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Mid-Season Finale – Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D. / The Tomorrow People

Duas das séries sci-fi da atualidade chegaram ao final de meio de temporada em dezembro. Isto é, entraram em hiatus e voltam agora, em janeiro, com mais alguns episódios para fechar de vez a primeira temporada. Como fã de séries, digo que não existe nada mais chato e desnecessário que o tal do mid-season finale.

Pois bem, as séries em questão são as decepcionantes Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D. (da ABC, que volta amanhã, dia 7) e The Tomorrow People (da CW, cujo retorno será no dia 12). Não vou dizer que foram extremamente decepcionantes porque elas possuem alguns trunfos. Mas, no geral, predomina a vontade de abandoná-las e dar reverte no orangotag.

Eu também não tinha nada que me aventurar a assistir uma série da CW, não é mesmo? Já que eu passo boa parte do meu tempo criticando os seriados do canal. Creio que foi castigo, mas acabei adicionando duas tramas da emissora na minha watchlist em 2013. Além da já mencionada, também estou vendo Reign. E embora tenha diversas incoerências históricas, tome algumas liberdades bastante questionáveis, como a Gaby bem apontou em seu texto sobre as primeiras impressões da série, ela é divertida e prende a atenção. Fora que o episódio 7 me conquistou por uma série de motivos. E um deles foi dar foco à força feminina numa época em que as mulheres eram extremamente oprimidas. Só o fato de a protagonista saber se defender sozinha e se livrar do vilão antes de o mocinho chegar para socorrê-la (o que eu achei que ia acontecer e já estava ficando desapontada por antecipação), fez meu respeito crescer pela série.

Mas o assunto em questão não é esse. Outro dia, quem sabe, eu falo mais sobre Reign. Vamos às minhas impressões das duas lamentáveis produções da fall season.

Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D: Procedural

Marvel: Agents of S.H.I.E.L.D.

A trama de Agents of S.H.I.E.L.D. se passa após a batalha em Nova York retratada no filme Os Vingadores – The Avengers (2012). O agente Phil Coulson (Clark Gregg) organiza um grupo de agentes para resolver casos pelo mundo que ainda não foram classificados pela organização global da qual é integrante, a Superintendência Humana para Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão.

O time de Coulson é formado pelo focado agente Grant Ward (Brett Dalton), um especialista em combate e espionagem; a agente Melinda May (Ming-Na Wen), uma piloto e perita em artes marciais; o agente Leo Fitz (Iain De Caestecker), um cientista brilhante, porém um pouco deslocado socialmente; e a sua parceira, a agente Jemma Simmons (Elizabeth Henstridge). Eles serão auxiliados pela nova recruta civil Skye (Chloe Bennet), hacker de computadores integrante de uma misteriosa organização de ativistas digitais.

Procedural

Eis o maior problema de Agents of SHIELD. Eu já gostei muito de séries que seguem essa linha “o caso da semana”. Mas isso era na época em que eu acompanhava as séries semanalmente, como CSI: Las Vegas e Without a Trace. Mas compreendia perfeitamente quem fazia maratona e terminava por não gostar dessas e de outros produtos do gênero. Afinal, assistir de uma vez todos os episódios de uma temporada de uma série procedural faz saltar à vista o fato de ela ser repetitiva e, consequentemente, cansativa. Esse tipo de série funciona, desde que você assista um episódio por semana. Pelo menos no meu caso. Se eu faço maratona, a série só irá me prender se haver algo que conecte os episódios entre si e ao elemento central da narrativa, o que chamamos de fio condutor da trama. Do contrário, será uma overdose de fillers e bocejos a cada novo “caso” ou “monstro da vez”. Fringe, por exemplo, é uma série que se apoiou demais nessa estrutura procedural nas duas primeiras temporadas (ainda que contasse com casos bem interessantes). E melhorou consideravelmente na terceira temporada, cujos episódios se conectavam. Isso tornava difícil a indicação. Sempre que eu a recomendava, falava para o povo segurar as pontas durante as duas primeiras temporadas, porque a terceira valia muito a pena. O fato é que muitos não resistiram e abandonaram. Uma pena.

Série procedural deixa os telespectadores preguiçosos. Eles costumam, por conta disso, pular episódios, pois sabem que os personagens que protagonizam o “caso da semana” não vão ser desenvolvidos posteriormente mesmo, então são irrelevantes. Fora que isso denuncia a preguiça dos roteiristas também, e elimina um dos recursos mais legais e próprios de narrativas seriadas: o cliffhanger. Até mesmo a teenager Pretty Little Liars prende o espectador por saber desenvolver a trama em diversos episódios. Se a série se enrolou completamente, aí é outra coisa. Mas que ela soube criar bons arcos dramáticos em seus primeiros anos, isso é fato.

E quando ficou evidente que essa seria a estrutura de MAoS, a decepção foi imediata.

Funciona ou não?

