[Catálogo: Especial] Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith

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“É assim que a liberdade morre. Com um estrondoso aplauso…”

Esse é um dos quotes mais brilhantes desse que pode ser considerado o melhor filme da trilogia prequel, que narra a origem de Anakin Skywalker (Hayden Christensen), sua conversão para o lado sombrio e o início de sua ascensão como Darth Vader. O que não quer dizer muito, uma vez que os dois capítulos que o precedem são não apenas irregulares, como bastante deficientes. O que mais fica evidente ao chegar a esse encerramento dirigido por George Lucas é que, dentre tantos deméritos, os três filmes que compõem o prelúdio sofrem de uma falta de unidade aparente.

Enquanto o primeiro filme carregava a tônica de fantasia infantil, com uma criança fofa como protagonista e um coadjuvante atrapalhado concebido digitalmente – criado para ser um chamariz para os pequenos, mas que acabou se tornando um fiasco odiado por todos -; o segundo já traz uma vibe de história de amor espacial, permeada por demasiadas assembleias e reuniões do conselho Jedi, enquanto procura desesperadamente dar alguma substância para sua trama e falha miseravelmente quando, porventura, se lembra de que Star Wars é também um épico de ação e ficção científica. A Vingança dos Sith, por sua vez, é uma fantasia sombria, com tonalidades cinzentas, distante das cores saturadas do primeiro longa da trilogia e com contornos políticos mais acentuados do que o segundo.

Aliás, a segunda trilogia tem como um de seus principais méritos o maior foco na narrativa política. Esse aspecto sempre esteve presente no universo de Star Wars, desde seu primeiro longa, lançado em 1977, mas tornou-se ainda mais marcante nos filmes que chegaram às telas entre 1999 e 2005. O grande problema dos prelúdios, no entanto, foi vacilar redondamente em entregar ao público aficionado por Star Wars algo que ele sempre prezou: o entretenimento de qualidade aliado às pautas políticas.

O longa começa muito bem, ambientado cerca de três anos após o início das Guerras Clônicas, com uma cena de abertura eletrizante, centrada na batalha espacial sobre Coruscant. Em toda a Galáxia, os Cavaleiros Jedi encontram-se em guerra contra os separatistas liderados por Conde Dookan (Christopher Lee) e cabe a Anakin e Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) resgatarem o Supremo Chanceler Palpatine (Ian McDiarmid), sequestrado pelo grupo. Embora a troca de diálogos entre Anakin Skywalker e Obi-Wan durante a cena prejudique um pouco seu timing, a batalha não deixa de render uma sequência visualmente fantástica. É durante a operação de salvamento de Palpatine, que por influência deste, Anakin decapita Conde Dookan.

De volta à capital da República, Skywalker reencontra Padmé Amidala (Natalie Portman), com quem se casou secretamente no final do filme anterior, que revela a ele está grávida. Atormentado por pesadelos similares aos que tinha com sua mãe antes de ela falecer, nos quais perde a amada esposa durante o parto, Anakin se desespera em busca de um meio de fazer com que Amidala e seu futuro filho fiquem em segurança.

Existe um público e notório conflito entre os Jedi e a liderança de Palpatine no Senado. Este acaba ganhando poderes sobre o Ordem Jedi e designa Anakin para ser seu representante no Conselho. É com relutância que Anakin é integrado como membro, mas o Conselho decide não torná-lo um Mestre Jedi, o que o deixa visivelmente contrariado. Os conselheiros ainda incumbem Anakin de espionar Palpatine, devido ao seu comportamento suspeito. No entanto, o jovem Jedi se vê cada vez mais próximo do Chanceler, pois acredita que ele o único que pode lhe ajudar a manter Amidala e seu filho a salvo. Palpatine aproveita-se da confiança conquistada e planta na mente de Anakin que o conselho Jedi planeja traí-lo em um complô para comandar a República.

