. Se no primeiro, ele é quem tinha de lhe apresentar um mundo e uma realidade com os quais a heroína vinda de Themyscira não estava familiarizada, agora é Diana que precisa situar Steve no multicolorido e confuso ambiente oitentista. Essas cenas garantem alguns momentos mais leves e descontraídos – apesar de algumas derrapadas e clichês – a uma trama essencialmente pautada pela ação desenfreada e fantasia escapista. A trama também destaca mais o aspecto romântico de sua relação, mas não deixa de ser incômodo o fato de que Steve esteja usando o corpo de outra pessoa totalmente alheia ao acontecimento. Nos lembramos disso apenas quando o personagem se olha no espelho. E o fato de Pine portar novamente o personagem, é justificado de maneira reducionista, com Diana dizendo que o verdadeiro Steve é tudo o que ela consegue ver.

Há, sim, um bom equilíbrio entre os elementos narrativos, sendo o humor, o romance e a ação bem pontuados. A sequência de perseguição na estrada é muito bem executada e uma das mais memoráveis do conjunto. O tema musical da heroína, composto por Hans Zimmer e introduzido no problemático Batman V Superman, ainda confere aquele ar de imponência à amazona e não perdeu o impacto nesta continuação. Mas não há muito mais a se elogiar.

Mulher-Maravilha 1984 transcende a aura de épica e flerta com a megalomania, passando do ponto e sobrecarregando a narrativa de informações, mas sem dar um fechamento adequado à trama e subtramas. Há elementos que são jogados no meio da história e nunca são bem fundamentados, por exemplo: a capacidade de Diana de tornar um enorme objeto (uma aeronave) invisível – um poder que ela mesma afirma que ainda está desenvolvendo, só conseguiu praticá-lo uma vez e ainda com certa dificuldade. No entanto, aqui, ela o executa com perfeição. A história envolvendo Maxwell Lord e seu filho é puro clichê. A transformação física da personagem de Wiig em Mulher-Leopardo é uma forçação de barra que desce quadrado pela garganta.

Não há um único momento de emoção genuína, com o filme limitando-se a ser melodramático. Por último, tem a vibe de feel good movie de Natal, respaldada pelo final positivo e otimista (como se os seres humanos, egoístas por natureza, realmente fossem capazes de desistir de seus próprios sonhos e desejos mais profundos em prol do coletivo). O simplismo do encerramento o aproxima das propagandas natalinas cafonas e metidas a edificantes que estamos saturados de ver todo fim de ano na televisão aberta.

Aqui faço um adendo: suspender a crença é algo inerente a qualquer filme de super-herói ou que se passe em um universo fantástico. Entretanto, é bem difícil comprar a ideia de que a raça humana, tão individualista, abriria mão de um desejo particular em virtude do bem comum a todos. É exigir demais do espectador que este aceite tanta nobreza e altruísmo vindos do ser humano, mesmo em uma obra de ficção.

Por essas e outras, a melhor palavra para definir Mulher-Maravilha 1984 é bolo de noiva. Um exagero cinematográfico, com uma embalagem e forma bonita, mas com um conteúdo enjoativo e quase indigesto. Até mesmo a cereja – a participação de Lynda Carter que viveu a amazona na série de TV produzida na década de 1970 – não dá aquele sabor especial. A cena escondida no meio dos créditos e protagonizada por ela é engraçadinha, mas tão forçada quanto o restante do longa.

Andrizy Bento

2 comentários em “Mulher-Maravilha 1984”

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