Se não fosse o fato de ela carregar a poderosíssima marca Marvel no nome, provavelmente não passaria do piloto. MAoS tem cara de seriado que passa nas manhãs de domingo no SBT e ninguém assiste. A série tem falhas gritantes. Seu maior demérito está na construção de personagens, superficiais e estereotipados, o que torna difícil o público se importar ou sentir empatia por algum deles até mais ou menos o quarto episódio. O seriado também peca ao exagerar no tom engraçadinho, partindo para excessos cômicos, com piadinhas que surgem fora de hora e são totalmente desnecessárias. O mistério envolvendo o agente Coulson pode até causar curiosidade no espectador, mas o fato de ele estar vivo, torna uma das cenas mais tocantes do filme Os Vingadores uma farsa, uma mentira, uma coisa dispensável. Isso é uma pena. Saber que os fanboys tiveram de fazer esforço em disfarçar as lágrimas no cinema à toa. Outro problema está na incoerência devido aquele papo chato de direitos autorais. A palavra mutante não pode ser mencionada na série, uma vez que a Fox detém os direitos da franquia X-Men. Então, ouvir Coulson e Cia falando que telepatia não existe, não é comprovado cientificamente, pode até passar despercebido pelo público em geral, mas pelos nerds aficionados em quadrinhos de plantão, isso soa frustrante e incongruente. Em sua mídia de origem, e também nas séries animadas, sabemos do contato que a SHIELD tem com os X-Men (que, por sua vez, conta com vários telepatas no grupo).

Mas nem tudo é tempo perdido com esse seriado. O selo Joss Whedon de qualidade, pelo menos no que diz respeito ao visual, é inegável. Os efeitos são bastante competentes. Os episódios contam com um bom ritmo, combinando a ação com os dramas dos personagens (ainda que superficiais) e com referências (muitas vezes dispensáveis) aos quadrinhos, sem se prender ao universo das HQs . O piloto, devido as minhas baixas expectativas, até que me surpreendeu e divertiu. Apesar de procedural e do tom um tanto infantil de sessão da tarde, o ritmo frenético da narrativa consegue prender a atenção do espectador. Os demais episódios deixaram bastante a desejar, com casos aleatórios e um tanto quanto insignificantes, além de vilões caricatos. O quarto episódio recupera o fôlego inicial do piloto, com uma trama até interessante e menos piadinhas inúteis. Uma pena que, depois disso, o único episódio mais legal tenha sido o 1X10, justamente a mid-season finale.

Se ela sobreviver à primeira temporada, creio que corre o risco iminente de ser abandonada e retirada da watchlist.

The Tomorrow People: Clichê

The Tomorrow People

Stephen Jameson, até um ano atrás, era um adolescente normal, mas agora deve lidar com grandes transformações na sua relação com o mundo e com outras pessoas, enquanto ouve vozes, move coisas com a mente e começa a duvidar de sua sanidade. No entanto, tudo muda quando ele decide seguir uma das vozes em sua mente e termina descobrindo outras pessoas iguais a ele — com super-habilidades —, jovens que se intitulam “The Tomorrow People”, ou “Seres do Amanhã”. John, Cara e Russell fazem parte de uma raça de humanos de genética avançada com habilidades de se comunicar, de se transportar e de mover objetos apenas com o poder da mente. Logo Stephen descobre que seus pares estão sendo seguidos por um grupo de paramilitares cientistas conhecidos como “Ultra”. Liderado pelo Dr. Price, esse grupo acredita que as pessoas com superpoderes são uma ameaça real de uma espécie rival. Tudo se complica para Stephen, quando o líder da Ultra lhe oferece a chance de ter uma vida normal em troca de ajuda para erradicar os Tomorrow People, enquanto o grupo de jovens com superpoderes lhe oferece a chance de ter uma nova família em um mundo a que ele realmente pertence. Além disso, há muitos mistérios envolvendo o passado de Stephen a serem descobertos, incluindo a verdade sobre o desaparecimento de seu pai.

X-Men encontra Heroes, cruza com Alphas e vai parar no filme Jumper

Basicamente é isso. A série é um amontoado de clichês e praticamente uma salada dos citados. Até aí, tudo bem. Clichês, desde que bem escritos e desenvolvidos, podem ser legais. O problema é que alguns clichês aqui até que funcionam, mas, no geral, a série é bem genérica. A direção burocrática e nada inovadora, típica de Danny Cannon (como é possível perceber em CSI e Nikita), só torna tudo ainda mais desinteressante. Para completar, os efeitos especiais são catastróficos. O que é desastroso para uma série do gênero ficção científica. Entre as referências, também é possível identificar Matrix, principalmente ao se analisar como é empregado o efeito bullet time. Isto é, mais um clichê. Enfim, a estética da série segue a linha de outros produtos da CW. Pouco inspirada e pouco criativa. E inócua, na maior parte do tempo.

Protagonista sem carisma, desenvolvimento pobre de personagens, triângulo amoroso de novo, não!

Com um piloto munido de clichês, mas um ritmo agradável, com um pouco de boa vontade em dar o benefício da dúvida, tínhamos a impressão de que estávamos diante de uma série até divertida e, que se bem conduzida, teria potencial. Não tinha nada de novo. Seres sobrenaturais descobrindo seus poderes, treinando e praticando combate corpo a corpo. Os personagens, bastante óbvios. Seus dramas, também previsíveis. Fora que o protagonista consegue controlar seus poderes muito rápido, já de início. Mas o interessante era que ela não se levava muito a sério. Os diálogos alusivos, em um tom quase de autossátira, era um trunfo ao seu favor. Os personagens comentavam  sobre se autodenominarem Seres do Amanhã e Homo Superior, afirmando que não foram eles que escolheram os nomes, deixando clara a referência à série cult britânica dos anos 70 e 90 que levava o mesmo nome e na qual esta nova versão foi levemente inspirada; e aos X-Men, de quem roubaram… Bem, muita coisa. As lutas não eram bem coreografadas, mas pelo menos a forma como os personagens utilizavam seus dons não era gratuita. Contudo, as impressões simpáticas que o piloto deixou, foram dizimadas assim que o segundo episódio foi ao ar. O desespero por construir uma mitologia sólida com uma narrativa óbvia e pouco intrincada, soa como uma forçação de barra tremenda. E apresentar o background de cada um dos seres do amanhã em episódios individuais e seguidos um do outro, só evidencia o quanto os roteiristas são preguiçosos. Pra completar, a pegada meio Smallville (com o protagonista, inclusive, tentando reproduzir à exaustão os maneirismos e gestual do Superboy) é constrangedora. E maniqueísta é apelido. A forma como se delimita o lado dos heróis bonzinhos e dos vilões caricatos, é simplória demais. O único personagem que oferece um contraponto, John, é jogado pra escanteio na maior parte das vezes.

