Everybody Hurts – R.E.M.

“Se você tiver vontade de desistir (aguente firme)
Se você achar que já suportou demais desta vida
Para prosseguir…
(…)
Bem, todo mundo se machuca
Às vezes, todo mundo chora
E todo mundo se machuca, às vezes
Mas todo mundo se machuca, às vezes
Aguente firme”

Everybody Hurts é uma das canções que melhor conseguiu traduzir o sentimento de melancolia inerente a todos nós em algum momento da vida. E Jake Scott é o diretor que conseguiu traduzir em imagens, de maneira inventiva e tocante, a mensagem transmitida por um dos melhores hits do R.E.M.

O clipe se passa em um cruzamento e mostra várias pessoas presas no trânsito. Engarrafamentos são estressantes, tanto para condutores de veículos quanto para passageiros. No início do dia, resulta em atrasos. No final do dia, pode levar a crises de ansiedade e agravar quadros de tensão provenientes de longos e árduos expedientes de trabalho. Te faz perder um precioso e irrecuperável tempo parado na estrada. Como o fluxo é lento e as paradas são constantes por quilômetros a fio, também é um momento em que, pode acontecer, de pensamentos indesejáveis inundarem nossas mentes. 

Apresentando uma das fotografias mais belas desta mídia em questão, com um câmera que passeia por dentro dos carros presos no engarrafamento, focando nas expressões de tédio e angústia nos rostos das pessoas – usando e abusando de travellings e planos fechados – o vídeo de Jake Scott destaca justamente esse momento de reflexão inconveniente que nos assalta quando estamos presos no trânsito. Os personagens do clipe, incluindo os integrantes da banda norte-americana R.E.M., soam miseráveis, imersos em divagações, desejando sair daquela situação o mais rápido possível. O espectador tem acesso a alguns desses pensamentos por meio das legendas que aparecem na tela. Um garotinho no banco de trás de um dos carros, por exemplo, pensa consigo: “você morre e se transforma em cinzas”. Um homem aparece rezando e um tanto ressentido, pergunta: “por que você não me responde?”. Ainda há um personagem curioso: um homem que aparece em pé no viaduto atirando páginas de um livro sobre os carros logo abaixo, enquanto as legendas trazem passagens bíblicas.

Em um dado momento, o vocalista do R.E.M., Michael Stipe, abandona seu carro e começa a andar por cima de outro veículo. Logo, é seguido por seus companheiros de banda, que também saem do carro. Por fim, todos aqueles que estavam presos no engarrafamento deixam seus veículos para trás, inspirados pelos integrantes do R.E.M., e passam a caminhar pela estrada, indo todos na mesma direção, até desaparecerem do vídeo. No final, tomadas aéreas realizadas por meio de um helicóptero de uma emissora de TV registram o caso incomum dos carros abandonados na rodovia enquanto ouvimos a voz de uma repórter, incrédula, noticiando o fato. 

É a quebra da rotina, dos padrões cotidianos, a fuga da zona de conforto, a busca de uma alternativa para um problema, o abandono do conformismo, a saída do estado de inércia. É isso o que o vídeo promocional de Jake Scott para a canção do R.E.M. magistralmente simboliza.

O videoclipe de aproximadamente seis minutos, filmado em fevereiro de 1993, teve como locação uma autoestrada no centro de San Antonio, no estado americano do Texas e foi lançado em abril daquele mesmo ano nos Estados Unidos. Produzido pela Black Dog FilmsPortfolio, contou com a cinematografia de Harris Savides e edição de Patrick Sheffield, ambos premiados nas categorias correspondentes às suas funções na edição de 1994 do MTV Video Music Awards (VMAs). O clipe ainda faturou os prêmios de Vídeo Revelação para o grupo e Melhor Direção para Jake Scott, totalizando quatro astronautas de prata. Também foi indicado às categorias de Vídeo do Ano, Melhor Clipe de Banda e Escolha da Audiência, nas quais, infelizmente, não saiu vencedor. Além da premiação da MTV, o clipe concorreu ao Grammy Awards de 1994, na categoria Melhor Vídeo Musical.

Inspirado pelo engarrafamento de trânsito presente na sequência de sonho que abre o filme de Federico Fellini (e que viria a inspirar posteriormente a sequência introdutória do longa La La Land), o vídeo de Everybody Hurts foi publicado no canal oficial do R.E.M. no YouTube em outubro de 2009. Até o fechamento deste texto, já acumulava pouco mais de 103,5 milhões de visualizações.

A canção foi originalmente incluída no oitavo álbum de estúdio do R.E.M., o Automatic For The People de 1992, e lançada como um single no ano posterior. Ainda integrou a coletânea In Time: The Best of R.E.M. 1988-2003, sendo uma das quatro músicas do álbum Automatic for the People a estar presente na compilação. Também faz parte do primeiro álbum ao vivo da banda, o R.E.M. Live.

