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Pode Beijar a Noiva – Patrícia Cabot

Numa época em que livros e contos eróticos estão na moda, Meg Cabot, a diva das histórias sobre princesas modernas (e aqui, nada tem a ver com a Sarah Sheeva) e dos livros voltados para o público infanto-juvenil, pode ser, surpreendentemente, uma boa pedida para os jovens que querem se entreter com este universo hot e, ao mesmo tempo, romântico, que está fazendo a cabeça do público leitor de todo o mundo.

Patrícia Cabot é o pseudônimo que Meg utilizou para assinar seus livros voltados para o público jovem/adulto, e um deles é o Pode Beijar a Noiva. Ele conta a história de Emma Van Court, dama londrina que, totalmente apaixonada pelo jovem Stuart, resolve fugir e se casar com ele mesmo tendo consciência de que sua vida muito dificilmente terá conforto financeiro.

Seis meses após o casório, Stuart morre (de uma maneira um tanto bizarra) e Emma se vê sozinha numa cidade pequena e pouco desenvolvida, morando numa cabana em condições precárias ao lado de uma cadela e um galo fujão. Misteriosamente, entretanto, ela passa a ter direito a uma grande herança caso volte a se casar, o que faz com que os marmanjos de todo o vilarejo se interesse por ela. Aliás, pelo seu dinheiro.

James Marbury, primo de Stuart e dono da fúria de Emma, vai até o vilarejo sem planos de vê-la, mas o destino prega-lhe uma peça. Ao encontrá-la em uma situação precária e cercada de homens querendo sua herança, James, que não precisa de dinheiro, pois é o Conde de Denham, se oferece como marido temporário de Emma, apenas para liberar a herança de que é era dona e, posteriormente, ele próprio resolverá tudo para a anulação do casamento, já que não irão consumar a união. Teoricamente.

O que podemos encontrar em Pode beijar a noiva é um típico romance “sessão da tarde” com pitadas de “tela quente”. Emma e James são divertidos juntos e Patrícia/Meg se esforçou para deixar algumas passagens engraçadas. O casal tem muita química e os capítulos destinados aos beijos apaixonados e ao sexo foram muito bem feitos (e detalhados!). Confesso que esse fato me pegou um pouco de surpresa, esperava por algo mais “infantil”, talvez por preconceito ou pela própria forma de pensar de Emma, que chega a ser chata no início do livro.

O amor que ela sente por Stuart é mostrado de forma breve (já que o próprio era contra demonstrações físicas de afeto dentre outras coisas), o que torna difícil a existência de “teams”, frequentes nos romances atuais. Stuart também é morno, enquanto Emma tinha uma alma “devassa”, como a própria diz. É com James que a personagem encontra a fusão entre a melhor e a pior parte de si mesma. Emma “devassa” é muito mais divertida do que a Emma “caridosa”, embora as duas estejam presentes em toda a trama.

Quem já está acostumado com literatura erótica (o que não é o meu caso) com certeza vai achar as relações sexuais entre Emma e James fracas e “sem sal”, mas para aqueles que ainda estão iniciando no gênero e curtem um bom romance, Pode beijar a noiva é totalmente indicado.

Daniele Marques

Destino – Ally Condie

Imagine viver num lugar onde tudo é totalmente controlado de acordo com o que o governo planeja para você: profissão, casamento, filhos, alimentação, diversão e até mesmo morte. O controle é absoluto, sem erros, ilusões e outros caminhos a serem seguidos. É assim que a Sociedade de Destino (Matched) mantém todos os habitantes das províncias sob suas normas.

É nesse lugar que vive Cássia Maria Reyes, personagem principal da obra de Ally Condie. Ela acaba de completar 17 anos e, por este motivo, deve comparecer ao conceituado e bastante aguardado “Banquete do Par”, onde irá conhecer seu futuro marido, aquele com quem deverá viver o resto da vida. Ele fora escolhido pela Sociedade: seu porte físico, suas características psicológicas, tudo milimetricamente controlado para que ele se relacione perfeitamente com Cássia, e para que juntos gerem crianças saudáveis (é dessa forma, aliás, que a Sociedade eliminou doenças que matavam muita gente antes de seu controle).