O cenário típico do adolescente em conflito, isolado no colégio, representado pela figura de Jameson é cansativo. Como era de se imaginar, ele tem um irmão mais novo que precisa de uma figura masculina mais velha na qual se espelhar; e a mãe preocupada com o que ela acredita ser uma doença mental que o filho possui (que, no entanto, se trata do descobrimento e desenvolvimento de seus poderes). Para protegê-los, ele trabalha para o inimigo. O voice-over, na introdução dos episódios, que explica tudo o que já cansamos de saber, deixa claro que os produtores não estão nem aí para o clichê.

Uma das coisas mais interessantes da série, é jogada pelo ralo. Explico: Os seres do amanhã não acreditam que são super heróis, apenas lutam pela sobrevivência de sua raça trazendo para o seu lado os que puderem “pegar”, antes que caiam nas mãos da Ultra para serem exterminados. Mas se a Ultra pega primeiro… bem, é perigoso demais para os seres do amanhã tentar resgatá-los, então eles deixam pra lá, afinal seria burrice tentar mexer com a super organização. Mas aí surge o personagem de Stephen que diz para os subterrâneos paranormais saírem da defensiva e partirem para o ataque, serem corajosos. O discurso manjado do herói. E então a coisa degringola.

O protagonista é totalmente sem carisma. Apesar das limitações na atuação de Luke Mitchell, que interpreta John, seu personagem é bem mais interessante, e o ator bem mais expressivo e carismático do que Robbie Amell, que vive Jameson na série. O que não tornaria o plot mais interessante, mas seria capaz de salvá-lo, seria o fato de John ser filho do vilão Jedikiah. Seria uma obviedade, mas pelo menos a relação entre eles seria mais verossímil. E sinceramente, entre uma porta que é o que o Amell é, e um John, se a Cara fosse esperta, ela escolheria o John. A ligação entre Cara e Jameson só existe mesmo para que o casal dê certo e não é bem explicada, nem contextualizada. Mais um triângulo amoroso dispensável da CW.

É boa ou não?

É cheia de incoerências e joga no lixo uma premissa que, se bem trabalhada, poderia ser bem legal. Mas o que se esperar de um sci-fi da CW? Vamos ver se sobrevive a mais uma temporada, levando-se em conta a maldição do cancelamento que tanto assombra séries pop de ficção científica e produtos da emissora.

Fonte sinopses

Andrizy Bento

The Day of the Doctor – O Especial de 50 Anos de Doctor Who

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O texto abaixo contém spoilers. Para você que não assistiu ao episódio, leia por sua própria conta e risco.

Uma longa espera entre o dia em que adquiri os ingressos (para mim e minha irmã e companheira de nerdices, Adryz Herven) e o “dia do Doutor”. E posso garantir que a espera valeu a pena. Momento mais icônico de nossas vidas como fãs.

Tem como não amar Doctor Who? Uma resposta positiva a essa pergunta nos provoca mais assombros do que qualquer anjo lamentador. O meu vício em séries somado ao eterno saudosismo de minha irmã, fez com que mais um elo entre nós (como se fosse necessário mais um dentre tantos que possuímos) fosse criado. E, assim, são horas de conversas a respeito de Doctors, regenerações, teorias, episódios perdidos, trocas de vídeos e artigos sobre as séries, sessões de episódios pela Rede Cultura com nossos comentários (im)pertinentes durante as exibições, e zilhões de posts no tumblr tanto relativos à série contemporânea quanto à clássica.

Eu comecei a ver Doctor Who por ser apaixonada por seriados, especialmente os britânicos. E principalmente os da BBC. A Adryz por conta de sua verve nostálgica, por apreciar nerdices antigas. Pois bem, obviamente faríamos qualquer coisa para ver o especial de 50 anos da série na telona.

E foi ontem, sábado, dia 23, aniversário de 50 anos de DW (e um dia depois do aniversário da Adryz, convém dizer), que fomos conferir ao lado de vários whovians e um cyberman (!) o especial no cinema. As expectativas eram grandes. Não tinham como não ser. E afirmo categoricamente que o episódio correspondeu a elas.

Com roteiro de Steven Moffat (o atual showrunner da série) e direção de Nick Hurran, a trama de The Day of the Doctor se passa em três linhas temporais distintas. Em 2013, um mistério ronda a National Gallery de Londres. Em 1562, um plano de assassinato tem como cenário a Inglaterra na era da Rainha Elizabeth I. Paralelamente a esses eventos, no último dia da Guerra do Tempo, há uma batalha espacial ocorrendo entre os Daleks e os Senhores do Tempo que aponta para o trágico fim de Gallifrey, o planeta natal do Doctor. As tramas se entrelaçam e convergem, o que culmina no encontro de três Doutores.