Boa parte da faixa foi composta pelo baterista, Bill Berry, embora os integrantes do R.E.M. compartilhem os créditos da canção entre todos eles, portanto, não se sabe exatamente o quanto da música é de sua autoria. Uma curiosidade: o arranjo de cordas ficou a cargo do baixista do Led Zeppelin, John Paul Jones. O editor do AllMusic, Stephen Thomas Erlewine, foi quem melhor definiu a canção, ao escrever em sua crítica que Everybody Hurts traz uma “reconfortante melancolia”.

R.E.M. gif de ATOMIC CHRONOSCAPH

A música alcançou a posição de número 29 no Hot 100 da US Billboard e atingiu o top 10 nas paradas da Austrália, Canadá, França, Islândia, Países Baixos, República da Irlanda e Reino Unido. Em 2003, a revista Q classificou Everybody Hurts como a 31ª na sua lista das “1001 Melhores Canções de Todos os Tempos”. Em 2005, a revista americana Blender elaborou uma lista denominada “Greatest Songs Since You Were Born” (“As Maiores Canções Desde Seu Nascimento” em tradução livre), onde Everybody Hurts aparece na 238ª colocação.

Na intenção de arrecadar dinheiro para as vítimas do Sismo do Haiti, em 2010, vários artistas se uniram para gravar uma versão da música, entre eles Rod Stewart, Miley Cyrus, Mika, Michael Bublé, Mariah Carey, James Blunt, Jon Bon Jovi, James Morrison, Susan Boyle, Kylie Minogue e Robbie Williams. O cover foi lançado nos formatos download digital e single e se tornou um êxito, alcançando o topo das paradas da Irlanda e do Reino Unido. Um vídeo promocional da canção, com duração de seis minutos, foi lançado em 7 de fevereiro de 2010, mostrando boa parte dos artistas que participaram do cover gravando seus respectivos trechos da canção. Outra versão do vídeo foi lançada em 6 de março do mesmo ano.

O diretor do clipe da versão original de Everybody Hurts, gravada pelo R.E.M., Jake Scott é filho do fenomenal Sir. Ridley Scott (Blade Runner, Gladiador, O Último Duelo) e sobrinho do saudoso Tony Scott (Top Gun – Ases Indomáveis). Jake construiu uma longa e respeitada carreira na direção de videoclipes e na publicidade. Seus créditos como realizador de vídeos musicais incluem Disarm dos Smashing Pumpkins, Out of Tears dos Rolling Stones, Fell on Black Days e Burden in My Hand do Soundgarden, Lightning Crashes do Live, o belíssimo e um dos meus favoritos Fake Plastic Trees do Radiohead, On Your Own do The Verve, Morning Glory do Oasis, GoldenEye de Tina Turner, Staring at the Sun do U2, New do No Doubt, God is a DJ da Pink e Reptilia dos Strokes, dentre outros. Estreou na direção de longas com a comédia de ação Os Saqueadores de 1999. Ainda dirigiu os dramas Corações Perdidos de 2010 e Uma Mulher Americana de 2018 e, mais recentemente, o documentário Kipchoge: The Last Milestone de 2021, sobre o maratonista Eliud Kipchoge, que quebrou recordes tornando-se a primeira pessoa na história a correr uma maratona em menos de duas horas.

Jake e Ridley Scott

O R.E.M. chegou a acumular 31 anos de estrada antes de a banda lamentavelmente se desfazer no começo da década passada. Seu período de atuação durou de 1980 a 2011, e embora seu som jamais tenha se tornado datado, a banda nunca perdeu sua identidade e essência. Formada em Athens, Geórgia, pelo vocalista Michael Stipe, o guitarrista Peter Buck, o baixista Mike Mills e o baterista Bill Berry, o R.E.M. foi uma das primeiras bandas de rock alternativo a despontar no cenário musical, tornando-se extremamente popular e invadindo o mainstream.

O grupo lançou 15 álbuns de estúdios, sendo os de maior destaque Out of Time (1991) e o já amplamente citado Automatic for the People (1992). Especializando-se na composição de baladas melancólicas e músicas com acentuado teor político, marcaram história com hits emblemáticos, tais como It’s the End of the World as We Know It (And I Feel Fine), Man on the Moon, The Great Beyond e aquele que é representativo de uma época e talvez a música mais lembrada da banda, Losing My Religion. Além disso, produziram alguns clipes memoráveis e muito elogiados como Drive, Imitation of Life, I’ll Take the Rain e este que é o assunto do post de hoje: Everybody Hurts.

A banda encerrou suas atividades, mas seu legado permanece intacto, impecável e praticamente irrepreensível. Confira o clássico Everybody Hurts dirigido por Jake Scott:

😉

Andrizy Bento

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