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Jogos Vorazes

Narrativas ambientadas em futuros distópicos sempre constituíram temas atraentes tanto para cineastas quanto para cinéfilos. Ter diferentes visões de como nossa sociedade pode parecer futuramente – autodestrutiva, tirana e decadente – nas telonas, é sempre interessante. Para muitos psicólogos e filósofos trata-se de uma espécie de mea-culpa, para outros tantos uma espécie de masoquismo.

Divagações à parte, é necessário bom senso estético para se obter sucesso artístico quando se trata de futuros apocalípticos no cinema. É o caso de Blade Runner, do qual eu falarei mais pra frente. Um filme que introduz uma atmosfera futurística não apenas palatável como digna de nota, na qual parece comum se imaginar vivendo dentro de alguns anos.

Apesar de uma ideia bastante interessante, no entanto, Jogos Vorazes não é tão bem-sucedido em sua visão de futuro distópico – artisticamente falando, que fique bem claro. A não ser que reconheçamos que o filme seja um tributo à estética de filmes B de quatro décadas atrás. E acho que é mesmo. Aí nem se pode dizer que foi uma falha.

Os tons cinzentos, opacos e esmaecidos do Distrito 12, onde vivem os protagonistas, contrastam com toda a atmosfera kitsch da Capital.  A impressão que se quer passar é de uma sociedade notoriamente hedonista e superficial, porém, se exagerou no tom para tornar bem explícito os contrastes. Então há um impasse de nunca ficar claro se é esta mesmo a impressão que quer se extrair do público, ou a direção de arte foi realmente um tanto quanto descuidada e equivocada. Esse, felizmente, é o único excesso. No que concerne aos efeitos especiais, por exemplo,  se não chegam a impressionar ou ter alguma ousadia, pelo menos são competentes e bem executados.

A América do Norte não existe mais. Em seu lugar há uma nação chamada Panem, composta por 12 Distritos e uma Capital. Todo ano, um garoto e uma garota de cada Distrito, com idade entre 12 e 18 anos, são selecionados para competir até à morte nos Jogos Vorazes. Os Jogos funcionam como uma espécie de lembrete que o poder está unica e exclusivamente concentrado na Capital, além de uma forma de punir anualmente o povo que um dia se revoltou contra os poderosos. Os filhos daqueles que um dia organizaram um levante contra a Capital é que pagam por esse erro do passado, participando de um massacre televisionado.

Mais brutal do que o Jogo em si, é a mentalidade não só dos idealizadores, mas dos habitantes da Capital que acompanham com afinco e assiduidade o entretenimento macabro que os jovens tributos protagonizam. Enquanto nos Distritos tudo é visto como sacrifício –  ninguém aplaude quando os nomes são sorteados, por exemplo – a Capital fica em polvorosa com os Jogos Vorazes.

A frieza e calculismo dos idealizadores dos Jogos ficam bem evidentes principalmente na cena em que  a protagonista tenta escapar de uma área em chamas da floresta, quando tratam o desespero da personagem apenas como mais um mecanismo para a condução do entretenimento. Isso também é um grande trunfo do filme sobre o livro, que era narrado em primeira pessoa. No filme, temos um melhor acesso a todos os outros personagens, à manipulação dos tributos na arena e à forma como se conduz o jogo, sem ficarmos presos unicamente à visão de Katniss Everdeen.

O elemento propulsor da movimentação dos personagens no universo de Jogos Vorazes, portanto, é a luta pela sobrevivência. Jogos Vorazes é um Battle Royale mais jovem e menos brutal e sangrento. Mais focado na dinâmica entre os personagens, nos vínculos afetivos e na questão do heroísmo e da justiça, virtudes e valores. O que, de fato, sempre foi a espinha dorsal da narrativa de Collins. A crítica social é sugerida, não totalmente explorada, nem o roteiro gira em torno disso. Esta se torna mais afiada apenas no segundo volume da série.

