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Indicados a Melhor Filme – Oscar 2013

Amor ★★★★

Belo e trágico talvez seja a melhor forma de definir Amor, filme de Michael Haneke, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2012. Contando com as atuações poderosas de Emmanuelle Riva (merecidamente indicada ao Oscar e premiada no Bafta) e Jean-Louis Trintignant, Amor talvez seja o filme, dentre os indicados, que mais impacte o espectador, ainda que se trate de uma trama simples e intimista. Georges e Anne são dois músicos cultos e aposentados, que partilham do bom gosto pela arte e seguem sua rotina sem grandes surpresas. Demonstrando em cada quadro do longa a intimidade, o respeito e o amor (sem muitas demonstrações de afeto, mas sim, o amor está lá) que sentem um pelo outro, a doença vem de forma inesperada se abater sobre o casal. Anne sofre um derrame e, gradativamente, vai padecendo. Aí é que o título do filme faz jus à narrativa que se desenrola na tela e ao próprio sentimento universal, e vemos todo o esforço de um marido dedicado ao cuidar de sua mulher até o inevitável fim.  A evolução da atriz em cena é assombrosa. Com uma câmera singela e elegante e longos planos estáticos, o diretor conduz a narrativa com sutileza, embora se trate de uma história contundente. Haneke abre mão da trilha sonora e aposta em momentos de silêncio (que, ironicamente, conseguem ser bastante prolixos), ao invés de injetar dramaticidade com temas musicais que apelariam facilmente para o emocional do público. O filme se passa quase inteiramente em apenas uma locação, o apartamento aonde vive o casal protagonista, e o cenário é bem explorado, além de adequado, uma vez que transfere ao espectador uma sensação claustrofóbica, de se fechar para o resto do mundo e de fim iminente. Amor é a epítome da deterioração do ser humano, mas nunca de suas relações e sentimentos, versa sobre a ironia da vida e coloca em pauta questões polêmicas; como, por exemplo, um ato cruel – que é o grande momento do filme – não pode e nem deve deixar de ser legitimado como um ato de amor. O longa de Haneke é lírico e cru. De extrema frieza em diversas passagens, mas, ainda assim, capaz de fazer aflorar as mais diversas emoções no espectador.

Argo ★★★

Baseado em fatos reais, Argo é um thriler político correto, mas que tem seus encantos. O mote do longa é uma operação de resgate de diplomatas americanos no Teerã, durante o que ficou conhecida como Crise de Reféns no Irã. O agente secreto, Tony Mendez, é o responsável pela elaboração de um plano tão brilhante quanto absurdo para resgatá-los: a produção de um filme falso com tudo a que se tem direito. Desde o roteiro com uma proposta sci-fi, claramente inspirado em Star Wars, até coletiva de imprensa. A audácia do agente acaba por convencer a CIA e eles começam a operação. O tom de crítica a Hollywood, é público e notório. Mas o fascínio que a indústria exerce sobre ator/diretor Ben Affleck também. Dessa forma, nem a magia do cinema e nem o fake da indústria é descartado do roteiro. A trama toda é muito bem arquitetada. Tanto o minucioso desenvolvimento do ousado plano, quanto a alta carga de tensão na segunda metade do filme, capturam a atenção do espectador que se vê rapidamente envolvido com a história. Apesar de dirigir com mão segura e mostrar maturidade como cineasta, ainda não se pode dizer que Affleck tem um estilo. O filme passa longe de ser burocrático, mas também não é correto chamá-lo de cinema de autor. Ele opta por soluções cinematográficas eficientes na hora de desenvolver a trama na tela. A câmera ágil e detalhista, diálogos afiados, trilha sonora retrô, tomadas eficientes e direção de fotografia que explora bem as locações, contribuindo para o sucesso artístico do filme. A sequência final, que mostra bonecos dos personagens de Star Wars e Star Trek no quarto do filho do protagonista, é um achado. Argo tem sido apontado como o grande favorito a vencedor da estatueta de Melhor Filme deste ano. Até agora, ele faturou vários prêmios importantes como o Globo de Ouro, SAG e Bafta. Uma pena não ter sido indicado a Melhor Diretor, dado os méritos de Affleck na função. Vamos ver se o Oscar subverte suas regras e premia um filme que não concorre nesta categoria.

