[O que ver na quarentena] Fleabag

A protagonista de Fleabag não tem nome. 

Ela atende por essa alcunha de Fleabag que significa literalmente “saco de pulgas”, mas pode ainda ser adaptado para algo como “vira-lata”, como se ela estivesse sempre por aí, pelas ruas sujas da cidade, sendo jogada pra lá e pra cá, sem raízes, sem afeto. Por não ter um nome e carregar um apelido tão desagradável, a personagem defendida (brilhantemente, diga-se de passagem) por Phoebe Waller-Bridge (também criadora e roteirista da série), converte-se em um símbolo, bem como os outros personagens sem nomes, tais quais o pai interpretado por Bill Paterson e a madrasta, vivida pela genial Olivia Colman. E o fato de quebrar a quarta parede desde a primeira cena, olhando diretamente para a câmera e dialogando com o espectador, torna mais visível o propósito da personagem. Afinal, a medida que avançamos pelos episódios, percebemos que Fleabag não está necessariamente falando com quem a assiste do outro lado da tela, mas com ela mesma. 

O que quer dizer que a ideia de Fleabag é a de nos projetarmos na personagem e reconhecer nela nossos próprios fracassos, inseguranças e problemas. Mas não em busca de aprender a lidar com isso, se aceitar ou encontrar uma resolução. É humor britânico, não livro de autoajuda. Não à toa, a série acionou em mim gatilhos para os quais eu não estava preparada. A identificação ocorreu em diversas passagens, chegando a ser dolorosa e até perturbadora de se constatar. Mas produção boa é aquela que aponta para você, insere o dedo na ferida e sacode com vontade. E isso Fleabag faz com louvor.

Produzida originalmente pela Two Brothers Pictures e transmitida pelo canal digital BBC Three, em uma co-produção com a Amazon Studios, a série – adaptada de uma peça apresentada por Phoebe no festival de Edinburgh, na Escócia, que trazia a atriz sozinha no palco – foi ao ar pela primeira vez em 21 de julho de 2016 e teve seu encerramento em 8 de abril de 2019, totalizando duas temporadas compostas de seis episódios. Aclamada pela crítica especializada, a série arrematou inúmeros prêmios, tais quais Bafta, Emmy e Globo de Ouro. Recebeu 11 indicações ao Emmy em 2019 e foi consagrada a Melhor Série de Comédia no Globo de Ouro 2020. Na mesma edição, Phoebe Waller-Bridge foi eleita, merecidamente, a Melhor Atriz de Comédia. E é com segurança que afirmo que todo o alarde e os prêmios conquistados não se tratam de nenhum exagero.

Fleabag foi me conquistando no decorrer dos episódios. Não foi uma série que me pegou de imediato. Mas, conforme, vamos conhecendo mais da intimidade de sua protagonista e nos aprofundando nos diferentes tipos de relacionamentos que ela possui com aqueles que estão ao seu redor, não tem como negar o refinamento e o brilhantismo do texto. Trata-se de uma típica comédia britânica ácida, recheada de humor autodepreciativo cuja trama é centrada em uma mulher na casa dos trinta anos, cínica, desajustada e com uma perigosa tendência à autossabotagem. Ela passa boa parte do tempo tentando lidar com o luto devido às perdas da mãe e da melhor amiga e com a culpa que carrega pela morte desta última. Paralelamente a isso, se aventura em relações amorosas sem futuro; parece rejeitar a felicidade quando, enfim, encontra um cara legal; e faz o necessário para manter aberto seu negócio – um café que tinha em sociedade com a melhor amiga falecida e parece impregnada pela memória dela em todos os cantos.

Como se não bastasse todas as frustrações de sua vida pessoal e profissional, Fleabag ainda tem que lidar com a família… Sempre ela. Nosso principal pilar, instituição e origem. E, como muitos, a protagonista luta para se afastar, mas sempre se vê obrigada a retornar a ela. Fleabag se vê, constantemente, às voltas com a irmã perfeita, Claire (Sian Clifford) – bem sucedida no emprego, inteligente, mas que, ainda assim, acredita possuir grandes problemas em sua vida, quando seu único e maior demérito mesmo é ter se casado com o babaca Martin (Brett Gelman) – além de seu pai, que parece ter se esvaziado após a morte da esposa; e da madrinha que não perdeu tempo em desposar o pai de Fleabag assim que o viu tornar-se um viúvo, garantindo seu posto como madrasta da protagonista e destilando sua passivo-agressividade em cima da enteada sempre que se encontram. 

É até incômodo assistir algumas cenas em que Fleabag aceita, de maneira submissa, as críticas, provocações e o deboche da madrasta, ainda que com um sorriso cínico estampado no rosto. É como se ela não quisesse discutir por não valer a pena, por saber que isso não vai levar a lugar nenhum e que ela não merece tanta atenção. Mas também soa como se a personagem quisesse se punir por todos os erros cometidos e pela constante culpa que sente. Assim, a personagem de Colman alfineta o quanto pode, fazendo o possível para arrancar alguma reação de Fleabag. De preferência, uma reação explosiva.

Com um dom absurdo para se meter em encrencas e apostar em relações fadadas ao fracasso, a protagonista ainda se apaixona e se envolve com um padre. Como se, inconscientemente, dissesse a si mesma que as coisas não devem dar certo em sua vida, contestando qualquer oportunidade de ser feliz e permanecendo no que parece, curiosamente, ser a sua zona de conforto: a autossabotagem. 

O comportamento autodestrutivo de Fleabag é, sem dúvida, o traço mais marcante da série. Mas a produção ainda reserva espaço para discutir outras pautas relevantes, tais como feminismo, sororidade, assédio sexual no ambiente de trabalho, a perda da autoestima e autoconfiança, traição, depressão, aborto, suicídio e masculinidade tóxica. E é impressionante como aborda com tamanha precisão assuntos tão contundentes em apenas 12 episódios.

Fleabag

A excêntrica, carismática e problemática figura idealizada e defendida por Phoebe já entrou para a galeria de melhores personagens da televisão. Para assinantes da Amazon Prime Video, não deixem de conferir. A série está lá, completa. Corre pra assistir!

Andrizy Bento

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