A direção de Gary Ross é segura. O cineasta conseguiu encontrar saídas e soluções cinematográficas que contornassem o problema de não se poder mostrar tanta violência e sangue em um filme com classificação indicativa relativamente baixa. Há bons cortes, enquadramentos, ângulos e movimentos de câmera que ajudam a passar a ideia de massacre e aniquilação sem precisar se apoiar em violência gráfica extrema. Contudo, para quem leu o livro, é inevitável ficar salivando por um pouco mais de confronto sangrento entre os jovens na arena.

Mas Ross mostra, com efeito, sua eficiência na condução da narrativa, equilibrando bem momentos de tensão e  leveza. Injetando sutil e organicamente algum humor na trama, além de mostrar competência na composição dos quadros. Sua câmera vertiginosa e trepidante é  utilizada de maneira inteligente, como quando Katniss sobe ao palco depois de se voluntariar como tributo, indicando a confusão da protagonista, e no momento em que a heroína é picada por teleguiadas, o que rende uma passagem até psicodélica. O retrato da arena é bem cruel, como era de se imaginar, apesar de pouco sangrento. A supressão do som é um achado em algumas das cenas mais violentas como na seqüência da Cornucópia que abre os Jogos – muito bem executada.

Como adaptação do best-seller de Suzane Collins, o filme é extremamente bem-sucedido. As seqüências que os leitores tanto queriam ver na tela, não decepcionam, algumas são marcantes, densas e cativam a atenção do espectador sem precisar apelar para excessos. E como entretenimento, o filme funciona absurdamente bem, independente do livro, e é capaz de atrair facilmente mesmo quem nunca teve contato com a os livros de Collins. O filme vai em um crescendo dramático que culmina em um clímax que não desaponta. O roteiro é bem amarrado, sem aquela pressa típica de querer mostrar tudo de uma vez em se tratando de um primeiro filme de uma franquia cinematográfica.

Jogos Vorazes tem bom ritmo, seqüências de ação bem coreografadas, boas linhas de diálogo e, claro, conta com um bom desempenho de seu elenco, especialmente da ótima Jennifer Lawrence que defende sua personagem Katniss com veemência, uma heroína trágica, corajosa e carismática. Josh Hutcherson confere o grau de ingenuidade exata ao seu Peeta. Woody Harrelson é outro destaque, não caindo no lugar-comum do bêbado caricato com seu Haymitch. Todos os jovens atores defendem seus papéis com garra. E, ironicamente, o experiente Donald Sutherland aparece no piloto automático como o Presidente Snow.

Já a trilha sonora não peca pelo excesso de dramaticidade. É funcional, contudo, bem pouco memorável.

O primeiro capítulo da franquia cumpre bem seu papel nas telonas e dá uma boa ideia do universo que está tomando de assalto os cinemas, conquistando os cinéfilos e ainda promete fazer muito barulho durante os próximos anos. É uma ótima introdução do universo de Jogos Vorazes para as telonas e mostra que a série ainda tem um grande potencial a ser explorado nos filmes subsequentes.

Um tratamento melhor da trilha sonora e um olhar mais atento à direção de arte tornariam tudo excelente. Mas que venha Em Chamas com essas devidas melhorias.

Felizmente, é um filme com mais virtudes do que deméritos, que merece ser visto por fãs do romance de Suzanne Collins e pelo público em geral em busca de um entretenimento de qualidade, dinâmico e inteligente.

Andrizy Bento

Bons filmes em abril

Uma releitura de um conto de fadas clássico, três filmes nacionais, a volta de Titanic em 3D, o retorno da turminha de American Pie e, finalmente, a estréia de Os Vingadores! Boas sessões pra vocês, leitores do Bloggallerya 🙂 e nossa equipe agradece as mais de 4.000 visitas!

O6/04

Espelho, Espelho Meu

06/04

Jovens Adultos

06/04

12 Horas

06/04

Xingu

13/04

Titanic 3D

20/04

American Pie: O Reencontro

20/04

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios

27/04

Os Vingadores

27/04

Paraísos Artificiais

Kevin Kelissy

A Invenção de Hugo Cabret

Se Georges Méliès compreendia que cinema era mais do que filmar frivolidades e utilizou seu talento como ilusionista para revolucionar o cinema com o seminal Viagem à Lua, entre outros filmes, sendo posteriormente considerado o precursor do cinema sci-fi e dos efeitos especiais, Martin Scorsese compreende muito bem para que funciona a tecnologia 3D.

