Dwelling in the Fuchun Mountains

Exibido originalmente no Festival de Cannes em 2019, Dwelling in the Fuchun Mountains integrou a lista de 10 melhores filmes de 2020 da cultuada revista francesa Cahiers du Cinéma, angariando a posição de número 7, porém, infelizmente, não há previsões de quando será lançado por estas bandas. O longa empresta seu nome de uma pintura paisagística de Huang Gongwang (1269-1354), concebida durante o século XIV e considerada uma das maiores obras-primas da arte chinesa. Aliás, as associações entre o longa e a pintura não se reduzem ao título. Tanto no que tange ao visual quanto à estrutura narrativa, a obra de Gongwang pautou inteiramente o longa do estreante Gu Xiaogang.

E que estreia! Não se trata de um début tímido, o que também não quer dizer que o filme seja carregado de pretensão. Mas é ambicioso ao ser idealizado como a primeira parte de uma pretensa trilogia intitulada A Thousand Miles Along the Eastern Yangtze (Mil Milhas ao Longo do Yangtze Oriental), cujo objetivo é ambientar cada um dos filmes que a compõe em um local diferente à beira do rio.

Como se trata de uma pintura de pergaminho que levou cerca de quatro anos para ser finalizada, a obra de Huang Gongwang ilustra por meio de múltiplos ângulos as montanhas de Fuchun (situada ao sudoeste de Hangzhou, ao longo da margem norte do rio Fuchun), sendo composta de várias seções que destacam os diferentes aspectos espaciais e temporais do cenário. E é assim que ela deve ser apreciada: como uma viagem do início ao fim do rolo de pergaminho.

E aí está outra das similaridades entre o longa e a pintura que o inspirou. Esta primeira parte da trilogia de Xiaogang foi rodada durante dois anos, de modo que o cineasta foi capaz de registrar com precisão genuína o clima inerente a cada estação do ano, enquanto sua história acompanha as mudanças sutis e as transformações profundas pelas quais uma família numerosa, bem como o ambiente ao redor, atravessa no curso desse ano. A passagem do tempo é sinalizada tanto pela mudança das estações quanto pelas alterações na paisagem urbana da cidade de Fuyang. Assim como a pintura, o longa é uma coletânea de histórias, retratando uma só família e os diferentes conflitos que enfrentam cada uma de suas ramificações.

Aliás, a família só é totalmente reunida em dois momentos pontuais: o começo e o fim do longa. Um aniversário e um funeral. O filme tem início com a celebração do aniversário da matriarca dos Yu (Du Hongjun). Uma rara oportunidade de reunir seus quatro filhos e as respectivas famílias que formaram. É durante este evento que nos são apresentados os personagens. Youfu (Qian Youfa), o filho mais velho, é proprietário de um restaurante ao lado da esposa, Fengjuan (Wang Fengjuan). O casal tem uma filha, a professora Gu Xi (Peng Luqi). Youhong (Sun Zhangwei) é um pescador, Youlu (Zhang Renliang) trabalha no ramo da construção civil e Youjin (Sun Zhangjian) é um trapaceiro que passa a vida escapando de agiotas.

É durante a festa de aniversário que a mãe repentinamente passa mal e precisa ser levada com urgência ao hospital. A vida de todos muda diante deste evento. O longa não define protagonistas, embora o papel da mãe seja o elo que ata todos os arcos narrativos, o roteiro permite que cada um dos personagens estrele sua própria história e lide com seu próprio conflito. Assim, o longa acompanha simultaneamente as três gerações que compõem o clã Yu, seus dramas, inquietudes, pequenos prazeres, vitórias e tragédias.

Problemas financeiros, casamentos arranjados e a difícil coexistência entre a tradição e a modernidade são alguns dos temas abordados nessa trama de uma família comum vivendo em uma cidade pequena, com um adorável ar saudosista, mas em constante evolução. O longa é todo ancorado nessa dicotomia entre o passado e o presente, entre o clássico e o moderno, até mesmo em sua trilha sonora, composta por Wei Dou.

De uma beleza plástica rara e incomparável, Dwelling in the Fuchun Mountains impressiona em cada fotograma. A fotografia, a cargo Yu Ninghui e Deng Xu, aposta em planos longos e reverentes; a câmera, conduzida elegantemente, se aproxima dos personagens apenas de modo ocasional, pois, na maior parte do tempo, observa as interações entre eles quase sempre à distância, acompanhando seus longos passeios à margem do rio; e até mesmo uma tensa e violenta cena que se desdobra dentro de um restaurante, é vista de fora, através do vidro. A ideia é explorar e captar a paisagem de uma maneira geral, enfatizando o quanto os espaços pelos quais os personagens circulam desempenham um papel fundamental na narrativa. O longa se preocupa em destacar não apenas as relações entre as figuras retratadas na tela, como suas interações com o ambiente ao redor.

Dwelling in the Fuchun Mountains é uma crônica sobre a família – os valores conservadores capazes de nos desprender e afastar dela e os laços afetivos que nos mantém atados à mesma de alguma forma. Como se trata de uma produção chinesa, obviamente muitos de seus costumes e aspectos da cultura retratada na tela nos soam distintos e distantes. Mas, acima de tudo, a mensagem que a produção transmite é universal. Uma obra de arte inspirada por outra.

Andrizy Bento

Uma consideração sobre “Dwelling in the Fuchun Mountains”

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