As Aventuras de Pi ★★★★

Ang Lee é um diretor raro. Além de um exímio contador de histórias, é um mestre na hora de criar visuais soberbos. Seus filmes não são outra coisa que não espetáculos cinematográficos. E o cineasta só vem evoluindo ao longo de seus últimos filmes. As Aventuras de Pi narra a história do indiano Piscine Patel (Sim, Piscina), o único sobrevivente ao naufrágio de um navio que transportava sua família e os animais do zoológico de seu pai para o Canadá, para onde partiram em busca de uma nova vida. O que seria apenas a luta pela sobrevivência de um garoto em um bote salva-vidas, se torna uma aventura repleta de elementos fantásticos, com direito a um tigre de bengala com quem Pi deve tentar manter um relacionamento amistoso se quiser sobreviver. Não é fácil, mas com muita persistência e perspicácia, o garoto consegue e, logo, o tigre se torna seu “temido amigo”, com quem ele encara o desafio de resistir em alto-mar, encarar tempestades oceânicas e uma ilha carnívora. A fotografia é esplendorosa. O que testemunhamos na tela é uma aventura exuberante. Mais do que isso, As Aventuras de Pi narra uma jornada de fé, esperança, coragem e companheirismo. A moral da história no final, pode fazer com que a narrativa empalideça um pouco. Mas até lá, o diretor já conseguiu nos conquistar com a aventura do garoto indiano e seu tigre perdidos no meio do oceano. Com um trama repleta de metáforas e contada com extrema sensibilidade, temos mais uma vez a constatação de que Ang Lee faz cinema como poucos.

Django Livre ★★★★★

Django Livre é uma história de amor e de vingança. Mas é um filme de Quentin Tarantino, portanto, ainda que parta de premissas simples, o cineasta jamais trilha caminhos óbvios. Tarantino continua fiel às suas obsessões. Homenageando, reinventando e subvertendo gêneros. Dessa vez, ele conta a história de Django, um escravo em busca da liberdade da amada, que tem a sorte de encontrar em seu caminho um perspicaz e audacioso caçador de recompensas que quer a sua ajuda para mais um de seus serviços. Tarantino não abre mão de seu estilo e dos elementos que o consagraram como cineasta. Mas desta vez, é mais contido, e apresenta uma maturidade e evolução inquestionáveis como diretor. As referências pop obscuras estão lá, bem como doses cavalares de violência, mas em menor número do que em seus filmes anteriores. Os excessos ficam por conta dos diálogos repletos de palavras de baixo calão e algumas sequências catárticas no clímax do filme. A narrativa é mais linear, sem muitos flashbacks e quebras cronológicas. A trilha sonora, como sempre, é um espetáculo à parte. Vai do blues e do folk até o hip-hop contemporâneo. Com uma gama de personagens bem construídos e um excelente desempenho de todo o elenco, pode-se dizer que este é o trabalho mais sóbrio e maduro do diretor. Tarantino é mais do que bem-sucedido em sua ode ao western spaghetti.

A Hora Mais Escura ★★★

Correto e ambicioso, A Hora Mais Escura é provavelmente o filme que mais desperta emoções controversas no espectador. Na caçada ao inimigo número 1 dos Estados Unidos, Osama Bin Laden, como podemos delinear o lado dos mocinhos e vilões? De fato, não podemos. A vida não é maniqueísta como tantos filmes hollywoodianos insistem em apregoar. E Kathryn Bigelow é uma cineasta suficientemente inteligente para perceber isso e não se deixar levar pela fórmula do heroísmo que tanto ronda outras tramas com temática de guerra desde os primórdios do cinema americano. Em nenhum momento, ela defende ou exalta a América. Ela está mais preocupada em contar uma história, em esclarecer o episódio da caçada de Bin Laden, não se esquivando de apresentar, em um tom que por vezes soa documental, os eventos que levaram até a morte do terrorista por um soldado americano depois das conclusões certeiras de Maya (Jessica Chastain) acerca de seu paradeiro. A atuação de Chastain é excelente. Está na evolução de sua personagem, um dos maiores méritos do filme. Denso, violento, impactante, Bigelow conduz a trama com mão segura, com ritmo apropriado, dando uma veia realista ao seu filme, mas não deixando de compor uma obra cinematográfica técnica e esteticamente primorosa, especialmente no que diz respeito à construção de imagens e ao cuidadoso jogo de luz e sombras. As tão comentadas cenas de tortura no início do longa, apesar de filmadas de maneira crua, não chegam a chocar. Bigelow não as justifica em nenhum momento. Há um objetivo na execução delas, mas o longa jamais se presta a fazer juízo de valor. É simplista dizer que A Hora Mais Escura é, como muito se alardeou, mais um retrato da vitória dos heróis americanos. É mais um retrato de um momento de impacto da história contemporânea. Um episódio que gerou comoção e despertou a curiosidade de tantos. Na tela, conferimos o desenvolvimento da operação, sem grandes exaltações à bandeira americana.

