[Catálogo: Especial] Han Solo: Uma História Star Wars

O sucesso estrondoso e sempre crescente de Star Wars permitiu que a grife se expandisse para além das telonas, tornando-se uma franquia extremamente lucrativa, que inclui além dos filmes, histórias em quadrinhos, obras literárias, séries animadas e em live-action, jogos de videogame e outros produtos licenciados. O fã que segue o culto Star Wars religiosamente, corre atrás de todo e qualquer produto que carregue a marca no nome e conhece cada planeta, cada personagem secundário, cada figurante, cada linha dos livros e cada diálogo dos filmes e séries de cor e salteado. Há muito na rica mitologia idealizada por George Lucas a ser explorado, então existe fundamento em criar novas narrativas que resultam em spin-offs sem parecer que se trata de puro caça-níquel. Especialmente após o domínio do MCU nos cinemas, tornou-se comum produzir filmes focados em personagens menores, desconhecidos do grande público, anti-heróis, vilões… Convém lembrar que o pontapé inicial do MCU nas telonas foi com um personagem, na época, considerado menor, o Homem de Ferro

E considerando que a história dos Skywalker, que constitui o plot central da franquia, não precisa ser a única a ser contada nas telonas, por que não fazer filmes centrados nos demais personagens? Após a recepção positiva do ótimo Rogue One, que se passa pouco antes dos acontecimentos de Uma Nova Esperança, a Lucasfilm resolveu investir em outro misto de spin-off com prequel. Um longa protagonizado por um dos personagens mais queridos e carismáticos da trilogia original: o anti-herói Han Solo.

Trazendo uma bem acentuada vibe de space western, dirigido pelo irregular Ron Howard, a trama começa no Planeta Corellia, uma terra sem leis, que obriga os órfãos a uma vida de crimes em ordem de sobrevivência. Han (Alden Ehrenreich) e Qi’Ra (Emilia Clarke) integram uma gangue liderada pela serpente alienígena Lady Proxima (voz de Linda Hunt) e tramam uma fuga do planeta, subornando um oficial do Império com um poderoso combustível roubado, o coaxium, a fim de obterem passagens para escaparem definitivamente dali. A fuga não é tão bem-sucedida e Qi’ra é interceptada e capturada antes do embarque. Han consegue escapar e promete regressar algum dia para poder salvar sua companheira. Para passar ileso, ele se junta à Marinha Imperial e adota a alcunha de Han Solo, por ser um cara solitário, sem família.

Após diversos problemas na Academia Imperial, Solo tenta chantagear um grupo de criminosos disfarçados de soldados, a fim de aliar-se a eles. A tentativa dá muito errado e o líder, Beckett (Woody Harrelson), o acusa de deserção e o prende em um buraco onde quase é atacado por um Wookiee, nesse que é o primeiro encontro do anti-herói com aquele que viria a ser seu fiel escudeiro, Chewbacca (Joonas Suotamo). Os dois formam uma inusitada equipe a fim de escaparem do cativeiro e acabam integrados à gangue de Beckett que visa o roubo de remessas de coaxium como forma de pagamento por uma dívida que ele possui com o senhor do crime, Dryden Vos (Paul Bettany). Ao chegarem ao iate de Vos, Han descobre que Qi’ra agora é uma espécie de braço direito do criminoso, servindo como sua primeira tenente.

É Qi’ra quem apresenta Solo a outro clássico personagem da saga, um jovem Lando Calrissian (Donald Glover), que atua como piloto e contrabandista e é proprietário da nave Millennium Falcon. Han aposta uma partida de sabacc com Lando, valendo a nave, contudo, Calrissian rouba no jogo e, mesmo assim, concorda, junto de sua droide L3-37 (Phoebe Waller-Bridge), em acompanhar Solo, Qi’ra, Chewbacca e Beckett até Kessel, em um audacioso plano para roubar coaxium, desde que receba parte dos lucros. No entanto, os Cloud Riders, liderados por Enfys Nest (Erin Kellyman) prometem frustrar suas tentativas, trazendo muitos problemas e dificuldades para o grupo de Han.