Mas para a surpresa de todos e da própria personagem, o par escolhido para ela vive na sua província, o que é raro de acontecer. O caso se torna ainda mais incomum quando Cássia descobre que o homem nomeado para ser seu, nada mais é que seu melhor amigo, Xander Thomas Carrow.

Cássia e Xander passam a ser vistos como pessoas de sorte, pois, na maioria dos casos, os pares são formados com gente que nunca se viu antes, geralmente moradores de províncias diferentes. Mas nem tudo acontece perfeitamente como o planejado: o “microcartão” recebido por Cássia, onde ela pode ter acesso ao seu par e suas principais características (como se já não as conhecesse perfeitamente), demonstra um funcionamento incomum: não é o rosto de Xander que aparece na tela e sim o de Ky, outro morador da província que ela também conhece.

Além de Ky não ser seu par, ele jamais deveria ter sido considerado um, pois é tido como uma “aberração” pela Sociedade. Mas o erro cometido por aquela que tem a fama de ser perfeita acaba envolvendo Cássia num dilema: seguir à risca o que a Sociedade preparou para o seu futuro; ou o seu coração, que tende a disparar toda vez que ela vê os olhos azuis de Ky?

Enquanto a personagem tenta entender o que sente, a autora nos apresenta os membros de sua família: pais, irmão e avô. Impossível não sentir um afeto maior por eles, que se amam mesmo com toda a repressão e frieza sentimental imposta pela Sociedade. No entanto, com o decorrer da trama, torna-se perceptível que o relacionamento entre eles não é perfeito como deveria ser: todos guardam segredos e mentem quando necessário, mesmo correndo risco de punição. É este fato e a presença de Ky na vida de Cássia que irá contribuir com o enfraquecimento da noção de vida perfeita que a personagem tinha.

O início do livro é um tanto maçante, mas ele ganha um ritmo legal após as cinquenta primeiras páginas. Xander é deixado de lado por uns capítulos, o que me incomodou um pouco, mas quando o enredo começa a tomar forma e a passividade de Cássia cede espaço para uma curiosidade impulsiva e pela busca de conhecimento, o livro se torna mais atraente e a leitura bastante prazerosa.

O triângulo amoroso é um tanto passivo neste livro, com Xander cedendo seu brilho (*spoiler*) para o misterioso Ky com muita facilidade. Acredito que no segundo título da trilogia, “Travessia”, ele será mais bem desenvolvido, intensificando a pergunta mais instigante e clichê de todos os tempos: com quem a mocinha deve ficar?

Destino é um bom livro, digno de três ou quatro estrelas. Talvez faça alguém repensar a própria vida, mas acredito que ele se encaixa melhor na categoria entretenimento, uma leitura gostosa antes de dormir ou para passar o tempo nas férias.

Curiosidade: Existem algumas obras que tratam de uma temática semelhante, como Fahrenheit 451 de Ray Bradbury e um mais recente intitulado Delírio, de Lauren Oliver.

Daniele Marques

 

 

 

Nas prateleiras: Lançamentos de Livros – Abril

Delírio – Lauren Oliver

Neste romance de Lauren Oliver, o amor é uma doença. Literalmente. A pior de todas as doenças. E não há como contê-lo uma vez que estiver instalado na corrente sanguínea. Contudo, com o avanço da ciência, é descoberta uma cura e o governo obriga que todos os cidadãos sejam curados assim que completarem 18 anos. A personagem central do livro é Lena Halloway, que espera ansiosamente pelo seu aniversário de 18 anos para que possa ser submetida à intervenção cirúrgica e, assim, ser curada e dispensar todos os sentimentos contraditórios que o amor acarreta, vivendo tranqüila, segura e em paz. Após ser curada, Lena, assim como todas as demais jovens de sua idade, será encaminhada pelo governo para uma faculdade e lhe será designado um marido. Mas faltando apenas algumas semanas para iniciar o tratamento, ela se apaixona. E aí surge o dilema. Depois de experimentar esse inesperado apanhado de novas sensações e sentimentos, resta apenas uma escolha. Optar ou não pela cura. O livro, da mesma autora de Antes que eu vá, é o primeiro volume de uma trilogia distópica, sucedido por Pandemonium, já lançado nos Estados Unidos no começo de 2012 e Requiem, com previsão de lançamento para fevereiro do ano que vem nos EUA. Delírio é um lançamento da editora Intrínseca e conta com 352 páginas para se ler em questão de poucas horas e aguardar pela seqüência.