Depois da morte de seu pai (Jude Law), um relojoeiro, em um incêndio, Hugo (Asa Butterfield), um garoto de 12 anos, fica aos cuidados de seu tio, constantemente ébrio, com quem aprende o ofício de operar os relógios da estação de trem na Paris do começo dos anos 30. Seu tio, sem se importar com o garoto, some e o deixa sozinho realizando o trabalho de manter os relógios funcionando. Consigo, de sua antiga vida ao lado de seu pai, ele carrega um autômato, a última descoberta do relojoeiro que o encontrou abandonado em um velho museu. O andróide, com uma caneta na mão, parece aguardar para que o liguem e assim ela possa escrever uma importante mensagem. A chave para o mistério se encontra com Isabelle (Chloe Moretz), uma garota com quem logo Hugo faz amizade. A chave, neste caso, não está aqui como força de expressão. A menina realmente tem uma chave com um fecho em forma de coração que se encaixa perfeitamente na fechadura do robô. Finalmente, eles o ligam e a mensagem traçada no papel pelo autômato, os guia a uma grande aventura que simboliza, na verdade, um bonito tributo à sétima arte.

Os cenários de A Invenção de Hugo Cabret impressionam ainda mais por conta do bom proveito que Scorsese faz do 3D – A estação de trem é de deixar o público boquiaberto. De minha parte, mal espero pra saber o que o diretor ainda pode aprontar com esse recurso, já que em Hugo ele soube explorar e trabalhar o 3D como poucos, potencializando essa tecnologia e a utilizando para servir à narrativa, não tendo um roteiro escrito unicamente com a intenção de empregá-la. Os enquadramentos e movimentos de câmera trazem perspectiva e profundidade capazes de fazer com que o espectador se sinta, literalmente, dentro do filme, embarcando na história. São raros os cineastas que tem esse domínio tão pleno da mise en scène (esta, criada por Méliès), dos aspectos temporais e espaciais, da paleta de cores, do jogo de luz e sombras, dos enquadramentos e da movimentação dos atores em cena como é o caso de Scorsese.

Eu também sou do time que acha que Scorsese já foi melhor. Não que hoje ele se dedique a fazer trabalhos apressados e burocráticos para agradar estúdios e não tenha nenhuma paixão pelo que faz. Longe disso. O cineasta continua presenteando o público com trabalhos inspirados e autorais. Mas é fato que ele já trabalhou com personagens mais bem elaborados e complexos. Com Hugo, ele mostra que é um artesão de respeito e digno de aplausos. Mostra que Hollywood continua sendo a terra da magia e o cinema, a grande máquina de criar ilusões. Todavia, carece de um protagonista com mais escopo e substância, não encontrando na figura de seu personagem-título um herói capaz de cativar as platéias como era de se esperar. Isso, Hugo infelizmente não nos oferece. Hugo é um filme 3D que, infelizmente, não conta com um protagonista tridimensional. De qualquer forma, o longa de Scorsese, recordista de indicações ao Oscar de 2012 e vencedor de cinco estatuetas em categorias técnicas, mais do que vale a pena ser visto, por contar com visual exuberante e magníficas – e merecidamente premiadas – direção de arte e fotografia, compondo primorosas seqüências que fazem de Hugo um filme de encher os olhos e que mostra porque o cinema é pura magia, na acepção da palavra. Mas não pense que Hugo se trata apenas de estética, pois o enredo não deixa de ser atraente, encantador, ainda que um tanto didático. Em suma, uma bela ilusão orquestrada por Scorsese, capaz de deixar os amantes de cinema com um brilho nos olhos.

Afinal, o que é o cinema senão ilusório? Uma arte fabulosa que conta com um amplo leque de trucagens e possibilidades tecnológicas que nos faz viver um sonho em salas de projeção. É isso que Hugo Cabret deixa bem evidente em sua bela, justa e grandiosa homenagem ao cinema.

