[Streaming] Wandinha

Wandinha é uma desajustada. O que fez com que a série original da Netflix, baseada na obra de Charles Addams, se convertesse imediatamente em um sucesso teen, devido à instantânea identificação de milhões de jovens com a personagem. O trunfo da produção em oito episódios e disponível no catálogo do serviço de streaming desde novembro deste ano, é que a filha mais velha de Gomez e Morticia Addams é uma personagem atemporal. A receita era infalível e bastava que os roteiristas e produtores seguissem à risca, como de fato fizeram.

O texto reflete a geração atual, mas mantém intacta e preservada a essência da Wandinha. Gótica, sádica, cínica e fria. Mas o maior acerto, de longe, foi a escalação da atriz. Wednesday (nome da personagem na obra original) é interpretada pela carismática e eficiente Jenna Ortega, que captura com precisão as características fundamentais da figura criada por Addams na década de 1930. Para completar, Wandinha está em mãos seguras; um diretor autor especialista em plots sombrios para jovens adultos e que sabe como compor e valorizar uma estética gótica como ninguém. Ele mesmo, Tim Burton. Em suma, um produto com tudo para dar certo.

A Família Addams povoa meu imaginário desde a infância. Conheço a mitologia de cor e salteado e identifico todas as referências. Tive contato com o desenho animado, os filmes que passavam sem parar na Sessão da Tarde durante minha infância, os quadrinhos e cenas esparsas da série clássica (nesse ponto, eu fiquei devendo). E como apreciadora dessa encantadora família tradicional, digo que curti como modernizaram a história e inseriram a personagem em um contexto atual, situando-a em um ambiente de excluídos como ela, mas mantendo o respeito ao cânone. Wandinha me fez lembrar que ainda sou capaz de gostar de uma produção de Tim Burton e como ele é um diretor criativo e simpático quando não se excede na dose, entregando um bom material de entretenimento.

Na trama, Wandinha é enviada para a Escola Nunca Mais após um incidente na escola tradicional que frequentava ao lado do irmão, Feioso (Isaac Ordonez). Vítima de valentões (popularmente conhecidos como bullies), Feioso é preso dentro de seu armário após ser torturado. Com a clássica frase “Só quem pode torturar meu irmão sou eu”, Wandinha se vinga dos agressores atirando piranhas na piscina durante um treino de polo aquático…

E como Família Addams é uma daquelas obras que todos conhecem nem que seja de só ter ouvido falar por aí, é dispensável qualquer explicação de uma procedência para as piranhas. Para nós, a garota pode criá-las em sua própria casa como animais de estimação e, dentro do contexto dessa família tresloucada, está tudo certo.

Posteriormente, descobrimos que esta não é a primeira escola da qual Wandinha é expulsa. Ciente de que escolas “normais” não combinam com o temperamento da filha, Morticia (a deslumbrante Catherine Zeta-Jones) e Gomez (o onipresente Luis Guzmán) resolvem matriculá-la na mesma instituição em que se conheceram, se apaixonaram e se formaram.

Nunca Mais foi fundada em 1791 com o objetivo de acolher e ensinar excluídos, aberrações e monstros. Ao nos depararmos com o sombrio e lúgubre ambiente escolar, lotado de adolescentes com estranhos poderes, as comparações com Harry Potter e Percy Jackson são inevitáveis. Pelo menos visualmente. Em termos de narrativa, Wandinha se assemelha mais a clássicos teen contemporâneos, como Meninas Malvadas.

Há, inclusive, o clichê da “apresentação das tribos” por uma estudante já familiarizada com o local, presente em todos os filmes high school que se prezem, como o citado Meninas Malvadas, além de As Patricinhas de Beverly Hills e Dez Coisas que Eu Odeio em Você. Wandinha até desdenha do ritual, mas a colega Enid (Emma Myers) introduz a atmosfera escolar à protagonista mesmo assim. O primeiro episódio já lança um mistério a ser desvendado. E, obviamente, Wandinha avança pelos episódios coletando pistas e peças a fim de montar o seu quebra-cabeça.

A mórbida personagem é bem retratada, bem como sua excêntrica família, que fica em segundo plano nos primeiros episódios, mas ganha maior destaque na segunda metade desta primeira temporada. A Wandinha da série é criativa, uma escritora mal compreendida e aprendiz de detetive. Para atender as expectativas e agradar a geração atual, estão presentes os discursos feministas e anti-imperialismo americano, regulares sessões de terapia e o hábito por café. Nenhuma dessas características, no entanto, ofuscam a Wandinha que já conhecíamos de mídias anteriores. O roteiro é feliz ao introjetar o humor sádico e o sarcasmo visceral tão próprios da personagem à produção. É simpático trazer a personagem para um mundo dominado por redes sociais, memes e vídeos de TikTok que ela despreza completamente, já que se recusa a possuir um celular.

Óbvio que nem tudo é funcional. Por vezes, os discursos da personagem e alguns outros aspectos do roteiro soam forçados, como por exemplo: a inserção de um triângulo amoroso. Muitos dos jargões internéticos e das falas progressistas dos personagens também não soam, assim, tão orgânicos (tornando nítido que estão lá somente para deliciar o público-alvo), sem falar da manjada cena romântica na chuva…

Meu problema particular com o último episódio diz respeito ao roteiro: redundante e explicativo em excesso. Em várias oportunidades, os personagens aparecem dizendo exatamente o que vão fazer, quais serão suas próximas ações, deixando tudo muito didático. Confesso também que eu já havia antecipado alguns twists e minhas suspeitas se mostraram certeiras, mas isso não tirou o barato e a diversão de continuar acompanhando.

Mas chega de falar dos deméritos. Wandinha possui, sim, muitas qualidades. É um bom passatempo que atende de maneira plena aos apelos por diversidade (tão ausente na eloquente obra de Tim Burton). É delicioso ver uma personagem feminina que sabe se defender sozinha e amizades tão bem construídas em poucos episódios. E aqui me refiro especialmente a parceria entre Wandinha e Enid e Wandinha e Eugene (Moosa Mostafa). Os olhos dos fãs brilham ao ver o nome de Christina Ricci (a Wandinha dos filmes) nos créditos. A nostalgia nos pega pela mão (com o perdão do trocadilho infame), ao assistirmos as primeiras cenas de Mãozinha (conduzida pelo  mágico romeno Victor Dorobantu) e Tio Chico (Fred Armisen).

E eu sei que já falei de Jenna Ortega, mas não custa repetir: Que atriz maravilhosa! É impressionante como ela consegue transmitir diferentes emoções sem alterar a expressão ou o tom de voz. Com o olhar, ela diz tudo. Ortega compõe na tela uma garota sádica, inteligente acima da média, entediada e com um apreço desmedido pela morbidez.

Exatamente como Wandinha deve ser.

Andrizy Bento

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