Estilhaça-me – Tahereh Mafi

O toque de Juliette é fatal, mas ninguém sabe explicar o motivo. Em um mundo no qual a doença vem cada vez mais dizimando a população, a comida é escassa e nem a cor das nuvens é mais a mesma, ninguém dá atenção ao problema de uma garota de 17 anos como Juliette.  Ela nunca foi bem aceita na escola e era vista como um problema para os próprios pais. O simples fato de tocar alguém e conseqüentemente matar, fez com que ela fosse encarcerada aos 14 anos de idade. As coisas passam a mudar quando ela começa a se relacionar com o guarda de sua cela, Adam. Ao ser supostamente liberta, depois de três anos presa, Juliette se vê diante de uma sociedade opressora e um governo ditatorial que a convida a usar seus poderes como arma e instrumento de tortura. Mais um lançamento que segue essa linha de romances fantásticos que abordam futuros distópicos e pós-apocalípticos – a nova onda no universo da literatura infanto-juvenil, depois de criaturas mágicas, vampiros e anjos. Estilhaça-me, ainda tem uma vibe X-Men. O fato de a protagonista possuir um toque letal, logo remete à mutante Vampira dos quadrinhos da Marvel Comics. Lançamento da editora Nova Conceito, 304 páginas.

Encantos – Série Fadas – Vol. 2 – Aprilynne Pike

A sequência do best-seller mundial, Asas, se passa seis meses depois dos eventos ocorridos no primeiro volume da série, quando Laurel descobriu ser uma fada e salvou o portal de entrada para Avalon. Agora, ela passará o verão estudando para aperfeiçoar e desenvolver melhor suas habilidades e adquirir conhecimentos como fada de outono. Contudo, ao se deparar com a hierarquia social do lugar, Laurel começara a repensar a sua escolha. Lançamento da editora Bertrand, 308 páginas.

O Circo da Noite – Erin Morgenstern

Tendo como plano de fundo a magia do circo, seus truques e encantos, um duelo e uma paixão entre dois jovens mágicos, Celia e Marco, desenrolam-se. Um duelo para o qual os dois foram treinados desde a infância para participar e só um deles pode sobreviver. E uma paixão que se desenvolve à medida em que o circo viaja pelo mundo e a parceria entre eles vai ficando cada vez mais forte e intensa. Não é qualquer circo. É um circo em preto, branco e cinza, que abre ao anoitecer e fecha ao amanhecer, repleto de tendas lúdicas. Para conferir o desfecho do número, só lendo o livro. Um lançamento da editora Intrínseca, 387 páginas.

Uma Princesa de Marte – Edgar Rice Burroughs

O livro que inspirou o filme John Carter, ganha sua primeira versão brasileira do texto original, um século depois de sua publicação. O romance narra a saga do capitão John Carter, veterano da Guerra Civil Americana que tenta recomeçar sua vida após perder tudo o que possuía com o fim da Guerra. O que ele não contava era que seu caminho o levasse de forma inesperada a Marte, um planeta repleto de vida, com uma flora peculiar e fauna diversificada, habitada por estranhas raças constantemente em guerra umas com as outras. Carter acaba capturado pelos Tharks, uma raça de marcianos, e passa a lutar incessantemente por sua liberdade e pelo amor de Dejah Thoris, princesa de Helium. Graças à diferença gravitacional de Marte em relação à Terra, ele conquista o respeito dos habitantes além da confiança de importantes aliados e, claro, ganha poderosos inimigos. Uma aventura no mínimo inusitada, Uma Princesa de Marte é o primeiro livro de uma trilogia, seguido por Os Deuses de Marte e O Comandante de Marte, contando com um herói memorável e uma rica mitologia. Editora Aleph, 272 páginas.

