[O que ler na quarentena] Simulacron-3

Daniel F. Galouye não figura na lista de autores aclamados do gênero ficção científica como Arthur C. Clarke ou Isaac Asimov. Nem mesmo teve sua obra reconhecida postumamente como Philip K. Dick. E, infelizmente, nem parece correr o risco de vir a ser redescoberto por uma nova safra de leitores aficionados por sci-fi. Talvez seja pelo fato de não possuir a mesma energia narrativa transformadora, o texto denso e complexo dos demais citados. Mas, ainda assim, vale a pena dar uma oportunidade e descobrir sua obra.

O conceito de simulacro – de um universo simulado e artificial que imita a realidade – já é interessante por si só. Soma-se a isso uma boa construção de enredo que fisga o leitor de imediato, deixando-o curioso desde as primeiras páginas para conhecer o desdobramento dessa intrigante história, e temos um livro digno de se ter na estante.

Simulacron-3 foi publicado pela primeira vez no distante ano de 1964 e a trama acompanha o protagonista Douglas Hall que se vê confuso e aterrorizado diante da descoberta de que vive em um mundo virtual, falso, que apenas reproduz a realidade, criado artificialmente com o propósito de se estudar a natureza humana. Ainda mais curioso é o fato de a população deste universo simulado ter desenvolvido seu próprio simulador de ambiente. Isto é: um mundo virtual dentro de outro mundo virtual. E isso anos antes de Christopher Nolan lançar seu Inception

Paralelamente, há uma interessante trama política – fator que aciona as suspeitas do protagonista a respeito de seu mundo fake. O conceito de simulacro, aliado ao mote político, levanta questionamentos de ordem moral, filosófica, religiosa e social, alertando para os terrores de um regime ditatorial; o perigo de divergir do senso comum, da opinião estabelecida e imposta por poderosos (mencionando a tortura contra rebeldes); e da ganância que leva um ser humano a querer brincar de Deus. Em suma, reflexões que todo e qualquer bom sci-fi deve proporcionar ao leitor. 

Um filme baseado no livro foi lançado em 1999 com o título de 13º Andar e já ganhou texto por aqui. Por ter sido lançado no mesmo ano (poucos meses antes, na verdade) e abordar a mesma temática de Matrix – entretanto, sem o orçamento milionário do filme da Warner Studios – acabou ofuscado e passando despercebido pela maioria do público, tendo chegado diretamente ao mercado de home video no Brasil. Pelo visto, Galouye, mesmo depois de sua morte, permanece sendo subestimado.

Andrizy Bento

 

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