Perfect Blue

“Não há como ilusões se tornarem reais”.

No universo de Mima Kirigoe, realidade e delírio se confundem, se mesclam e exigem que o espectador mantenha-se atento, sem tirar os olhos da estrada durante a tão fascinante quanto aterradora jornada da pop idol

Em Perfect Blue, lançado em 1997, o diretor Satoshi Kon trabalha com um conceito que se tornaria sua marca registrada e seria retomado quase dez anos depois, em Paprika. Nos dois filmes, os personagens transitam entre eventos reais e ilusões, se veem perdidos em um labirinto de paranoias, perturbados por constantes alucinações. Contudo, isso não é sinalizado ao espectador. O diretor, falecido em 2010, aos 47 anos, não subestimava a inteligência do público; construindo narrativas bem articuladas, sabendo que o espectador atento seria capaz de identificar o que era real e o que não era em suas animações.

Engana-se quem pensa que Satoshi Kon tornou-se repetitivo ou refém de sua própria fórmula, pois ele soube se reinventar a cada novo trabalho, mantendo-se fiel à sua essência. O que particularmente impressionava no cinema do realizador japonês era o fato de abordar temas espinhosos e complexos, elaborar uma trama intrincada a partir deles e, mesmo assim, seus filmes resultarem em experiências acessíveis, simples de se compreender quando o espectador realmente se envolve e mergulha nas histórias. E, ao contrário de tantos de seus tietes famosos (como Christopher Nolan e Darren Aronofsky), Kon produziu obras-primas, mas totalmente livres de pretensão.

Mima Kirigoe é uma estrela do pop que está deixando o Chan – grupo musical composto apenas por garotas, que a projetou para o estrelato – a fim de investir na carreira de atriz. Para isso, ela precisa mudar significativamente sua imagem, passando de princesinha do pop para uma mulher mais sexy e madura. Desse modo, acaba topando coisas com as quais não se sente nem um pouco confortável, como protagonizar uma cena de gang bang em um clube de strip-tease para uma série de TV e posar para fotos ousadas que revelam sua nudez. São os primórdios da internet (como mencionado, o filme data de 1997), e Mima mal sabe mexer em um computador. Mas quando finalmente aprende a manusear a internet, descobre um estranho website que narra seu dia a dia como se fosse um diário, escrito por alguém que parece saber mais sobre Mima do que ela mesma. É como se alguém a observasse dia e noite. Se não bastasse esse fato perturbador, Mima ainda é atormentada pela visão de um stalker. Aparentemente um fã obcecado que a persegue aonde quer que ela vá. Para completar, a garota é alvo de constantes ameaças à sua integridade física e mental e tanto o roteirista da série em que atua quanto o fotógrafo responsável pelo seu ensaio provocante, são misteriosamente assassinados. 

Visivelmente, alguém não está contente com os rumos que Mima vem tomando em sua carreira, modificando completamente sua imagem, distanciando-se da inocente cantora de músicas pop e românticas para tornar-se uma atriz que tem seu corpo e sexualidade intensamente explorados pela mídia. E quem quer que seja o indivíduo insatisfeito e contrariado com o giro de 360° na carreira de Mima, vem expressando sua revolta de maneira violenta.

O longa lança luz sobre temas contundentes e de maneira perspicaz, tais quais estupro, objetificação do corpo feminino, sexismo na indústria do cinema, fanatismo exacerbado, o papel destrutivo que a fama pode operar na vida de jovens estrelas e, o mais essencial de todos eles para a narrativa: o transtorno dissociativo de identidade.

Quando Mima precisa fazer uma cena de estupro, é cruel, humilhante, doloroso e doentio. Obviamente, a garota não está confortável e nos faz lembrar de tantos e tantos relatos de jovens atrizes que tiveram de encarar cenas assim, explorando seus corpos. A audiência da série sobe, logicamente, e ela enfim conquista a proeza de parecer mais madura aos olhos do público, deixando a imagem de garotinha definitivamente para trás. Como qualquer ídolo pop, Mima limita-se a um personagem moldado por seus agentes, empresários e produtores. Não existe personalidade; o ser humano se perde e desaparece por trás da imagem que se quer vender.

A animação cita a atriz Jodie Foster que, assim como Mima, protagonizou uma cena de estupro coletivo no filme Acusados que lhe valeu uma vitória no Oscar, como Melhor Atriz, em 1989. Curiosamente, Foster também teve um stalker em sua vida – John Hinckley Jr. que, obcecado por ela, passou a perseguir o presidente Jimmy Carter em 1980 e realizou um atentado contra a vida de seu sucessor, Ronald Reagan, em 1981, na tentativa de chamar a atenção da atriz. Hinckley Jr. se inspirou no personagem Travis Bickle, interpretado por Robert De Niro em Taxi Driver de Martin Scorsese. No longa de 1976, que o criminoso alegou ter assistido 15 vezes, Jodie Foster interpreta Iris, uma prostituta de 12 anos. E foi aí que teve início a sua obsessão.

Ainda no campo das referências, assim como Christopher Nolan pegou emprestada a premissa e utilizou algumas cenas de Paprika como referências visuais para realização de A Origem de 2010; Darren Aronofsky se inspirou em uma cena de Perfect Blue para compor um dos frames mais emblemáticos de Réquiem Para um Sonho e, para tanto, comprou os direitos da obra, o que é bastante curioso. Quem viu Cisne Negro, também de Aronofsky, percebeu a evidente influência do cinema de Satoshi Kon no longa do diretor nova-iorquino. É possível apontar vários paralelos narrativos e visuais entre as duas obras, embora Aronofsky negue veementemente. De qualquer forma, Perfect Blue é o que Cisne Negro queria ser, mas morreu na intenção, pois com todo o seu pedantismo e pretensão, o longa protagonizado por Natalie Portman está há anos luz da genialidade de Perfect Blue.

Trafegando por variados gêneros – thriller psicológico, fantasia, drama e terror – com hábil destreza, Perfect Blue intercala cenas belíssimas e mais contemplativas com sequências de violência hardcore e um gore de respeito. Nesse sentido, a oposição cromática entre a calmaria e a frieza do azul e a ferocidade e a efervescência do vermelho é bastante simbólica, representando tanto contraste entre as duas personas, como o psicológico atormentado e a confusão emocional de sua protagonista e se destacando como um dos elementos essenciais e emblemáticos do longa. 

Andrizy Bento

 

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