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A química entre David Tennant, Matt Smith e John Hurt é surpreendente, como era de se esperar. Individualmente, suas performances estão igualmente impecáveis. Billie Piper  (que interpretou Rose Tyler nas primeiras temporadas da série contemporânea, uma das companions mais queridas) aparece com destaque na trama, representando a entidade Bad Wolf. Jenna Coleman, na pele de Clara Oswald, está maravilhosa, tendo um importante papel no ápice do episódio.

Se você é fã, experimente assistir ao emocionante momento em que o Tenth (Tennant) diz a célebre frase “I don’t wanna go” (que marcou a sua regeneração para o 11º Doutor) e tente resistir às lágrimas. Aposto que será impossível. E uma sonora exclamação de desapontamento parte da garganta de todos quando presenciamos o início da regeneração de John Hurt para Christopher Eccleston (o nono Doctor  que inaugurou a retomada da série em 2005, após um hiato de 15 anos). O ator infelizmente não participa do especial, de forma que a cena é cortada antes de a regeneração se concluir. Mas somos compensados com a ilustríssima presença do quarto Doctor, Tom Baker que faz uma ponta genial e maravilhosa ao lado do Eleventh (Smith). Além, claro, do momento em que todos os Doctors se unem para impedir a queda de Gallifrey, congelando-o no tempo, numa sequência nada menos do que eletrizante.

A fluência da narrativa é digna de nota. Conduzida de maneira firme, o ritmo não cai em nenhum momento. Muito pelo contrário, mal vemos o tempo passar. O clímax é praticamente constante, deixando o espectador sempre aflito e ansioso para as cenas seguintes. Impossível desgrudar os olhos da tela. O roteiro, bem estruturado, alia ótimas cenas de comédia (o bom humor é uma das marcas registradas do personagem) a momentos dramáticos tocantes em que a sensibilidade dos diálogos são o grande destaque. E, claro, a ação é empolgante, capaz de fazer o espectadores vibrarem em diversas sequências. O visual do episódio, como sempre, é um espetáculo à parte, os efeitos especiais são muito bem empregados.

A trilha sonora clássica dispensa comentários, sempre entrando no momento correto. E as alusões a Doutores e temporadas anteriores surgem com uma naturalidade impressionante. Dentre tantos méritos, não posso deixar de citar o fato de que The Day of the Doctor não só respeita os elementos canônicos de Doctor Who (o clássico e o atual), como deixa evidente o carinho pela sua base de fãs ao inserir tantos aspectos fundamentais de sua mitologia, que só quem é fã consegue absorver inteiramente. Em suma, o episódio é fantástico e nos deixa com um gostinho de ‘quero mais’. Além de apontar promissores caminhos que a próxima temporada poderá seguir.

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Confesso que não deixa de ser um tanto estranho ver um episódio de Doctor Who na telona. Obviamente, aqui e ali, o formato não parece adequado, devido aos planos e movimentos de câmera. Mas a diversão foi tão grande, que relevar isso não foi nenhum grande problema.

E, claro, como era uma sessão especial para fãs, algumas das melhores coisas foram todos os aplausos, a histeria e os momentos de assombro dos devotos whovians. A abetura a cargo de Strax; as alfinetadas entre Tenth e Eleventh logo na introdução; as tiradas cômicas certeiras; as linhas de diálogos clássicas; as inúmeras referências a episódios antológicos das séries antiga e contemporânea; bem como os derradeiros momentos que reúnem todos os Doctors, fizeram os whovians presentes na sessão irem das risadas às lágrimas e aos aplausos com a mesma energia com que o Doctor vem viajando pelo tempo e espaço dentro de sua Tardis desde os anos 60 (embora tenha um longo hiato aí no meio).

É fato que jamais irei esquecer desse dia e nem de sua trilha sonora – a cargo do barulhinho das chaves de fenda sônica dentro do cinema antes de a sessão começar; e fãs dignamente vestidos de Doctor, logo após a sessão, descendo as escadas rolantes do shopping, assobiando a música de abertura da série. Inesquecível.

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Obrigada, Moffat!

Andrizy Bento

Jogos Vorazes: Em Chamas

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Uma boa adaptação de uma obra literária para o cinema não consiste em manter fidelidade a cada palavra existente no livro, não se trata de um “livro filmado”. Consiste em ser fiel à sua essência, em manter as características fundamentais que compõem a trama, em pensar a história do livro em um formato cinematográfico, atendendo às exigências e especificidades do meio. Uma boa adaptação trata-se, na verdade, de uma boa releitura.

Os fãs de Jogos Vorazes podem ficar tranquilos. O segundo longa baseado na trilogia distópica escrita por Suzanne Collins trata-se de bom cinema, mas também de boa adaptação e, sem dúvida, estamos diante de um dos melhores blockbusters da temporada.

