Meu Amigo Dahmer

“Ele era um ninguém. Aquele tímido que vira um inválido social quando leva a primeira bordoada da adolescência, que aceita essa sina sem revidar e que se torna praticamente invisível. Passaram meses de aula até eu notar que ele existia. E quem notava o Dahmer, tinha pouco mais que desprezo por ele”.

No prefácio de Meu Amigo Dahmer, o autor Derf Backderf narra, em detalhes, a origem e a produção de sua obra. Foram vinte anos trabalhando nesta que começou como uma HQ de oito páginas, evoluiu para uma história de pouco mais de 20 páginas publicada de maneira independente até, enfim, se transformar em um livro de 288 páginas, repleto de material extra, como fotos, passagens deletadas, rascunhos originais, notas e outros itens que o quadrinista cuidadosamente reuniu a fim de tornar a sua obra a mais completa possível e a maior referência a respeito do sociopata Jeffrey Dahmer.

E, falando sobre o protagonista dessa história real, é difícil dizer se alguém era capaz de ajudar Dahmer a se salvar de si mesmo. Não há resposta para isso e nem o autor da HQ tem essa pretensão, ainda que tenha sido amigo pessoal dele no colégio. Mas que o ambiente familiar infernal contribuiu para sua destruição, é inegável. Isso não é o suficiente para justificar o comportamento doentio de Dahmer, mas, sem dúvida, teve sua parcela de responsabilidade. Ele era perturbado e precisava de ajuda e ninguém percebeu. Nem pais, nem professores; os pais foram negligentes, pois estavam focados demais em seus próprios problemas conjugais para perceber que o filho não agia normalmente.

Parece horripilante sentir alguma empatia por um assassino em série que canibalizava os restos mortais de suas vítimas, mas é inevitável ao longo da narrativa. Antes de se tornar o monstro que ganhou as páginas dos noticiosos com seus crimes brutais, Jeff foi um adolescente que tentou se encontrar, sem sucesso. O autor mostra o frágil lado humano do retratado, antes de ele se perder para sempre. Como o próprio autor sugere, a simpatia acaba quando ele começa a matar. Porém, embora a mente dele tenha sido um lugar horrível para se viver, creio que a tragédia e a carnificina poderiam ter sido evitadas. Bastava que aqueles ao seu redor olhassem mais atentamente para ele ou parassem de fazer vista grossa para seus evidentes problemas comportamentais. Bastava, também, que ele quisesse procurar ajuda. O que fica evidente, é que ele desistiu de si mesmo.

Recomendo a leitura de Meu Amigo Dahmer, lançamento primoroso da divisão de graphic novels da editora DarkSide Books, com hard cover e tradução impecável. Espetacular o traço. O estilo caricatural imprime mais leveza a uma história densa, mas ganha contornos sombrios quando a narrativa exige. Leiam quando possível e tirem suas próprias conclusões.

Lembrando que o filme baseado nessa história deve chegar ainda este ano aos cinemas de todo o país.

Andrizy Bento

 

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