Vocês Lembram da Casa dos Artistas?

Antes do Big Brother Brasil se tornar o carro-chefe da Rede Globo, existiu a Casa dos Artistas no SBT.

Sempre que se fala em um reality show que realmente cativou o público com participantes carismáticos e fez as pessoas vibrarem como se fosse uma novelinha, todos pensam logo na edição 5 do Big Brother Brasil, que foi ao ar em 2005 e revelou a hoje famosa atriz e modelo Grazi Massafera (na época Miss Paraná) e o hoje controverso deputado Jean Wyllys (na época professor universitário). Além de contar com um time de vilões que fracassou lindamente na missão de derrubar os heróis, encabeçado pelo inesquecível Dr. Gê. Ah, não se faz mais vilões de realities como antigamente. Saudade, Dr. Gê. Saudade, Jean Massumi.

Whateva…

Eu, em contrapartida, penso imediatamente na primeira edição da Casa dos Artistas, que foi ao ar há exatos 18 anos, em 28 de outubro de 2001, sem prévio aviso, sem que nada fosse explicado para os espectadores que estavam sintonizados na telinha do SBT naquele momento.

Vejamos: O Big Brother Brasil 5 teve suas vantagens. Primeiro: como já mencionei anteriormente, contava com um elenco realmente carismático. Segundo: os participantes apelavam e muito para o emocional e valores do espectador. Eles jogavam o que hoje é conhecido entre os especialistas em reality shows como jogo externo, o jogo pra fora. Os heróis não jogavam para o povo da casa; preocupavam-se, antes de tudo, em ganhar a simpatia daqueles que poderiam efetivamente lhes trazer a vitória, e não dos que dividiam a casa com eles, para “fazer amigos que vou levar daqui pro resto da vida” e, assim que acaba o contrato, nunca mais ninguém se fala. Jogavam para o povo que assistia. Por último, mas não menos importante: havia a edição. Convenhamos, ainda não era um número expressivo de pessoas que recorria ao pay-per-view naquela época, de modo que dependiam exclusivamente da edição da Rede Globo exibida durante o horário nobre. Assim foi fácil manipular os personagens e os espectadores, criando a liga dos heróis e o time de vilões. Os X-Men de Jean Wyllys de um lado. A irmandade de Dr. Gê do outro.

Mas a Casa dos Artistas… bem, essa só tinha o fator surpresa como vantagem. Aliás, acabou por se tornar uma vantagem. Mas, se o público não tivesse comprado a ideia, a Casa poderia ter dado errado e se tornar um fracasso retumbante.

Vou explicar melhor: Como eu disse alguns parágrafos acima, o programa estreou assim, do nada, sem prévio aviso, sem chamadas ou anúncios. Um belo domingo à noite, meu pai e milhares de outros brasileiros estavam sintonizados na telinha do SBT e, naquele momento, Silvio Santos reunia aleatoriamente um grupo de celebridades lado B (desconhecidas ou que se encontravam no ostracismo) em um palco com a logo de uma casa com uma enorme fechadura.

De repente, o apresentador os dispensou e enviou os participantes em carros separados para uma casa. Na verdade, uma mansão avaliada em R$ 5 milhões, localizada no bairro do Morumbi, em São Paulo. Eles viveriam juntos. Todos os doze pseudo-famosos, trancafiados na mansão, cercados por 33 câmeras e 35 microfones que se espalhavam por todos os cômodos e com o único propósito de vigiá-los dia e noite. Essas imagens seriam editadas e exibidas na programação nobre do SBT, mas a vida dos 12 famosos dentro da casa seria transmitida na íntegra pela extinta DirecTV, no sistema pay-per-view.

Sim, amigos. Antes do pay-per-view do BBB, existia o da Casa dos Artistas na DirecTV.

Assim sendo, o programa foi um tiro no escuro. Um risco que Silvio Santos estava disposto a correr.

Essa é uma característica comum de Silvio Santos – o fato de dar a cara a tapa e colocar os pilotos de seus programas no ar. Deu certo? Ótimo, vamos fixá-lo na grade de programação. Não deu? Paciência. Engaveta e pode servir para uso posterior. Ou não. Deixa lá mesmo e nunca mais tira. Silvio Santos analisa a recepção do público, como a audiência reage a esses pilotos e, dependendo disso, dá continuidade ou não às suas ideias malucas.

