Adoráveis Mulheres

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“Quem se interessa por uma história de lutas e alegrias domésticas?”

Pelo visto, muita gente. Afinal, o livro de Louisa May Alcott é um sucesso de vendas que vem atravessando e encantando gerações há mais de 150 anos, uma vez que sua primeira publicação data de 1868. Considerada atemporal, a obra já ganhou inúmeras adaptações para televisão e cinema, sendo a versão de 1933, estrelada por Katharine Hepburn, uma das mais famosas, premiada com um Oscar de melhor roteiro e indicada às estatuetas de melhor direção e melhor filme. Uma das adaptações mais recentes a ganhar as telas foi lançada em 1994, protagonizada por Winona Ryder e, possivelmente, é a que esteja mais viva na memória dos fãs do livro. Pelo menos até agora. A talentosa cineasta Greta Gerwig (que roteirizou e estrelou o cultuado Frances Ha de Noah Baumbach e assinou a direção de outro indie bem-sucedido, Lady Bird: A Hora de Voar) é a responsável pela sexta adaptação cinematográfica da obra de Alcott para o cinema e realiza um bom trabalho de transposição deste clássico da literatura para a telona.

Apesar de se tratar de uma trama de época, Greta consegue dar uma boa atualizada no texto, fazendo com que seu filme passe longe de soar datado ou anacrônico. Ajuda o fato de que, em muitos aspectos, a história original guarde paralelos com a realidade atual e tantas outras questões apresentadas na narrativa de Alcott, para o bem ou para o mal, ainda estejam em foco e debate nos dias de hoje.

A história é centrada nas irmãs March: Jo (Saoirse Ronan), Meg (Emma Watson), Amy (Florence Pugh) e Beth (Eliza Scanlen). Quatro garotas adoráveis e com inclinação para a arte que crescem entre os anos de 1861 e 1865, ao lado da mãe (Laura Dern) e da fiel governanta Hannah (Jayne Houdyshell) ao mesmo tempo em que lidam com a ausência do pai (Bob Odenkirk), que está servindo na Guerra Civil dos Estados Unidos. Enquanto enfrentam os desafios de amadurecer em uma época que ser uma mulher bem sucedida era sinônimo de arranjar um bom casamento com um ótimo partido, elas permitem-se sonhar, pelo menos enquanto a vida lhes proporcionar esse privilégio, não descuidando de suas responsabilidades, mas sempre reservando um tempo para seus hobbies que incluem teatro, literatura, música e pintura. Vivendo em uma casa pequena com condições financeiras modestas, logo o abastado Mr. Laurence (Chris Cooper) e seu neto, Theodore, mais conhecido como Laurie (Timothée Chalamet), entram na vida das garotas, causando profundas mudanças em suas rotinas e na forma como as quatro se relacionam umas com as outras. 

A protagonista, Jo, apresenta ao longo de todo o filme questionamentos acerca da instituição do casamento e do papel da mulher na sociedade – tão limitado pelo forte domínio do patriarcado. Ela quer ascender por seu próprio esforço e mérito, aprecia sua liberdade e não tem intenção nenhuma de se casar. Porém, confunde esse desejo com o temor de explorar diferentes possibilidades, de se permitir viver, expressar e desfrutar de seus sentimentos. Uma coisa, no entanto, não anula a outra. Jo pode, sim, ser forte, livre e independente e viver um grande amor. Mas ela demora um pouco a fazer essa descoberta.

A trama intercala presente e um passado não tão distante – mais propriamente dizendo, sete anos antes do ponto em que a narrativa tem início – mostrando os contrastes entre esses períodos na vida do clã March e as profundas mudanças e transformações que atravessaram as quatro irmãs durante esse meio tempo. Há semelhanças e diferenças entre os anos inocentes de juventude – em que elas viviam todas sob o mesmo teto, então solteiras e descobrindo o amor – e a vida adulta, na qual elas precisam lidar com as consequências e o peso de suas escolhas. As coisas estão mais difíceis no “presente”. Repousa sobre os ombros de Amy a ingrata tarefa de desposar um homem rico, já que Jo mantém a postura anti matrimônio; Meg se apaixonou por um rapaz humilde, casou-se e teve dois filhos com ele; e Beth está gravemente doente e conformada com a possibilidade de morrer. A época de inocência em que viviam no escuro quanto às agruras da vida e tudo parecia remediável e contornável se foi. É hora de encarar a realidade.