O presidente de Panem (Donald Sutherland) não está nem um pouco contente com o comportamento da vencedora dos Jogos Vorazes, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence). Seu último ato nos Jogos, que garantiu a sua vitória ao lado do parceiro, Peeta Mellark (Josh Hutcherson), pode ter sido encarado pelos alienados da Capital como um gesto genuíno de amor. Mas a população oprimida dos Distritos compreendeu que Katniss estava, na verdade, desafiando a Capital. E se justo alguém do esfomeado e miserável Distrito 12 foi capaz de zombar do sistema, o que impede que outros o façam? Ideias de levante e revolução andam sendo discutidas nos Distritos e a “garota em chamas” se tornou um símbolo de esperança. Diante dos fatos, o presidente Snow faz uma visita nada amistosa à garota para que cheguem a um acordo, mas se trata na realidade de ameaças e chantagem. Ela deve convencer a todos que está apaixonada por Peeta, manter a encenação e continuar fazendo de sua vida privada um entretenimento para dar cabo das esperanças do povo e de seus recentes ideais revolucionários. Assim, ninguém que ela ama irá se machucar. Pensando em sua família e amigos, Katniss aceita os termos do presidente.

Infeliz, ou felizmente, ela não é bem-sucedida em sua missão. Dessa forma, o presidente faz com que ela e Peeta voltem à arena para mais um combate sangrento televisionado e chamado de Jogos Vorazes. Desta vez, eles correm ainda mais riscos, pois devem competir contra veteranos dos Jogos – antigos vencedores de edições anteriores, para celebrar os 75 anos do cruel reality show.

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Uma boa releitura ou adaptação deve ser autoral e Francis Lawrence sabe disso. Assim, o cineasta transformou o universo concebido por Collins e retratado primeiramente por Gary Ross no cinema – no filme de 2012 – em algo um pouco seu, respeitando às convenções dos livros e do primeiro longa, bem como a mitologia da série, mas não deixando de enriquecê-la e aperfeiçoá-la, trazendo uma visão singular e assustadoramente plausível do cenário pós-apocalíptico e cruel em que se desenvolve a ação de Jogos Vorazes. E isto é, no mínimo, admirável em tempos de blockbusters cada vez mais burocráticos.

A crueldade é transformada em espetáculo, um circo macabro transmitido para toda uma nação – uma parte alienada, que aceita ser enganada e iludida pelos poderosos; outra parte revoltada, com ideias de organização de levantes, que custam sua liberdade, seus recursos e meios de subsistência e até mesmo suas vidas. Aliás, a televisão tem um papel interessante como instrumento de alienação e forma de mascarar os fatos na trama. Não muito diferente da realidade, apenas mais assustador.

A premissa é atraente e a execução, brilhante. Nenhuma cena parece fora de contexto e nenhum personagem soa deslocado. Cada um tem a sua função e a narrativa segue numa fluidez espantosa cujo ritmo jamais vacila, prendendo a atenção do espectador do início ao fim e, claro, deixando-o sem fôlego em diversas sequências.

A princípio, por meio de diálogos inteligentes e afiados, os personagens vão dando pistas e, logo mais, detalhes reveladores da situação em que se encontra Panem, o continente formado por 12 Distritos e uma Capital, com base em uma hierarquia tirânica.  A segunda metade do filme, no entanto, parte para a ação desenfreada, com raros momentos de leveza, e apesar de se valer novamente dos Jogos Vorazes, não soa como uma mera repetição do primeiro filme, isto por conta da eficiente condução narrativa que não deixa os Jogos se tornarem o elemento central desta vez, e também por conta dos carismáticos personagens que compõem o novo elenco de tributos.

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Jennifer Lawrence é daquelas atrizes que dá gosto ver em cena, fazendo jus ao Oscar que, mesmo sendo tão jovem, já possui em seu currículo. Lawrence presenteia o espectador com um atuação firme e segura, além de uma entrega rara que poucas atrizes de sua época oferecem. Se a heroína dos livros já era suficientemente interessante, às vezes até ambígua, Jennifer a torna uma personagem ainda mais complexa, transmitindo muito de seus sentimentos contraditórios através do olhar – a insegurança, o medo, a coragem, a ousadia. Com inteligência, a atriz sabe nos deixar em dúvida acerca de seus sentimentos por Peeta – o que é, de fato, real e o que se trata de farsa para manter as pessoas que ama, vivas?

Além de tudo, é uma protagonista generosa também, já que em alguns instantes rouba a cena, fazendo questão de tomar a tela toda para si, mas deixa tempo e espaço mais do que suficiente para seus companheiros de cena brilharem. Aliás, elenco fantástico! De dar inveja a muitos blockbusters de estúdios mais gabaritados por aí. É fascinante ver Philip Seymour Hoffman (como Plutarch Heavensbee, o idealizador-chefe dos Jogos) e Donald Sutherland, dividirem a tela. O primeiro é um acréscimo excepcional e mais do que bem-vindo à série. E se eu reclamei de Sutherland na resenha do primeiro filme por sua atuação muitas vezes passiva (talvez porque não tivesse consciência do material que Ross tinha em mãos na época, afinal primeiros capítulos de franquias são sempre um tiro no escuro), desta vez sua presença de cena é impressionante. Articulado e calculista, ele mantém um tom de voz ao mesmo tempo frio, calmo e autoritário, compondo um vilão memorável.

E seria injusto não falar de Josh Hutcherson. Não só mais um garoto adorável e com aparência ingênua, o ator evoluiu muito desde o primeiro filme. Seu personagem chega a ser tão interessante quanto Katniss. Parece frágil, mas é esperto o suficiente para saber como sobreviver. Soa dependente, mas é seguro de si. Transparente, mas estrategista. Além de ser encantador.