Indomável Sonhadora ★★★

As agruras de uma vida miserável e um mundo selvagem através do olhar inocente de uma criança. Indomável Sonhadora, longa de estreia de Benh Zeitlin, que obteve merecido destaque e foi premiado em Sundance e Cannes, explora a relação de uma garotinha com o seu pai, que vivem na Banheira, uma ilha isolada e fictícia, situada numa região pantanosa de Lousiana, que acaba inundada após uma tempestade. Toda a comunidade precisa se virar e lidar com as consequências desse evento trágico, mas o peso maior está sobre os ombros da pequena e adorável Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) que, além de tudo, ainda vê seu pai, a única família que possui, ficar gravemente doente. A garotinha, indicada ao Oscar de Atriz com apenas nove anos de idade, exibe uma força impressionante como protagonista. A performance dela é marcante e, provavelmente, definirá sua carreira durante muito tempo. Com um enredo muito simples, melancólico e honesto, Indomável Sonhadora é bem-sucedido em mesclar elementos de realidade e fantasia. A câmera de mão, inquieta e trepidante, imprimem realismo à trama e contribuem para trazer ao longa um tom praticamente documental. Outras cenas têm como alicerce a imaginação prodigiosa da garotinha que dão um tom mágico ao filme. É nesse preciso equilíbrio entre o realismo e o fantástico, o drama de cunho social e a fábula, que reside a força e o encanto do longa. Se beneficiando de boas tomadas e excelente uso das locações, Zeitlin presenteia o espectador com um filme claro e direto, genuíno, sem grandes pretensões. Uma obra que mostra que mesmo diante dos maiores obstáculos e desafios da realidade, crianças são crianças, e não devem deixar de sonhar e idealizar um mundo diferente daquele em que se vive. Isso sem precisar recorrer a fórmulas maniqueístas e ao melodrama. Em suma, um belo filme.

O Lado Bom da Vida ★★★★

Apaixonante. Talvez seja a melhor forma de descrever O Lado Bom da Vida. Mas não apaixonante como uma comédia romântica. Digamos que possa ser considerado um sopro de vida dentro do gênero – hoje tão famigerado. Há tempos que eu não via uma história de amor interessante, intensa e honesta como essa no cinema atual. Chamado por aí de dramédia-romântica, essa classificação até que lhe cai bem. O Lado Bom da Vida do esforçado David O. Russell conta com um roteiro bem costurado, ótimas sacadas e se beneficia das presenças inspiradas e química arrebatadora do duo principal, composto por Jennifer Lawrence e Bradley Cooper. O roteiro acerta na composição de personagens disfuncionais que dão o tom exato ao filme e no desenvolvimento de um plot simples, mas atraente e interessante. Recheado de diálogos espertos e afiados, o longa procura fugir de saídas e soluções óbvias, e é bem-sucedido nesse quesito. Mesmo que a gente já saiba de antemão como a história vai terminar, acompanhar o desenrolar da trama é uma delícia. O filme também me ganhou pela trilha que vai de Stevie Wonder a White Stripes, passando por Bob Dylan. Aliás, a música é muito bem utilizada nesse filme – o fato de a canção-tema do casamento do protagonista ser também trilha sonora da traição e depois o estopim para suas explosões emocionais, é um achado. E a trilha incidental de Danny Elfman dispensa comentários, precisa e marcante. Lawrence mostra sua força como protagonista numa performance segura e extrai risadas do espectador com um timing cômico certeiro, como no momento em que revela suas experiências sexuais pós-trauma pela morte do marido. E falando em cenas inspiradas, toda a sequencia em que os personagens combinam uma aposta que envolve um jogo de futebol americano e um campeonato de dança é muito boa. Todos estão bem em cena, como Jacki Weaver, uma ótima surpresa, e Robert De Niro que há muito nos devia um desempenho interessante em um filme decente. Pode não ter nada de inovador, ser um dos azarões na categoria principal do Oscar, pode nem mesmo ser considerado um filme de Oscar, mas é fato que temos aqui um bom exemplar de comédia romântica atual. Ou dramédia-romântica, seja lá como chamem.

