MIB: Homens de Preto Internacional

Novo longa da franquia MIB: Homens de Preto reinventa com alguma imaginação e energia o plot da saga, fazendo a narrativa refletir um contexto atual e trazendo mais representatividade à série. No entanto, não é o suficiente para cativar a atenção do espectador, passando longe do tom estiloso do longa que o originou e que trouxe a consagração na cultura pop das figuras emblemáticas interpretadas por Will Smith e Tommy Lee Jones.

A década de 1990 é considerada por muitos cinéfilos como o auge e o catalisador da ficção científica nas telonas, sendo a década que determinou padrões e conceitos que influenciaram inúmeros filmes do gênero que vieram a seguir. O fato é que, naquela época, todos (inclusive os produtores de Hollywood) já sabiam que a internet iria dominar a vida humana. Nos anos 1980, a ficção científica que era produzida tinha um caráter mais objetivo, impulsionada pelas então recentes descobertas e previsões feitas no campo da tecnologia e robótica, procurando reproduzir cenários palatáveis e futuros que parecessem mais plausíveis, condizentes com o que viveríamos dentro de alguns anos. Havia todo um cuidado e, talvez, até mesmo um receio em tentar retratar uma possível realidade da forma mais acurada possível. Não à toa, muitos dos filmes da época acertaram nessa representação (em grande parte, pelo menos), como é o caso de De Volta Para o Futuro II.

Contudo, na década seguinte – ainda que estivessem engatinhando – a tecnologia, a internet e muitos dos artefatos que, antes, eram coisa de sci-fi passaram a fazer parte do cotidiano de muita gente, dando seus primeiros passos a uma futura dominação global. Muitos dos elementos da ficção científica dos anos 1970 e 1980 já eram, de certo modo, nossa realidade. O gênero precisou se reinventar com mais audácia e, por vezes, de maneira até histriônica.  O jeito era investir em excessos, no exagero, abusar da imaginação a fim de construir cenários futurísticos cada vez mais sinistros, extravagantes e até apocalípticos. Além de mais distantes dos tempos em que estávamos vivendo, de modo a fugir do iminente risco de se tornarem datados dentro de alguns poucos anos e sondando um futuro cada vez mais sombrio pautado inteiramente pela tecnologia. Soavam até como alertas e mensagens para que tomássemos cuidado com a inclusão digital, de forma que o ser humano não esquecesse que é ele quem tem de dominar a tecnologia e não o contrário.

O departamento de efeitos visuais também ganhou um boost na época e já era possível criar seres e cenários a partir de avançadas técnicas de computação gráfica que soavam realistas e bem superiores aos defeitos especiais de outros tempos. É seguro afirmar que os recursos precários e as limitações de outrora tiveram de ser contornados com sabedoria. Muita coisa era apenas sugerida pela montagem, de maneira elegante, e ficava a cargo da imaginação do espectador. Nos anos 1990, isso não era mais problema. Os horizontes haviam se expandido, o CGI foi extravasando limites e desde dinossauros gigantes até colossais robôs e ameaças alienígenas fantásticas tomaram as telonas e se tornaram parte do imaginário do público cinéfilo que consumia cultura pop desde o café da manhã por meio de publicações como a Revista Herói.

E Hollywood passou a explorar intensamente esse filão, inclusive investindo em longas sobre extraterrestres, um tema recorrente da década de 1990. O próprio Will Smith, estrela de MIB, já havia protagonizado o sucesso ufanista Independence Day, em 1996. E o grande hit televisivo do momento era a seminal série Arquivo X que trouxe a temática alienígena à tona como nenhum produto tinha feito até então, inspirando muitas das séries sci-fi que vieram posteriormente graças a seu incontestável legado. E foi nesse cenário dourado das ficções científicas pipoca realizadas em Hollywood que surgiu MIB: Homens de Preto, longa dirigido por Barry Sonnenfeld que narrava as ações de uma agência ultra-secreta do governo responsável por monitorar atividades alienígenas e conter potenciais ameaças intergalácticas à Terra.

A questão é: ainda existe espaço para um longa dessa estirpe no cinema atual? Claro, afinal Hollywood está inteiramente tomada por reboots, sequels, prequels e spin-offs, além de adaptações de histórias em quadrinhos. E MIB: Homens de Preto Internacional é quase tudo isso – exceto por prequel e reboot que, aqui, não se aplicam. Mas o fato é que não foram esses elementos que fizeram o original ser um sucesso. Ele foi um hit exatamente por ser original. Sim, era uma adaptação, mas a HQ era praticamente desconhecida de totalidade do público (eu mesma, uma devoradora de quadrinhos de marca maior, nunca li e nem tive grande interesse em correr atrás das HQs de MIB), mas não foi dessa forma que o longa foi vendido na época – afinal o, então, subgênero de filmes baseados em HQs enfrentava uma crise devido a fracassos tais como os Batman de Joel Schumacher e Spawn – O Soldado do Inferno como já salientamos em outras oportunidades.