No caso da Casa dos Artistas, reza a lenda que ele até chegou a negociar com a produtora holandesa Endemol Entertainment – detentora dos direitos do Big Brother – para produzir uma edição brasileira do show. Porém, como as negociações não foram em frente, ele copiou o formato na cara dura – só que ao invés de anônimos, chamou famosos para participar – e o batizou de Casa dos Artistas.

Se desse errado ficaria feio para o SBT, para o Senor Abravanel e para o pessoal que estava confinado. Vamos supor que fosse um fiasco de audiência: seria bem constrangedor simplesmente mandar os confinados abandonarem a casa e retornarem às suas vidinhas de pseudo-famosos em outro lugar… Então foi realmente um grande risco que Silvio Santos correu no SBT.

Mas não foi um tiro no escuro e uma surpresa apenas por ter estreado sem prévio aviso. Foi, também, porque o público não estava habituado àquele formato.

Sim, a Globo já havia transmitido o reality competitivo No Limite – uma espécie de versão brasileira do Survivor, da CBS – que fez um relativo sucesso e era centrado na sobrevivência de participantes em lugares com condições inóspitas e nos quais eles tinham de sofrer inúmeras privações.

Será que o público compraria a ideia de famosos who convivendo em uma casa, tomando longos banhos de sol, mergulhando na piscina, almoçando e jantando juntos, limpando a casa e dormindo? Não dava para prever brigas e discussões, claro, mas era uma certeza que elas fariam parte do pacote, o que já poderia acrescentar uns pontinhos de audiência.

Não querendo parecer presunçosa, mas eu já estava familiarizada com o formato e até curtia, pois era espectadora assídua da MTV Brasil que retransmitiu diversas edições dos realities produzidos pela MTV americana por aqui, como o Na Real (The Real World no original) e Pé na Tábua (Road Rules). Isso sem falar da versão brasileira do Na Real – com algumas licenças poéticas – produzida pela própria filial brasileira da MTV, o 20 e Poucos Anos.

Porém, reality show na época da Casa era uma grande novidade para a maioria dos brasileiros.

Portanto, se fazia necessário ganhar o público…

Além disso, o programa era exibido em uma emissora acostumada à vice-liderança há séculos e que dificilmente emplacava um sucesso de audiência. Mas, mesmo com tudo contra, de uma forma aparentemente ingênua e sem saber o que esperar daquilo tudo, a Casa dos Artistas foi um fenômeno que garantiu a liderança absoluta no ibope para o SBT, tornou-se o assunto mais comentado pelo Brasil afora, fez o país torcer pelo romance de Bárbara Paz e Supla e deixou a Globo espumando de raiva.

Quem poderia imaginar que aquele programa se converteria, posteriormente, na maior audiência que a emissora de Senor Abravanel conheceu? Só para se ter uma ideia, a final registrou 47 pontos, com picos de 55, contra apenas 18 da Rede Globo. Um feito inédito e histórico.

A Globo havia acabado de adquirir os direitos do Big Brother na época. E quando o exibisse, ele não passaria (para o público) de uma cópia da Casa com anônimos. Ficou feio… Até foi concedida à Vênus Platinada uma liminar que proibia a transmissão da Casa dos Artistas, impedindo o SBT de exibir o programa por um ou dois dias. Mas o recurso do SBT foi acolhido e a liminar, cassada. Assim, a emissora de Silvio Santos tornou a exibir normalmente o reality. No entanto, a briga na justiça ainda se arrastou por anos a fio, culminando na derrota do SBT que perdeu a ação milionária e foi julgado por plágio em 2015.

De qualquer forma, no ano de sua exibição, isto é, 2001, o primeiro reality show de confinamento do Brasil foi até o final. O final que, aliás, pareceu quase decisão de campeonato mundial, guardadas as devidas proporções, tamanha comoção que gerou.

A primeira edição da Casa foi quase um teste mesmo. Como não se sabia de que forma o público iria receber aquela novidade, os participantes também não sabiam muito bem como tinham de se portar, então fizeram o que queriam sem precisar “ler” o jogo. Eles jogaram porque sabiam que tinham de fazê-lo, mas não sabiam como. Jogar pra dentro, jogar pra fora? Se fizeram isso, foi meio que sem querer, por instinto. Apelação e manipulação na edição? Até rolava, mas sem os excessos e a extrema má-fé dos realities atuais. E o elenco… elenco mais bem selecionado não se viu em nenhum outro reality show.

