Nomadland

“O que é lembrado, vive”.

É de conhecimento comum que há um mito em torno da saudade, isto é, da palavra saudade que apregoa que esta só existe no idioma português, muito embora se trate de um sentimento universal. Fato é que a palavra “saudade” existe sim em algumas outras línguas românicas, porém, o seu sentido está mais próximo da “nostalgia de casa” do que do nosso significado em português, que é muito mais abrangente. Existem vocábulos equivalentes em outros idiomas, mas que não exatamente correspondem ao sentimento luso-brasileiro, por se tratar, sobretudo, de uma característica cultural, que conferiu a devida amplidão e magnitude à palavra saudade.

Algumas expressões estrangeiras funcionam de maneira análoga, porém, se tratam de traduções inexatas, termos que até se aproximam da nossa saudade, mas que não expressam tão bem o nosso conceito… É uma pena, pois saudade é uma palavra forte, intensa e delicada, que alcança o perfeito equilíbrio entre o doce e o amargo, entre a dor e o prazer, entre a tristeza e a alegria. Nostalgia é de uma melancolia brutal e dolorosa. A saudade até dói, mas é aquela dor bem vinda, que a gente recebe de braços abertos, com um sorriso no rosto e um suspiro entrecortado que tanto fere quanto alivia o peito. Pode até não existir equivalente à palavra em outro idioma (ou, pelo menos, um equivalente que lhe faça justiça), mas Nomadland da diretora sino-americana já altamente nesta award season, Chloé Zhao, traduz perfeitamente o seu significado. 

Nomadland parte de dois nortes. A crise econômica que assolou os Estados Unidos em 2008 fez com que inúmeras pessoas perdessem seus empregos e moradias. Muitas delas, já com idade avançada, que não puderam desfrutar de uma aposentadoria confortável. O que as obrigou a recomeçar do zero, como nômades, vivendo em vans e se aventurando pela estrada, em busca de empregos temporários. Unidas pela solidão (por mais contraditório que isso possa soar), formaram de modo espontâneo uma comunidade itinerante, uma tribo nômade, invisibilizada pela sociedade e que, em 2017, foi parar nas páginas de um livro: Nomadland: Surviving America in the 21st Century, assinado pela jornalista Jessica Bruder e cujos direitos de adaptação foram comprados por Frances McDormand, que tanto protagoniza como coproduz o longa de Zhao. 

O outro fato que serviu de base para o roteiro de Nomadland ocorreu em 2011, quando uma mineradora situada no estado de Nevada, Empire, fechou as portas, o que consequentemente decretou o fim da comunidade que havia sido construída em torno dela. 

A partir dessas duas situações críticas, mas contra as quais não se pode lutar, abraçando-se o conformismo, é moldado o personagem vivido por McDormand, Fern. Zhao, portanto, já tinha uma base sólida para construir uma trama poderosa e visceral nas telas. Mas foi ainda além: utilizando as referências pontuais do livro, aproveitou para adaptar a história enquanto filmava seu longa durante os quatro meses de 2018 em que ela, seu elenco e equipe, caíram na estrada.

Muitas ideias surgiram literalmente pelo caminho, em tempo real, e essas situações foram incorporadas à narrativa, garantindo autenticidade e realismo à história que se desenha na tela. Várias das pessoas que cruzam o caminho de Fern são nômades de verdade, não personagens. Alguns dos exemplos de pessoas reais que aparecem interpretando a si mesmas no longa são Linda May, Charlene Swankie e Bob Wells, como podemos confirmar pelos créditos finais. Por isso, as trocas e interações entre a fictícia Fern (mas que também carrega algo de real) e os não-atores que efetivamente adotaram esse estilo de vida soam tão genuínas e naturais. 

Nomadland é um road movie que se passa em 2012 (inclusive, em uma determinada cena, a protagonista passa em frente a um cinema cujo primeiro longa dos Vingadores encontra-se em cartaz) e acompanha a trajetória da solitária Fern (interpretação brilhante de McDormand), uma nômade que resolve se aventurar pela estrada em sua van, batizada de Vanguard, após perder sua casa, seu emprego e seu marido. Ela deixa alguns de seus pertences em um guarda-móveis e resolve partir em uma peregrinação sem destino e sem volta. Como dizem os versos daquela antiga canção, Fern é errada e errante, sempre na estrada e sempre distante dos familiares e amigos. Recusa abrigos e só cede quando é extremamente necessário ou quando acha que vale a pena agarrar a chance e aceitar um convite feito com a melhor das intenções. Apenas para descobrir que a estrada é o seu verdadeiro lar.

