Cinco Filmes Olímpicos

Devido à pandemia do novo coronavírus, a 32º edição das Olimpíadas de Verão em Tóquio foi inevitavelmente adiada para 2021. Para consolar os entusiastas olímpicos, fiz uma lista de cinco filmes biográficos que retrataram histórias reais e marcantes na maior festa do esporte mundial.

A capital japonesa já havia recebido uma edição dos Jogos Olímpicos em 1964, se tornando o primeiro país asiático a sediar o maior evento esportivo do mundo. No século XX, o Japão ainda recebeu duas edições das Olimpíadas de Inverno, em Sapporo 1972 e Nagano 1998.

Com o passar dos anos, o Japão não foi o único país da Ásia a recepcionar a maior festa do esporte. Em 1988, Seul, capital da Coréia do Sul, foi o palco dos jogos olímpicos. Trinta anos depois, os sul-coreanos tiveram a oportunidade de sediar as Olimpíadas de Inverno, em Pyeongchang, em 2018. Voltando um pouco, em 2008, foi a vez da China; sendo os jogos realizados na capital, Pequim. Em 2022, a mesma Pequim foi escolhida para ser o cenário das Olimpíadas de Inverno. Em 2021, Tóquio se tornará a primeira cidade de um país asiático a sediar uma Olimpíada de Verão por duas vezes.

Sem mais delongas, vamos aos cinco filmes olímpicos, sejam de verão ou inverno.

Carruagem de Fogo (1981)
Direção: Hugh Hudson

Carruagem de Fogo

Eis o primeiro filme biografado em Olimpíadas de que se tem notícia e trata-se de uma produção britânica. O clássico mostra a preparação da seleção de atletismo do Reino Unido para as Olimpíadas de Paris, em 1924. Os velocistas Eric Liddell (Ian Charleson) e Harold Abrahams (Ben Cross) pretendem disputá-la, mas seguem caminhos diferentes. Liddel é um missionário escocês, que se dedica a devoção do cristianismo. Quanto a Abrahams, ele é filho de judeu, que enriqueceu recentemente, e deseja provar sua capacidade para a sociedade de Cambridge, na Inglaterra.

Liddell corre usando o seu talento natural, enquanto Abrahams contrata um treinador. Ambos seguem as eliminatórias sem problemas, até que uma das classificatórias de Liddell é marcada para domingo. Ele se recusa a competir, por este ser um dia santo. Percebendo a situação, um nobre oferece a Liddell sua vaga na disputa dos 400 metros. Liddell aceita e vence a corrida, assim como Abrahams. Os dois integram a equipe do Reino para os Jogos Olímpicos de Paris 1924. Harold Abrahams foi medalha de ouro nos 100 metros e prata no Revezamento 4×100. Eric Liddell faturou o ouro nos 400 metros e bronze nos 200 metros.

Carruagem de Fogo ganhou quatro Oscars: melhor filme, melhor roteiro original, melhor figurino e melhor trilha sonora. A canção-tema do filme foi composta pelo maestro grego Vangelis, que ficou conhecido na época pela parceria musical com Jon Anderson, vocalista do grupo Yes. A canção ficou associada às Olimpíadas nos anos 80 e foi utilizada por várias emissoras (inclusive brasileiras) para chamadas dos jogos olímpicos na TV. A cena da corrida na beira da praia foi satirizada pelo personagem Mr. Bean (eternizado pelo comediante Rowan Atkinson) na abertura das Olimpíadas de Londres, em 2012. Vangelis compôs a trilha sonora de outros filmes, como Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982) – provavelmente seu trabalho mais lembrado e respeitado – e Alexandre (2004). Ele também é o autor dos temas instrumentais para competições, como a Copa do Mundo na Coréia do Sul/Japão 2002 e para as Olimpíadas de Atenas, na sua Grécia, em 2004. Para celebrar os 100 anos das Olimpíadas de 1924, Paris receberá os jogos de 2024.

Jamaica Abaixo de Zero (1993)
Direção: Jon Turteltaud

Jamaica Abaixo de Zero

Nas Olimpíadas de Inverno em Sarajevo, 1984 (leia-se saraievo), na Bósnia, que na época era república da antiga Iugoslávia, o treinador canadense Irwin Flitzer (John Candy) manchou a sua reputação ao colocar pesos extras na seleção de trenó do seu país. Isso resultou na perda do ouro olímpico. Passados alguns anos, Derice Bannock (Leon Robinson), um jamaicano filho de um antigo amigo de Irwin, não passa na seletiva para as Olimpíadas de Seul em 1988, na prova dos 100 metros no atletismo, por causa de um estúpido acidente.