Como fã, é delicioso ver um de seus livros prediletos ser tão bem adaptado para o cinema. E, além disso, ver alguns de seus personagens favoritos tão bem retratados. Não obstante as ótimas interpretações e caracterizações dos já citados, outras figuras atraentes como Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), Finnick Odair (Sam Claflin) e Johanna Mason (Jena Malone) merecem nossa atenção. O estilista Cinna, infelizmente, não tem muito tempo de tela, talvez exatamente por conta das limitações na interpretação do músico Lenny Kravitz, mas todos do elenco fazem um bom trabalho, de forma que os espectadores se importam com os personagens, compreendem suas motivações e torcem por um destino menos sofrível e mais digno para todos eles.

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Há um equilíbrio preciso entre cenas de ação, tensão, suspense, romance e até mesmo humor. Mesmo mantendo um ritmo dinâmico e uma alta carga de adrenalina, é capaz de arrancar algumas boas risadas do público. A forma como os Jogos são orquestrados e o clímax são sensacionais. Em Chamas é um filme intenso, com uma trama intrincada e até verossímil. Cada quadro do longa faz questão de nos transportar até Panem. Dessa forma, é impossível ficar indiferente diante da jornada de Katniss.

Dentre outras qualidades, pode-se afirmar seguramente que a fotografia, direção de arte e ambientação estão muito melhores do que no filme anterior. O orçamento polpudo se justifica em cada cena, cada detalhe. A trilha sonora é outro item que agora produz impacto. Tudo acertado e harmonioso, ainda que estejamos vendo na tela uma representação de caos.

Não posso deixar de salientar o quão maravilhoso é saber que uma franquia destinada ao público adolescente se preocupa com questões políticas e sociais tão pertinentes, além de representar uma crítica incisiva à alienação das massas, à centralização do poder e o sistema que rege a nação. A série Jogos Vorazes possui um caráter reflexivo que, atualmente, poucas obras do gênero têm.

Diferentemente do final correto e redondo do primeiro longa, o desfecho deste deixa o espectador salivando pelo próximo episódio. Infelizmente, por questões mercadológicas, o último volume da saga será dividido em dois filmes. Espero que isso funcione e, de forma alguma, afunde uma franquia tão boa.

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Se o primeiro filme mostrava o potencial da série, este atinge definitivamente o seu potencial. Dá vontade de ver de novo. Várias e várias vezes. Curtir novamente as cenas emocionantes.

Transgressor em diversos aspectos (para um filme dedicado ao público jovem) e superior em todos os sentidos ao filme original de 2012, Jogos Vorazes: Em Chamas tem todos os elementos que uma boa distopia deve oferecer aos espectadores. O enredo de cunho social; a energia revolucionária; um símbolo de otimismo representado por uma heroína carismática, rebelde e muito humana; a trajetória de personagens instigantes que lutam pela sobrevivência; e uma visão ora pessimista, ora esperançosa do mundo e da sociedade. Um grande livro e um grande filme.

Resenha do livro Jogos Vorazes

Resenha do filme Jogos Vorazes

Resenha do livro Em Chamas

Andrizy Bento

Reign

Começou a melhor época do ano para aquele ser viciado em séries, isto é, eu! Juro todos os anos solenemente: “Não verei um piloto sequer”.

Mas óbvio que essa promessa é quebrada sem dó, nem piedade. De vez em quando eu tenho pena de mim. Porque a cada ano eu tenho menos tempo, cada vez mais eu estou mais ocupada e as minhas queridas séries têm de ser selecionadas. Mas como selecionar?

Essa pergunta é sempre feita e eu resolvo praticamente no uni duni tê. Mas esse ano tem uma que, pelo menos por agora, continuará na minha watchlist. Trata-se de Reign, mais uma que compõe a programação juvenil da CW.

Reign tem uma proposta ousada ao recontar a juventude da Rainha Mary da Escócia, durante o tempo em que ela viveu na França. Pormenores para não ver a série você encontra aos montes. Basicamente você sabe o final da historia. Pois Mary é uma figura de importância da historia mundial. Geralmente temos receio de qualquer adaptação histórica (medo dos erros). E o mais preocupante: a série é da CW. O canal americano com a grade mais juvenil.

Nova série da CW aposta em licenças poéticas e triângulos amorosos como mote.

CW é um tipo de canal que nos desperta reações extremas, do tipo ame ou odeie. De coração aberto eu fui encarar essa estreia. A última estreia da amada fall season. E não é que a série é bem legal? Claro que tem todos os ingredientes que são a cara do canal. Amores adolescentes, festas, beijos tórridos e intrigas. Alguém pode estar achando que eu sou contra clichês. Não, não sou. Clichês, desde que bem escritos, eu os amo. E Reign é lotado de clichês bem escritos. Claro que os erros que nos apavoram estão lá. Por exemplo, um português dançando tango em plena Idade Média. Mas pelo fato de o programa ser, assim, tão delicioso de se ver, você releva essas suposições dos americanos que acham que qualquer coisa que não fala inglês, fica na Argentina. Encaremos como liberdades históricas, licenças poéticas.

E pra completar o pacote de crocância de Reign. Nós temos um triângulo amoroso cheio de química. Shippers já pipocam por todos os cantos (eu amo!) e, ao longe, já prevejo shipping wars. E pra me despedir, desejo: longa vida à Reign. E é necessário, visto que a Reign corre sério risco de cancelamento, devido principalmente ao orçamento.

Beijos e até a próxima!