Tá certo que eles não eram anônimos, o que por si só já tornava mais fácil a seleção. Mas, ainda assim, foi um golpe de sorte reunir aquelas doze figurinhas.

Bárbara Paz, era atriz e modelo. Eu, pelo menos, a conhecia do clipe de Pelados em Santos dos Titãs (uma tenebrosa versão para um sucesso dos saudosos Mamonas Assassinas), no qual ela fazia topless.

Supla era mais conhecido por ser o Rei dos Piores Clipes do Mundo; programa comandado por Marcos Mion na MTV

Alexandre Frota formou um casal bizarro com Cláudia Raia durante a década de 1980 e participou de algumas novelas famosas, porém, havia caído no esquecimento. (Deus, esse elenco vai ficando cada vez melhor!)

Mari Alexandre era a namorada de Vavá, vocalista do grupo de pagode Karametade, e fazia um bico muito dos mal feitos como “comediante” na versão Rede Record da Escolinha do Professor Raimundo (que não tinha o Raimundo de Chico Anysio como professor e sim o Dedé dos Trapalhões).

Matheus Carrieri era o pai da Mili (Fernanda Souza) da primeira versão brasileira de Chiquititas. Desculpem-me, mas não consigo me recordar de nada mais relevante que ele fez.

Patrícia Coelho era cantora, ainda de pouca expressão, e ex-namorada de Marcos Mion, já citado neste artigo.

Leandro Lehart era um cara que só dormia na casa e líder do grupo de pagode Art Popular, sucesso na década de 1990.

Núbia Óliiver… então, ela era modelo, mas eu ainda não conhecia seu trabalho. Segundo minhas irmãs, ela foi vista algumas vezes no Domingo Legal antes de entrar para a Casa.

Marco Mastronelli HAHAHAHAHAHHAHA! Desculpa, gente… retomando: ele era conhecido por ter sido um dos inúmeros bofes da atriz Danielle Winits, que pegou mais nos anos 1990 do que você e suas amigas juntas conseguem pegar em 15 baladas. Eu ri porque ele dizia que já tinha feito parte de boy bands, que era um estouro nos Estados Unidos, amigo e personal trainer do Brad Pitt, que saiu com a Julia Roberts e até levou para o Silvio uma revista com ele estampando a capa e cuja manchete dizia que ele havia sido eleito o homem mais sexy do século, do milênio, do universo… Não me lembro direito.

Nana Gouvêa, antes de ser a rainha dos ensaios fotográficos em desastres naturais, integrou o elenco original de Casa dos Artistas e, na época, era conhecida como madrinha de bateria de alguma escola de samba que eu não me lembro qual era.

Taiguara Nazareth era um cara caladão que já tinha sido visto na minissérie A Presença de Anita.

Alessandra Scatena saiu na primeira semana, tadinha. Pouca gente lembra que ela fez parte desse angu. Mas ela era assistente de palco do famigerado Domingo Legal do Gugu. E foi vítima do primeiro complô da casa, coordenado por Mastronelli. A ideia era que os homens combinassem votos e fossem eliminando as mulheres da casa aos poucos. Frota participou do esquema, mas, na hora, votou para outra pessoa.

Sabem o que era mais legal? A gente não sabia quem votava pra quem, pois os votos eram depositados em uma urna no domingo de manhã (se eu não me engano) que era aberta por Silvio Santos (que lia tudo errado) na noite do mesmo domingo, ao vivo. Cabia a nós adivinharmos quem votou em quem.

