Pacto Brutal – O Assassinato de Daniella Perez

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Uma famosa atriz assassinada por seu colega de cena. Parece enredo de um filme de Alfred Hitchcock, mas infelizmente não é. Trata-se de um crime bem real que aconteceu há 30 anos e segue presente no imaginário popular. O episódio macabro envolvia duas figuras públicas, conhecidas por estarem presentes diariamente nos lares de milhões de brasileiros, por meio da telinha da televisão, em pleno horário nobre. Em um dia, eles dividiam a cena em um novela das oito. No outro, eram a principal notícia do Jornal Nacional.

A atriz e bailarina Daniella Perez, com sua presença luminosa, brilhava no folhetim das 20h – na época, a atração carro-chefe da Rede Globo De Corpo e Alma, de autoria de sua mãe, a consagrada novelista Gloria Perez. Dividida entre dois amores, o caminho da personagem de Daniella, Yasmin, já estava traçado desde o início. Ela tinha uma paixão avassaladora por Caio, interpretado por Fábio Assunção, seu principal par romântico e com quem ela terminaria a novela. Porém, sentia atração e um carinho por Bira, papel oferecido primeiramente a Alexandre Frota, que não pode aceitar devido a conflitos de agenda – o ator integrava o elenco da produção exibida na faixa das 19h. Coube a um semidesconhecido, que até então havia feito pontas e figuração em algumas novelas, além de ter estrelado uma peça teatral de sucesso, Blue Jeans, desempenhar o papel de Bira em De Corpo e Alma. Infelizmente, a trajetória de Yasmin foi interrompida abruptamente. Sua ausência na novela foi justificada com uma viagem de estudos, um destino feliz e promissor para a personagem vivida por uma talentosa garota de 22 anos que, no mundo real, fora das telinhas, teve sua vida ceifada pela ganância de um psicopata. Daniella Perez, foi brutalmente assassinada pelo intérprete de Bira na noite de 28 de dezembro de 1992 e pela esposa do ator, então grávida de quatro meses.

E é este o mote da minissérie documental em cinco episódios, Pacto Brutal – O Assassinato de Daniella Perez, disponível no streaming da HBO Max desde o mês passado. A produção é baseada nos autos do processo. Isto é, a versão da história que nós, espectadores, precisamos saber, a única que realmente nos interessa, e, por último e mais importante: a versão verdadeira. Os fatos incontestáveis.

True Crime é um gênero que se encontra em alta no Brasil. Inúmeros podcasts e documentários do gênero têm sido produzidos nos últimos anos. Os de maior repercussão, para citar alguns exemplos, são O Caso Evandro, que rendeu um podcast e um documentário para a Globoplay e o malfadado Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime, um desacerto completo da Netflix que parece tentar redimir a figura de uma assassina confessa. Enquanto O Caso Evandro se propõe a apontar os erros judiciários e a possibilidade bem sólida de se ter incriminado pessoas inocentes, Pacto Brutal dispensa o lado da história que cabe ao assassino e se concentra na vítima e nos motivos torpes que levaram ao crime hediondo. O documentário, rico em depoimentos, coloca Daniella e a mãe, Gloria Perez, no centro da narrativa. Ouve relatos de quem conviveu com a atriz durante a época em que ela despontava para a fama, como familiares, atores, diretores e profissionais do ramo televisivo, e envolvidos no caso que representaram peças chave para a investigação do assassinato e, posteriormente, para a condenação do autor do crime. Também apresenta depoimentos de jornalistas e tem o cuidado de ouvir psiquiatras e criminalistas que estudaram profundamente o perfil do criminoso, incluindo o livro que ele escreveu, e identificaram nele características típicas de um psicopata.

Confesso que ao me deparar com o anúncio da minissérie, me surpreendi, pois eu realmente não imaginava que Glória Perez fosse topar a proposta de um documentário sobre o episódio. Eu só posso imaginar o quanto deve ser difícil e doloroso para ela tocar nesse assunto, mas entendi o que a levou a concordar com a realização de uma produção focada no caso. Ao longo de todos esses anos, ouvimos um dos assassinos contar inúmeras versões mal fundamentadas e contraditórias da história sempre que vinha a público, e não foram poucas as vezes que isso aconteceu. Ele passou as últimas três décadas se aproveitando de toda e qualquer oportunidade que davam e ele de conceder uma entrevista exclusiva, para acrescentar novos detalhes à sua história mirabolante, tendo, obviamente, dificuldades em provar o que dizia, pois sua versão dos fatos era absurda. E a sua cúmplice, aliás, coautora do crime, sempre alegou inocência, mesmo diante de provas irrefutáveis de seu envolvimento no caso. O que mais incomoda, além do fato de o assassino continuar ganhando exatamente o que sempre quis ao conceder uma nova entrevista – os holofotes – e aproveitar o espaço para falar sobre sua conversão, sua carreira como pastor evangélico e fazer propaganda descarada de sua igreja, é ver diversos veículos de imprensa continuarem a proporcionar palco a ele, tudo em nome da audiência.

