MTV, Bota Essa P#@% Pra Funcionar! – Zico Goes

Se ainda estivesse no ar, a MTV Brasil estaria completando 30 anos hoje, dia 20 de outubro.  Mas eu estou falando da boa e velha MTV, aquela pertencente ao Grupo Abril, que se destacou como a primeira emissora de televisão segmentada a ser transmitida em sinal aberto no país. Aquele canal que ditou tendências, que falou de jovem para jovem, que tinha aquele caráter experimental e autêntico. Não daquele canal por assinatura operado pela detentora original da marca, a Viacom, e que agora se restringe à exibição de reality shows banais de namoros.

Em bom português: estou falando da MTV raiz, não da MTV nutella.

Em homenagem à emissora que marcou nossa adolescência, vamos falar sobre esse livro de forte teor nostálgico assinado por Zico Goes.

MTV Brasil raiz!

O chilique de Caetano Veloso no VMB 2004 entrou para a história, meio sem querer, por culpa de um técnico da banda do próprio artista que deixou um microfone aberto atrás do palco. Essa e outras histórias são relatadas no livro de Zico, cujo título é uma referência explícita ao episódio protagonizado pelo músico. A opção acertada e hilária de Zico (diretor de programação da MTV durante boa parte da trajetória da emissora) em nomear seu livro de Bota Essa Porra Pra Funcionar (palavras do próprio Caetano durante seu faniquito), deixa evidente uma das características mais marcantes da MTV Brasil: a autossátira.

Como disse a ex-VJ Astrid Fontenelle no discurso de encerramento do canal em 30 de setembro de 2013: “foram 23 anos tirando sarro da gente mesmo”. Foram 23 anos também de muita música, rebeldia, quebra de tabus e engajamento social. Com uma linguagem despojada, descontraída, em um tom de livro de memórias, e contando com prefácio do jornalista e ex-VJ Zeca Camargo, Zico faz um apanhado da história de uma das emissoras mais simpáticas que já tive o prazer de sintonizar na minha televisão. Mas vai ainda além, dando uma verdadeira aula de como fazer televisão e apresentando uma análise competentíssima da publicidade no país e do comportamento do jovem brasileiro.

Zico acerta ao dizer que a emissora foi de fundamental importância na formação musical de muita gente (afinal, a MTV me apresentou algumas das minhas bandas favoritas) e ao discorrer sobre o caráter educativo do canal – que fazia ótimas campanhas de combate ao HIV e à discriminação sexual – evidencia o compromisso sério que tinha com seu público-alvo. Era notável o empenho em educar os espectadores com campanhas de conscientização ao longo de seus 23 anos.

Zico Goes, ex-diretor de programação da finada MTV Brasil

Como não podia deixar de ser, o diretor fala de eventos memoráveis como a premiação musical VMB (Video Music Brasil), o campeonato Rockgol e o projeto Acústico MTV (fórmulas muito copiadas por outros canais), bem como da polêmica em torno de vinhetas e de alguns programas da emissora. O primeiro beijo gay da televisão brasileira, por exemplo, ocorreu na MTV, em uma edição especial do Fica Comigo, programa de namoro que revelou Fernanda Lima. A atração foi exibida em dia e horário atípicos e sem patrocínio nenhum! Ao tomar conhecimento de que se tratava de uma edição gay do programa, muitas marcas famosas pularam fora, algo que seria impensável atualmente, tendo em vista os ataques que sofreriam nas redes sociais por conta da atitude homofóbica.

Zico ainda traça breves, objetivos, mas precisos perfis dos VJs mais emblemáticos da casa e é enfático ao afirmar que a MTV foi, de certa forma, precursora da internet, suprindo necessidades de um público ávido e curioso que não tinha informações sempre à disposição, a um clique de distância como agora.

Algumas coisas no relato de Zico incomodam: como a repetição dos três pilares que formavam a identidade da MTV (videoclipes, VJs e vinhetas malucas), ou como os músicos levavam o Rockgol muito a sério, dentre outros termos e adjetivos que ele reproduz excessivamente (mas nem posso julgá-lo, visto que tenho a mesma mania). Há erros pontuais aqui e ali – ele comete alguns equívocos no tocante ao ano de produção e exibição de determinadas atrações – mas como se trata de um relato bastante pessoal, amparado nas lembranças de Goes, a gente releva.

Caetano Veloso e David Byrne durante o infame episódio no VMB que deu origem ao nome do livro de Goes

A controversa frase “foda-se o videoclipe” não pode ser lida fora de contexto e é necessário entender o que o autor quer dizer com isso. É simplesmente o dar de ombros tão característico da MTV, um canal rebelde em constante mutação, que não buscava a fidelização do público como todos os outros, pois queria atingir jovens de diferentes épocas e gerações. E que esse jovem largasse a MTV a partir do momento em que se tornasse adulto. Essa era a proposta da empresa e o autor é honesto em salientar isso.

Para completar, o livro faz questão de destacar o caráter experimental da emissora que se virava com baixo orçamento, sempre dava um jeitinho de contornar problemas de maneira criativa, formava profissionais multifacetados que eram pau pra toda obra e se tornou um exemplo de super empreendedorismo ao não apenas topar correr riscos, mas abraçá-los.

MTV, Bota Essa P#@% Pra Funcionar! soa como um bate-papo entre amigos, um relato com um tom agradavelmente pessoal, uma excelente divisão de tópicos e cujos capítulos apresentam um texto corrido, dinâmico, ágil e irreverente à imagem e semelhança da própria MTV. Uma coisa fica evidente: se não fosse o Zico Goes e um time de primeira botar essa porra pra funcionar direito, a MTV não teria passado dos primeiros anos e seria apenas uma cópia da MTV americana. Não teria construído uma identidade própria e sequer feito história na televisão brasileira.

Obrigada, Zico Goes!

Andrizy Bento

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