Derice descobre que Flitzer também vive na Jamaica e pede a sua ajuda para poder ir às Olimpíadas de qualquer maneira, mas não como corredor, e, sim, liderando uma equipe de trenó. Após alguns problemas iniciais, a primeira equipe de trenó da Jamaica é formada com Derice, Sanka (Doug E. Doug), Junior (Rawle D. Lewis) e Yul (Malik Yoba). Flitzer coloca o quarteto para treinar na parte rural da Jamaica em um carro em forma de trenó improvisado, além de fazê-los se adaptarem ao frio, colocando eles dentro de um freezer. A seleção jamaicana de trenó chega às Olimpíadas de Inverno em Galgary, no Canadá, que ocorreu meses antes dos jogos de verão em Seul. Mal chegam e são vítimas de piada dos outros competidores. Mas a equipe é cheia de confiança e pode surpreender nos Jogos Olímpicos.

Toda vez que a Jamaica desfila na abertura de qualquer Olimpíada de Inverno, o mundo se lembra imediatamente deste filme. Na época, a Jamaica ainda não chamava atenção nos esportes, nem nas Olimpíadas de Verão. Muitos de seus atletas se naturalizaram canadenses, como Donovan Bailey e o polêmico Ben Johnson. A Jamaica só ganhou prestígio em Olimpíadas nos anos 2000 com velocista Usain Bolt, conhecido como “o raio”. Com relação ao filme, ele teve a produção da Disney. Na trilha sonora, a canção que mais obteve destaque foi I Can See Clearly Now do respeitado Jimmy Cliff. Foi o último filme do ator John Candy, que morreu devido a um ataque cardíaco aos 43 anos, em 4 de março de 1994, durante as filmagens de Dois Contra o Oeste.

Prefontaine – Um Nome Sem Limites (1997)
Direção: Steve James

Prefontaine - Um Nome Sem Limites

Outro filme feito no século XX. Gira em torno do velocista americano Steve Prefontaine (Jared Leto). Competindo pela Universidade de Oregon, ele obteve vários recordes no atletismo americano e conquistou a medalha de ouro no Pan-Americano de Cali, na Colômbia, em 1971. Treinado por Bill Dellinger (Ed O’Neil) e Bill Bowerman (R. Lee Ermey), Pre (seu apelido) conseguiu se classificar para as Olimpíadas de Munique no ano seguinte. Esse evento ficou marcado pelo Massacre de Munique, quando terroristas palestinos mataram atletas israelenses. Isso mexeu com o psicológico de Pre, que perdeu as provas em que se classificou. Nos 5.000 metros, ele chegou a liderar, mas perdeu o ouro para o finlandês Lasse Viren, a prata para o tunisiano Mohammed Gammoudi e o bronze para o britânico Ian Stewart.

Passados três anos, Pre concluiu a faculdade e não esqueceu da derrota de Munique, desejando uma revanche contra Viren. Mas ele não quer esperar a próxima Olimpíada, a ser realizada em Montreal, 1976, aspirando duelar em uma competição amistosa no estádio de atletismo da sua Oregon. No entanto, tem dificuldade de legalizar tudo, por Pre ser um atleta amador. Porém, ele consegue a legalização para a competição e conta com o apoio dos também atletas Mark Wilkins (Brian McGovern) e Pat Tyson (Breckin Meyer), que estudaram com ele em Oregon. Mesmo sem a presença de Viren, a competição ocorre. Entretanto, Steve Prefontaine morre em um acidente de carro aos 24 anos, em 30 de maio de 1975.

Quando fez esse filme, Jared Leto só tinha pretensão de ser ator. Nem sonhava em entrar na música, onde ganhou projeção como o vocalista do grupo de rock 30 Seconds To Mars. Para o papel principal, Jared Leto fez laboratório com os velocistas amigos e familiares do falecido. Quando ele surgiu, pela primeira vez, com o visual de Steve Prefontaine, a semelhança foi tão impressionante, que até conseguiu arrancar lagrimas de Linda, irmã do finado. Bill Bowerman foi o co-fundador da Nike, a mais popular marca esportiva americana. Quando alcançou o auge da sua popularidade nos anos 1990, a Nike se tornou a maior rival da marca alemã Adidas na preferência mundial dos esportistas. A história do Massacre de Munique foi contada em três filmes, Pânico em Munique (1976), Munique (2005) e Munique 72 – O Atentado (2012).