Andrizy Bento

Jane Austen: vida, obra e essência

Um dos maiores nomes da literatura inglesa, Jane Austen (1775-1817), desde muito cedo, sempre foi talentosa na escrita. O que não era uma tarefa fácil, devido ao tempo em que viveu – época da Regência de Jorge IV, Príncipe de Gales – numa sociedade completamente conservadora e ociosa, preocupada principalmente com a conservação da moral, bons modos e as artes. Isso é de fácil percepção na leitura de suas obras, regidas por um pequeno grupo social. Mas o que faz de Austen uma escritora brilhante é a capacidade da mesma de caracterizar os personagens, todos muito bem construídos e analisados, e são essas características que tomam o curso de seus romances: as ambições, a personalidade e a conduta é que determina o desenrolar de cada história. Além de tudo isso, Austen narra com um leve toque de ironia, mesmo um pouco imperceptível para um leitor desavisado em um primeiro contato com seus livros.

Enfim, tudo o que eu disse é o que a crítica e os fãs da autora dizem, não deixando de ser verdade, obviamente. Já faz pouco tempo que eu tive o privilégio de terminar de ler os seis romances dela publicados – Pride and Prejudice, Sense and Sensibility, Persuasion, Northanger Abbey, Mansfield Park e Emma – e digo com toda a convicção que foram leituras marcantes. Cada romance tem um ápice próprio, uma marca, mesmo que alguns deles sigam o mesmo estilo, como Pride and Prejudice e Sense and Sensibility. Os nomes de ambos são similares, assim como duas irmãs, e contém vários problemas no caminho até o altar. Os outros seguem a mesma linha, o casamento, como o ponto final de cada obra, porém, isso, de modo algum, torna os romances de Austen fúteis. Nem de longe.

Contar uma história, qualquer um faz, mas o modo como a história é contada é que faz a grande diferença. Mesmo seguindo o mesmo curso – uma personagem feminina central, uma pequena sociedade e, no fim, um casal – Austen faz uma ampla análise dos personagens e das situações sociais e políticas de seu tempo. Sim, políticas, por mais que muitos discordem deste ponto. Eu li um artigo que falava exatamente sobre isso, que diz que Jane Austen não era alienada sobre os problemas políticos da Inglaterra da Regência, citando como exemplo o trecho de Mansfield Park, que a protagonista Fanny Price interroga o tio, Sir Thomas, sobre o problema dos escravos nas Antilhas (ilhas da região caribenha), onde ele possuía negócios. Fato é que a sociedade britânica de Austen era muito parecida com a sociedade grega nos tempos antigos: os escravos trabalhavam, enquanto os homens passavam o dia a filosofar ociosamente. Havia ainda escravos na época de Austen, mesmo que o império britânico estivesse abolindo esse sistema, sendo retirado de vez anos mais tarde, após a morte da escritora, porém, o trabalho em si não era bem visto, assim como na sociedade grega.

Outros críticos tem a tendência de dizer que os romances de Austen eram puramente feministas, o que acho uma precipitação, pois mesmo sendo uma mulher o centro de cada obra, os personagens masculinos tem grande importância, não para formar um casal, mas também como o modelo de análise da autora, assim como sua protagonista. Elizabeth Bennet, Elinor Dashwood, Fanny Price, Catherine Morland, Anne Elliot e Emma Woodhouse não são as mesmas personagens que o leitor conhece no início do romance, pois elas mudam de uma forma ou de outra, assim como Fitzwilliam Darcy, Edward Ferrars, Edmundo Bertram, Henry Tilney, Frederick Wentworth e George Knightley. Claro que se deve levar em consideração a época em que ela viveu, que além de conservadora era machista, no português claro. Por isso, imagine como Austen era tratada, apesar do seu prestígio como escritora, de ter sido reconhecido ainda em vida. Além de que, ela não se casou, o que também era motivo de muitas críticas.

Em um primeiro momento, Austen não assinava com o próprio nome seus trabalhos, assim como Emily Brontë (autora de O Morro dos Ventos Uivantes), só que esta última utilizou um pseudônimo, Ellis Bell, assim como a irmã, Charlote Brontë que assinou Jane Eyre como Currer Bell. Mesmo sendo escritoras posteriores a Jane Austen, há um pouco de semelhança na vida dessas três mulheres que influenciaram seus romances. No entanto, há uma diferença entre as obras das irmãs Brontë com as de Austen que, quando publicadas, não foram tão bem aceitas como esta última.

