Coringa

Sou eu… Ou o mundo está ficando mais louco?

O barulho em torno de Coringa tem sido ensurdecedor desde muito antes de seu lançamento. De um lado, estava uma escolha curiosa para assumir a direção – Todd Phillips, acusado de piadas sexistas, racistas e outros istas em exemplares pregressos de sua filmografia, como os longas da série Se Beber, Não Case, e cujas declarações recentes sobre como o humor politicamente correto acabou com a comédia não o tem ajudado – de outro, estava a preocupação diante do fato de o filme enaltecer o nêmesis de Batman como um herói, de celebrar a cultura incel, de levantar bandeiras fascistas e promover o Joker como um símbolo equivocado e irresponsável de subversão. Isso gerou debates acalorados nas redes sociais, com gente que sequer havia assistido ao filme classificando-o precipitadamente como tóxico e perigoso.

Coringa, de fato, é sombrio, furioso, violento, anárquico, perturbador. Exatamente como se esperava que fosse um filme sobre o personagem. A produção retrata uma conduta, mas não a defende ou valida, não legitima a violência. Em nenhum momento assume um tom apologético. Importante ressaltar que o comportamento e atitudes do vilão não são justificados por conta do bullying, agressões e traumas que o protagonista, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), sofre e com os quais convive desde a infância. Ele é um sociopata, afinal. Não precisa de grandes motivações para agir da maneira como age. A empatia por Fleck, no entanto, acaba quando ele se converte definitivamente em Coringa e começa a matar. E ele mata sem hesitações ou arrependimentos posteriores; sem ver nada de errado nisso. Jamais pondera sobre seus gestos. Fala com absurda normalidade sobre as atrocidades que comete. Não está atrás de justiça, mas de vingança. Continuar lendo Coringa