MIB se destacava principalmente por seu ineditismo, por estar livre das amarras de ser fiel a um material que quase ninguém conhecia, podendo tomar liberdades criativas à vontade. Assim, nas peles dos agentes J e K, trajando elegantes ternos e óculos escuros, Smith e Jones se divertiram caçando ameaças extraterrenas que se apropriavam de corpos humanos e os utilizavam como uma espécie de capas ou vestimentas com o puro intento de destruir a paz e a calma do nosso tranquilo planeta Terra (sério?). Aliens eram os vilões da história, como na grande maioria dos filmes da época, porém, a narrativa aliava a ação desenfreada e algum suspense a bem vindas tiradas cômicas, referências a outros filmes sobre ETs e compreendendo até mesmo uma sátira sutil a outros longas do gênero. E, claro, apostava especialmente no carisma de suas estrelas. E o cast não poderia ser mais certeiro. A dinâmica de uma estrela em ascensão que também era astro do rap (Smith) com um ator veterano (Jones) foi pontual.

E se tem algo em que MIB: Homens de Preto Internacional acerta é, novamente, na escalação do elenco. Tessa Thompson e Chris Hemsworth já tinham mostrado que funcionavam bem na tela em Thor Ragnarok – ela na pele de Valkyrie e ele do herói-título do longa. No novo filme da série MIB, ambos se destacam como dois bons heróis de ação e exibem uma ótima e precisa química. Tessa, especialmente, surge como agente secreta dos Homens (e Mulheres) de Preto em uma época em que o feminismo vem sendo cada vez mais debatido na cultura pop. Nada mais condizente com o contexto atual, e satisfatório para as massas que exigem mais representatividade no cinemão americano, do que fugir do tradicional homem branco como protagonista e colocá-lo como um coadjuvante de brilho e respeito da verdadeira protagonista do filme, Tessa.

Mantendo o mote dos longas originais e dando alguma serventia mais interessante ao neuralizador – o artefato que emite um flash capaz de deletar memórias e um dos itens clássicos da mitologia de MIB, não há muito mais que se possa dizer da produção dirigida por F. Gary Gray. O cineasta por trás de Uma Saída de Mestre, o oitavo capítulo de Velozes e Furiosos e o elogiado Straight Outta Compton, já provou que é aquele profissional que se limita a fazer direitinho o seu dever de casa, sem nada que o diferencie dos demais. Entrega bons filmes, mas não surpreende. MIB: Homens de Preto Internacional é barulhento, pirotécnico e verborrágico. Os diálogos rápidos do início, sem muitas pausas para respiro, chegam a irritar um pouco o espectador. A montagem é acelerada demais, mas se justifica por conta do fiapo de história que é contada. O desenvolvimento é bem parco, portanto a construção do clímax é apressada e não leva o público a se importar de fato com trama ou personagens. O plot twist é óbvio demais (desde o momento em que Liam Neeson dá as caras na produção, sabemos que ele é o vilão do longa). MIB se rende aos excessos da tecnologia e peca na execução da narrativa.

Boa notícia para os amantes de cinema de ação? Há muitas perseguições, explosões e o emprego dos efeitos especiais é bem decente. Más notícias para os fãs de ficção científica? Não há um único elemento que o destaque no gênero. As criaturas introduzidas no longa não são interessantes o suficiente a ponto de impregnar o imaginário dos fãs da franquia. Sem falar na cinematografia de Stuart Dryburgh que é completamente desperdiçada com uma overdose de planos contemplativos, enfatizando os belos cenários em que a ação se desenvolve e as tomadas que se concentram nos grandes centros urbanos a fim de passar uma ideia do quão global é esse novo filme. Ao invés de limitar-se somente à cidade de Nova York como os anteriores, há cenas filmadas em Londres, Paris, Marrakesh e Nápoles, daí o título do longa. Mas se trata de algo puramente cosmético, visto que não faz diferença no todo.

A ponta estrelada pelo apresentador Sérgio Mallandro no papel de um alien (surpresa nenhuma) – parte de uma iniciativa internacional da Sony Pictures, que criou diferentes versões do filme para alguns países – é totalmente forçada, como grande parte da obra em si. No mais, o novo capítulo da franquia limita-se a ser raso e esquecível. Ok, serve como um entretenimento rasteiro de fim de semana, bem dinâmico e que vale pela interação entre Tessa e Hemsworth. Mas o MIB original de 1997 era não apenas um exemplar típico da década e extremamente funcional, como também divertido e estiloso, além de trazer algo de inovador para a época. MIB: Internacional apenas se apropria do legado, mas não traz nenhum frescor, tampouco algum ineditismo para a série. Talvez seja melhor os fãs revisitarem o longa de 1997 e curtirem a nostalgia, relembrando a deliciosa safra de sci-fis daquela geração, do que se desapontarem com esse quarto filme da saga. A verdade é que não se faz mais ficção científica como nos anos 1990.

Falando nisso, indico um artigo do conceituado The Hollywood Reporter que fala exatamente sobre como o MIB original foi o último filme de sua espécie, analisando de maneira breve e sucinta a sua importância dentro do gênero e elencando os elementos que o consagraram. O artigo está em inglês.

Andrizy Bento

 

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