Arquivo da categoria: Resenhas

[Televisão] “A Christmas Carol” – Doctor Who

Doctor Who: Episódio Especial de Natal – 5ª Temporada

Eu nunca escrevi sobre Doctor Who aqui no blog (pretendo fazer isso em breve). Mas já que estamos próximos do Natal, decidi falar sobre esse episódio por aqui.

É incrível como esse especial de Doctor Who consegue ser duzentas vezes melhor do que aqueles filmes de natal com elementos sci-fi e de fantasia chinfrim que os estúdios insistem em lançar todo ano para depois serem reprisados a exaustão na Sessão da Tarde.

Para quem conhece a série, os elementos tradicionais da mitologia de Doctor Who estão todos lá. Viagens no tempo e espaço, universos paralelos, modificações na linha temporal, turnês por passagens memoráveis da história – com direito a esbarrões com figuras ilustres do passado (inclusive, Doctor fica noivo de Marilyn Monroe!).

O Doctor, sempre meio deslocado e perdido a princípio – mas cheio de boa vontade e dando a entender que sabe o que está fazendo, mesmo que não saiba –  faz com que as coisas mais confusas, embaraçosas e complicadas, pareçam tarefas e situações simples de lidar, que só requerem um pouco de tempo, imaginação e uma potente e esperta chave sônica para dar conta do recado.

E como é sempre dito ao longo da série, a vida pode ser reescrita. Dessa vez, Doctor se incumbe da tarefa de reconstruir a vida e reescrever as memórias de um homem poderoso, egoísta, insensível e mesquinho. E, como não poderia ser diferente, ele odeia o Natal. Doctor viaja até o seu passado, encontrando uma versão mais jovem daquele homem amargo, um garoto sensível de doze anos, e trata de lhe dar memórias felizes de Natais passados.

O objetivo principal é fazer com que o homem, que atende pelo nome de Kazran Sardick, use o poder que possui para salvar a vida de 4.003 habitantes do planeta Terra a bordo de uma nave em turbulência. Ele é, na verdade, o único que pode fazer iss,o por ter acesso a uma máquina controlada isomorficamente (ou seja, só ele consegue operá-la) que pode desativar uma nuvem que está gerando uma tempestade eletromagnética; e é exatamente isso que está interferindo no funcionamento da nave que pode cair a qualquer momento. A nuvem permanece o tempo todo sobre um planeta habitado por humanos, que é onde o amargo homem vive desde garoto e o cenário no qual se desenrola a trama desse episódio. Parece confuso e absurdo, mas até que é bastante plausível.

Dessa forma, Doctor tenta transformá-lo em um homem melhor para que ele perceba o quanto é importante fazer com que a nave pouse em segurança.

Seus habituais companheiros de viagens – Amy e Rory – portanto, cedem espaço a uma garota congelada, Abigail (interpretada por Katherine Jenkins), e a versão passada e ainda possuidora de um pouco de coração de Kazran, o homem do qual a história gira em torno (interpretado pelo Michael “Dumbledore” Gambon).

Claro que a inspiração maior para o episódio é o clássico natalino A Christmas Carol de Charles Dickens, com direito Doctor se passando pelo Fantasma do Natal Passado e Amy Pond se apresentando como o Fantasma do Natal Presente. Aquela história que estamos mais do que saturados de ler/ouvir/assistir desde crianças, em todos os especiais de Natal, e que já ganhou diversas releituras e adaptações ao longo dos anos – desde versões em desenhos animados até humorísticos da Rede Globo (!)

Mas em Doctor Who, a coisa é tão divertida, com um enredo sólido, funcional e tudo é tão bem arquitetado que é como se tratasse de uma história nova. Não se trata exatamente de reinventar uma trama mais do que clássica e conhecida. Mas do senso de diversão e de brincadeira aliados a uma narrativa edificante, nunca deixando de lado o espírito sci-fi da série, que acaba tornando mesmo os clichês, encantadores (e por clichês, leia-se a neve caindo no final do episódio depois de anos, a trágica história de amor e o próprio conto em si). Mesmo a vibe de feel good movie e o happy ending não tiram a graça do episódio que, como sempre, é divertido, criativo e até tocante.

O visual é um primor. A fotografia e os efeitos são tão bem trabalhados que fazem com que este episódio ganhe contornos e um tom acertado de fábula, além de um aspecto mais cinematográfico.