Andrizy Bento

Bons Filmes em Março

Este definitivamente não é um grande mês para o cinema. Algumas poucas coisas dos listados abaixo eu quero ver…

A grande estréia do mês parece ser mesmo Jogos Vorazes. Tem resenha aqui no blog do livro no qual o filme se baseia. Sete Dias com Marilyn chega com atraso pra cá – como de costume – mas é uma das boas pedidas do mês, assim como Shame. E chega de Anjos da Noite, né gente? Série mais desnecessária.

Bem, mas aí estão algumas dicas. Já escolheu o que você quer ver?

02/03

Anjos da Noite 4: O Despertar

02/03

Poder sem Limites

09/03

John Carter: Entre Dois Mundos

09/03

W. E. – O Romance do Século

16/03

Shame

16/03

Pina 3D

23/03

Jogos Vorazes

23/03

Sete Dias com Marilyn

30/03

Fúria de Titãs 2

30/03

O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida

 30/03

A Toda Prova

Kevin Kelissy

Novo trailer de The Avengers

Decidi fazer uma rápida atualização aqui no blog, apenas para postar o novo trailer de The Avengers (Os Vingadores). Nada mais justo, visto que esse é um dos filmes mais esperados do ano pela equipe do Bloggallerya.

O filme dirigido por Joss Whedon (Buffy) e estrelado por Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson entre outros, estréia nos cinemas em 27 de abril de 2012.

E aí? Ansiosos como nós? 😉

Andrizy Bento

Oscar 2012: Os Vencedores

Atrasado, mas aí está a lista de vencedores do Oscar 2012. Nenhuma grande surpresa, como já era de se esperar. Alguns embates interessantes e frustrações tanto para os fãs de Harry Potter – a série que terminou sua longa jornada de oito filmes nas telonas sem nem mesmo um Oscar de consolação, desbancado em todas as categorias por A Invenção de Hugo Cabret – quanto para os brasileiros – que torciam pela vitória de Carlinhos Brown e Sérgio Mendes, na categoria Canção Original, com “Real in Rio”, a música do longa de animação Rio. Não foi dessa vez. O prêmio foi para “Man or Muppet” de Os Muppets.

Confesso que nenhuma dessas “frustrações” teve grande impacto neste que vos fala. Eu ia achar legal se Rooney Mara ganhasse o Oscar de Atriz e deixasse as torcidas da Streep e da Davis boquiabertas 😀

Nem estava torcendo por Mara na verdade. Sequer apostei nela. Mas é fato que seria bacana a azarona levar.

Óbvio que O Artista, com sua vitória mais do que antecipada, mas um tanto ameaçado por Hugo, levou a cobiçada estatueta de Melhor Filme, além de Ator e Direção. Pra completar, levou Figurino e Trilha Sonora também. Empatou com Hugo no número de estatuetas, mas o filme de Scorsese levou apenas prêmios técnicos: Direção de Arte, Fotografia, Efeitos Visuais, Edição e Mixagem de Som. Dois filmes que celebram a sétima arte foram os grandes vencedores da noite. Interessante.

Abaixo você confere a lista completa:

Filme: O Artista

Direção: Michel Hazanavicius, O Artista

Ator: Jean Dujardin, O Artista

Atriz: Meryl Streep, A Dama de Ferro

Ator Coadjuvante: Christopher Plummer, Toda Forma de Amor

Atriz Coadjuvante: Octavia Spencer, Histórias Cruzadas

Roteiro Original: Meia-Noite em Paris

Roteiro Adaptado: Os Descendentes

Filme de Animação: Rango

Filme Estrangeiro: A Separação

Fotografia: A Invenção de Hugo Cabret

Direção de Arte: A Invenção de Hugo Cabret

Montagem: Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Maquiagem: A Dama de Ferro

Figurinos: O Artista

Trilha Sonora: O Artista

Canção Original: “Man or Muppet”, Os Muppets

Efeitos Visuais: A Invenção de Hugo Cabret

Mixagem de Som: A Invenção de Hugo Cabret

Edição de Som: A Invenção de Hugo Cabret

Fiquem com os trailers dos grandes vencedores da noite e, logo mais abaixo, o vencedor da categoria Curta de Animação: The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, que é muito legal.

Kevin Kelissy