Lincoln ★★★

Steven Spielberg é sempre bom. Quando se propõe a fazer ficção. Contudo, quando se atreve a ser político e engajado demais, a coisa, não raramente, degringola. Embora mantenha seus méritos como diretor, a mensagem e a proposta de seu filme pecam. Não tanto pelo patriotismo exacerbado (de certa forma, até compreensível), mas por romancear demais a narrativa, enchê-la de floreios e de um tom melodramático dispensável. Felizmente, Lincoln escapa desse ufanismo e romantismo excessivo. Com um belo trabalho de reconstituição da época e amparado por um excelente elenco, o cineasta optou por retratar um dos momentos mais importantes e decisivos da história dos Estados Unidos (a aprovação Décima Terceira emenda, cujo objetivo era abolir a escravatura) e, dessa forma, ao invés de uma cinebiografia tradicional, o longa contempla os quatro últimos meses de vida de Lincoln, um recorte apropriado da história do mais emblemático dos presidentes da Terra do Tio Sam e do próprio país. O estilo autoral de direção de Spielberg não passa despercebido. O rigor na composição dos quadros, a fotografia bem trabalhada que corrobora o contexto histórico no qual a ação se desenvolve, a maquiagem e a ótima caracterização de Daniel Day-Lewis são dignos de nota. Excelente em aspectos técnicos, a trama enfadonha aqui e ali, é até enxuta, abandonando os contornos épicos – presentes em demasia em outros trabalhos do diretor – em favor de uma narrativa mais intimista que apresenta algumas falhas históricas. Não há muito de memorável nesse longa. Mas facilmente leva o Oscar por retratar de maneira contemplativa e reverencial o icônico presidente. O longa acerta em humanizar Lincoln – ao mostrar momentos do presidente com sua família, por exemplo – mas enaltece sua figura em vários momentos com um tom deveras solene demais que chega a ser incômodo. Talvez o aspecto que torne o filme relevante no presente contexto, sejam as discussões sobre igualdade que fazem alguma referência a questões mais atuais (como o casamento homossexual). Poderia ser um filme pertinente, mas é exaltado e um tanto quanto pretensioso em suas intenções, Lincoln é bastante coeso, mas também muito verborrágico.

Os Miseráveis ★★

Assassinar uma obra tão imponente como Os Miseráveis é uma tarefa árdua mesmo para Tom Hooper que ainda não aprendeu a filmar direito. E só por isso, esse filme não consegue ser uma perda de tempo total. Mas toda a grandiosidade de um drama tão belo presente nas páginas do livro do francês Victor Hugo, se perde na transposição para as telonas. Na verdade, o longa de Hooper se aproxima mais da versão dos palcos e não consegue se desvincular do tom teatral. Outro ponto que depõe contra Os Miseráveis é o fato de ser inteiramente musical. Não é todo mundo que aprecia o gênero, mas mesmo quem gosta tende a se decepcionar com o filme, visto que todos os diálogos, com algumas poucas exceções, são musicados. O que o torna um tanto farsesco demais e complicado de digerir. Geralmente, quando falamos que um filme não é de fácil digestão, é por se tratar de uma trama complexa ou algo do tipo, mas aqui a história é bastante simples. Para quem já conhece o livro ou o musical, sabe que a história se passa na França do século XIX e gira em torno do carismático personagem Jean Valjean (Hugh Jackman) que, depois de passar 19 anos preso por roubar um pão para matar a fome de sua família, assume uma nova identidade e se torna o prefeito Madeleine. Paralelamente, há a história de Fantine (Anne Hathaway), de origem humilde, que procura trabalho para sustentar a filha que está sendo criada (maltratada, na verdade) por uma família que insiste em mentir que a menina está doente e pedem por cartas que Fantine mande cada vez mais dinheiro para que eles possam comprar os remédios necessários. Dessa forma, a mãe da garotinha não encontra outra saída a não ser a prostituição. O destino de Jean Valjean se cruza com o de Fantine e quando esta última está à beira da morte, pede para que Valjean cuide de sua filha, Cosette. Ele vai atrás da menina tendo em seu encalço o inspetor Javert (Russel Crowe) que passa a trama o perseguindo. O filme é de difícil digestão por ser enfadonho demais. O que é surpreendente, uma vez que a adaptação sofreu profundos cortes em relação ao original, a passagem de tempo é muita rápida, tudo acontece rápido demais, por vezes de forma atropelada. Mas o que o torna entediante, é realmente o fato de musicarem cada diálogo, o que, convenhamos, é bem desnecessário, mas foi o modo que Hooper, o medíocre vencedor do Oscar 2011, por O Discurso do Rei, encontrou de contar Os Miseráveis nas telas. Uma pena. Dentre cenas óbvias e alguns momentos espalhafatosos, o que se pode dizer de positivo do filme, é que este conta com algumas boas atuações. Hugh Jackman nem de longe está em seu melhor ou mais memorável papel, mas o carisma, talento e presença de cena do ator australiano já valem o filme. O mesmo para a pequena, porém, efetiva participação de Anne Hathaway, que lhe rendeu uma indicação – e muito possivelmente o prêmio – de Melhor Atriz Coadjuvante no Oscar deste ano. Amanda Seyfried e Eddie Redmayne estão bem, mas Russel Crowe é o principal equívoco do filme, caricato como Javert e, bem, o ator não sabe cantar. Suas cenas musicais são desastrosas e constrangedoras. Esse era um dos filmes mais esperados do ano por muita gente, mas não é surpresa nenhuma que grande parte das pessoas tenha saído desapontada ao término sessão.

