Star Wars: Episódio IX – A Ascensão Skywalker

Não é à toa que o termo Space Opera se aplica tão bem à saga Star Wars. A franquia criada por George Lucas no final da década de 1970 é um novelão espacial que conquistou uma legião de fãs declaradamente apaixonada e fiel, a transformando em um verdadeiro objeto de culto, propiciando que a obra se estendesse para além do cinema e deixasse sua marca impressa em outros níveis da cultura pop. Esses fãs conhecem com precisão cirúrgica cada detalhe de roteiros, livros, graphic novels, animações e jogos de videogame estrelados pelos personagens da emblemática saga. Portanto, é uma escolha até sensata da parte de produtores e roteiristas agradar aos fãs.

Mas, para ser bom cinema, não basta um filme ser todo feito de fanservices. É necessário aliar isso a uma boa narrativa. De qualquer forma, analisando friamente, com aquela distância da fã que existe em mim, o último capítulo de Star Wars intitulado A Ascenção Skywalker, eu devo dizer que o final foi coerente, sim, com todo o andamento da história até aqui. Ora, Star Wars não é exatamente aquele tipo de sci-fi que se preocupa com a precisão científica (de fato, os filmes que compõem a série apresentam um sem número de batalhas espaciais barulhentas quando é sabido que o som não se propaga no vácuo, só para citar um exemplo dos vários aspectos questionáveis da saga nesse sentido). E, considerando a adoração religiosa que a série inspira e instiga em seus fãs, é plausível fazer concessões quando a narrativa opta por saídas fáceis e soluções simplistas e, ao invés de encontrar uma explicação razoável para elas, justifiquem-nas apenas com um “acredite na força“. O grande dilema é que o filme que encerra a jornada iniciada em 1977 com o hoje clássico Uma Nova Esperança, recorre excessivamente a esse recurso.

– Estamos lutando contra um exército centenas de vezes maior. Existe alguma escapatória? Como iremos sobreviver?

– A força irá nos ajudar.

Star Wars: A Ascensão Skywalker, o longa que narra o confronto final entre os sobreviventes da Resistência contra a Primeira Ordem é, portanto, mais uma trama que versa sobre a fé do que sobre a ciência. Daí o fato de esta que vos escreve não resistir em fazer esse paralelo entre ciência e religião logo no segundo parágrafo deste texto, pois é até simbólico como uma obra assumidamente sci-fi se aproxime muito mais do segundo conceito do que do primeiro. Claro, condizente também com a proposta do material, embora não satisfatório para o espectador mais exigente.

Ainda tomada por incertezas quanto ao seu passado, presente e futuro, Rey (Daisy Ridley) continua seu treinamento com a General Leia Organa (Carrie Fisher), procurando seguir sistematicamente os passos de sua mentora a fim de se tornar uma nobre Jedi. Ao mesmo tempo em que ela e seus amigos, Finn (John Boyega), Poe Dameron (Oscar Isaac), Chewbacca (Joonas Suotamo), C-3PO (Anthony Daniels) e BB8 precisam concentrar esforços na luta para derrubar a autocrática Primeira Ordem, a heroína procura entender a origem de sua misteriosa conexão telepática com Kylo Ren (Adam Driver). Ren, por sua vez, também entra em conflito de identidade. Embora dominado pelo lado sombrio, tendo o lendário Darth Sidious (Ian McDiarmid) como seu guia, a Força parece constantemente reivindicá-lo.

Aparentemente, houve um consenso entre diretor, roteiristas e produtores de que nada precisaria fazer muito sentido nesse filme, contanto que o episódio entregasse exatamente o que os fãs queriam ver na tela. E como essa era a lógica a ser seguida, também não houve problemas em trair os próprios conceitos estabelecidos no polêmico episódio anterior. Assim, elementos acrescidos tão corajosamente, mas alvos de duras críticas e controvérsias na mitologia de Star Wars por Rian Johnson em Os Últimos Jedi  (como o passado da heroína e a forma como Luke Skywalker foi retratado), são descartados impiedosamente no desfecho da saga. Afinal, eles desagradaram os fãs com a quebra de expectativas. Para “consertar” isso, Ascensão investe pesadamente em conveniências de roteiro e utiliza praticamente a mesma arma secreta que fez da primeira trilogia um bombástico sucesso para impressionar seu público: o plot twist.

Se em O Império Contra-Ataca, a reviravolta antológica é a descoberta de que o grande vilão, Darth Vader, é o pai de Luke Skywalker (o protagonista clássico que percorre tão magistralmente a famosa jornada do herói), como Johnson ousa tirar o gostinho de deja-vu da boca dos StarWarsmaníacos com o plot da nova heroína, Rey (aqui convertida em uma Mary Sue) dizendo que ela é filha de ninguém importante? Nada disso! Ela também merece protagonizar o seu próprio plot twist e ser filha de algum grande ser dominado pelo lado sombrio da Força. Acontece que, o que tão bem funcionou na primeira trilogia, aqui deixa o gosto amargo de repetição e caça-níquel.