Por mais que os Jedi encarem com suspeita as atitudes de Palpatine – inclusive, em determinada cena, Obi-Wan até mesmo expressa o quão curioso é ele manter-se ocupando a posição de Supremo Chanceler quando seu mandato já expirou – pouco ou quase nada se faz efetivamente para investigar suas ações. E quando, enfim, o Conselho Jedi toma alguma atitude, é a de tornar Anakin um espião! Justo aquele que os Jedi concordam não ser lá muito confiável, devido à sua inexperiência e fraquezas que o tornam vulnerável ao lado sombrio. Não tinha como dar certo… É tão notório que Palpatine planeja dar um golpe de estado na República que só faltava estar escrito Lord Sith na testa do indivíduo.

Nesse ínterim, Obi-Wan parte para o Planeta Utapau, paradeiro do líder do Exército Separatista, General Grievous (voz de Matthew Wood), com a tarefa de neutralizá-lo, a mando do Conselho Jedi. Enfim, Palpatine revela a Anakin sua identidade: ele é ninguém menos do que o temido Sith Darth Sidious. Além disso, afirma ao jovem que só poderá garantir a segurança de Amidala e do filho que ela espera, se Ani se converter ao lado sombrio. Após o batismo de Anakin como Darth Vader, que sucede a luta fatal entre Darth Sidious e Mace Windu (Samuel L. Jackson), o recém-convertido Lord Sith recebe a ordem de aniquilar a todos no Templo Jedi, até mesmo as crianças.

É interessante perceber como a profecia a respeito de Anakin Skywalker ser o eleito, aquele que deveria trazer equilíbrio à Força e extinguir os Lord Sith da Galáxia é profundamente mal interpretada, como comenta Mestre Yoda (voz de Frank Oz) lá pelas tantas. Anakin realmente fez o que falava a antiga profecia, mas não da maneira como era esperado pelos Jedi.

Em uma das cenas mais trágicas da saga, o exército de clones da República executa a Ordem 66: matar os Jedi. Acertando no nível de dramaticidade, A Vingança dos Sith proporciona ao espectador a sequência mais belamente conduzida e montada, ainda que extremamente triste do longa. É com o coração despedaçado que nós, espectadores, testemunhamos a dizimação de cerca de dez mil Jedi por toda a Galáxia. A rebelião dos clones é surpreendente e impactante.

Felizmente, Mestre Yoda e Obi-Wan Kenobi são alguns dos poucos Jedi que conseguem sobreviver aos atentados. O primeiro, inclusive, escapa da morte quando está no Planeta Kashyyyk, terra de origem dos Wookies, raça de Chewbacca (Peter Mayhew). E para deleite dos aficionados, para fins de fanservice, é durante as sequências ambientadas nesse planeta que nosso velho e querido Chewie dá as caras e aparece interagindo com Yoda.

O clímax do longa é intensamente dramático. Após Padmé ouvir de Obi-Wan que seu marido e pai de seu filho se converteu em um Sith, ambos partem para o planeta vulcânico Mustafar, refúgio dos remanescentes líderes separatistas, apenas para que Amidala tenha a constatação de que o que Obi-Wan falou era verdade. Acreditando ser vítima da traição de sua esposa, por esta ter trazido seu ex-mestre até ele, Anakin tenta sufocar e matar Amidala, sendo impedido de prosseguir por Obi-Wan, com quem trava um duelo mortal.

A luta entre mestre e aprendiz é bastante sacal, se assemelhando mais a uma coreografia de dança do que propriamente um confronto de sabres de luz. E é intercalada por uma luta bem mais interessante entre Yoda e Palpatine que, infelizmente, não tem um final feliz. Yoda falha, mas é resgatado pelo fiel senador Bail Organa (Jimmy Smits). Já Anakin é atingido pelo laser de seu ex-mestre e deixado para trás, mutilado e sendo consumido pela lava de vulcão.

Amidala tem uma função nula na trama além de carregar os filhos de Anakin no ventre. Reduzida injustamente ao papel ingrato de namorada do protagonista (que dá seus últimos passos como anti-herói para, enfim, consumar sua transformação em vilão), Padmé é representada como uma pessoa fraca que sucumbe ao perder seu amor, desistindo da vida e não querendo prosseguir nem mesmo pelos seus filhos.