Fonte das imagens: imdb

Andrizy Bento

Of Monsters and Men

Of Monsters and Men

Confesso que gosto muito de caçar bandas novas, principalmente aquelas que fazem parte da cena indie. O mais legal disso tudo é que gosto de dar e receber sugestões, mesmo que muitas vezes não concorde com a classificação dada à banda ou ao cantor citado por meus amigos.

O fato é que eu amo música, então ouço muitas delas. Eu amo, venero e respeito muito. Ouço música quando vou ao trabalho e quando volto dele, ouço música durante as tarefas corriqueiras do dia a dia, ouço música quando escrevo – aliás, sem ela dificilmente conseguiria escrever algo decente. Ouço música em todos os momentos da minha vida e, para cada um deles, tem uma composição em especial – geralmente a ouço tanto que enjoo; mas, tempos depois, a escuto como se fosse uma dádiva dos deuses, uma relíquia. Um tesouro guardado com extremo carinho em minhas lembranças.

Nessa eterna busca por tesouros perdidos, verdadeiras relíquias, encontro bandas pouco conhecidas, o que particularmente gosto muito. Gosto porque até alguém comentar sobre essa banda, e/ou eu mesma comentar, ou a banda tornar-se superestimada, ou tornar-se midiática, ela vem a ser a minha propriedade particular, algo que só eu conheço e detenho; algo precioso que preciso guardar religiosamente e quem tem minha total estima. Acham forte? Para algumas pessoas, a música é como uma religião politeísta, então… Não!

E durante essa investigação, pesquisa e procura por algo que me seja agradável aos ouvidos, honesto ao meu gosto indie rock/folk e que me fascine a ponto de ouvir várias e várias vezes, por vários dias, encontrei uma banda que me conectou com a natureza numa lista de músicas do aplicativo 8tracks (Recomendo, para quem gosta de música como eu).

Era uma banda islandesa estranhamente cativante (que de primeira já ganhou alguns pontos comigo porque curto muito as coisas do lado de lá), de nome estranho com membros com nomes mais estranhos ainda.

Nanna Bryndís Hilmarsdóttir (voz e guitarra), Ragnar “Raggi” Þórhallsson (voz e guitarra), Brynjar Leifsson (guitarra), Arnar Rósenkranz Hilmarsson (bateria), Árni Guðjónsson (piano e teclados), Kristján Páll Kristjánsson (baixo) e Ragnhildur Gunnarsdóttir (trompete) são os músicos dessa banda formada em 2010. De acordo com a Wikipédia (Salve!), o grupo começou a ganhar conhecimento depois de ter vencido um concurso anual de bandas na Islândia. Em 2011, o grupo lançou seu primeiro álbum, o “My Head Is an Animal”, com o single “Little Talks”, atingindo, assim, a primeira posição nas paradas de diversos países.

Pra quem quiser ouvir e constatar o que os meus ouvidos apuraram e gostaram, comece por “Little Talks”, passando por “Mountain Sound” até chegar a “King And Lionheart”, que foi o terceiro single lançado recentemente pela banda (vale ver o clipe da música). Vale muito a pena conferir as músicas doces, misteriosas e a riqueza instrumental do grupo. A maioria das canções de “My Head Is an Animal” remete às lendas e histórias fantásticas que são características do folclore da Islândia, país natal dos músicos.

A revista Rolling Stone chamou a banda de novo Arcade Fire e a comparou ao Mumford & Sons num show apresentado em 2011 na Islândia. Pra quem quiser tirar a sua dúvida ao vivo e a cores, a banda fará uma apresentação no Brasil, no Lollapalooza em São Paulo, no mesmo dia que The Killers e The Temper Trap (próxima a ser assunto por aqui).
E bem, já há planos para um novo álbum, mas que de acordo com a vocalista Nanna Bryndís para a revista Rolling Stones será totalmente diferente do que expuseram em “My Head Is An Animal”: “Estamos em um estado de espírito totalmente diferente, um lugar diferente do que estávamos quando escrevemos nosso álbum. O que não é bom ou ruim. É apenas diferente”.

Estou aguardando esse diferente. E espero que vocês queiram aguardar também…

Até a próxima música!

Caroline Silveira

Belo Desastre – Jamie McGuire

Controverso e bem escrito, Belo Desastre tem arrancado elogios e críticas de jovens leitores de todo o Brasil. Lançado originalmente como e-book, o romance de Jamie McGuire se tornou rapidamente um dos mais vendidos do site Amazon. Por aqui, a obra se tornou sucesso na “blogosfera” e foi muito comentado nas redes sociais. As opiniões sobre ele oscilam entre “o melhor livro do ano de 2012” e “Deus me livre viver um amor assim”. O motivo?