A ótima presença de cena e talento do ator Michael Gambon são apenas a cereja no topo do bolo de um dos episódios mais fantásticos de Doctor Who.

A Christmas Carol possui uma duração mais longa do que o usual da série, mas passa voando. Mal percebemos.

Se você vai ficar em casa no Natal e procura por uma boa alternativa para se assistir embaixo das cobertas ou naquelas sessões de filminhos e séries com os amigos e família, indico, ainda que você não seja um fã ou não conheça Doctor Who, dar uma chance a esse episódio. Provavelmente vai ser uma das coisas mais legais com o tema Natal que você viu nos últimos tempos. E periga até você começar o ano viciado em Doctor Who, baixando todas as temporadas da série 😉

Preview:

Fonte das imagens: http://uksriesdownload.blogspot.com /

 http://seriemserie.blogspot.com

A equipe do Bloggallerya deseja a todos um FELIZ NATAL!

Andrizy Bento

[Literatura] Os Instrumentos Mortais

Eu conheci o trabalho da Cassandra Claire no início do ano passado, pouco antes de começar o meu TCC sobre Fanfics ao lado das amigas e parceiras @Fer_Serpa, @prado_carol, @sah_fontoura e @leletistella.

Cassie Claire é autora da série Instrumentos Mortais, que já ganhou o mundo e agora se prepara para virar franquia cinematográfica. Mas antes, ela era conhecida como a autora da famosa trilogia Draco Dormiens. Nunca ouviu falar? Trata-se de uma fanfic. E o que são fanfics? Como o próprio nome diz, são ficções criadas por fãs a partir de uma determinada obra. Você se apropria de personagens ou situações e as recria, escreve sob seu ponto de vista ou preenche lacunas que ficaram nas histórias originais. Mais ou menos quando você se decepciona com um livro, filme ou seriado e pensa “ah, seria bem melhor se o final tivesse sido dessa maneira…”. Tem gente que, ao invés de apenas imaginar como seria o desfecho perfeito, vai pra frente do computador, escreve e publica em algum site de fics na internet.

Draco Dormiens é uma das mais, se não a mais, popular do gênero, que permitiu que Cassandra se tornasse famosa na internet (positiva e negativamente). A autora cruzou de maneira bem-sucedida as fronteiras entre o virtual e o impresso e realizou o sonho que 99% das ficwriters (escritoras de fanfics) possuem: lançou um material de sua autoria em formato de livro. Conseguiu publicar um original… Nem tão original assim, sejamos francos.

A leitura da série Instrumentos Mortais – sendo o primeiro volume Cidade dos Ossos, sucedido por Cidade das Cinzas, Cidade de Vidro e Cidade dos Anjos Caídos, esse último ainda não lançado no Brasil – é difícil. Não que a linguagem seja hermética demais. Pra falar a verdade, Cassandra é bem direta e objetiva em termos de linguagem, dona de um texto ágil e que sabe muito bem criar momentos de tensão (o que é essencial em se tratando do gênero pelo qual ela se aventura). Em suma, Cassandra não perde tempo com lenga-lenga desnecessário.

A leitura é difícil unicamente porque, para quem leu Harry Potter, é impossível dissociar uma coisa da outra. Os primeiros dez capítulos de Cidade dos Ossos foram, para mim, um sufoco. Eu não conseguia me desvincular de HP enquanto lia. Volta e meia, me pegava fazendo associações entre uma obra e outra.

Verdade seja dita: Clary e Jace, os protagonistas, são claramente inspirados em Ginny Weasley e Draco Malfoy. O bacana Luke, o licantrope, é baseado em Lupin. O grande vilão da história, Valentin, lembra muito Voldemort. Magnus Bane tem algo de Gilderoy Lockhart. Fora as comparações entre Ciclo e Comensais da Morte, varinhas e estelas…

Vou parar por aqui.

Claro que Cassandra tem lá seus méritos. Além de alguns já expostos, ela sabe equilibrar bem aventura e romance. Claire acerta exatamente no ponto em que J.K. Rowling falha, o aspecto “romântico” da história. O relacionamento entre Clary e Jace é bem desenvolvido, inicia-se de maneira tímida e evolui de forma satisfatória, embora a autora nos pregue uma peça com uma revelação chocante no final do primeiro volume que mais tarde é esclarecida para alívio dos leitores. A mitologia presente nos livros de Claire é até bem trabalhada, envolvendo anjos, demônios, além de um subtexto e referências religiosos (embora essa idéia já tenha sido explorada à exaustão em outras obras de conteúdo similar).