Assim, ela prossegue em sua jornada sem destino definido ou definitivo, arriscando-se e aventurando-se no que são considerados (de maneira infeliz, convém dizer) subempregos, enquanto experimenta se conectar à natureza, dividindo seu tempo entre catar lixo, limpar banheiros e fritar hambúrgueres com admirar a vastidão de campos e desertos, explorar rochedos, tomar banho de rio e contemplar estrelas. Ao mesmo tempo, parece que Fern está tentando se encontrar e se perder; em busca de seu lugar no mundo, enquanto tenta fugir de si mesma. 

Em uma poderosa construção de personagem, por meio de alguns diálogos precisos com pessoas que ela conhece pelo caminho e com quem efetivamente faz parte de sua família, descobrimos que Fern saiu cedo de casa, sempre teve o desejo de cair na estrada, mas decidiu se instalar em um mesmo lugar durante anos por conta do marido. Agora viúva, ainda lamentando a morte do companheiro, e sem nenhuma disposição para criar raízes, ainda assim é apegada a alguns objetos de valor afetivo, símbolos de lembranças e memórias que ela preserva consigo aonde quer que vá. E sua van é a principal companheira de aventuras, da qual ela não está disposta a abrir mão. 

É possível conferir de perto, em alguns close-ups magistrais, a dor, a melancolia e a profunda solidão expressas em seu semblante, sem que jamais essa dor se manifeste de fato em suas palavras ou gestos, a não ser em uma das cenas finais, quando ela resolve desabafar. Tem-se a constante impressão de que Fern está procurando escapar do luto, de vivê-lo para superá-lo. Estando sempre na estrada, se mantendo ocupada ao invés de se aposentar, ela não tem tempo para refletir sobre suas angústias. No meio da noite, observa as fotos de família, cheia de saudade, mas com uma bravura admirável, não permitindo se render à tristeza. 

Em um travelling lateral, filmado em um take único, a protagonista percorre o acampamento onde estão estacionadas as diversas vans e casas móveis da comunidade nômade, extremamente organizada, com a qual ela troca algumas ideias e convive por alguns dias, sem a intenção de realmente pertencer. Ela observa suas atividades, seus afazeres, seus rituais e, mesmo em meio a tantas pessoas diferentes, permanece solitária. Esse plano-sequência ressalta o individualismo da personagem. Não por ser egoísta ou por se bastar. Mas por acreditar que seu universo particular já não é um bom lugar para si mesma, não há razões para condenar outros à sua miséria. Todo o longa é amparado nessas questões de conhecer novas e interessantes pessoas e esbarrar em conhecidos pela estrada. Pessoas retornam e saem de sua vida, ela reencontra parentes, até intenciona se conectar, mas sem nunca estabelecer laços. Fern parece se sentir confortável com sua solidão. 

A proposta realista da narrativa encontra na cinematografia de Joshua James Richards, colaborador habitual de Zhao, um correspondente perfeito. A câmera registra a autenticidade das situações vividas por Fern, captando o individualismo, isolamento e extrema intimidade, ao mesmo tempo em que as lentes contemplam amplos e abertos cenários dos estados de Nebraska, Nevada, Arizona, Dakota do Sul e Califórnia, conferindo um aspecto quase documental à obra. As tomadas reveladoras, beneficiadas pela iluminação natural e a simplicidade e beleza de paisagens exuberantes, nos transmitem a ideia de efemeridade do ser humano, refletindo sobre o quão solitários e pequenos somos, ainda que estejamos rodeados de pessoas. As cores frias e desvanecidas com que Zhao tinge sua história na tela realçam a melancolia corroborada, ainda, pela trilha sonora que combina um poderoso arranjo de violino com os tristes acordes de um piano. 

O melhor de Nomadland é o fato de não se render ao sentimentalismo, de não ambicionar ser o filme edificante da temporada. Mesmo em sua mensagem sobre a perda, a superação e a dor da partida, o texto jamais resvala em clichês e soluções simplistas. Muito pelo contrário. O longa de Zhao escapa com notável sabedoria da cafonice de outros tantos filmes que narram jornadas de autoconhecimento, recorrendo ao infalível método do road movie para expressar essa transformação. 

Nomadland nos faz perceber o quão cíclica é nossa história. O filme começa com Fern obrigando-se a deixar para trás o lugar onde viveu por tantos anos para arrumar um emprego como empacotadora em um galpão da Amazon. Apenas para, no final, retornar aos mesmos lugares onde deu início à sua aventura itinerante. Como sinaliza uma personagem em um determinado momento do filme: Fern mantém a aliança de casamento no dedo, mesmo sendo viúva. O anel é um círculo sem fim assim como sua vida. 

“Te vejo pelo caminho”.

★★★★

Andrizy Bento

3 comentários em “Nomadland”

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