Dos trabalhos da autora, Pride and Prejudice é considerado sua obra-prima, pela boa aceitação e fascínio que o livro exerce até os dias de hoje. Particularmente o enredo e os personagens carismáticos, em destaque a protagonista, são o que eu mais aprecio. Assim como Sense and Sensibility, Austen se inspirou no próprio relacionamento com a irmã, Cassandra, para compor as personagens Elizabeth e Jane. É praticamente um conto de Cinderela, não sendo isso uma barreira que torne o romance clichê. Acredite, eu me surpreendi e muito em vários capítulos. É visível também a crítica da escritora ao casamento para sobreviver a que muitas mulheres se submetiam.

 Sense and Sensibility, o primeiro que ela escreveu, é parecido no contexto do título do anterior – a razão de Elinor e a sensibilidade de Marianne – como o orgulho de Mr. Darcy e o preconceito de Elizabeth, sendo esta obra a que eu tive primeiro contato. Para mim o destaque de Sense and Sensibility é a sutileza e as perturbações de Edward Ferrars, mesmo que o leitor não tenha muito contato com elas. Marianne é uma personagem que apesar da sua mudança de pensamento no final da obra, eu simplismente não consigo gostar dela como da irmã, Elinor que carrega todas as dores tanto dela mesma, como de Marianne.

Emma é mais centralizado do que os outros na própria protagonista, mimada e rica como muitos gostam de dizer, que se depara com o fato de que não só as aparências enganam, mas também as máscaras que muitas pessoas usam, junto com a futilidade da própria vida dela. Austen, por meio da personagem, critica sutilmente a soberba de muitas pessoas avantajadas na vida, mas só em Persuasion que essa crítica é mais acentuada. Um fato curioso sobre Emma é que a autora foi meio que obrigada a fazer uma dedicatória do livro ao Príncipe Regente. Ele pediu, e ela, mesmo a contragosto, não pode dizer não.

Em Mansfield Park, o leitor tem a oportunidade de conhecer a protagonista desde a infância. Um pouco mais longo que os outros, a exclusão social dos pobres é o que mais chamou a minha atenção durante a leitura, voltando novamente à Emma e Persuasion. Foi o que mais me emocionou, até mais que Pride and Prejudice, justamente por Fanny Price não ser uma moça de pensamento independente como as dos outros livros, sendo mais tímida e modesta. Mais uma vez, Austen quebra com regras e paradigmas de suas próprias obras.

Northager Abbey, para mim, é o romance mais fraco de Jane, ofuscado pelo brilho de suas outras criações, quase sendo um simples romance, se não fosse os momentos de tensão e mistura da realidade com fantasia em várias passagens, além das referências a uma escritora da mesma época de Austen, Ann Radcliffe, autora de romances góticos, em que a própria obra de Jane é baseada. Mesmo assim, é mais frágil na construção das personalidades em comparação com os outros livros.

Persuasion é um romance especial. Curto, ele foge um pouco das premissas dos outros, mostrando uma protagonista não tão jovem – 27 anos, para a época já é uma solteirona e velha – sendo o último que Austen escreveu, mais amadurecida. A brevidade da vida, as escolhas erradas, são o que marcam no romance, que talvez, (isso já uma ideia pessoal) seja uma própria reflexão da autora sobre sua vida, que alguns rumores ressaltam um Thomas Lefroy, a quem Austen pode ter amado, porém, eles não se casaram por conta da família dele não concordar com a aliança.

Atualmente, na era moderna e de muitos blogs literários, é uma tendência classificar os romances de Jane Austen como Chick-Lits (“literatura de cozinha”, na tradução literal, ou seja, “livros para mulheres”), o que sinceramente eu não gosto, não concordo e até acho ofensiva essa classificação para uma autora cujos livros não são meros passatempos, assim como o próprio termo Chick-Lit é ofensivo – não tinha outro termo melhorzinho? Nada contra os livros em si, mas esse termo é horrível. Sei lá, é meio preconceituoso… Mas isso já é outra discussão, outra polêmica que não vem ao caso.

