Spinning Out

A série prometia ser a próxima sensação da Netflix. Mas acabou cancelada devido à recepção aquém do esperado. A produção foi vítima da implementação de um novo sistema de avaliação mensal adotado pela plataforma de streaming. A renovação ou não de uma série original da Netflix depende do número de visualizações, perspectiva de premiações e dos custos relacionados à produção. Mediante a novidade, é fácil concluir que a trama sobre patinação artística no gelo, protagonizada pela atriz anglo brasileira e low profile, Kaya Scodelario, não obteve um retorno expressivo. Mas e aí? Ainda assim vale a pena conferir a primeira e, até onde sabemos, última temporada de Spinning Out?

Particularmente, admito que a narrativa é ambientada em um universo que julgo fascinante – o da patinação artística no gelo. Por isso mesmo, devido à indicação de uma amiga, não perdi tempo em maratonar a série durante um fim de semana. Assumo também que um dos meus guilty pleasures é assistir a vídeos de apresentações dessa modalidade no youtube. E é por isso também que aguardo ansiosamente pelos Jogos Olímpicos de Inverno…

Pois é. Nada mais relaxante do que assistir apresentações de patinação artística após um longo, estressante ou sacal dia de trabalho.

Spinning Out, criada pela produtora, roteirista e ex-patinadora artística Samantha Stratton, e cujo elenco é encabeçado, conforme mencionado anteriormente, por Kaya Scodelario, aborda o tema por um viés dramático. A série propõe um mergulho interessante nesse universo e também no psicológico conturbado de sua protagonista. Todos os conflitos da trama convergem para Kat Baker, personagem defendida por Kaya. Vivendo com a mãe e a irmã em Hawkley, Idaho, Kat procura conciliar sua carreira no gelo com o trabalho como garçonete. Após um grave acidente na pista de patinação (cena que abre a série), ela está prestes a ser afastada das competições, quando a treinadora russa, Dasha Fedorova (Svetlana Efremova), surge com uma proposta: que Kat patine em dupla com Justin Davis (Evan Roderick), o típico playboy galinha que a internet costuma chamar de branco privilegiado. Relutante, a princípio, a atleta aceita a oportunidade por não estar disposta a abrir mão de seu sonho.

Em casa, as coisas não são fáceis para Kat. Sua mãe, Carol (January Jones, surpreendentemente atuando direitinho) é uma ex-patinadora que teve de abdicar da carreira em ordem de cuidar sozinha das filhas. Para completar, Kat se sente responsável pela irmã mais nova, Serena (Willow Shields), que optou por seguir seus passos e os da mãe no rinque e, entrando na fase adolescente, parece estar sempre propensa a tomar todas as decisões erradas possíveis, especialmente no que diz respeito a relacionamentos amorosos. E como nada está tão ruim que não possa piorar, Kat sofre da mesma condição da mãe: bipolaridade.

A patinação artística no gelo, seus dramas e consequências – a carreira efêmera no esporte, a pressão, contusões e inevitáveis acidentes – servem efetivamente como plano de fundo. O cerne da narrativa, no entanto, é o transtorno bipolar. Outros temas que servem como pilares que sustentam o enredo são questões tão espinhosas quanto: abuso sexual, maternidade precoce, abandono afetivo e racismo estrutural. Todavia, o único tópico que realmente ganha mais profundidade é a bipolaridade da protagonista e de sua mãe. Muito bem retratado, o transtorno torna-se, até mesmo, um dos personagens centrais da trama.

Embora cheia de boas intenções, com um piloto forte e alguns outros episódios muito bons, Spinning Out não demora a enveredar por clichês, coincidências e conveniências narrativas que aproximam a produção de um caráter de soap opera. Os pares românticos são bastante previsíveis e há personagens que chegam a irritar com suas atitudes mesquinhas, infantis e egoístas – por exemplo, a irmã da protagonista. Falando em personagens, eles até são bem construídos, mas não fogem muito dos típicos arquétipos de filmes High School americanos. E quanto à Kaya, trata-se de uma atriz correta, porém, não há realmente nenhum grande destaque no elenco. Talvez January Jones, habitualmente inexpressiva, que aqui revela dotes interpretativos até então desconhecidos ao portar o papel de Carol Baker.

Um dos principais méritos da série, entretanto, é apresentar o contraste entre a exuberância estética e o glamour do esporte com todo o caos e os conflitos dos bastidores. Lendo um pouco acerca da vida e carreira de algumas das grandes estrelas da patinação artística, não é raro encontrar relatos sobre graves acidentes em apresentações e transtornos mentais adquiridos devido à pressão psicológica sofrida e a cobrança tanto de treinadores quanto de familiares dos atletas. O drama de Tonya Harding não é o único.

É uma série fácil de maratonar e que funciona como passatempo despretensioso. Mas recomendo não criar grandes expectativas acerca da produção. Até mesmo para não se decepcionar diante da já conhecida informação sobre o cancelamento. Trata-se de um caso bem comum de ótima premissa, mas com falhas de execução.

Em tempo: os fãs da série criaram uma petição para salvá-la. Se você tiver interesse em assinar, basta clicar aqui.

Andrizy Bento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s