Arquivo da categoria: Resenhas

Infiltrado na Klan

Como um legítimo exemplar de Spike Lee, Infiltrado na Klan é visceral e furioso, mas composto de planos elegantes e filmado de maneira discreta. Trata-se de uma comédia política e de um suspense policial. É um drama biográfico, mas que retrata uma situação absurda até mesmo para os padrões ficcionais hollywoodianos. É de uma importância social inegável, porém, foge com sabedoria do discurso panfletário. Denuncia o radicalismo de uma organização, mas não se rende ao maniqueísmo. Situa-se no fim da década de 1970, no entanto, soa urgente e atual, pois é impossível não traçar paralelos com a realidade que nos cerca. O texto é munido de contrastes e de um tom de ironia intencionais, exatamente por conta do quão surreal é sua premissa: um policial negro que conseguiu se infiltrar na Ku Klux Klan. O genial Spike Lee assina um longa brilhante e necessário ainda hoje. Continuar lendo Infiltrado na Klan

Nasce Uma Estrela

Após ser indicado três vezes consecutivas ao Oscar por suas performances nos longas O Lado Bom da Vida, Trapaça e Sniper Americano – nas categorias de melhor ator e ator coadjuvante – Bradley Cooper fez sua estreia como cineasta com o 4º remake de Nasce Uma Estrela e viu sua chance de concorrer à categoria de direção no tradicional prêmio entregue pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, cada vez mais próxima de se concretizar. Não aconteceu, mas, por outro lado, Cooper foi indicado novamente por seu desempenho como o protagonista de Nasce Uma Estrela. Nada mal para o ator que ganhou projeção com a despretensiosa comédia Se Beber, Não Case – um fenômeno inesperado de bilheteria que gerou duas sequências desnecessárias. Cooper, embora não tenha saído vitorioso em nenhuma cerimônia do Oscar até agora, parece ter se tornado uma espécie de figurinha tarimbada da Academia. No entanto, é intrigante que o ator tenha escolhido justamente uma história que já foi contada e recontada diversas vezes no cinema para inaugurar sua carreira como diretor. Ainda mais por ser uma narrativa de teor tão trágico e previsível. Continuar lendo Nasce Uma Estrela

Vice

Um filme sobre Dick Cheney, mas que é anti-Dick Cheney.

A cota de cinebiografias de personagens históricos e/ou políticos – que exigem de seu ator principal uma transformação admirável e uma mimese acurada – do Oscar deste ano foi preenchida com Vice. Mas não espere algo do teor de um Lincoln de Steven Spielberg ou de O Destino de Uma Nação de Joe Wright. Isto porque o nome que figura nos créditos de direção é o de Adam McKay e isso já diz muito. Continuar lendo Vice

Roma

O talento do cineasta mexicano Alfonso Cuarón já foi comprovado em inúmeras obras díspares entre si – no belo A Princesinha (1995); no realista E Sua Mãe Também (2001); no ótimo terceiro capítulo da franquia Harry PotterO Prisioneiro de Azkaban (2004); e no colossal Gravidade (2013) – demonstrando também sua versatilidade e, sobretudo, criatividade na condução de seus longas. Roma, no entanto, se trata de um projeto mais pessoal, diferente de tudo o que o realizador já apresentou anteriormente. A produção original da plataforma de streaming Netflix, e baseado em memórias da infância do próprio diretor na Cidade do México, leva sua assinatura em cada um de seus frames e, ainda, em cada etapa da produção do longa. Cuarón não apenas dirigiu e roteirizou, como produziu, co-editou e cinematografou Roma.

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Green Book: O Guia

O timing de lançamento de Green Book não poderia ser mais equivocado. Se lançado há uma década, ou mesmo há uns cinco anos, não encontraria tanta reprovação popular (lembram como o público ovacionou o indigesto e condescendente Histórias Cruzadas, por exemplo?). Diante dos esforços para parecer cada vez mais moderna e alinhada ao politicamente correto, uma vitória de Green Book no Oscar denunciaria o anacronismo da Academia. Seria premiar o Conduzindo Miss Daisy 2.0 quando mesmo o prêmio deste é contestado até hoje, quase três décadas depois. Mas também não seria surpreendente. O Globo de Ouro tentou a mesma cartada, pagando de moderna, promovendo extensivamente Pantera Negra da Marvel Studios (indicado, inclusive, ao prêmio de Melhor Filme de Drama na premiação) e elegeu Green Book como o grande título de 2018. Pior, o longa ainda conquistou o PGA, prêmio do Sindicato dos Produtores de Hollywood, considerado um dos termômetros mais infalíveis do Oscar. Continuar lendo Green Book: O Guia

A Favorita

Este é um filme de atrizes. Realizado com o claro intuito de servir de veículo para que as três estrelas brilhem, uma em maior grau do que as outras. De fato, o que mais chama atenção em A Favorita é a presença inspirada de Emma Stone, Rachel Weisz e, especialmente, Olivia Colman. Não que a trama em si não seja interessante, no entanto, me perdoem o trocadilho, mas dificilmente irá figurar em uma lista de favoritos de algum cinéfilo por aí. Continuar lendo A Favorita