Voando Alto (2016)
Direção: Dexter Fletcher

Voando Alto

Não foram apenas os jamaicanos que causaram nas Olimpíadas de Inverno em 1988. Com o sonho de competir nos Jogos Olímpicos, o esquiador inglês Eddie “The Eagle” Edwards (Taron Egerton) tinha poucas chances e muitos problemas: não tinha ninguém para patrociná-lo, sobretudo pelo fato dele ser míope, o que o obrigava a usar óculos de grau por baixo dos óculos de proteção. Além disso, passou boa parte da infância tendo que lidar com problemas no joelho. Entretanto, a paixão pelas Olimpíadas fez com que ele tentasse todo tipo de esporte.

Eddie não queria ganhar uma medalha, mas simplesmente participar do evento. Até que, após ser dispensado da equipe de esqui, percebeu que teria uma nova chance na categoria Salto de Esqui já que a Grã-Bretanha não possuía uma equipe na modalidade há décadas. Para conseguir a tão sonhada vaga nos Jogos Olímpicos de Inverno, em 1988, ele conta com a ajuda de Bronson Peary (Hugh Jackman), um ex-esportista que enfrentou problemas de disciplina em sua época de atleta. Assim como os jamaicanos que correram de trenó, Eddie Edwards não ganhou medalha em Calgary, mas foi muito enaltecido pelo público por nunca desistir de seus objetivos.

Intérprete do esquiador Eddie “The Eagle” Edwards, o ator galês Taron Egerton ficaria marcado por interpretar Elton John no filme biográfico Rocketman (2019), também dirigido por Fletcher. As filmagens na neve não foram feitas em Calgary, mas sim em Oberstdorf, na Alemanha e em Seefeld no Tirol, na Áustria. Tem algo que não falei aqui: diferentemente do futebol, a Inglaterra, a Escócia, a Irlanda do Norte e o País de Gales são obrigados a competirem nas Olimpíadas como Grã-Bretanha (ou Reino Unido se preferir) e em esporte individual. Quando os quatro países obtêm índice olímpico no esporte coletivo (futebol, rugby, vôlei…), eles são obrigados a renunciar a vaga. Em caso raro, no século XXI, o Reino Unido pôde competir em esporte coletivo nas Olimpíadas de Londres, em 2012, já que eram os anfitriões.

Raça (2016)
Direção: Stephen Hopkins

Raça

Conta a história do velocista americano Jesse Owens, que é considerado o maior herói olímpico de todos os tempos. Nos anos 1930, Jesse Owens (Stephan James) é o primeiro de sua família a ingressar em uma universidade. Chegando à Universidade de Ohio, ele é alvo de inúmeros comentários racistas dos jogadores de futebol americano. Era a época da segregação racial nos Estados Unidos. Porém, ele tem a confiança do treinador Larry Snyder (Jason Sudeikis). Paira uma incerteza sobre o boicote americano às Olimpíadas de Berlim, na Alemanha, que vivia a era do nazismo, em 1936. O general Adolph Hitler (Adrian Zwicker) quer usar a competição para impor as suas idéias hediondas ao mundo.

Junto da cineasta Leni Riefenstahl (Carine van Houten), que dirige o filme das Olimpíadas de Berlim, o construtor Avery Brundage (Jeremy Irons) fica encarregado de apaziguar as relações estremecidas entre os Estados Unidos e a Alemanha nazista. Já em Berlim, Jesse Owens não consegue se entender com o treinador da seleção americana de atletismo, Dean Cromwell (Jonathan Higgins) e pede pela presença de Snyder na Vila Olímpica. Sendo atendido, Owens foi medalha de ouro nos 100 Metros Rasos. O segundo ouro veio no Salto em Distância, onde derrotou o alemão Carl Long (David Kross), com quem fez amizade. Na vila olímpica, o mesmo Long falou para Owens que nem todo alemão é feliz com o nazismo.

Antes dos 200 Metros Rasos, os nazistas souberam que Owens estaria presente e queriam impedir as filmagens da prova. Mas Leni mandou ligar as filmadoras e registrou o americano levar o terceiro ouro na citada prova. Antes dos revezamento 4×100, os nazistas proibiram a participação de dois americanos judeus. Owens foi um dos substitutos e levou o quarto ouro, frustrando a propaganda nazista.

Apesar do êxito nas Olimpíadas de 1936, Jesse Owens nunca foi homenageado em vida pelo governo americano. Nem quando o movimento negro ganhou ascensão nos Estados Unidos na década de 1970. Jesse Owens morreu de câncer no pulmão aos 66 anos em 31 de março de 1980. Só depois de seu falecimento recebeu homenagem na Casa Branca… Nas duas últimas edições das Olimpíadas de Verão nos Estados Unidos, atletas afrodescendentes medalhistas olímpicos foram escalados para acenderem a pira olímpica, como o decatleta Rafer Johnson, em Los Angeles, 1984, e o boxeador Muhammad Ali, em Atlanta, 1996.

Windson Alves

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