Mesmo tendo acontecido há quase três décadas, como o episódio se arrastou durante anos com inverdades estampadas em manchetes e reverberadas pela mídia, alimentadas pelos executores do crime, a impressão que se têm, é que o caso ocorreu ontem, ou na semana passada. Felizmente, o documentário parece, enfim, significar uma espécie de desfecho, se não para a mãe e demais familiares de Daniella, que jamais vão conseguir preencher essa lacuna causada pela dor da partida abrupta e precoce da atriz, pelo menos representa um encerramento de todos os fios tendenciosos e, particularmente, misóginos que violavam a memória da vítima difundidos por aí. Finalmente, Glória e a família da Daniella têm espaço para contar a história que já foi provada em tribunal, mas soterrada pela overdose de informações falsas disseminadas pela imprensa sensacionalista.

Impressiona a lucidez com que Gloria expõe os fatos e fala desse episódio tão doloroso, de maneira articulada. Tem momentos em que a voz embarga, mas ela é muito resiliente. Não é nenhuma surpresa que seja a escritora a responsável pelos momentos de comoção mais genuínos do documentário, afinal, trata-se da mãe da vítima. Em diversos trechos, conseguimos identificar a dor em seu olhar, ao mesmo tempo em que é inegável e admirável sua força. Ela é tão forte, que não se deixou sucumbir e abater. Se responsabilizou, na época, inclusive por uma investigação paralela, uma vez que a polícia executou um trabalho bastante questionável e descuidado. Para começar, a cena do crime não foi isolada. Muita gente, incluindo fãs, tiveram acesso ao local. Graças a provas coletadas por Gloria e sua persistência em ir atrás de testemunhas e convencê-los a depor, os assassinos foram condenados. A escritora ainda lutou para mudar a legislação, de modo a enquadrar homicídio na lei dos crimes hediondos. Mesmo com o emocional arrasado, agiu motivada pelo desejo de fazer justiça não apenas por Daniella, mas pelos filhos perdidos de outras mães, arrancados de suas famílias e de suas vidas em circunstâncias similares. Como se não bastasse, o velório de Daniella foi público e pessoas de fora da família tiveram muito pouco respeito por aquele momento de dor. O cemitério estava tão lotado que tiveram de adiantar o enterro, tirando de Gloria minutos preciosos que ela intencionava dedicar a se despedir da filha. E tem quem se pergunte por que hoje, o acesso a tantos funerais de famosos é restrito a familiares e amigos. Também houve violações ao túmulo da atriz que obrigaram a novelista a mover a urna de Daniella para outro local…

Enfim, Gloria Perez e família não tiveram descanso. Não puderam respirar tranquilos durante todos esses anos. A autora mal pode viver o luto pela filha, e só quem já perdeu alguém sabe o quanto essa fase, esse processo do luto, é importante e precisa ser vivido. Para conseguirmos seguir adiante, se conformar e forçosamente se acostumar com a ausência no lugar do que costumava ser presença, dependemos desse período de luto. Diante de tudo o que houve, não espanta Gloria e uma tia de Daniella repetirem ao longo dos episódios sentenças como “isso é matar um pouco mais a Daniella”. São diversas atitudes que ainda maculam e violam a memória da saudosa atriz.

Quem aparenta mais fragilidade ao transmitir seu relato, é Raul Gazolla, viúvo de Daniella, que ainda aparece muito abalado e indignado. É nítida sua dificuldade em controlar a emoção ao falar sobre o assunto. A raiva pelos assassinos, a tristeza e a paixão por Daniella são sentimentos muito palpáveis no depoimento concedido pelo ator.

Foi consenso durante algum tempo que o criminoso confundiu ficção com realidade, tendo se apaixonado na vida real por Daniella, tal qual Bira era apaixonado por Yasmin. Na trama, o personagem vivido pelo ex-ator era possessivo, rude a ponto de ser quase violento. Mas fica óbvio, ao conferir o documentário, que ele agiu motivado por ganância. Ao perceber que seu personagem ganhava cada vez menos tempo e espaço de tela – a ponto de não aparecer durante capítulos inteiros – o ator foi ficando angustiado, querendo desesperadamente que todos os holofotes se voltassem para ele. Narcisista e empenhado em ser o centro das atenções, passou a assediar Daniella no camarim e refeitório, de modo que a atriz falasse com sua mãe e a convencesse a reverter a situação de alguma forma. Ela era categórica: não interferia no trabalho da mãe, mesmo que quisesse. Gloria sempre foi dona de suas próprias ideias. Diante da tentativa malsucedida, o intérprete de Bira emboscou a atriz em um posto de gasolina, agredindo a jovem e a arrastando para o seu carro, dirigindo-se a um lugar ermo, onde ele e a esposa – menor de idade, na época – assassinaram bárbara, fria e cruelmente Daniella.