Gaby Matos

Personal Demons – Lisa Desrochers

Esse livro se encontrava na minha estante não sei por que cargas d’água. Nunca tive o interesse de lê-lo realmente, mas algumas amigas e membros de groups de livros no facebook dos quais participo, me diziam para dar uma chance. Protelei. Até que finalmente me vi com algum tempo disponível para dar uma oportunidade para um livro que eu julguei mal desde a capa. E, apesar de muitas vezes concordar com o velho ditado, em relação a Personal Demons eu não poderia estar mais certa.

O destino deste livro é o sebo mais próximo. Espero trocá-lo por algum título mais interessante.

Mas vamos à resenha… Afinal, não dá para dizer que algo é simplesmente ruim sem ter argumentos que fundamentem a opinião.

Existe uma diferença entre livros bobos que se assumem bobos e livros bobos que parecem se levar a sério demais. Personal Demons (que no Brasil recebeu o título de Amor Infernal) se encaixa, infelizmente, na segunda categoria. A autora Lisa Desrochers tenta se aprofundar em um assunto controverso e bastante delicado – além de complexo – sem ter o devido conhecimento do assunto e, dessa forma, entregando ao leitor uma trama extremamente mal estruturada.

O maniqueísmo e o triângulo amoroso (clichês em livros do gênero) são mecanismos levados ao limite; abusando de metáforas simplistas e óbvias que evidenciem as representações do bem e do mal, do certo e do errado, resultando em uma forçação de barra tremenda. E é exatamente por isso que a coisa desanda, mais precisamente no momento em que a autora tenta levar o leitor a um momento de reflexão acerca de anjos, demônios, céu, inferno, escolhas, premonições e influência das massas.

Se o livro não tivesse essa pretensão de querer provocar um debate acerca de questões de ordem filosófica e religiosa, além de dúvidas existencialistas, e fosse apenas mais um romance de banca título YA Lit com temática sobrenatural, embarcando na brincadeira que a confusão da protagonista entre o demônio sedutor e o adorável anjo parece sugerir nos primeiros capítulos, estaria tudo bem. Mais um entretenimento escapista que não provoca nenhuma análise ou exige muito do leitor, nenhuma literatura edificante.

Mas esse desejo de querer se aprofundar em temas densos, com personagens tão razoavelmente construídos e uma linguagem que parece oriunda de fanfics ruins, acaba provocando o efeito contrário e a narrativa se torna superficial.

A autora aparentemente não tem nenhum domínio dos temas dos quais tenta tratar. E também não sabe para onde correr. Para mais uma fantasia adolescente com triângulo amoroso como mote, tendo uma mocinha assustada, indecisa, mas manipuladora como protagonista, e dezenas de doses de sexualidade implícita e explícita na história? Ou para as discussões profundas e controversas a respeito do ocultismo, da religião, daquilo que não podemos ver ou tocar, que está além de nossa percepção ou alcance, da existência de um mundo de seres divinos e demoníacos além do nosso?

Se Sussurro (Hush Hush; Becca Fitzpatrick) investiu em anjos e arcanjos numa narrativa assumidamente superficial e com a única intenção de divertir as adolescentes com o relacionamento confuso e regado a demonstrações de ciúmes da personagem principal com seu guardião angelical (com intenções nada angelicais), Personal Demons erra ao tentar dar mais profundidade e substância a um texto que não consegue se sustentar, com rivais que chegam a irritar com sua onipotência, pretendendo passar sem ser percebido como mais um livro de romance adolescente. E é o que ele é.

Não que eu esteja afirmando que Sussurro tenha um texto mais substancial, uma trama mais consistente, que a história tenha mais conteúdo. Não. Apenas que Fitzpatrick assume descaradamente em cada linha de seu livro que se trata de mais um romance de banca moderninho com elementos sobrenaturais, uma leitura fácil. Ela não tenciona criar uma mitologia pretensiosa nem nada do gênero. O contrário acontece com Personal Demons, um livro pedante cuja maior ambição (e erro também) é querer ser uma grande história de suspense, terror, romance e com espaço para divagações espirituais. Vira apenas uma salada de temas mal trabalhados, esquecível e desnecessário.

Andrizy Bento

Em Chamas – Suzanne Collins

Eu costumo pegar essas séries de livros YA Lit com atraso. Um exemplo clássico é Harry Potter, como já citei aqui em posts passados. Portanto, enquanto A Esperança (Mockingjay no original), o melancólico capítulo final da saga Jogos Vorazes, já estava nas livrarias há algum tempo, sendo um êxito de vendas e figurando há algumas semanas na lista dos best-sellers da revista Veja, eu acabava de concluir a leitura de Em Chamas, segundo volume da série.

Ontem eu decidi pegar o livro novamente, dar uma folheada e acabei relendo alguns dos meus trechos favoritos, como o diálogo entre o presidente Snow e Katniss logo no início do livro; as cenas que envolvem Finnick, um dos meus personagens favoritos; a passagem que conta como o bêbado e cínico Haymitch conseguiu vencer os Jogos Vorazes; e a última jogada de mestre de Katniss na arena. Sendo assim, decidi escrever esta resenha.

Eu já falei a respeito de Jogos Vorazes por aqui e, no geral, os meus comentários foram bastante positivos. E desta vez não é diferente. Em Chamas mantém o ritmo dinâmico e a narrativa densa e impactante que consagraram o primeiro volume da série. Só que agora a tensão é ainda maior.