Belo Desastre conta a história de Abby Abernathy, que acaba de entrar para a faculdade. Ela já teve seus anos rebeldes, mas tudo o que mais precisa e deseja agora é ser uma nova garota, e isso inclui ficar longe de confusões, bebidas alcoólicas e bad boys.  Mas quando ela conhece Travis Maddox, melhor lutador da área, violento e mulherengo (em outras palavras, tudo aquilo que ela queria e deveria ficar longe), fica difícil resistir.

Os personagens se conhecem durante uma luta vencida por Travis, num lugar pouco apropriado para a “nova Abby”, aquela que só deseja ser uma garota normal e desconhecida para a maioria. Ao som de socos e muita gritaria, eles se conectam imediatamente e, a partir daí, ficar perto um do outro é simplesmente inevitável. Tudo acontece muito naturalmente: a relação começa com uma simples amizade – com Abby sendo uma das poucas mulheres que Travis não tentou levar para a cama – mas aquela que realmente importa para ele. Isso deixa óbvio que ele a vê de uma maneira diferente, fato que Abby tenta, com todas as suas forças, não enxergar.

O papo “não quero estragar a amizade” também existe aqui, mas não são os clichês que fazem de Belo Desastre um dos livros mais comentados do momento. Os personagens são muito complexos e possuem seus próprios traumas, o que os torna completamente errados um para o outro, embora sejam completamente certos. Será que dá para entender?

Jamie, a autora, possui uma narrativa muito boa, que te faz ler o livro muito rápido, mesmo que você não esteja gostando da história. Ela construiu dois personagens confusos e controversos, cuja relação num capítulo lhe faz suspirar e no seguinte lhe deixa querendo jogar o livro na parede. Creio que o fato de Travis e Abby serem tão complicados é que fez a fama do livro, somado com o fato de eles serem muito palpáveis: Abby pode ser eu, você, e Travis pode ser aquele cara que você ama, mas que é muito difícil ficar junto. Acredito que é por isso também que várias jovens estão suspirando por ele, querendo viver um amor intenso e louco como o dos personagens: recheado de brigas intensas, mas com reconciliações quentes e amorosas.

Mas não se pode generalizar. Muitas mulheres querem passar longe de qualquer Travis Maddox, pois ele tem muitos defeitos e está longe de ser o príncipe encantado. Com seu jeito ciumento, dependente e controlador, ele consegue irritar. O relacionamento de Abby e Travis chega a ser um pouco doentio, a ponto de os próprios personagens chegarem à conclusão de que eles são um desastre juntos.

Acho que o título do livro define perfeitamente a essência da historia: Travis e Abby são um belo desastre: confusos, irritantes e extremamente sexys. É difícil classificá-lo com estrelas, visto que num minuto você o ama e no outro, o odeia. Eu o defino como “real”. Ninguém é perfeito, Travis e Abby também não são. Acho que é aí que se encontra o charme do romance de Jamie McGuire.

Daniele Marques

Preacher – Quadrinhos Revolucionários

Virou lugar-comum apontar os icônicos super-heróis de papel como um dos maiores símbolos da cultura pop ianque e, como as adaptações de quadrinhos de heróis se tornaram um dos negócios mais lucrativos do mercado cinematográfico da década passada pra cá, não é de se admirar que muitas vezes os quadrinhos americanos sejam reduzidos a essa referência por aqueles que conhecem a arte de maneira mais genérica. Mas a verdade é que as comics não se restringem apenas a super-heróis mascarados prontos para combater o crime, salvar o mundo, que se envolvem nas mais absurdas e peculiares situações.

O mainstream e o underground estão presentes não apenas na música e no cinema, mas também nos quadrinhos. Desse modo, existem tanto as HQs mais comerciais (geralmente os títulos de super-heróis), quanto uma linha mais alternativa dessa mídia (no caso, os quadrinhos para leitores maduros). É possível encontrar tanto em uma como na outra, produtos de qualidade. Mas é bom saber que há muito a ser explorado nessa cultura e que merece um pouco mais de investigação e pesquisa por parte daqueles que estão começando a se aventurar pelo universo da 9ª arte ou ainda se limitam apenas à leitura de HQs de super-heróis que, definitivamente, dominam o mercado e o imaginário popular.

Bons exemplos de quadrinhos alternativos de qualidade são Estranhos no Paraíso, Cerebus, Love and Rockets e Preacher.

Aliás, esse último é o que merece nossa atenção. Preacher é uma leitura que impacta pela subversão, violência gráfica e altas doses de humor negro.