O resultado é um longa apressado, repleto de coincidências, forçado em inúmeros sentidos, desprovido de ousadia ao se render à zona de conforto e cuja uma das sentenças cruciais expressas no apogeu do filme soa como um plágio quase descarado de Vingadores: Ultimato. O que deixa evidente como os blockbusters se atêm à mesma fórmula narrativa. É até desconcertante de assistir.

Devo confessar que algumas cenas conseguiram me comover de maneira genuína, tais quais as aparições de Luke Skywalker (Mark Hamill) e Han Solo (Harrison Ford), sem falar que fizeram um ótimo trabalho ao aproveitar ao máximo as cenas protagonizadas por Carrie Fisher (lembrando que a atriz faleceu antes da conclusão das filmagens e é de se admirar os meios utilizados tanto para contornar quanto para referenciar o triste fato de maneira honrosa no longa). Sei, no entanto, que essas sequências são bastante manipuladoras, sem contar que o apelo melodramático é perceptível até mesmo na trilha sonora. Mas, ainda assim, quando presta tributo à trilogia original, é que Star Wars nos faz recordar a essência da saga e o carinho que nutrimos por esses personagens ao longo das décadas em que a franquia vem ocupando, incontestavelmente, o pódio dos mais rentáveis e adorados produtos da cultura pop. Mas nostalgia, assim como fanservice, não é suficiente para sustentar uma trama. A aparição de Lando Calrissian (Billy Dee Williams), por exemplo, é desperdiçada, pois sua única função na trama é dar lições de moral e dizer repetidas vezes que tudo vai ficar bem no final com um sorriso solene e profético no rosto. É como se ele avisasse constantemente ao espectador que não precisa temer por um desfecho fúnebre e trágico. A Ascensão Skywalker não vai desapontar em entregar um almejado happy ending. Até porque a trama é demasiado maniqueísta, delimitando bem o lado de mocinhos e heróis.

Todo esse tom de homenagem aos personagens clássicos dos primeiros episódios, como a trama que envolve a ligação entre Rey e Kylo soam como tentativas desesperadas de dar alguma força e substância à uma história risível que contradiz totalmente o capítulo anterior. Se apoiando em um texto covarde e pouco consistente, tanto a origem de Rey quanto a redenção de Kylo soam artificiais, incongruentes e pouco críveis. Pode agradar a parcela de fãs que Os Últimos Jedi desagradou, mas os espectadores mais atentos veem nessas conveniências algo pouco funcional e em certa medida até desrespeitoso com o público.

O clímax é interminável e chega a incomodar a onipotência dos personagens, a megalomania com que é conduzida a ação e o uso desenfreado de um recurso considerado tão infalível quanto questionável, que é o famoso Deus ex machina (quando uma obra recorre a soluções inesperadas e mirabolantes para concluir de uma vez a história). Assim, salvadores da pátria e reviravoltas inimagináveis surgem nos últimos minutos, tudo conveniente demais. Também há um excesso de frases de efeito para reiterar o heroísmo de seus personagens. O humor, por vezes, surge em um timing errado. E, por último, mas não menos decepcionante, sabemos de antemão quem sairá vitorioso na batalha definitiva, pois é público e notório que nem roteiro e nem direção estão disposto a correr riscos e acabar vítima das mesmas controvérsias que cercaram Os Últimos Jedi.

Por outro lado, méritos a quem merece: o desenho de produção continua soberbo, seguindo o exemplo dos episódios anteriores. Os cenários criados digitalmente são impressionantes. O que o longa perde em profundidade de texto e de personagens, ganha ao explorar a profundidade do espaço em que a ação ocorre. Todo esse potencial é justamente valorizado pela direção de arte e cinematografia. Ainda que um tanto reverente e contemplativo, não se pode negar que o visual é exuberante. E podemos acusar Ascensão de quase tudo, menos de ser enfadonho. O longa aposta em um ritmo dinâmico certeiro e investe em uma pesada carga de adrenalina. A coreografia das lutas e as costumeiras (e barulhentas) batalhas espaciais são de encher os olhos e de deixar os espectadores pregados na poltrona e com o olhar vidrado na tela.

Convém dizer que a missão de A Acenção Skywalker era ingrata: o filme tinha o propósito de finalizar uma saga composta de nove filmes, aparar arestas, oferecer doses generosas de fanservice e atender às expectativas dos fãs como Os Últimos Jedi de Rian Johnson não fez. O antecessor, como obra cinematográfica, era um filme muito melhor. Mas esse faz questão de se assumir como entretenimento escapista. A escolha é justificável visto que a soap opera espacial sempre fez questão de servir aos fãs. É graças ao fandom que se tornou a potência que é hoje. Mas para um filme que coloca um ponto final na franquia iniciada em 1977, revivida com os prequels, a partir de 1999, com A Ameaça Fantasma; e retomada como continuação da trilogia clássica, em 2015, com O Despertar da Força, A Ascensão Skywalker limita-se a uma aventura genérica, sem surpresas, repleta de coincidências é bem menos do que a gente gostaria que fosse.

Andrizy Bento

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