O que nos interessa no momento é o legado que Jane Austen deixou em suas obras. Não é à toa que até hoje muitas adaptações foram feitas de seus romances para o cinema e a televisão. Uma dica são as séries da BBC baseadas nos romances da autora (eu só assisti duas, Pride and Prejudice e Emma), que são muito bem feitas e mais fiéis às obras originais, e também o filme The Jane Austen Book Club (O Clube do Livro de Jane Austen), bem divertido, em que cada obra da autora tem uma relação com a vida real. Recentemente eu assisti a uma adaptação da própria vida de Jane em filme – Becoming Jane (Amor e Inocência) – com a Anne Hathaway no papel principal. Eu gostei. Chorei em muitos momentos, a trilha sonora é muito bonita, mas tinha beijos demais, uma coisa que deixou os austenmaníacos como eu, um pouco chocados, e alguns fãs nem admitem. O filme retrata o romance entre ela, Jane Austen, e Thomas Lefroy, sendo alvo de muitas críticas dos fãs da autora por ser romantizado demais e nem próximo da verdadeira biografia da escritora. Um filme que retrata mais fielmente a vida dela é Miss Austen Regrets, também produzido pela BBC. Infelizmente eu ainda não consegui assisti-lo, então não tenho nada a comentar sobre ele (espero assistir em breve, só depois que eu comprar alguns lenços de papel…).

Mas antes de assistir qualquer um desses, leiam os livros. Tenho certeza que vai ser uma leitura prazerosa, inteligente e com um toque de elegância que muitos poucos escritores conseguem transmitir.

Fonte das imagens: http://brito-semedo.blogs.sapo.cv / http://www.taprocurandoque.com.br

 Juliana Lira

[Literatura] Os Instrumentos Mortais

Eu conheci o trabalho da Cassandra Claire no início do ano passado, pouco antes de começar o meu TCC sobre Fanfics ao lado das amigas e parceiras @Fer_Serpa, @prado_carol, @sah_fontoura e @leletistella.

Cassie Claire é autora da série Instrumentos Mortais, que já ganhou o mundo e agora se prepara para virar franquia cinematográfica. Mas antes, ela era conhecida como a autora da famosa trilogia Draco Dormiens. Nunca ouviu falar? Trata-se de uma fanfic. E o que são fanfics? Como o próprio nome diz, são ficções criadas por fãs a partir de uma determinada obra. Você se apropria de personagens ou situações e as recria, escreve sob seu ponto de vista ou preenche lacunas que ficaram nas histórias originais. Mais ou menos quando você se decepciona com um livro, filme ou seriado e pensa “ah, seria bem melhor se o final tivesse sido dessa maneira…”. Tem gente que, ao invés de apenas imaginar como seria o desfecho perfeito, vai pra frente do computador, escreve e publica em algum site de fics na internet.

Draco Dormiens é uma das mais, se não a mais, popular do gênero, que permitiu que Cassandra se tornasse famosa na internet (positiva e negativamente). A autora cruzou de maneira bem-sucedida as fronteiras entre o virtual e o impresso e realizou o sonho que 99% das ficwriters (escritoras de fanfics) possuem: lançou um material de sua autoria em formato de livro. Conseguiu publicar um original… Nem tão original assim, sejamos francos.

A leitura da série Instrumentos Mortais – sendo o primeiro volume Cidade dos Ossos, sucedido por Cidade das Cinzas, Cidade de Vidro e Cidade dos Anjos Caídos, esse último ainda não lançado no Brasil – é difícil. Não que a linguagem seja hermética demais. Pra falar a verdade, Cassandra é bem direta e objetiva em termos de linguagem, dona de um texto ágil e que sabe muito bem criar momentos de tensão (o que é essencial em se tratando do gênero pelo qual ela se aventura). Em suma, Cassandra não perde tempo com lenga-lenga desnecessário.

A leitura é difícil unicamente porque, para quem leu Harry Potter, é impossível dissociar uma coisa da outra. Os primeiros dez capítulos de Cidade dos Ossos foram, para mim, um sufoco. Eu não conseguia me desvincular de HP enquanto lia. Volta e meia, me pegava fazendo associações entre uma obra e outra.