Devido à intensa carga dramática e a alta dosagem de violência contida na história, o público-alvo pode precisar de momentos de leveza para respirar, então pode conciliar a leitura com um suave Hush Hush da vida, ou com uma aventura como Instrumentos Mortais. Isto se você for como eu, que costuma ler dois livros ao mesmo tempo.

Mas para quem não fraquejar diante da densa trama pontuada por passagens agressivas e tortuosas de Suzanne Collins, conseguirá engolir o livro em poucas horas a despeito de suas 416 páginas.

Katniss Everdeen (a garota quente) e Peeta Mellark (o garoto do pão) conseguiram realizar o impensável: saíram vitoriosos dos Jogos Vorazes. Claro que não foi uma tarefa fácil, afinal eles tiveram de sujar as mãos com o sangue dos demais competidores, convencer a Capital com a história de que estavam apaixonados (o que se tornou uma estratégia certeira para que ambos permanecessem vivos, mas também transformou suas vidas em um entretenimento que se estendeu além dos Jogos), e o pior de tudo, desafiaram a Capital que não está nem um pouco satisfeita ou feliz com a vitória dos tributos do Distrito 12, o mais paupérrimo de todos os distritos que compõem Panem.

Logo no início da trama, o presidente Snow faz uma visita à Katniss que agora mora na Aldeia dos Vitoriosos junto de sua família, dispondo de luxo e conforto que jamais conheceu antes dos Jogos. A visita não é aleatória. Ele vem para lhe dar um alerta, afinal seu desempenho nos Jogos abriu os olhos da nação e ideias de levante e revolução andam fervilhando nas cabeças dos habitantes de diversos distritos. Ele pede que ela seja mais convincente em sua farsa dos “Amantes Desafortunados”, o título atribuído ao trágico romance entre Peeta e Katniss na arena. Dessa forma, fazer com que todos acreditem que seu último ato nos Jogos Vorazes foi impulsionado pela paixão que sentia por seu parceiro e não que ela estava tentando desafiar a Capital. Katniss se vê obrigada a manter a encenação e continuar dentro da personagem se quiser o bem-estar de sua família, das pessoas que ama e de toda a nação.

O preço de sua vitória nos Jogos Vorazes gera inúmeras consequências e conflitos, tanto de ordem política e social (se alguém do Distrito 12 é capaz de confrontar a Capital, o que impedirá que habitantes de outros distritos façam o mesmo?), como pessoal, uma vez que toda a história do romance acaba por prejudicar seu relacionamento com o melhor amigo Gale, colocando em jogo seu afeto e amizade por ele, em favor de uma estratégia de sobrevivência dentro e fora da arena.

E como nada está tão ruim que não possa piorar…

A protagonista nem teve tempo (talvez jamais tivesse, na verdade) de se recuperar do trauma dos Jogos e se vê tendo de voltar a eles para o Massacre Quaternário. A cada vinte e cinco anos, é realizada uma edição especial dos Jogos Vorazes. E, não por coincidência, a surpresa da edição especial desta vez é que vencedores de edições anteriores, um homem e uma mulher de cada distrito, devem voltar para a arena. Como Katniss é a única garota do Distrito 12 a ter vencido, sobra para ela. Peeta, por sua vez, se voluntaria no lugar de Haymitch Abernathy que foi o nome sorteado. Obviamente, o Massacre Quaternário é ainda mais violento e cruel ao transformar a luta pela sobrevivência dos tributos vencedores em um entretenimento atroz. A intenção é matar Katniss a todo custo pelo que ela representa para toda a sociedade. A garota quente é, afinal, a fagulha capaz de provocar um incêndio. Seus gestos e atitudes tiveram um efeito catalisador, representaram o estímulo necessário para o início de uma revolução. Agora, a desafortunada protagonista consegue perceber realmente do que os poderosos são capazes. Porém, o que Snow não contava, é que houvesse tantas pessoas ao lado de Katniss, dispostos a dar suas próprias vidas por ela.

O texto de Collins é ágil e inteligente, e a crítica à sociedade é ainda mais aguda e acentuada do que no primeiro volume. A adição de personagens carismáticos como Finnick Odair e Johanna Mason, além de um melhor desenvolvimento de Haymitch (com direito a um brilhante background do personagem) enriquecem a trama. A autora optou por uma linguagem simples que vai direto ao ponto, sem delongas ou floreios, trazendo dinamismo e crueza à narrativa. O drama, a violência, a crítica social – elementos fundamentais da obra – são bem trabalhados, apresentando um preciso equilíbrio entre momentos de tensão e leveza.

O mote continua sendo a luta pela sobrevivência em uma sociedade tirana. E, para isso, recorre a mecanismos interessantes para a construção de uma distopia plausível. Os reality shows, a guerra, o sensacionalismo, a opressão e manipulação das massas, o fato de ser vigiado o tempo todo pelos olhos de um regime totalitário, perdendo sua liberdade e autonomia como indivíduo, além de referências explícitas à mitologia romana, são alguns dos temas que, costurados ao elemento central, compõem um universo crível e uma trama envolvente, cuja força reside principalmente nos personagens.

Suzanne Collins acerta a mão, conduzindo de maneira segura e impressionante sua história e deixando todos os leitores ansiosos pela parte final da trilogia. E é isso que uma boa autora de sagas literárias faz.

A adaptação para as telas de Em Chamas estreia em 15 de novembro de 2013 nos cinemas brasileiros.

Andrizy Bento