Contando com o argumento de Garth Ennis e o belo traço de Steve Dillon, essa atípica road history narra as desventuras de Jesse Custer, um ex-pastor possuído pela entidade Gênesis, que nasceu da união entre um anjo e um demônio. A entidade lhe confere o poder de ser obedecido por quem quer que seja, como se sua voz fosse a própria palavra de Deus. Logo que os anjos do Paraíso ficam sabendo da fusão de Custer com a entidade, decidem matá-lo.

Jesse Custer é a própria personificação do anti-herói, apresentando características inerentes a essa figura, sempre bebendo e fumando demais. O ex-pastor acaba, por fim, encontrando um objetivo (estranho e enigmático) em sua vida: Tentar descobrir onde diabos Deus se meteu. Mas Custer não está sozinho nessa empreitada. Ao lado de sua amante Tulipa e do bizarro vampiro irlandês e alcoólatra Cassidy, ele parte em busca do Deus que renunciou seu posto.

A série foi publicada pelo selo Vertigo, uma divisão madurada da editora DC Comics, que lançou entre outras, as clássicas revistas do Monstro do Pântano, Sandman, V de Vingança e Watchmen. Foram sessenta e seis revistas regulares e seis edições especiais de Preacher, o que não tão curiosamente formam o número 666.

Com influências que vão dos bons e velhos westerns americanos até Quentin Tarantino, abusando da linguagem de baixo calão e violência crua e extrema, a série chegou a ser chamada de misógina e satanista. Não é de se surpreender uma vez que sempre surgem mal-entendidos e alegações infundadas como estas quando não se capta a real mensagem da obra.

Além de uma história sobre a fé, Preacher é o reflexo de uma jornada de companheirismo e uma poderosa crítica social. Fora a indagação bastante pontual: Onde Deus foi parar?

Vale a pena escavar melhor o universo das histórias em quadrinhos e descobrir preciosidades como essas. Leituras maduras, críticas, com profundidade, que transmitem mensagens interessantes e pertinentes e são conduzidas de maneira inteligente e inovadora. Também vale para perceber que quadrinhos americanos são mais do que apenas heróis encapuzados, nerds em conflito com seu alterego, jovens equipes de heróis, justiceiros milionários que levam vida dupla e patriotas  imbatíveis.

Andrizy Bento

Aprendendo a Seduzir – Patricia Cabot

Nas férias ou nos dias de folga, um livro romântico e divertido pode ser uma boa pedida para quem quer passar o tempo e relaxar ao lado de uma boa história. Aprendendo a Seduzir (Educating Caroline, 1998), de Patrícia Cabot, é esse tipo de livro. Contei em outro post um pouco sobre o pseudônimo da Meg Cabot, a diva das adolescentes românticas que, antes de entrar para o mundo das princesas, escrevia ficções adultas e apimentadas.

Neste livro temos Lady Caroline Linford, jovem de 21 anos que está noiva de Hurst Slater, o marquês de Winchilsea. Ele é galante, charmoso, educado e herói. Aparentemente, o cara perfeito com o beijo perfeito, até Caroline o flagrar na cama com Lady Jaquelyn, a noiva de Braden Granville, novo rico e maior libertino de Londres.

Sem saber o que fazer, não tendo forças para desmascará-los, mas ao mesmo tempo não querendo manter o noivado, Caroline busca a ajuda da mãe, que, querendo evitar um escândalo, aconselha que ela descubra como conquistar um homem através de seus dotes físicos, assim seu noivo não precisaria ter esse tipo de aventura. Sendo assim, Caroline acaba indo pedir ajuda àquele que, como ela, estava sendo traído: com todas as letras, a personagem pede que Braden Granville lhe ensine (teoricamente, é claro) a fazer amor.

Logo no início, fica claro que aulas teóricas não serão suficientes para Braden e Caroline, que se conectam imediatamente. Aos poucos, a personagem vai entendendo que há muito sobre o amor que ela não sabe e se desencantando por Hurst. Enquanto isso, Braden, que no início é descrito por ela como feio e perigoso, começa a lhe parecer belo e deliciosamente atraente. É partir daí que o leitor começa a implorar (literalmente, no meu caso) pelos capítulos onde são narradas as aulas.

Para Cabot, só tenho elogios. A história é deliciosa, romântica, divertida e os personagens são muito bem descritos. Caroline, apesar de não saber praticamente nada da vida, se mostra decidida e mente aberta. Sua melhor amiga, Emily, é uma feminista adorável e Braden foi um dos personagens que mais adorei conhecer. Em contrapartida, Hurst e Jaquelyn são completamente irritantes. Mas a única crítica que faço à história em si é o final. Ele não é ruim, mas é muito atropelado.