No caso da esposa, a motivação foi ciúmes. Há depoentes que revelam que ela era violenta com quem quer que representasse, em sua cabeça doentia, uma ameaça, uma possibilidade de perder seu marido. Esse comportamento era recorrente desde a época em que ela o acompanhava aos ensaios de peças e shows eróticos estrelados por ele. O ator acabou por confessar o crime pouco depois de tê-lo cometido. Foi julgado somente quatro anos depois do ocorrido, em 1996, condenado, porém, não cumpriu nem um terço da pena, sendo solto por bom comportamento em 1999.

Quem mais confundiu ficção com realidade foi a imprensa, ao lançar manchetes tendenciosas, estampando revistas com fotos do casal formado por Yasmin e Bira na novela. A mídia, apoiando-se em fontes duvidosas, insistia na narrativa de que eles tinham um caso fora das telas. A teoria de romance secreto nos bastidores e a possibilidade de um crime passional tornavam a história mais lucrativa para a indústria de fofocas. Exceto que Daniella nunca teve nenhum envolvimento com seu assassino que não fosse profissional e o crime foi premeditado, não passional. Afinal, até mesmo a placa do veículo do assassino foi alterada a fim de que conseguisse escapar ileso da situação.

Vi alguns desavisados – e eu prefiro pensar mesmo que se trata de ignorância das pessoas, do contrário seria crueldade demais – que o documentário peca ao não mostrar o lado dos assassinos, ao não dar a oportunidade de os espectadores conferirem a história sendo narrada pelo ponto de vista deles. A gente não tem que ouvir o lado deles. Foi o que a gente mais ouviu ao longo dos anos. A mídia deu mais espaço para um criminoso se pronunciar do que para a família de Daniella falar do caso. Acima de tudo, a gente não tem que ouvir o lado dele, pois se trata de um assassino confesso. Ele não nega que cometeu o crime, jamais desmentiu esse trecho da história. Então não há razão para ouvi-lo.

Também vi comentários que alegavam que Gloria defende a pena de morte. A impressão é que as pessoas pularam importantes trechos do documentário ou não se incomodaram em realmente assistir a todos os episódios. A autora acredita na ressocialização e reinserção social de ex-reclusos quando eles acertam devidamente suas contas com a justiça pelos crimes cometidos e, sobretudo, se demonstram arrependimento por isso. No caso dos assassinos de Daniella, ambos jamais pareceram arrependidos. Pelo contrário, trataram o assunto com absoluto desdém, sempre mostrando descaso e indiferença pela dor de uma mãe. Inclusive, ameaçando processar Gloria Perez! E nem foram devidamente punidos, já que cumpriram um tempo extremamente reduzido de pena tendo em vista o crime que cometeram.

É fato que o ex-ator atingiu exatamente o que sempre sonhou: fama a qualquer custo. Um ator medíocre, que iniciou sua carreira em shows eróticos, mas que nega o fato até o fim. Alguém que não tem nenhum problema em ser visto como assassino, mas que se sente desrespeitado e agredido ao ser apontado como homossexual. Até hoje, gosta da atenção. Tornou-se celebridade na prisão. Hoje, pastor, diz buscar a redenção, sem mostrar nenhum traço de arrependimento e se portando sempre como uma vítima injustiçada pela sociedade. Já a coautora do crime se formou em Direito na mesma universidade em que Daniella e o irmão concluíram seus estudos – este último, inclusive, é advogado. Ela chegou ao cúmulo de matricular a filha na mesma academia que Daniella frequentava para ter aulas de dança e até mesmo já tentou ou vem tentando promover uma carreira artística para a menina.

Não precisamos mesmo ouvir o lado de dois assassinos confessos e condenados. No mais, como já foi dito anteriormente, a minissérie é totalmente baseada nos autos do processo.

Tecnicamente, muito bem montada e com uma excelente divisão de capítulos, Pacto Brutal se destaca pelo cuidado e acuro na produção. Apresento minhas ressalvas apenas com relação à trilha sonora de abertura que, tendo sido produzida por Felipe Ayres, é bastante reminiscente da trilha sonora d’O Caso Evandro, que também leva a assinatura do compositor. Outro elemento dispensável, é a participação de uma famosa apresentadora fofoqueira da Rede TV, cuja carreira é tão repleta de episódios constrangedores e trágicos que chega até mesmo a ter o nome associado ao assassinato de uma jovem, dado o estardalhaço que fez em seu programa sensacionalista a respeito do caso, prejudicando as negociações entre a polícia e o autor do disparo que vitimou a garota, mantida em cárcere privado pelo sequestrador. Mas isso é pauta para outro momento.

É doloroso partir para o lado especulativo e pensar no que poderia ter sido a carreira de Daniella Perez se ela ainda estivesse por aqui. O que ela poderia ter conquistado, realizado, o que poderia ter se tornado. Bonita, carismática, talentosa, cheia de energia e vida. É realmente muito triste que sua trajetória tenha sido interrompida de tal maneira. A nós, resta lamentar e respeitar sua memória e os sentimentos da família da atriz, ouvindo e assistindo a única versão da história que realmente interessa: a verdadeira.

Andrizy Bento

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