[Cinema] Benedetta

Paul Verhoeven é sempre impactante (para o bem ou, raras vezes, para o mal). Vendido equivocadamente como um filme sobre freiras lésbicas – e reduzi-lo a isso, sim, é uma blasfêmia – sua mais recente produção explora a polêmica figura da irmã Benedetta e a natureza tortuosa de seus desejos e sua fé.

Em termos mais globais, Verhoeven não apenas alfineta, como critica a igreja católica como instituição, trazendo à tona a hipocrisia, a moralidade seletiva, a corrupção e a sede de poder de autoridades religiosas. No centro disso é que está jovem irmã que dá título ao longa. E o realizador não poderia ter escolhido personagem melhor para ilustrar uma narrativa repleta de nuanças e que aborda tantos temas controversos relacionados à igreja católica. Benedetta é uma figura intrigante e ambígua, cujas verdadeiras intenções são obscuras.

Virginie Efira, que vive a personagem-título, transita com impressionante desenvoltura e facilidade entre a pretensa pureza e a possível heresia de Benedetta; entre a santa e a charlatã, entre o sagrado e o profano. Mérito tanto da atriz quanto do texto bem engendrado, a cargo do próprio Verhoeven e de David Birke, que jamais deixa público e notório se Benedetta trata-se de uma santidade ou uma farsa. Há, sim, passagens que fazem o espectador enxergar na personagem um embuste, no entanto, o diretor a retrata como alguém que acredita na sua própria aura mítica. Todos esses contrastes e dualidades intrigam o espectador até os momentos finais do longa.

Benedetta Carlini existiu de fato, vivendo na Itália da Contrarreforma entre os anos de 1591 e 1661. Resumida a definição de freira católica mística e lésbica, foi abadessa do Convento da Mãe de Deus, em Pescia, e viveu um relacionamento extremamente controverso com uma de suas freiras, a Irmã Bartolemea (no filme, interpretada por Daphne Patakia). Devido à descoberta dessa relação, vista como proibida aos olhos da igreja católica, foi destituída de seu posto e encarcerada.

Outro nome do cast que merece destaque é a sempre ótima Charlotte Rampling como a abadessa Felicita, de quem Benedetta passa a ocupar o posto após seus duvidosos milagres. Afiada, a atriz encarna com perfeição a figura de uma irmã que contesta a santidade de Benedetta, ironicamente cética e corrupta.

Profuso e provocativo em cada fotograma, o longa lançado e aplaudido no último Festival de Cannes é mais uma das obras inquietantes a integrar a invejável e audaciosa filmografia de Verhoeven. Um filme nada delicado, nada sutil, altamente violento, polêmico, ousado, satírico, exagerado. O cineasta compõe algo próximo de um teatro burlesco com um toque impressionista e uma verve de cinema de horror, elegantemente depravado. Um autor raro que não teme e nem hesita em colocar o dedo na ferida e sacudir. Mais uma obra desafiadora de sua carreira.

Assista ao trailer:

O filme estreia nesta quinta-feira, 13 de janeiro, nos cinemas.

Andrizy Bento

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