Quanto à tradução e edição… Péssimas! Eu nunca li um livro tão mal editado em toda a minha vida. Não sei se ele foi preparado às pressas (já que livros com temática hot estão na moda e a editora precisa vender) ou se foi feito com descaso (ele não está na lista dos mais vendidos e data de 1998), mas a editora deveria tomar mais cuidado, pois tem passagens que são praticamente impossíveis de entender. Sem falar nos erros de concordância e digitação.

Nos sites das livrarias Saraiva e Cultura, você o encontra por R$39,90, mas o meu exemplar foi adquirido numa promoção maravilhosa na livraria Leitura por R$9,90.

Em resumo, Aprendendo a Seduzir é mais hot e divertido que Pode Beijar a Noiva, da mesma autora. Se tivesse que escolher entre eles, este seria o favorito, sem dúvidas. Nota 10 para a história, mas nota 0 para a edição.

Daniele Marques

Cheio de Charme – Marian Keyes

Sem “empreguetes” e “patroetes” por aqui. Ao invés de mulheres “cheias de charme”, na obra de Marian Keyes temos o homem perfeito: Paddy de Courcy. Ele é impecável, lindo e importante político na Irlanda. Não era difícil se apaixonar pelo “imprevisível”, como era popularmente conhecido, afinal ele era dono de uma beleza estonteante e de um charme capaz de seduzir qualquer mulher que, pelo menos, respirasse.

Não foram poucas as moças que se encantaram pelo rapaz, e em Cheio de Charme (This Charming Man), conhecemos quatro delas e suas respectivas reações ao saber que Paddy iria, surpreendentemente, se casar. A primeira a ser apresentada é a consultora de moda Lola. Ela acredita que tem um relacionamento amoroso com Paddy, mas descobre que foi apenas mais uma em sua vida. A partir daí, Lola entra em “depressão amorosa” e acaba prejudicando a própria carreira.

Num segundo momento somos apresentados à jornalista Grace. Determinada, independente e com um marido muito fofo, ela é uma das personagens mais encantadoras do livro. Entretanto, quando o assunto é Paddy de Courcy, suas pernas tremem e ela perde grande parte de sua determinação. Apesar de não assumir, ela sente uma intensa atração por Paddy desde a adolescência, quando ele era somente um belo desconhecido e namorava sua irmã Marnie, a terceira personagem que conheceremos.

Marnie é casada, tem duas filhas ainda crianças e uma vida aparentemente estável, mas é de longe a personagem mais problemática da história. Por ser alcoólatra e ter sérias crises de depressão, Marnie, que não acredita na ideia de estar viciada, precisa ter alguém sempre por perto (papel exercido, geralmente, por Grace) para que tente, ao menos, se controlar.

A quarta mulher apresentada é Alicia, futura esposa de Paddy. Mas ao contrário do que é divulgado na mídia, o relacionamento deles não é tranquilo e muito menos amoroso. A personagem sofre nas mãos do noivo, mas acredita que estar perto dele é melhor que qualquer coisa, e por esse motivo está sempre do seu lado, o perdoando mesmo que isso lhe doa (literalmente).

Apesar da seriedade com que Marian Keyes trata assuntos como alcoolismo e violência contra a mulher, Cheio de Charme tem bons e deliciosos capítulos de puro humor, principalmente os narrados pela personagem Lola. No início, entretanto, o leitor pode ficar um pouco perdido por não saber aonde a autora quer chegar com personagens tão diferentes, intensos e, muitas vezes, complicados.

Paddy de Courcy é caracterizado como “o mais perfeito do mundo”, e pode até ser, mas apenas fisicamente. Ele engana quase todos com o seu sorriso e belo rosto, e mesmo que o leitor tenha pena dele em alguns momentos, acredito que nunca irá querer um Paddy em sua vida.

Cheio de Charme é um livro divertido, intenso, fácil de ler e com personagens muito bem desenvolvidos. Cada um deles tem uma background interessante, além de Paddy de Courcy, ou seja, nem sempre ele é o centro do livro, o que nos leva a conhecer (bem até demais) todas as personagens, como se fôssemos amigos próximos.

Com certeza está na minha lista de favoritos, porém não é perfeito: ele possui 784 páginas, o que não é um problema, mas muitas delas são totalmente desnecessárias. Aliás, essa é uma das características da autora, que desde Melancia, seu primeiro livro publicado, trata de assuntos sérios, aliados a muito humor e desenvolvidos num exagerado número de páginas.

Obviamente não é um livro que pode te acompanhar facilmente no ônibus ou no metrô, mas ainda assim eu o considero digno de cinco estrelas.

Daniele Marques