O que surpreende no cinema de Gerwig é seu talento singular em conseguir transportar o espectador para dentro da mente e do coração dos personagens, sendo precisa ao captar seus sentimentos, dilemas e conflitos internos. A cineasta também é especialista em retratar os dissabores juvenis; os dramas e delícias de uma fase tão conflituosa da vida em que as cobranças individuais e da sociedade sempre pesam nos ombros, não importa a época retratada. Sempre apostando em narrativas intimistas, cujo núcleo é o indivíduo, Greta parece ter um olhar pessimista do mundo ao redor das jovens mulheres que protagonizam suas tramas. Entretanto, o foco nos fracassos e nas dores vivenciadas e sofridas é apenas o meio. Apesar de tudo, ela é otimista quanto aos finais, mostrando mesmo com todos os pesares, a vida ainda pode dar certo e tudo mais é experiência. Imperativa, convém dizer.

A força dessa nova adaptação de Little Women reside, sobretudo, em seu elenco, muito bem escalado. Todos os atores defendem seus personagens com paixão e Greta os dirige com admirável destreza. Somado a isso, o texto também faz questão de conferir importância a todos os personagens, ao contrário de versões anteriores em que o foco era exclusivamente Jo. Aqui, a figura interpretada por Saoirse ainda é o elemento chave que costura os arcos narrativos, mas o roteiro é generoso com cada um dos personagens, garantindo um espaço e tempo de tela adequado para todos. As quatro irmãs possuem personalidades bem definidas – em determinados pontos similares, em outros, contrastantes. A relação de cada uma com determinada forma de arte ou como lidam com questões como carreira e casamento, lhes dá espessura e profundidade. Laura Dern e Meryl Streep (no papel da rica e solteira Tia March) estão ótimas como de costume.

Lógico que por versar essencialmente sobre independência e liberdade feminina, os personagens masculinos se resignam a meros papéis de coadjuvantes. Não que eles não possuam relevância dentro da trama. Muito longe disso. Timothée Chalamet surge com um tipo imaturo, mas simpático, que evolui à medida que a trama corre. Louis Garrel dá vida a um Friedrich Bhaer extremamente charmoso e adorável. Mas eles ficam, realmente, em segundo plano diante dos dramas pessoais das fortes mulheres que dão título ao longa e que tudo o que desejam é conquistar seu espaço no campo do trabalho ou da família.

A obra também se destaca pelo visual requintado e exuberante. A fotografia de Yorick Le Saux é precisa na composição de uma atmosfera bucólica e de uma paisagem invernal e por enquadramentos cuidadosos que valorizam os cenários. Para identificar os dois tempos em que a ação ocorre, oscila entre um tom ora luminoso, ora mais pálido. A paleta de cores reveza o dourado solar do passado com a frieza do azul e do cinza que colorem o presente. A estética apurada se completa com o caprichado trabalho de Jacqueline Durran (Orgulho e Preconceito, Anna Karenina), que mostra, mais uma vez, toda sua expertise em figurinos de época, e com a direção de arte de Jess Gonchor, responsável por um conceito visual não necessariamente inovador, mas atraente. Se há algum demérito, esse está na montagem que escorrega aqui e ali, com as constantes idas e vindas na narrativa, o que resulta em algumas falhas de continuidade. De qualquer modo, mesmo quando ameaça perder o ritmo, os carismáticos personagens ajudam a manter o interesse do espectador e segurar o fôlego do enredo. Já estamos tão envolvidos com a trama de cada um que é impossível acusar o longa de monótono e entediante.

Tocante e honesto em suas intenções, Adoráveis Mulheres é do jeito que a Academia gosta. Mas, ainda assim, conquista pela sua delicadeza, sensibilidade à flor da pele e por se tratar de uma ode à independência feminina.

Andrizy Bento

 

2 comentários em “Adoráveis Mulheres”

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