O problema consiste mesmo na construção de personagens, aspecto no qual Claire falha drasticamente. Jace até acaba por se revelar um personagem carismático lá pelas tantas, bem como seus amigos Alec e Isabelle. Mas é fato que Jace nada mais é do que o Draco Malfoy idealizado por grande parte dos fãs de HP que sentiram que o personagem foi um tanto negligenciado na obra de J.K. Rowling. Às vezes, durante a leitura de Instrumentos Mortais, se tem a impressão um tanto embaraçosa de se estar lendo uma fanfic de Harry Potter.

Outra falha está na forma como ela vai despejando lendas e mitos pelas páginas sem o menor comedimento. É uma salada de lobisomens, vampiros, fadas e outras criaturas do submundo, além de diversas nomenclaturas, classificações e um sem-número de referências que, por vezes, deixam o leitor zonzo e perdido, necessitando de um glossário. Muito embora, isso funcione mais como background e não chegue realmente a atrapalhar a trama principal.

Se não fosse por esses meros detalhes, estaríamos diante de uma obra bem interessante e atraente, uma digna releitura de seres mitológicos já velhos conhecidos do grande público. Contudo, Instrumentos Mortais revela-se como nada mais do que uma leitura divertida para um fim de semana ocioso.

Fonte das imagens: http://livrosfantasticos.com / 

http://instrumentosmortaisoficial.blogspot.com/

Andrizy Bento

[Dicas] Cinco filmes para ver e rever

Os jovens ocupam um espaço de destaque no cinema. A maior parte dos Blockbusters são lançados com o objetivo de atrair o público adolescente para as salas de projeção. Mas aqui indicaremos os filmes dedicados ao público jovem, com temática jovem. Tudo de inerente a esse universo está presente nos cinco filmes que destacamos: Música, referências pop, comportamento, descobertas, inquietudes, o espírito desbravador, livre e revolucionário.

Alguns trazem uma visão mais descontraída e alegre, outros uma visão melancólica e sombria, mas todos apresentam uma visão real da juventude. 

Quase Famosos

(Almost Famous, 2000)

Drama

Um dos filmes mais bacanas do início dos 2000. O diretor Cameron Crowe conseguiu como ninguém capturar a atmosfera dos anos 70, bem como o espírito Rock’n’roll daquela época. O filme traz uma história muito atraente: Um garoto apaixonado pelo rock, que costuma fazer críticas musicais de forma amadora, é descoberto pela revista Rolling Stone e, com apenas 15 anos, é contratado como repórter pela própria. Seu primeiro grande trabalho é acompanhar a banda Stillwater em sua primeira turnê pelos EUA, porém, ele acaba se envolvendo demais com a banda e com as garotas que a cercam, dentre elas a alucinante e alucinada Penny Lane. O que torna Quase Famosos um filme comovente é a paixão contagiante do diretor pela música, o carinho com que Crowe trata suas personagens, bem como a sua maestria na hora de recriar o universo setentista.

Elefante

(Elephant,2003)

Drama

Depois da bonança, vem a tempestade. O diretor Gus Van Sant procura primeiramente nos anestesiar mostrando um dia na vida de dois jovens, alvos de brincadeiras maldosas na escola, que aguardam em casa a chegada de sua metralhadora. Paralelamente, passeia com tranqüilidade pelo sufocante colégio onde estudam os dois garotos. A câmera sempre nas costas das personagens, segue os estereótipos mais comuns existentes em uma escola. Finalmente mostra os garotos com armas potentes em punho executando friamente um assassinato em massa. Os alvos: Seus colegas e o diretor do colégio. Van Sant transportou para a tela a angústia e inquietude dos jovens estudantes em uma narrativa precisa baseada em fatos reais. É impressionante como Van Sant filma o massacre de maneira crua, mas sem perder a elegância de sempre de seus enquadramentos. E mesmo mostrando que os garotos assistem programas sobre Hitler pela TV e curtem jogos violentos de computador, não usa esses artifícios como justificativa exclusiva para seu comportamento agressivo. Exemplar de cinema atual essencial na coleção de qualquer um.