Em termos de êxito artístico, o filme não foi tão mal, recebendo críticas, em sua maioria, positivas, especialmente quanto à performance do elenco e desenho de produção. Trata-se de um filme com um ótimo acabamento e visualmente notável, mas cuja trama não faz nenhuma diferença no cânone e não faria nenhuma falta se simplesmente não existisse, pois não traz nada de novo e é totalmente dispensável para a cronologia Star Wars. Para quem quiser maratonar os filmes da saga, Han Solo é opcional. Você assiste se quiser, uma vez que a aventura ilustrada na tela por Solo e companhia é completamente trivial. O longa custou caro para os bolsos dos produtores – cerca de US$ 275 milhões -, figurando como o filme mais dispendioso da saga e o sexto mais caro da história da sétima arte. Contraditoriamente, mal conseguiu se pagar, arrecadando pouco mais de US$ 390 milhões mundialmente.

Para os fãs do personagem, Han Solo: Uma História Star Wars oferece vislumbres e easter-eggs capazes de entreter e emocionar, como o amuleto característico que o fora da lei sempre manteve consigo, além do início de sua relação com Chewie e Lando. As partidas de sabacc entre Solo e Calrissian rendem momentos adoráveis. O personagem ainda parafraseia uma de suas frases clássicas quando Lando diz “eu te odeio” e Han responde naturalmente com um “eu sei”. Agrada a ideia de pescar referências durante a exibição do filme, mas o entretenimento não vai muito além disso.

Apesar dos elogios à sua atuação, Alden Ehrenreich não consegue evocar aquele espírito do cafajeste carismático que Harrison Ford tão bem desempenhou em seus anos na pele do personagem. Ficando em uma linha entre mocinho e anti-herói, ele tenta incorporar um pouco daquele humor irônico e debochado do velho Solo à sua interpretação, mas falha quando precisa capturar aquela energia ranzinza, sagaz e irresistível que Ford exalava com facilidade. Também não acredito que seja totalmente culpa do ator, visto que o texto também não ajuda. Em uma das decisões mais equivocadas de roteiro, outro par romântico é introduzido para Solo: Qi’ra é interpretada por Emilia Clarke que parece estar apenas cumprindo tabela. Essa adição de uma amante para Solo incomoda um pouco quem curte o clássico casal formado por Han e Princesa Leia (Carrie Fisher) nos longas da trilogia original. Ao final, o filme solo de Han Solo (peço desculpas pelo trocadilho infame) parece ser sobre a desilusão amorosa do contrabandista, o que é bem decepcionante.

Egresso da ótima sitcom Community, Donald Glover é um dos destaques do elenco como Lando Calrissian e eu nem vou falar de Erin Kellyman como Enfys Nest, visto que minha má vontade com relação à atriz é, infelizmente, muito grande. Woody Harrelson, comumente um bom ator, protagoniza uma das reviravoltas forçadas da trama. Nada contra um personagem angariar a simpatia do público para depois revelar a verdadeira face. Personagens dúbios são instigantes. Mas é a maneira artificial com que o plot twist desponta na tela que não convence. Falando nisso, a aparição de Darth Maul (Ray Park), ao final, não tem defesa. É, sim, um caça-níquel.

Howard assumiu a direção do longa já na metade da produção, após a demissão da dupla de cineastas Phil Lord e Chris Miller. E, possivelmente, é esse o fator responsável pela falta de equilíbrio do longa, que tem um início arrastado, e parte para a ação desenfreada da metade da projeção em diante. O grande porém é que falta estilo e criatividade a Howard. Seus filmes sempre sofrem dessa falta de uma assinatura característica, de ousadia, de um tom mais inspirado. Ele é muito tradicional, burocrático e nunca se mostra disposto a correr riscos. Em resumo, as obras de Howard quase sempre chafurdam na mediocridade.

O saldo final de Han Solo nem é assim tão ruim. Mas se trata de uma produção despropositada em termos de trama, dispensável na cronologia da saga, que desperdiça elenco interessante e não incorpora nenhuma novidade à narrativa.

O longa está disponível no catálogo da Disney+.

Andrizy Bento

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