[O que não ver na quarentena] After

Os posts da quarentena estão resgatando lançamentos de “abrils” passados. Afirmo que não foi intencional. Contudo, a coincidência é interessante e vem bem a calhar… E como eu aprecio muito os nossos leitores, resolvi até mesmo fazer post de não-indicações. Afinal, se você não quer que seu período de isolamento seja um tempo perdido, é bom alertá-los, também, do que não assistir.

Primeiramente, convém dizer que, como alguém que se formou defendendo um trabalho de conclusão de curso cujo tema era Cultura do Fã, acho que fanfiction (ficções escritas por fãs que tomam como base narrativas já existentes) é uma atividade extremamente sadia, além de criativa. Evidencia também que fãs não se restringem ao papel de consumidores passivos e participam do universo da obra que admiram de maneira bastante ativa, produzindo conteúdo ao invés de apenas recebê-lo.

O problema das fanfics está algumas autoras que, muitas vezes, nem são fãs da obra a partir da qual produzem fanfics. Escrevem para poder angariar popularidade, pegando carona no sucesso do livro, filme ou série do momento; conquistar leitores; para depois, em uma jogada esperta, tirarem a publicação das fics do ar e lançarem como “originais”. Dessa forma, tiram proveito de algo que já possui um fandom consolidado. Outro problema está no fato de que as fanfics de sucesso são as mais clichês e mal construídas, que se apoiam nas piores muletas narrativas imagináveis e, geralmente, centradas em romances tóxicos ou abusivos, com protagonistas vivendo uma situação de codependência nada saudável. Assim, não intriga o fato da fanfiction, uma atividade que, reforço, é muito saudável, ainda ser alvo de tanto criticismo e preconceito…

Por favor, acreditem em mim quando digo que há muitas fanfics boas e de absurda qualidade sendo escritas por autoras talentosas. Basta garimpar um pouco. Mas, infelizmente, como já citado anteriormente, são algumas das piores, das safras das mais mal escritas que se tornam famosas, viram livros e filmes. Basta ver que os exemplares de maior destaque do gênero são a famigerada Cinquenta Tons de Cinza, fanfic de Crepúsculo, que vendeu milhões de livros e rendeu uma trilogia cinematográfica repelente, e esta, After, um fenômeno da plataforma colaborativa Wattpad, publicada primeiramente como fanfic de One Direction e, posteriormente, como um original, com os nomes dos personagens tendo sido alterados para a versão em livro físico.

Assim como a primeira citada, foi alçada às listas de best-seller e percorreu o caminho bem-sucedido da literatura para as telas de cinema, ganhando uma adaptação tão inócua quanto seu material de origem. Não à toa, ambas tratam-se de histórias que relatam relacionamentos nada saudáveis. Duas tramas extremamente enfadonhas, mal escritas, com enredo parco e zero imaginação. E dois exemplares de cinema descartável que são nada menos do que desperdício de dinheiro, de cast e de produção.

No filme da cineasta americana Jenny Gage, baseado na fanfiction homônima de autoria de Anna Todd, Tessa Young (Josephine Langford) é uma jovem universitária, com um futuro promissor e blahblahblah, cuja vida muda após conhecer o misterioso e sombrio Hardin Scott (Hero Fiennes-Tiffin) que despreza e desdenha da garota a princípio, até que eles começam a se envolver e todo o romance é ameaçado pelas pessoas ao redor e pela descoberta de um segredo cruel que o rapaz carrega.

After segue a cartilha de Crepúsculo (com exceção do fator sobrenatural), inclusive com direito à menção de clássicos da literatura tais quais Orgulho e Preconceito de Jane Austen e O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë. Aliás, a história se ampara na dinâmica do clássico de Austen, do aparente ódio que se transforma em amor. After já nasceu velho ao narrar a história da jovem bonitinha e desinteressante, sem nenhum carisma, que se apaixona pelo cara mais bonito da universidade (embora eu não lhe veja beleza de nenhum ângulo), misterioso, com um jeito obscuro que, a princípio, despreza a mocinha. Irrita o estilo Edward Cullen do rapaz, de manter o semblante sempre rígido, aborrecido e sombrio. Aparentemente, a diretora deve ter lhe dado orientações do tipo “você precisa parecer bonito em todos os takes” e assim ele força a barra, sempre mantendo a cansativa pose de galã bad boy e soando bizarro.

De Cinquenta Tons, a história empresta o passado misterioso do protagonista masculino que o levou a portar essa carranca e o ar atormentado durante o filme todo. O pior é que o tal ator leva seu personagem a sério, o que faz com que ele fique estranho quando sorri. E não é só ele quem se leva a sério. Os roteiristas, durante o tratamento do texto, pecam em tentar tornar uma trama previsível, com um romance óbvio, centenas de diálogos óbvios e até cenas de sexo óbvias, em algo muito profundo. E, obviamente, fracassam em seu intento.

E dá-lhe mocinhos na chuva rompendo namoro, dá-lhe vilãzinha de novela mexicana apaixonada pelo galã que quer se vingar da “heroína”, dá-lhe melhor amigo negro e melhor amiga lésbica que não têm função na história, servem apenas para propósitos de representatividade e diversidade, mas constituem um desserviço, dada a falta de personalidade de ambos… Aliás, deixe-me fazer uma correção, afinal ninguém ali tem personalidade. A única coisa que os roteiristas acreditavam que era interessante inserir, pensando que pudesse dar um upgrade no perfil dos protagonistas, são cenas que afirmam que os personagens principais são ávidos leitores, inclusive com uma cena forçadíssima em uma biblioteca.

Isso sem falar no namorado perfeitinho que irrita com sua good vibes. E o que falar da professora que entrega, na surdina, um trabalho de um aluno para a protagonista ler? Sério? É triste ver Selma Blair ser totalmente desperdiçada no papel da mãe de Tessa, depois de marcar minha adolescência com Segundas Intenções e Hellboy. Falando em Segundas Intenções, não me espantaria se a autora da fanfic tivesse roubado daí o plot da aposta.

Para completar a série de desastres em sequência que é este filme, ainda há uma versão lenta para a irritante Complicated da Avril Lavigne. E eu que pensei que essa música tivesse sido esquecida lá em 2003 e jamais retornaria para nos atormentar…

Mais clichê, mais chato, mais arrastado, mais morno e com a trilha sonora mais insuportável de 2019, After é um desperdício enorme de minutos preciosos que você poderia utilizar vendo qualquer outro filme. Passem longe nessa quarentena.

Andrizy Bento

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