A Menina Que Matou Os Pais / O Menino Que Matou Meus Pais

Lembro-me da notícia como se fosse hoje. E nem falo por conta do tempo que passou voando, mas pelo fato de que a mídia cobriu o caso à exaustão. Em uma época em que grande parte da população brasileira (inclusive eu) não tinha acesso à internet, e se informava exclusivamente pelos meios tradicionais como televisão, jornais e revistas, era muito comum ligar a televisão em qualquer emissora e o crime ser a pauta, mesmo semanas e meses após o ocorrido. Igualmente comum era passar por uma banca de jornais e ver o caso estampando a capa e primeira página de todos os periódicos.

Com a quantidade de informação que consumi e absorvi até meio sem querer naquela época a respeito do crime, confesso que nem me espantei que, ao ver os filmes A Menina Que Matou os Pais e O Menino Que Matou Meus Pais, dirigidos por Maurício Eça e disponíveis no catálogo da Amazon Prime Video desde o dia 24 de setembro deste ano, os detalhes ainda estivessem tão vivos e parecessem até mesmo frescos em minha memória.

Para recriar e dramatizar os eventos na tela, foram utilizados como base os depoimentos reais de Suzane Von Richthofen e Daniel Cravinhos, a mandante e um dos executores do crime. O roteiro do longa, escrito a quatro mãos, é assinado pela criminóloga Ilana Casoy, autora de livros sobre crimes que ficaram famosos no Brasil, dentre eles Quinto Mandamento – Caso de Polícia, que aborda justamente o assassinato do casal Richthofen; e pelo escritor de literatura policial Raphael Montes, que também já colaborou com roteiros de produções televisivas, como séries e novelas. 

Ambos os longas acompanham a onda de True Crime que está em alta no Brasil. Outro fenômeno que o nosso país pega carona com atraso. Por isso mesmo, eu não entendo a síndrome de vira-lata e a demonização desse tipo de narrativa vinda de parte do público brasileiro – obviamente, as críticas partem de uma parcela mais conservadora da população. True Crime pode ser um subgênero que vem sendo explorado recentemente no Brasil, mas já está presente há anos na literatura mundial, no cinema hollywoodiano, nas séries e programas documentais. 

Temos inúmeros exemplos como A Sangue Frio de Truman Capote, romance premiado e adaptado para o cinema, que relata com minúcia o brutal assassinato de uma família no estado do Kansas, da ideia inicial do crime até a execução dos assassinos; Zodíaco, aclamado longa do diretor David Fincher, inspirado no livro de mesmo nome do jornalista Robert Graysmith, que cobriu avidamente o caso, sem solução, de um psicopata que aterrorizou os Estados Unidos durante as décadas de 1960 e 1970; e produções mais recentes como American Crime Story, que adaptou para as telas o caso O. J. Simpson e o assassinato de Gianni Versace; e Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy e Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal, respectivamente minissérie e filme disponíveis na Netflix desde 2019 e que trazem para o centro da narrativa um dos assassinos em série mais notórios e cruéis de que se tem notícia. E se você tem TV a cabo, acho bem difícil acreditar que nunca tenha zapeado pelos canais e se deparado com algum caso do Discovery ID.

Aqui no Brasil, o gênero vem se tornando popular especialmente após o lançamento do podcast Projeto Humanos: O Caso Evandro, desenvolvido pelo jornalista Ivan Mizanzuk que resultou, posteriormente, na produção da minissérie documental O Caso Evandro, disponível no catálogo do Globoplay e que narra o desaparecimento e misterioso assassinato do menino Evandro Ramos Caetano, em 1992, na cidade litorânea de Guaratuba e cuja autoria do crime permanece inconclusiva. Tão alardeada quanto O Caso Evandro, mas com críticas muito mais desfavoráveis, foi a controversa minissérie documental da Netflix, Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime, sobre o assassinato e esquartejamento do dono da Yoki, Marcos Kitano Matsunaga

Para quem não está familiarizado com o Caso Richthofen (se é que existe alguém, assim, tão alienado da realidade), trata-se de um crime executado em 31 de outubro de 2002, há quase vinte anos, em uma mansão situada na área residencial do bairro nobre do Brooklin, em São Paulo, pertencente ao aristocrático casal Manfred Albert e Marísia von Richthofen. A mando da filha mais velha deles, Suzane, o namorado da garota, Daniel Cravinhos, e o irmão dele, Cristian Cravinhos, assassinaram o casal a pauladas.

A ideia era simular um latrocínio, mas o crime foi totalmente mal planejado, com Suzanne abrindo a porta da residência para que os irmãos Cravinho pudessem adentrá-la. Os pais de Suzane haviam proibido o namoro entre a filha e Daniel, alegando que o relacionamento estava prejudicando o desempenho da garota nos estudos e, segundo o que ambos relataram em tribunal, pelo fato de os dois serem de “mundos diferentes”, uma vez que ela vinha de uma família de posses e Daniel tinha uma origem mais humilde. Com a morte dos pais de Suzane, eles planejavam dividir a herança. Porém, devido às inúmeras falhas na execução da simulação de latrocínio, os três participantes do crime acabaram condenados a quase 40 anos de prisão.