Aliás, foi o tal “amor” que fez Anakin perder a cabeça. A obsessão e apego que ele confundia erroneamente com amor, na verdade. Guiado pelos seus sentimentos, Anakin nunca se mostrou pronto para perder aqueles a quem amava, não encarando a morte como o estágio final e natural do decurso da vida. Foi assim com sua mãe, o que o levou a massacrar injustamente todo o Povo da Areia, não poupando nem as vidas inocentes. Arrogante, insubordinado, imaturo, do tipo que não suporta ser contrariado… Em nenhum momento, Anakin exibiu, ao longo de seu trajeto como Padawan, o altruísmo e o total desapego e abandono demonstrado pelos Jedi e que é parte fundamental de seu treinamento. Sempre mais preocupado com seus próprios interesses, o Skywalker original mostrou, desde cedo, inclinação para ao lado sombrio e vocação para Lord Sith.

Em um desfecho melancólico, Padmé dá à luz os gêmeos que batiza de Leia e Luke e morre de tristeza após o parto, como Anakin previu em seus pesadelos. Darth Sidious chega a tempo de salvar literalmente o que restou de seu discípulo, sendo Darth Vader condenado a viver para sempre confinado dentro de uma armadura. Os gêmeos Luke e Leia são separados por decisão de Yoda, Obi-Wan e senador Organa. Enquanto Leia fica sob os cuidados deste último, Luke é levado ao planeta natal de seu pai, em Tatooine, para que seja criado pelo seu tio Owen (Joel Edgerton) e sua esposa Beru (Bonnie Piesse). Yoda, diante de seu fracasso, parte para o exílio, assim como Obi-Wan. Palpatine reestrutura a República e a converte em Primeiro Império Galáctico.

É o fim da democracia.

Embora se trate, inegavelmente, de um bom filme, as falhas corriqueiras de Lucas não deixam de estar presentes. Há diálogos mal construídos e cenas que contrariam os episódios clássicos. É constrangedor, por exemplo, ter de ouvir Obi-Wan dizer “Palpatine é mau!” e a réplica de Anakin: “para mim os Jedis é que são maus”. No entanto, a mágoa pungente na voz de Obi-Wan quando este grita a Anakin “Você era o escolhido. Foi dito que você iria destruir os Sith, não se unir a eles. Trazer o equilíbrio para a Força, não jogá-la nas trevas” enquanto assiste ao ex-aprendiz sendo desintegrado aos poucos pela lava, é de fazer qualquer fã agradecer pelo cast acertado de alguém do calibre de Ewan McGregor que salva a cena, visto que o grito de “eu te odeio” de Hayden Christensen é simplesmente embaraçoso.

A cena do confronto entre Mace Windu e Palpatine é outro dos deméritos do longa, visto que ela não cria a expectativa desejada, uma vez que sabemos de antemão como acabará e que lado Anakin irá escolher.

Dentre os vários pontos positivos, no entanto, Jar Jar Binks (Ahmed Best) é praticamente eliminado do roteiro; os fãs tem um vislumbre, ao final, da Estrela da Morte em fase de construção; a partitura de John Williams continua impactante e, diferentemente de seus antecessores, embora apresente um deslize ou outro de roteiro e não entregue boas lutas, A Vingança dos Sith traz uma bem-vinda quantidade de fanservice e se destaca como o filme mais sombrio e complexo da trilogia prequel e um dos mais bem acabados da série. Se não alcança a excelência de Uma Nova Esperança e O Império Contra-Ataca, pelo menos se esforça honestamente e com muita dignidade para chegar lá. E, sendo franca? Quase chega.

Ainda engrosso o coro de que Lucas deveria ter deixado os filmes da trilogia prelúdio nas mãos de outros diretores e roteiristas, mas A Vingança dos Sith é, sim, um de seus raros acertos nestes departamentos.

O longa está disponível no catálogo da Disney+.

Andrizy Bento

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