Meu Tio Matou Um Cara

(2005)

Comédia

Não é o melhor filme de Jorge Furtado – responsável por pérolas do cinema nacional como O Homem Que Copiava, Saneamento Básico e o curta Ilha das Flores – Mas, ainda assim, possui grandes méritos. O primeiro está na escalação do elenco: todos se encaixam perfeitamente nos seus papéis. O ritmo leve e descontraído com que segue a narrativa, a linguagem jovem utilizada pelos personagens, com muitas gírias e referências pop, são outros elementos que atraem nesse delicioso misto de comédia romântica e policial que narra a aventura de Duca na busca por provar a inocência de seu tio que confessou um assassinato, mesmo sendo inocente. No meio dessa história, Duca acaba envolvendo seus amigos Kid e Isa. Como em todos os filmes de Furtado, o charme está nos detalhes sutis, mas que não passam despercebidos pelos telespectadores mais atentos e que se deixam envolver por suas tramas.

Os Sonhadores

(The Dreammers, 2003)

Drama/Romance

Um dos mais belos filmes dos últimos tempos. Uma verdadeira declaração de amor ao cinema, que retrata temas como descoberta da sexualidade e tendo como plano de fundo a revolução estudantil dos anos 60. Ambientado na França, o filme fala sobre um casal de irmãos parisienses que, durante uma viagem de seus pais, convidam um americano meio deslocado a se hospedar em sua mansão decadente. Vinho, sexo e apaixonadas discussões sobre filmes são seus únicos passatempos enquanto permanecem enclausurados na mansão sem se importar com o mundo lá fora. Charmoso e sensual em cada fotograma, Bernardo Bertolucci surpreende com o seu senso estético sempre digno de nota; no uso de cores, luz, cenários, sem falar na inserção de cenas de clássicos do cinema com direito a reprodução da corrida no Louvre de Band à Part. Com Os Sonhadores, o diretor italiano nos presenteou com uma verdadeira preciosidade do cinema atual.

O Clube dos Cinco

(The Breakfast Club, 1985)

Drama

O diretor John Hughes compreendia o universo jovem. Em seus filmes, a maioria clássicos dos anos 80 (e hoje perpetuados como clássicos da sessão da tarde), Hughes mostrava a irresponsabilidade, a rebeldia e a frustração da juventude, tornando seus personagens críveis, sem precisar estereotipá-los como é comum nos besteiróis teenagers atuais. Foi assim com a comédia Curtindo A Vida Adoidado, sobre um garoto que mata a aula para curtir a liberdade, e com este Clube dos Cinco. No entanto, dessa vez, o diretor lida mais com um viés de drama e apresenta cinco jovens que depois de aprontarem acabam tendo de passar o dia inteiro na detenção, tendo como tarefa escrever um longo texto sobre o que pensam de si mesmos. Jovens tão diferentes, que integram círculos diferentes de amizade, acabam por se conhecer melhor uns aos outros e a si mesmos, a compartilhar segredos, conflitos internos e dramas familiares. Qualquer oitentista tem O Clube dos Cinco como um de seus filmes afetivos. Tocante e muito bem sacado, Hughes conseguiu fazer deste o seu melhor trabalho.

Andrizy Bento

[Dicas] Bastardos Inglórios

Bastardos Inglórios se passa durante a Segunda Guerra Mundial, no primeiro ano da ocupação da França pela Alemanha. É nesse cenário que a judia Shosanna Dreyfus vê sua família ser cruelmente executada pelo coronel nazista Hans Landa, também conhecido como “caçador de judeus”. A partir daí começa mais uma história de vingança narrada por Quentin Tarantino. Mas esqueça Beatrix Kiddo, a noiva de Kill Bill. Por mais que o cineasta explore o tema vingança novamente, aqui o contexto é bem diferente.

Paralelamente à história de Shosana, surge o tenente Aldo Raine que forma Os Bastardos, um grupo de soldados judeus unidos para exterminar nazistas.

Novamente o cineasta usa e abusa da “estética da violência”, apropria-se de uma narrativa em capítulos e recheia seu filme de referências pop obscuras e humor negro, como já é de praxe. Mas isso não significa que seja apenas mais um filme do Tarantino. Um filme de Tarantino nunca é apenas mais um. Dessa vez, o cineasta explora um terreno até então não visitado por ele e permite-se inovar, tomar liberdades criativas e distorcer a história da Segunda Grande Guerra.

