Os 7 de Chicago

O ano passado foi atípico por razões amplamente conhecidas. A pandemia do novo coronavírus resultou, dentre outras coisas, na interrupção de gravações de filmes, séries, telenovelas e outros produtos audiovisuais, em respeito à medida de distanciamento social estabelecida pela OMS (Organização Mundial de Saúde), para evitar que o vírus se difundisse ainda mais e para garantir a preservação da saúde e bem-estar de profissionais atuantes nessa indústria.  Outra recomendação de combate ao contágio e visando a contenção de uma pandemia de escala global, foi evitar aglomerações, tanto em espaços fechados quanto abertos, proibindo a realização de grandes eventos, como shows e convenções, incluindo, também, fechar temporária e indefinidamente as portas dos cinemas.

Isso explica a quantidade de filmes independentes selecionados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para concorrer ao Oscar (como eu citei no post sobre os indicados) e a visibilidade concedida a um filme como Os 7 de Chicago que, em um ano normal, possivelmente seria vítima das esnobadas da Academia. Não se trata de uma obra mediana, mas também é pouco memorável e dificilmente irá figurar como o filme favorito de alguém. É um drama histórico correto, mas estruturalmente problemático.

Disponível desde outubro do ano passado na Netflix, o longa dirigido e roteirizado por Aaron Sorkin é baseado em uma história real e narra o julgamento de líderes de movimentos sociais que se opuseram à Guerra do Vietnã, em 1968. As manifestações encabeçadas por eles interromperam a Convenção Nacional Democrata, um evento que anunciava a candidatura de Hubert H. Humphrey à presidência.

Os protestos, a princípio pacíficos, tiveram consequências trágicas: houve tumulto e violência decorrentes dos confrontos diretos entre a truculenta polícia e os manifestantes. Ao todo, dezesseis pessoas foram indiciadas pelo ato e o governo se encarregou de responsabilizar e acusar um grupo formado pelos universitários Tom Hayden (Eddie Redmayne) e Rennie Davis (Alex Sharp), os Yippies Abbie Hoffman (Sacha Baron Cohen) e Jerry Rubin (Jeremy Strong), o pacifista radical David Dellinger (John Carroll Lynch) e um dos líderes dos Panteras Negras, Bobby Seale (Yahya Abdul-Mateen II), por conspiração e organização dos protestos. O que culminou em um julgamento histórico nos Estados Unidos e que merecia ser levado às telas para entendermos todos os desdobramentos do evento e as decisões duvidosas que o permearam.

Todos sabiam da inocência dos homens que estavam sendo julgados. Porém, havia motivações políticas por trás dessas condenações. Assim, o filme faz questão de enfatizar o caráter injusto e absurdamente parcial do juiz Julius Hoffman (Frank Langella), que é quem melhor propulsiona o sentimento de revolta do espectador ao assistir à dramatização do julgamento orquestrada por Sorkin – especialmente com relação a Bobby Seale, que não tinha a menor relação com os outros acusados, mas ainda assim permanece sendo julgado como réu durante boa parte do longa.

Os 7 de Chicago começa bem, com uma breve e dinâmica introdução de seus personagens, a fim de situá-los na história. O filme, no entanto, perde o ritmo quando passa a se concentrar apenas no tribunal. O que impede que a narrativa enfraqueça são os constantes embates entre o juiz e os réus. O elenco todo aparece em ótimo momento e é esse pesado time de atores que segura as pontas, evitando que todo o enredo do julgamento siga em um passo arrastado.

O premiado Aaron Sorkin, responsável por pérolas televisivas como West Wing e The Newsroom, pelo roteiro oscarizado de A Rede Social e que estreou como cineasta em 2018 com A Grande Jogada, é um excelente argumentista e isso até compensa suas habilidades limitadas como diretor. Como cineasta, ele se rende ao convencional, sem grandes momentos inspirados ou uma assinatura definida. Falta-lhe estilo e aquela centelha de inventividade. 

Em um dado momento do longa, uma espécie de apresentação stand-up de Abbie Hoffman é inserida de modo a auxiliar o espectador no entendimento dos fatos que levaram o grupo a ser julgado. Recurso curioso que funciona graças à desenvoltura de Sacha Baron Cohen, mas não deixa de soar como uma solução simplista e questionável. Sorkin conduz bem seus atores nos cenários em que os situa, mas a construção espaço-temporal é bastante falha. Nesse quesito, a montagem auxilia a atenuar um pouco a constante falta de equilíbrio imposta pela direção problemática de Sorkin, embora as diversas quebras no ritmo, com idas e vindas na narrativa e uma profusão de flashbacks para contar os antecedentes do julgamento sejam bastante prejudiciais ao conjunto. De qualquer modo, uma coisa é inegável: o diretor consegue tirar bom proveito do clima ameaçador conferido pelo ambiente hostil do tribunal, corroborado ainda pelos acenos de incompetência e evidente arbitrariedade do tendencioso juiz Hoffman.

O roteiro, em contrapartida, tem grandes trunfos, sacadas inteligentes e diálogos ágeis e espertos. É louvável que, mesmo priorizando o texto ao visual, não se renda à verborragia (e aqui, eu realmente contrario a avaliação da maioria que julgou Os 7 de Chicago como verborrágico. Discordo, pois os diálogos são bem pontuados e orgânicos e não senti em nenhum momento algum deles deslocado ou fora do tom). Agora, outra palavra que melhor se aplica aqui é didático. O excesso de didatismo é o que compromete a produção e faz com que se aproxime mais de uma grande aula de história e se distancie de um grande filme. É visível o empenho de Sorkin em livrar seu longa do tom documental recorrente em grande parte das obras inspiradas por eventos reais. Seu intento era produzir um filme baseado em fatos, mas com uma atmosfera de ficção. Daí os constantes flashbacks, as piadinhas fora de hora e até a duvidosa apresentação de stand-up comedy citada mais acima. Ele alcança seu objetivo de ficcionalizar a história factual, mas acaba prejudicando o ritmo e a metragem.

Necessário nos dias atuais, por abordar questões urgentes e ainda inerentes ao nosso cotidiano, como truculência policial e racismo, além de ser um poderoso retrato de uma sociedade polarizada e da luta e do enfrentamento das diferenças por uma causa maior, o principal mérito de Os 7 de Chicago é não soar datado.

Outro dos aspectos que contribui muito para que o filme seja funcional, como já pontuado acima, é o casting. Além dos nomes já citados – do qual se destaca Sacha Baron-Cohen, indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, apresentando um timing cômico ótimo (sendo responsável pelos pontuais momentos de leveza da produção) e um conflito interessante com o personagem defendido por Eddie Redmayne, devido às diferentes óticas que cada um deles carrega – o elenco ainda é composto por nomes como Mark Rylance,  ótimo como o advogado de defesa William KunstleJoseph Gordon-Levitt na pele do procurador Richard Schultz; e Michael Keaton em uma ponta célebre e bem propositada (ainda que com um peso dramático acentuado) como o ex-procurador geral Ramsey Clark.

Mesmo com alguns deméritos e falhas estruturais, o filme se segura bem até o final, quando o desfecho água com açúcar, corroborado por uma trilha sonora demasiadamente pomposa, toma conta da tela, sugerindo um drama edificante, quando enfim é feita justiça aos heróis. Como quase a totalidade dos filmes baseados em fatos, o óbvio recurso dos blocos de texto na tela revelando o destino de cada personagem ao final do longa também está lá – terminando de seguir a cartilha dos dramas históricos realizados para apreciação da Academia.

★★★

Andrizy Bento

Uma consideração sobre “Os 7 de Chicago”

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