O Sal das Lágrimas

O longa em preto e branco de Phillipe Garrel, que esteve em competição no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2020, infelizmente, não foi disponibilizado em nenhuma plataforma de streaming e provavelmente muito poucas pessoas terão a oportunidade de vê-lo no cinema. É uma pena, porque O Sal das Lágrimas (Le Sel des larmes no original, em francês) tem uma das fotografias mais bonitas do ano.

A câmera é quase intrusiva ao espiar as ações dos personagens em sua intimidade, os observando através de reflexos no espelho e enquanto fazem as coisas mais triviais como tomar banho, dormir e se arrumar para ir ao trabalho. Intercala com extrema naturalidade e sutileza planos abertos com planos mais fechados, planos gerais com close-ups, e travellings com planos estáticos; ora contemplando a paisagem urbana de Paris, ora explorando espaços mais íntimos e pessoais pelos quais os personagens circulam, como salas de aula e o interior de seus apartamentos e, em outros momentos, concentrando seu foco nos rostos dos personagens e nas emoções diversas que os transpassam, sempre pontuando suas cenas com fades out que garantem um adorável ar nostálgico ao longa. Tudo muito orgânico, exatamente como a vida que é exatamente o que se desenrola na tela.

A história toda é muito simples e seu protagonista, detestável. Mas é esse o objetivo: mostrar suas atitudes machistas e egoístas extremamente condenáveis e o que elas desencadeiam, o fazendo lidar com as consequências de sua irresponsabilidade e falta de compromisso com sua palavra.

Assim, o intimista O Sal das Lágrimas (e o título vem bem a calhar) revela uma jornada que deveria ser de amadurecimento, se o protagonista não procurasse escapar de seus problemas optando pelas saídas mais fáceis, no entanto, ele rejeita qualquer processo de maturação e evolução. A constante fuga o leva a ter de lidar com seus problemas de modo muito mais doloroso quando estes retornam a ele, do que seria se ele os confrontasse de peito aberto desde o princípio. Após machucar as pessoas com quem se envolve, é por meio da dor que o protagonista reconhece tardiamente a importância de suas relações.

O longa versa sobre a perda,  a efemeridade dos relacionamentos, as escolhas, os caminhos que tomamos que nos levam à direções traiçoeiras e sem volta e, acima de tudo, sobre arrependimentos. Luc (Logann Antuofermo) encontra o amor, tem um pai compreensivo e é um rapaz charmoso e inteligente. Contudo não valoriza as mulheres que se dedicam a ele, a preocupação e o afeto do pai e nem mesmo escolhe um curso condizente com seus interesses, deixando com que seu pai faça a escolha por ele sem se dar conta de que a vida passa rapidamente e deve ser guiada pelas nossas próprias escolhas, ações e os resultados delas.

Luc é pouco grato pelo que possui, ao mesmo tempo em que não tem ambições, por pura falta de vontade de se dedicar e correr atrás de algo sem que outras pessoas possam abrir caminhos para ele. As possibilidades que passam pela sua cabeça ao ver um antigo amor seguir em frente, outro de seus amores perder seu filho, e seu último interesse amoroso se mostrar dividida entre dois homens, fazem com que ele prove do próprio veneno. Ao perder a figura mais importante e constante de sua vida, se dá conta de sua miséria e solidão.

Não se trata de um longa punitivo, no entanto. É apenas a forma como a vida acontece e parte do princípio de que toda ação gera uma reação. Garrel compõe uma crônica que flerta com o cinema francês da década de 1960, tanto na forma quanto no conteúdo. E, para completar, os dissabores vividos na tela são coroados pela melancolia (e até certo anacronismo) da trilha sonora tão condizente assinada por Jean-Louis Aubert.

Andrizy Bento

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