Verdade seja dita: Clary e Jace, os protagonistas, são claramente inspirados em Ginny Weasley e Draco Malfoy. O bacana Luke, o licantrope, é baseado em Lupin. O grande vilão da história, Valentin, lembra muito Voldemort. Magnus Bane tem algo de Gilderoy Lockhart. Fora as comparações entre Ciclo e Comensais da Morte, varinhas e estelas…

Vou parar por aqui.

Claro que Cassandra tem lá seus méritos. Além de alguns já expostos, ela sabe equilibrar bem aventura e romance. Claire acerta exatamente no ponto em que J.K. Rowling falha, o aspecto “romântico” da história. O relacionamento entre Clary e Jace é bem desenvolvido, inicia-se de maneira tímida e evolui de forma satisfatória, embora a autora nos pregue uma peça com uma revelação chocante no final do primeiro volume que mais tarde é esclarecida para alívio dos leitores. A mitologia presente nos livros de Claire é até bem trabalhada, envolvendo anjos, demônios, além de um subtexto e referências religiosos (embora essa idéia já tenha sido explorada à exaustão em outras obras de conteúdo similar).

O problema consiste mesmo na construção de personagens, aspecto no qual Claire falha drasticamente. Jace até acaba por se revelar um personagem carismático lá pelas tantas, bem como seus amigos Alec e Isabelle. Mas é fato que Jace nada mais é do que o Draco Malfoy idealizado por grande parte dos fãs de HP que sentiram que o personagem foi um tanto negligenciado na obra de J.K. Rowling. Às vezes, durante a leitura de Instrumentos Mortais, se tem a impressão um tanto embaraçosa de se estar lendo uma fanfic de Harry Potter.

Outra falha está na forma como ela vai despejando lendas e mitos pelas páginas sem o menor comedimento. É uma salada de lobisomens, vampiros, fadas e outras criaturas do submundo, além de diversas nomenclaturas, classificações e um sem-número de referências que, por vezes, deixam o leitor zonzo e perdido, necessitando de um glossário. Muito embora, isso funcione mais como background e não chegue realmente a atrapalhar a trama principal.

Se não fosse por esses meros detalhes, estaríamos diante de uma obra bem interessante e atraente, uma digna releitura de seres mitológicos já velhos conhecidos do grande público. Contudo, Instrumentos Mortais revela-se como nada mais do que uma leitura divertida para um fim de semana ocioso.

Fonte das imagens: http://livrosfantasticos.com / 

http://instrumentosmortaisoficial.blogspot.com/

Andrizy Bento

[Literatura] Jogos Vorazes

Após o fim da América do Norte, uma nova nação chamada Panem surge. Formada por doze distritos, é comandada com mão de ferro pela Capital. Uma das formas com que demonstram seu poder sobre o resto do carente país é com Jogos Vorazes, uma competição anual transmitida ao vivo pela televisão, em que um garoto e uma garota de doze a dezoito anos de cada distrito são selecionados e obrigados a lutar até a morte.

Matar ou morrer. Não há escolha. Na arena, o mais capaz vence. Que os Jogos Vorazes comecem!

Jogos Vorazes (Suzanne Collins, Ed. Rocco, 2008)

jogos-vorazes

Para um livro que se encaixa na categoria YA Lit (Young Adult Literature), Jogos Vorazes de Suzanne Collins é até transgressor. A trama é densa, pontuada por passagens violentas e impactantes, contém alto teor dramático, e chega até a sugerir uma crítica social.

A premissa em si não é, assim, inovadora. Em um primeiro momento, Jogos Vorazes nos remete imediatamente a Battle Royalle, contudo, a proposta de ambas as obras bem como a linha narrativa e o público que almejam atingir são distintos.

O texto de Collins é cru e ágil, o que é indispensável dentro do que ela se propõe, sem firulas ou embromação. A premissa é bem trabalhada e apesar de algumas passagens que quase chegam a extrapolar o limite do aceitável, tudo funciona bem e parece plausível dentro do universo apresentado pela obra, desde que você se deixe levar pelo conto.

