Bliss – Em Busca da Felicidade

“A ignorância é uma bênção.”

Partindo da premissa de que é necessário conhecer o bom em sua totalidade para aprender a valorizar o ruim, o diretor e roteirista Mike Cahill enfia os pés pelas mãos e Bliss – Em Busca da Felicidade só pode ser definido como uma tremenda bobagem e pura perda de tempo para o espectador que se arrisca a conferir a produção

O longa tem a intenção, ou melhor, a pretensão de ser um sub-Matrix,  porém, idealiza como seria um Matrix dirigido e roteirizado por Charlie Kaufman, com uma pitada de Black Mirror e até mesmo um toque de Vanilla Sky. E, lógico, falha redondamente em seu intento. 

Pessoalmente, eu tenho que estar com muita boa vontade para assistir a um filme com Owen Wilson. Então, sim, fui com a maior boa vontade do mundo assistir a um longa estrelado por um ator cuja filmografia eu costumo desprezar. E isso só aconteceu porque a produção distribuída pela Amazon Prime Video trata de um tema que me interessa: a simulação da realidade. A tão instigante para uns, quanto irritante para outros, teoria de que vivemos em um simulacro. O longa começa bem, aparentemente com uma atmosfera de suspense experimental, para logo se converter em um amontoado de asneiras.

Com um alto cargo em uma empresa, Greg Wittle (Wilson) é um sujeito avoado, compenetrado em seus próprios pensamentos, que passa o tempo isolado em seu escritório, desenhando a casa e a mulher dos sonhos, enquanto ignora telefonemas importantes. Também está enfrentando um processo de divórcio e tentando não afetar os filhos com isso. Inclusive a filha, Emily (Nesta Cooper) que está prestes a se formar e faz questão da presença do pai nesse evento tão importante de sua vida. Todas essas informações são transmitidas nos primeiros minutos de filme de uma maneira bem orgânica, por meio de uma ligação telefônica, retratos e esboços dispostos na mesa de Greg.

O chefe, Bjorn Pedersen (Steve Zissis), chama Greg até sua sala com a intenção de demiti-lo e acidentalmente ocorre um assassinato. O protagonista tenta pensar rapidamente em um meio de se livrar da culpa e resolve ocultar o cadáver atrás da cortina da janela, então deixa a empresa e atravessa a rua em direção a um bar. No local, Greg conhece uma mulher misteriosa e aparentemente excêntrica (personagem de Salma Hayek) que diz que toda a realidade à sua volta, na verdade, não existe. Trata-se de um universo fake e simulado, onde eles são as poucas criaturas efetivamente reais.

O longa aborda temas como a dependência química, transtornos mentais, fuga da realidade, transferência de culpa e até mesmo ameaça um debate sobre a degradação ambiental. Tudo isso de forma bastante superficial e por meio de metáforas extremamente cafonas (tanto visuais quanto narrativas). As mensagens que o longa procura transmitir, de modo raso, é que o poder em mãos erradas pode corromper e levar a atos de demasiada crueldade; que são os perrengues que tornam nossa vida preciosa; a dor, o sofrimento e a miséria que fazem valer e dão sentido à nossa existência; e que não devemos nos eximir ou nos envergonhar de procurar ajuda quando estamos enfrentando problemas.

A obviedade ululante está por todo o texto, mas encontra-se, sobretudo, nas duvidosas escolhas estéticas. Tons cinzentos e frios aplicados na suposta simulação tecnológica de um mundo degradante, corrompido e miserável; uma paleta de cores vivas e vibrantes para dar vida ao suposto universo real, onde tudo é belo, pacífico e perfeito… E que é a coisa mais cafona vista desde Um Olhar do Paraíso de 2009. Se o ritmo já era o suficiente para tornar o longa enfadonho e cansativo, o visual só vem arrematar de vez.

Owen Wilson, aqui, é o mais do mesmo. Uma interpretação desmotivada, apática, totalmente desprovida de qualquer paixão. Salma Hayek, na pele de Isabel Clemens, pobrezinha, porta uma personagem duplamente irritante. Será bem difícil alguma outra interpretação conseguir superá-la nesse quesito. E olha que o longa foi lançado em fevereiro, ainda estamos em junho e eu acredito que não é cedo demais para fazer essa declaração.

Eis um título que se deve ignorar quando aparecer em destaque dentre as recomendações do Prime Video. Não se perde nada.

Andrizy Bento

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