Com o cinema de Tarantino não existe meio-termo. Ama-se ou odeia-se. Não dá para simplesmente ser indiferente. “Cineasta superestimado que repete fórmulas e criador de diálogos preconceituosos” é como ousam vesti-lo os detratores que, em termos de quantidade, podem não se comparar ao número de fãs que o diretor possui, mas sim, eles existem.

Ao longo dos anos, esses detratores não hesitaram em chamar o cinema de Tarantino de racista entre outros impropérios. E isso não fez com que o diretor se intimidasse ao, por exemplo, dar mais substância e espaço na tela ao grande vilão nazista Hans Landa, que é sem dúvida, o personagem mais bem desenvolvido do longa. Bela presença de cena do ator Christoph Waltz. Os demais personagens são como a maioria das figuras que já ilustraram as películas tarantinianas: rasos. O diretor nunca fez questão de construir detalhadamente suas personagens. O que importa são as situações nas quais ele as envolve. No máximo, ele apresenta sequências em flashback para explicar como as personagens foram parar nas histórias tresloucadas que ele conta. Brad Pitt, na pele de Aldo Raine, funciona mais como o alívio cômico do filme e Mélanie Laurent, como a judia Shosana Dreyfus, é quase uma encarnação de uma diva do cinema francês. Nenhum deles apresenta muita espessura como personagem. Eles apenas estão na tela para pôr em prática seus planos de vingança.

Os diálogos longos seguidos de cenas impactantes e ultra violentas – outra das marcas registradas do cineasta – também estão presentes em profusão neste longa. Afinal, é assim que Tarantino sabe fazer cinema – lidando com a expectativa e o choque do espectador. Trabalhando (muito bem, diga-se de passagem) com o clímax e o anticlímax. Em Bastardos Inglórios, por exemplo, cenas fabulosas mal atingem seu auge e são cortadas abruptamente, bem como a trilha sonora que mais uma vez se destaca.

Bastardos Inglórios é ousado no tom adotado para contar a narrativa, desafiando a história, e no show de violência e sangue.

O melhor de Tarantino é o fato de que ele soube construir uma identidade cinematográfica como poucos. Assim como Almodóvar, Kubrick e De Palma, é impossível assistir a um filme de Tarantino e não reconhecê-lo nele.

É fato que essa resenha era para ser uma resenha sobre Bastardos Inglórios, mas é quase uma resenha sobre Tarantino. Talvez seja porque sua figura tenha se tornado mais célebre e icônica que os seus próprios filmes. E talvez seja por isso que ele tenha optado por deixar a modéstia de lado e afirmar (através de uma fala do personagem de Brad Pitt) no final de Bastardos Inglórios: Essa é minha Obra-Prima.

Postado originalmente em http://inquadrofilmes.blogspot.com/2009/10/bastardos-inglorios.html em 25/OUT/2009

Andrizy Bento

[Televisão] Pretty Little Liars

O desaparecimento da líder de um grupo de cinco amigas populares na fictícia Rosewood é o ponto de partida de Pretty Little Liars. Mesmo um ano depois, o mistério ainda assombra a pequena cidade. Logo nos primeiros episódios descobrirmos se tratar não apenas de um desaparecimento, mas sim de um assassinato. Embora a lei diga o contrário, o crime parece estar muito longe da resolução e Aria, Hanna, Emily e Spencer sentem como se o fantasma de Alison estivesse sempre rondando por ali.

As amigas remanescentes se distanciam umas das outras logo após o misterioso ocorrido, mas uma série de estranhos eventos que passam a acontecer na cidade um ano após o desaparecimento de Ali, as reaproxima e o laço que as une parece mais forte do que nunca.

Aparentemente, a única saída das quatro amigas é permanecerem unidas, do contrário, as fragilidades particulares de cada uma, podem fazer com que elas sejam vencidas facilmente, não só pelos fantasmas do passado e a marca que o crime deixou na história delas e da cidade, como pela misteriosa criatura que se autodenomina “A” e que está sempre as observando onde quer que elas estejam, chantageando-as e mandando recadinhos irônicos e maldosos através de bilhetes e mensagens de texto.

O mote da série, a lenda urbana, faz com que esta funcione e desperte algum interesse. O mistério que cerca o assassinato e o clima de suspense quase constante no melhor estilo Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, dão um diferencial à trama que, por se tratar de uma série protagonizada por personagens adolescentes, não escapa dos chavões narrativos e dos estereótipos tão comuns existentes em outras séries teen.

