Paranoia Agent

Desde a abertura perturbadora, em que os personagens são mostrados um a um, rindo compulsivamente em meio ao caos que se desenrola ao redor deles – tendo como planos de fundo diferentes e trágicos cenários – até o encerramento com a música que soa como uma canção de ninar macabra bem oportuna, uma vez que os personagens surgem aparentemente dormindo (será que estão apenas dormindo?), já temos destacada a mensagem que a série deseja transmitir: a fuga da realidade. Outra das criações do sensacional Satoshi Kon, Paranoia Agent é um anime composto de 13 episódios, produzida pela Madhouse e transmitida originalmente pela emissora japonesa WOWOW entre fevereiro e maio de 2004.

Na trama, uma série de misteriosos ataques executado por um garoto de boné, patins dourados e um um bastão amassado da mesma cor, é investigado por uma dupla de detetives. Os primeiros episódios são centrados em cada uma das vítimas do garoto apelidado de Shōnen Bat e em seus respectivos backgrounds. Eventualmente, todas as histórias se entrecruzam. Em Paranoia Agent, o saudoso Satoshi Kon deixa bem evidente suas obsessões estéticas e narrativas (que marcariam sua obra). Elementos intrínsecos e fundamentais de seus trabalhos pregressos e posteriores se encontram presentes. O diretor mergulha no psicológico atormentado de seus personagens, retrata tipos com distúrbios mentais, os insere em um ambiente de suspense constante, ao mesmo tempo que utiliza esses elementos para fundamentar uma trama investigativa, que traz um mistério a ser desvendado por dois comprometidos detetives. A assinatura de Kon fica evidente em cada fotograma.

A primeira das vítimas do batedor é uma famosa designer, criadora do emblemático personagem Maromi, uma febre no Japão. A introspectiva profissional de 22 anos apresenta um bloqueio criativo e não consegue desenvolver nada a altura de seu célebre cachorrinho de pelúcia cor de rosa. O segundo alvo do Shōnen Bat, é um jornalista obcecado por um furo de reportagem, abatido ao perseguir a mencionada designer. Um garoto popular, com um sorriso charmoso, cheio de estilo e primeiro de sua turma é confundido com o criminoso e passa a ser alvo de suspeita de seus colegas de classe, que imediatamente o excluem, e até mesmo da polícia. Solitário, engendra planos malignos para derrotar seu rival no colégio, não supera a perda de popularidade e alucina com o momento em que voltará a ser amado e querido por todos, dependendo dessa forma de validação. Este acaba se convertendo na terceira vítima de Shōnen Bat. O quarto alvo do criminoso é uma professora que possui transtorno dissociativo de identidade, atuando como acompanhante durante à noite e tutora durante o dia, se vê em uma encruzilhada, querendo desesperadamente se livrar de sua outra personalidade quando é pedida em casamento, mas não consegue escapar de seu outro eu uma vez que ele está em seu próprio corpo e mente. Um corrupto policial, envolvido com a Yakuza e devendo altas somas em dinheiro é o responsável pelo primeiro plot twist da série, sendo o responsável por capturar o temido e, ao mesmo tempo, almejado (!) Shōnen Bat.

Apostando em uma rica construção de personagens, a unidade em comum entre eles é que todos estão sofrendo algum tipo de pressão, atravessando estágios de melancolia, sendo levados ao limite de suas emoções e procurando se libertar de seus traumas, demônios internos, de suas responsabilidades e de quem são essencialmente. Um dos detetives que cuida do caso até mesmo observa o quanto todos parecem aliviados após serem vítimas do bastão do Shōnen Bat, como se o ataque fosse um modo de libertação.

Transitando entre o thrillher psicológico, a sátira e a crítica social, Kon subverte os limites entre a realidade e fantasia, algo tão característico do autor, apresentando personagens à beira do desespero e de um colapso nervoso. Essencialmente, Paranoia Agent versa sobre o escapismo, a fuga das responsabilidades do mundo real, a terceirização da culpa e a manipulação midiática. Ainda reserva espaço considerável para tratar de temas densos e espinhosos como o suicídio (um tópico espinhoso no Japão, dada a alta taxa de casos registrados no país), o assédio moral no ambiente de trabalho, o fanatismo, o consumo exacerbado e o final até mesmo traça paralelos com a bomba atômica. 

E quando acreditamos que Paranoia Agent está a ponto de nos decepcionar, entregando três fillers em sequência, percebemos que até estes são necessários ao todo. Particularmente o episódio que acompanha um grupo de pretensos suicidas que se conheceram em um fórum online e arquitetam meios de ceifar as próprias vidas; e o posterior, que traz quatro donas de casa contando histórias absurdas sobre o Shonen Bat. Este episódio aborda uma temática tão inerente ao nosso cotidiano atual: a das fake news, retratando a maneira assombrosa e embaraçosa com que os rumores se difundem e crescem exponencialmente. Há um evidente prazer na tragédia alheia enquanto as mulheres narram os boatos, pois são as tragédias que rendem boas histórias. Após os fillers, a série retoma o ritmo com um ótimo episódio que se concentra na esposa de um dos detetives do caso. Com a saúde debilitada, ela tem um inesperado encontro com o Shonen Bat, na visível tentativa de transgredir o status quo, mostrando que de todas as suas vítimas, aparentemente é a única que aceita bem a sua própria e infeliz condição e não busca simplesmente fugir dela ou atribuir a culpa de seus infortúnios a terceiros.

Maromi, a criatura que representa o cerne de toda a narrativa e que remete imediatamente à Hello Kitty, é uma crítica certeira à cultura Kawaii e como esta é utilizada para atenuar a realidade ao redor, retratando a força de um símbolo no mundo capitalista extremamente pautado pelo consumo e como o indivíduo se utiliza de subterfúgios simplistas e frágeis para escapar do mundo real. O peso do caos e da devastação amenizado pela fofura de um personagem que desperta o fanatismo de tantos. Aliás, uma criatura fofa que pode ser aterrorizante e que dá início ao pesadelo dos personagens principais.

Em uma animação de qualidade primorosa com uma trilha sonora inesquecível, Paranoia Agent nos transmite uma valiosa e, talvez até mesmo inquietante lição. Às vezes, a única solução é deixar o monstro crescer e te abater, contê-lo, dominá-lo e, por fim, aceitar a realidade e o peso das responsabilidades que escolhemos assumir como consequência dos rumos que tomamos em nossas vidas. A mensagem transmitida é muito simples, mas por meio de alegorias impressionantes que só podiam partir da mente tão brilhante, quanto ácida, crítica e afiada de Satoshi Kon. Outro atestado de genialidade de um dos grandes mestres da animação japonesa.

Andrizy Bento

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