O diretor Maurício Eça resolveu, então, recriar essa história nas telas a partir dos autos do processo do Caso Richtofen, mas apresentando dois pontos de vista diferentes. Portanto, optou pelo desenvolvimento de dois longas: um centrado na narrativa de Suzane e o outro, de Daniel. O próprio diretor orienta que a sequência correta para assistir aos filmes é primeiro O Menino Que Matou Meus Pais, que traz a perspectiva de Suzane, e depois A Menina Que Matou os Pais, baseado no depoimento de Daniel. No entanto, o grafismo dos títulos sugere a ordem inversa. A Menina Que Matou Os Pais surge na tela limpo, sem intervenções gráficas. Contudo, no outro filme, as palavras O Menino e Meus substituem respectivamente as palavras A MeninaOs do (suposto) título original. Eu optei por assistir a ordem indicada pelo diretor e não pude deixar de notar essa curiosa questão da arte dos títulos. 

Aliás, falando nisso, digo seguramente que as duas produções carregam muito mais méritos estéticos do que narrativos, especialmente no que diz respeito às sacadas da direção, da cinematografia e direção de arte. Analisados conjuntamente, os dois filmes evidenciam bem a preocupação com o visual. As diferenças pontuais de ângulos, cenários, figurinos entre os dois pontos de vista corroboram a construção de duas histórias similares no cerne, mas totalmente distintas no desenrolar e nos pormenores que as constituem. É bastante sutil, mas significativo. Basta reparar no quarto do Daniel nas duas versões. No ponto de vista dela, é um ambiente mais claustrofóbico, opressivo. No ponto de vista dele, é um quarto maior, mais arejado, confortável, normal para um garoto da idade dele. A mesma história, diferentes perspectivas.

Como os filmes espelham as declarações de ambos no julgamento, são totalmente subjetivos, parciais e nenhum lado da história é crível ao espectador. A ideia é se amparar na lógica do “existem três lados para toda a história: o meu, o seu e o verdadeiro”. Não vemos o verdadeiro aqui, apenas versões de dois dos réus. 

Dentre os deméritos, aponto que a falta do depoimento do outro irmão, Cristian, deixa uma sensação de incompletude e a estereotipização dos pais da Suzanne provoca tanta antipatia em quem assiste, que dilui o choque da cena do assassinato. Não é difícil imaginar que Manfred e Marísia tivessem mesmo essas posturas elitistas, mas, ao grifar com tanta veemência o preconceito de classes, a frieza e arrogância do casal, não há muito espaço para o espectador desenvolver alguma empatia por eles. Convém ressaltar mais uma vez: os filmes narram os pontos de vista dos autores do crime e, para salvar as próprias peles, obviamente ambos tentaram desmoralizar a imagem das vítimas o máximo que puderam. 

E aqui se faz mais do que necessário mencionar a performance do elenco que faz o possível para humanizar os personagens que defendem. Vera Zimmermann e Leonardo Medeiros na pele dos pais de Suzane jamais resvalam na caricatura que o roteiro, por vezes, pretende transformá-los. Kauan Ceglio como o filho caçula do casal, Andreas von Richthofen, bem como Débora Duboc e Augusto Madeira na pele de Nadja e Astrogildo Cravinhos, respectivamente, são coadjuvantes com pouco espaço para desenvolver seus personagens, mas realizam trabalhos bastante competentes, tornando suas figuras críveis e até simpáticas ao espectador. Allan Souza Lima também é convincente ao interpretar as ‘duas versões’ de Cristian Cravinhos.

Mas os grandes destaques ficam mesmo por conta dos dois protagonistas. Que diferença faz quando um ator é bem dirigido! Carla Diaz surpreende em ambos os filmes, tanto quando precisa portar a figura da menina inocente, ingênua, dócil e virginal, como quando assume a faceta fria, calculista, cruel e sedutora que o roteiro do segundo filme exige. Apesar do bom trabalho, no entanto, a versão de Suzane da história, desacreditada por quem estava presente no julgamento (algo que inclusive é incorporado ao filme), soa inverossímil aos olhos e ouvidos do espectador. Eu não conhecia o trabalho do ator Leonardo Bittencourt, mas é um nome para se ficar de olho, afinal, ele alterna entre o namorado abusivo, ambicioso e de temperamento violento e o garoto de boa índole, filho amoroso e parceiro terno e gentil com impressionante naturalidade e destreza.

Mesmo diante das deficiências narrativas, ambas as produções são irrepreensíveis em termos estéticos. Recomendo assistir, nem que seja apenas pela curiosidade ou para apreciar a boa direção de Maurício Eça e a performance do elenco.

Andrizy Bento

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