Outro trunfo de Pretty Little Liars  é mostrar que o relacionamento das amigas Ali, Aria, Emily, Hanna e Spencer nem sempre foi um mar de rosas. Ali não era apenas excessivamente admirada pelas demais, como também invejada e temida. Ela oprimia as amigas e ditava as regras do jogo, sempre com seu jeito atrevido, irreverente e sem medo de magoá-las com sua sinceridade. Fica evidente que as outras quatro só se tornaram amigas por causa de Ali, e esta costumava dizer que era ela quem as tinha feito, que certamente elas não seriam nada sem a sua abelha-rainha. Por isso suportavam a humilhação a que eram submetidas, como ser alvo de bullying por ser gordinha, que era o caso de Hanna, ou mesmo ser confundida por conta de sua orientação sexual, no caso de Emily. A única que realmente tinha coragem para iniciar embates com Ali era Spencer, contudo, não conseguia fugir das conseqüências que isso acarretava e isto mesmo depois da morte da amiga

Sabemos, portanto, que elas nunca foram lá muito boazinhas e que fizeram coisas que não deviam, e não apenas elas como outros habitantes da aparentemente pacata Rosewood que vão sendo revelados lá pelas tantas, como se todas as ligações levassem à Alison, ela soubesse demais e, por conta disso, tivesse sido morta.

Mas a riqueza do background, todo o mistério e os cliffhangers que contribuem para que a série se torne ‘viciante’, não são o suficiente para evitar que certas fraquezas sejam evidenciadas a partir da segunda temporada, quando muitas saídas não soam convincentes e as soluções (ou falta destas) são excessivamente forçadas. É incrível como tudo dá absolutamente errado e as garotas são extremamente azaradas, sempre perdendo provas e pistas importantes ou sendo pegas de surpresa indo pelo caminho errado, quando todas as evidências pareciam apontar exatamente para a resolução do enigma.

Além disso, os arcos dramáticos que envolvem as amigas, no que concerne à família e relacionamentos, muitas vezes se resumem a puro lenga-lenga. Um exemplo é a manjada relação proibida entre professor e aluna que parece três vezes mais conflituosa do que realmente deveria ser.

Espero realmente que encontrem uma justificativa plausível para o fato de A ser tão onipresente, onisciente e onipotente (ou talvez eu devesse colocar essas características no plural?). Não faz sentido a série ultrapassar três temporadas, pois corre o grande risco de se tornar cansativa, forçada ao extremo e perder o escopo.

Mas para quem gosta de tramas adolescentes que aliam mistério e suspense a dramas pessoais mal-resolvidos e conflitos internos, Pretty Little Liars é uma ótima alternativa. Uma mistura do já citado Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado com a série Desperate Housewives. Para o telespectador, fica como uma boa opção de entretenimento tentar encaixar as peças desse complicado quebra-cabeça.

Fonte da imagem: http://www.buddytv.com/

Andrizy Bento

[Literatura] Jogos Vorazes

Após o fim da América do Norte, uma nova nação chamada Panem surge. Formada por doze distritos, é comandada com mão de ferro pela Capital. Uma das formas com que demonstram seu poder sobre o resto do carente país é com Jogos Vorazes, uma competição anual transmitida ao vivo pela televisão, em que um garoto e uma garota de doze a dezoito anos de cada distrito são selecionados e obrigados a lutar até a morte.

Matar ou morrer. Não há escolha. Na arena, o mais capaz vence. Que os Jogos Vorazes comecem!

Jogos Vorazes (Suzanne Collins, Ed. Rocco, 2008)

jogos-vorazes

Para um livro que se encaixa na categoria YA Lit (Young Adult Literature), Jogos Vorazes de Suzanne Collins é até transgressor. A trama é densa, pontuada por passagens violentas e impactantes, contém alto teor dramático, e chega até a sugerir uma crítica social.

A premissa em si não é, assim, inovadora. Em um primeiro momento, Jogos Vorazes nos remete imediatamente a Battle Royalle, contudo, a proposta de ambas as obras bem como a linha narrativa e o público que almejam atingir são distintos.

O texto de Collins é cru e ágil, o que é indispensável dentro do que ela se propõe, sem firulas ou embromação. A premissa é bem trabalhada e apesar de algumas passagens que quase chegam a extrapolar o limite do aceitável, tudo funciona bem e parece plausível dentro do universo apresentado pela obra, desde que você se deixe levar pelo conto.