A autora adota estilo e ritmo apropriados e precisos que corroboram a atmosfera proposta, imperativos para que a história flua de modo a prender a atenção do leitor e se torne convincente aos olhos deste. Dessa forma, há compatibilidade entre todos os elementos narrativos, o que faz de Jogos Vorazes um livro bem estruturado, com uma leitura que passa muito longe de ser cansativa.

O romance entre a heroína da história e seu parceiro de distrito não consegue escapar de alguns clichês. Fica evidente que a história de amor foi inserida mais por questões mercadológicas mesmo e, portanto, algumas passagens de sessões de beijos entre os dois parecem, muitas vezes, deslocadas na trama.

Vendido equivocadamente como o sucessor de Crepúsculo (uma estratégia para angariar os fãs já quase órfãos da outra franquia), o romance best-seller de Suzanne Collins em nada se assemelha à série-fenômeno assinada por Stephenie Meyer, exceto, talvez, pela tentativa de se construir o tão famigerado triângulo amoroso, exaustivamente presente em grande parte das obras do gênero. Inclusive, dentre os jovens que constituem a fanbase de Jogos Vorazes, muitos até já levantam bandeira pelo seu teamteam Peeta ou team Gale – a exemplo do que aconteceu com Crepúsculo.

Contudo, o relacionamento da heroína com Peeta Mellark não é exatamente o foco de Jogos Vorazes. A trama principal se concentra na luta pela sobrevivência de Katniss Everdeen, sua rebeldia contra o sistema que controla e oprime a sociedade em que vive, bem como os questionamentos, dúvidas e anseios da carismática protagonista que, apesar de toda sua força, coragem e de já ter vivido todas as agruras e sofrimentos possíveis, ainda é só uma adolescente em fase de descobertas.

Aliás, falando nela, é bom ver uma heroína que foge daquele arquétipo da donzela em apuros que já se tornou comum na maioria dos títulos dedicados ao público infanto-juvenil. Katniss é guerreira, dona de uma personalidade forte e marcante, que não se deixa sucumbir facilmente, seja diante dos obstáculos em seu tortuoso caminho, ou dos sentimentos confusos e contraditórios que nutre pelo seu parceiro e rival na arena.

Suzanne Collins mantém um alto nível de tensão durante praticamente toda a segunda metade do livro e constrói um universo palatável com personagens que sustentam bem a sua história. Não se aprofunda, mas pincela de maneira inteligente questões como a desigualdade social, a hierarquia opressora da sociedade e até a alienação das massas, chegando bem próxima de uma crítica afiada e irônica às audiências de reality shows, ao público espectador manipulado pela televisão com seus modismos, fenômenos mediáticos e altas doses de demagogia. Isso sem nunca ir a fundo nessas discussões, colocando-as como plano de fundo, sabendo que seu livro trata-se de uma história fictícia ambientada em um futuro distópico e apocalíptico. Uma fantasia sombria, sim. Mas ainda assim uma fantasia.

Jogos Vorazes está longe de ser uma obra-prima e nem é essa a intenção. Mas é um excelente passatempo e um dos melhores títulos YA Lit que foram lançados nos últimos tempos. A obra mostra que nem tudo o que é destinado ao público jovem é descartável, infantilizado ou desprovido de imaginação e inventividade. Muitos apontam o livro como sendo bobo, forçado, superficial. Discordo, Jogos Vorazes é mais do que se pode esperar de um entretenimento que surgiu em meio a tantos livros que vem apresentando exatamente as mesmas fórmulas como Fallen e outros genéricos.

Ao leitor desavisado, prepare-se: Jogos Vorazes é dinâmico, divertido e bastante sangrento.

Em tempo: O teaser da adaptação para os cinemas de Jogos Vorazes foi exibido no último domingo, na premiação musical da MTV, o Video Music Awards. É muito cedo para se tecer qualquer comentário mais aprofundado, mas a primeira impressão é que a estética Crepúsculo fez escola. Movimentos de câmera, edição, cortes, fotografia, trilha sonora e até o voice-over soam como herança do estilo Crepuscular… Antes que achem que estou exagerando, aí vai o teaser que não me deixa mentir:

Vamos esperar que seja apenas uma falsa primeira impressão…

Fonte da imagem: http://www.sobrelivros.com.br

Andrizy Bento