Os mais votados da urna iam para a berlinda (uma espécie de paredão), e o público decidiria quem seria eliminado. Mas esqueçam os milhões de votos via internet. O Silvio Santos atendia ao vivo aos telefonemas que determinariam o destino dos participantes no programa. Apenas 20 espectadores tinham o privilégio de votar por meio de ligação. Mas se, nas primeiras onze ligações, os espectadores votassem no mesmo artista emparedado, este já estava automaticamente eliminado. E, aliás, tudo acontecia no domingo. A casa votava, o público votava e o eliminado saia naquele mesmo dia. Naquela época, se empatasse, os dois saiam. Depois, o Silvio Santos mudou as regras ao vivo durante a terceira edição do programa, no meio da coisa toda e pronto: Se empatassem, ambos permaneciam no jogo. Mas, já na primeira, ele aprontou das suas. Frota saiu da Casa, super queimado com o povo de dentro e como a audiência caiu sem seus esquemas e jogos espertinhos, Silvio Santos pediu pessoalmente para ele retornar. E ele retornou. E foi assim que ele conseguiu ir até a final. Ele já jogava bem antes de sair. Mas depois que voltou ao confinamento, tinha mais vantagens. Aproximou-se das pessoas certas e só não ganhou o jogo porque seus colegas cativaram mais o público do que ele.

Só um adendo: Silvio mudava as regras a hora em que bem entendia. Isso é importante frisar. Todas as três edições da Casa dos Artistas foram uma bagunça por causa disso. Sendo a Casa 2 a mais prejudicada, pois mais participantes entravam do que saiam.

Mas voltando à primeira edição, que foi a mais legal porque, como dizia o meu pai, se tratava de uma novidade: Bárbara Paz e Supla ganharam o público. Mas A Casa dos Artistas jamais teria sido o que foi sem o vilão que depois se converteu em amigo dos heróis, Frota. Ele tramava os votos com a vilã Núbia e, depois, ia contar todo o esquema para Supla, Barbara e Patrícia de modo que eles ferrassem com o plano todo.

Bárbara era divertida, carismática e ainda formou um casal com Supla. Um casal pelo qual o público torceu com afinco. O primeiro beijo dos dois foi motivo de comemoração nacional. E eles viravam alvo dos invejosos da casa… Eram as vítimas. Os perseguidos pelos vilões. Os mocinhos que poderiam ter sua história de amor arruinada a qualquer momento. Os heróis. Os bonzinhos.

Olhando em retrospecto, pode até ser que o casal tenha sido armado. Talvez. Ainda que a Casa tenha sido, de certa forma, precursora desse formato de reality no Brasil e não tivesse outro molde para se inspirar, não precisa ser um gênio para fazer uma simples soma. Se a Casa dos Artistas vinha com a proposta de ser uma novela da vida real, era óbvio que os ingredientes para fazer a receita funcionar seriam os barracos, os conchaves, grandes amizades e romance. Tudo real, na medida do possível, mas temperado com um pouco de ficção para equilibrar as coisas e garantir o interesse crescente da audiência.

Isso ficava por conta da produção com suas brincadeiras e  armações sutis que resultavam em conflitos e discórdia entre os (não tão) ilustres moradores da Casa, além da edição manipulada que mostrava o que era interessante conforme a narrativa estabelecida e pintava mocinhos e vilões, induzia o público a torcer pelo casal principal (enfatizando a boa conduta dos heróis e as más atitudes dos malévolos). E dá-lhe musiquinha de trilha sonora! Desafio qualquer um que acompanhou a primeira edição a ouvir a clássica I Say a Little Prayer e não se lembrar de Bárbara e Supla. Lógico que o tal romance (e especialmente o tesão) pode ter sido espontâneo, mas a edição contribuiu muito para firmá-los como favoritos. E a fórmula seguida pelo casal tornou-se o padrão dos casais do BBB. A Casa foi mesmo visionária nesse sentido.

Para completar, em um golpe de mestre, em um dos últimos dias de confinamento, quando a vitória de Supla já parecia certa e anunciada. Bárbara contou toda a sua trágica história de vida para as pessoas da casa e para os espectadores. A morte da mãe, a origem da cicatriz no rosto, a complicada situação financeira pela qual passava… Naquela noite, eu percebi. Todo mundo percebeu. Ela ganhou o jogo.

E é por essas e outras que eu acho que a quinta edição do Big Brother deve seu sucesso às fórmulas criadas pela primeira edição da Casa dos Artistas. Se essas fórmulas surgiram naturalmente ou foram criadas pelo diretor e produtor Rodrigo Carelli (ex-MTV, atual A Fazenda) e sua equipe, eu não sei. Mas eu e creio que todo o público gostou desse caráter ingênuo e experimental, além da maneira genuína com que se desenrolaram os conflitos e acontecimentos na primeira Casa dos Artistas.

Andrizy Bento

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