A autora adota estilo e ritmo apropriados e precisos que corroboram a atmosfera proposta, imperativos para que a história flua de modo a prender a atenção do leitor e se torne convincente aos olhos deste. Dessa forma, há compatibilidade entre todos os elementos narrativos, o que faz de Jogos Vorazes um livro bem estruturado, com uma leitura que passa muito longe de ser cansativa.

O romance entre a heroína da história e seu parceiro de distrito não consegue escapar de alguns clichês. Fica evidente que a história de amor foi inserida mais por questões mercadológicas mesmo e, portanto, algumas passagens de sessões de beijos entre os dois parecem, muitas vezes, deslocadas na trama.

Vendido equivocadamente como o sucessor de Crepúsculo (uma estratégia para angariar os fãs já quase órfãos da outra franquia), o romance best-seller de Suzanne Collins em nada se assemelha à série-fenômeno assinada por Stephenie Meyer, exceto, talvez, pela tentativa de se construir o tão famigerado triângulo amoroso, exaustivamente presente em grande parte das obras do gênero. Inclusive, dentre os jovens que constituem a fanbase de Jogos Vorazes, muitos até já levantam bandeira pelo seu teamteam Peeta ou team Gale – a exemplo do que aconteceu com Crepúsculo.

Contudo, o relacionamento da heroína com Peeta Mellark não é exatamente o foco de Jogos Vorazes. A trama principal se concentra na luta pela sobrevivência de Katniss Everdeen, sua rebeldia contra o sistema que controla e oprime a sociedade em que vive, bem como os questionamentos, dúvidas e anseios da carismática protagonista que, apesar de toda sua força, coragem e de já ter vivido todas as agruras e sofrimentos possíveis, ainda é só uma adolescente em fase de descobertas.

Aliás, falando nela, é bom ver uma heroína que foge daquele arquétipo da donzela em apuros que já se tornou comum na maioria dos títulos dedicados ao público infanto-juvenil. Katniss é guerreira, dona de uma personalidade forte e marcante, que não se deixa sucumbir facilmente, seja diante dos obstáculos em seu tortuoso caminho, ou dos sentimentos confusos e contraditórios que nutre pelo seu parceiro e rival na arena.

Suzanne Collins mantém um alto nível de tensão durante praticamente toda a segunda metade do livro e constrói um universo palatável com personagens que sustentam bem a sua história. Não se aprofunda, mas pincela de maneira inteligente questões como a desigualdade social, a hierarquia opressora da sociedade e até a alienação das massas, chegando bem próxima de uma crítica afiada e irônica às audiências de reality shows, ao público espectador manipulado pela televisão com seus modismos, fenômenos mediáticos e altas doses de demagogia. Isso sem nunca ir a fundo nessas discussões, colocando-as como plano de fundo, sabendo que seu livro trata-se de uma história fictícia ambientada em um futuro distópico e apocalíptico. Uma fantasia sombria, sim. Mas ainda assim uma fantasia.

Jogos Vorazes está longe de ser uma obra-prima e nem é essa a intenção. Mas é um excelente passatempo e um dos melhores títulos YA Lit que foram lançados nos últimos tempos. A obra mostra que nem tudo o que é destinado ao público jovem é descartável, infantilizado ou desprovido de imaginação e inventividade. Muitos apontam o livro como sendo bobo, forçado, superficial. Discordo, Jogos Vorazes é mais do que se pode esperar de um entretenimento que surgiu em meio a tantos livros que vem apresentando exatamente as mesmas fórmulas como Fallen e outros genéricos.

Ao leitor desavisado, prepare-se: Jogos Vorazes é dinâmico, divertido e bastante sangrento.

Em tempo: O teaser da adaptação para os cinemas de Jogos Vorazes foi exibido no último domingo, na premiação musical da MTV, o Video Music Awards. É muito cedo para se tecer qualquer comentário mais aprofundado, mas a primeira impressão é que a estética Crepúsculo fez escola. Movimentos de câmera, edição, cortes, fotografia, trilha sonora e até o voice-over soam como herança do estilo Crepuscular… Antes que achem que estou exagerando, aí vai o teaser que não me deixa mentir:

Vamos esperar que seja apenas uma falsa primeira impressão…

Fonte da imagem: http://www.sobrelivros.com.br

Andrizy Bento