Rocketman

Eu espero que vocês não se importem que eu expresse em palavras o quão decepcionante foi, para mim, assistir a essa cinebiografia do renomado músico Elton John. O longa inspirado na vida e obra  do prodigioso, porém, introspectivo pianista Reginald Dwight (nome de batismo do lendário artista) foi feito à imagem e semelhança de seu biografado. Isso está longe de desaboná-lo, mas também não pode ser apontado exatamente como seu principal mérito.

Não surpreende que os créditos de direção sejam de Dexter Fletcher (que assumiu Bohemian Rhapsody após a demissão de Bryan Singer) e Matthew Vaughn tenha atuado na produção do longa. Longe de mim tecer críticas negativas ao trabalho de ambos os profissionais, considerando que admiro muito os dois. Ao contrário de muita gente, gosto do filme do Queen, embora reconheça suas falhas e deficiências, e vejo em Vaughn um cineasta excepcional – ele dirigiu um dos melhores e mais bem resolvidos capítulos da franquia X-Men, o Primeira Classe, e é o responsável pela ótima adaptação cinematográfica de Kingsman. Porém, a combinação do trabalho dos dois profissionais tornou Rocketman refém de seus estilos e o filme sofre com o os excessos da embalagem em detrimento do conteúdo. Rocketman parece ter sido montado como uma sucessão de videoclipes esteticamente aberrantes. 

Elton John (vivido no filme por Taron Egerton) é dos mais performáticos e extravagantes astros da música. E, talvez, a ideia fosse refletir isso no longa. Daí a escolha por um tom que tencionava ser lúdico, mas acaba burlesco e espalhafatoso demais até para o próprio Elton. A forma utilizada para contar a história é bastante criativa e corresponde às passagens tortuosas da vida do músico em que ele abusava das drogas, daí a atmosfera alucinógena conferida à produção. Vale lembrar também que a trama é ambientada na década de 1970, portanto, as opções estéticas acabam sendo bem fundamentadas por conta destes fatores apontados, mesmo que se rendendo a excessos. Um mérito a se destacar na obra é que, ao invés de optar pelos caminhos mais fáceis, seguros e convencionais do gênero cinebiográfico (como tantos outros títulos), Rocketman encontra seu próprio estilo de narrativa e se arrisca, valendo-se dos mais distintos subterfúgios dentro daquilo que se propõe. O resultado nem sempre é feliz, mas suficientemente eficaz e convincente. 

Para quem esperava ver mais da história do músico retratada na tela, periga se desapontar, pois várias das passagens mais interessantes de sua vida ficam de fora da dramatização. Em linhas gerais, o objetivo do longa é narrar os difíceis percalços nas relações do músico com seus pais; com o empresário e ex-namorado, John Reid (papel defendido por Richard Madden e limitado à condição de vilão do filme); e com o amigo de longa data e autor da maioria das composições interpretadas por Elton, Bernie Taupin (o sempre ótimo Jamie Bell); além de dar um foco especial na dependência química de John. Desse modo, outros aspectos de sua vida e carreira são escanteados. A ascensão do músico ao estrelato, por exemplo, é muito rápida. Outro de seus deméritos é que muitos dos conflitos enfrentados pelo artista durante o longa quase descambam para o dramalhão, dada a pieguice dos diálogos e até mesmo a falta de sutileza e os excessos do desenho de produção. 

Apostando em uma incompreensível desordem cronológica e uma overdose de licenças poéticas, o roteiro opta por não explorar o relacionamento de John com outros músicos ou o flerte do cantor com o rock progressivo – entrechos essenciais de sua vida como artista. O texto também peca ao criar uma origem para a escolha do nome artístico, Elton John, que destoa completamente da realidade.  Esse papo de que John Lennon foi a inspiração máxima para sua nova alcunha não somente é irreal, como desnecessário. Mas, talvez, essa seja uma das licenças poéticas que incomode apenas aos mais puristas e passe despercebida por aqueles que desconhecem sua trajetória. Embora o ritmo do longa seja bastante fluido, há algumas coisas que incomodam na montagem, especialmente no tocante à celeridade com que passagens emblemáticas de sua história são retratadas, mal dando tempo para o espectador absorver de fato o que está acontecendo na tela. 

É necessário paciência para digerir as diversas cenas musicais, especialmente quando os que soltam a voz para cantar são os coadjuvantes da história, pois esses trechos específicos soam um tanto forçados demais, embora eu deva reconhecer que houve uma precisão absoluta na escolha das músicas, condizentes com as situações narradas. As coreografias também são dignas de nota. Para os fãs das composições do músico, como eu, pode encontrar ao menos uma grande qualidade na produção, que é o de se deleitar com cada canção executada ao longo das duas horas de duração do filme. 

Rocketman pode ser definido como uma cinebiografia que mescla elementos de fantasia com musical. Transitando entre a realidade e o delírio, apostando em um visual de cores vivas e vibrantes, o filme baseado na história de Elton John não é ruim. Longe disso. Trata-se de um tributo exaltado e apaixonado à carreira do talentoso artista, sem dúvidas, além de bastante honesto em suas intenções. Mas é imperfeito. Não é a oitava maravilha que alardearam por aí. Vale também pela atuação de Taron Egerton em momento inspirado – embora o ator se exceda em alguns momentos, acerta o tom na maior parte das cenas.

De qualquer forma, o fato é que Rocketman alcançou a proeza de me deixar ainda mais apaixonada pela vasta obra de Elton John. E isso é alguma coisa, considerando que cresci ouvindo suas músicas e boa parte de seus clássicos tornou-se trilha sonora de memórias afetivas da minha infância.

Andrizy Bento

 

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