The Real Thing (1989) – Faith No More

Data de lançamento: 20 de Junho de 1989
Duração: 54:58
Faixas: 11 faixas
Estilo: Funk Metal

Lado A
From Out of Nowhere
Epic
Falling to Pieces
Surprise! You’re Dead!
Zombie Eaters

Lado B:
The Real Thing
Underwater Love
The Morning After
Woodpecker From Mars

Produção: Matt Wallace
Gravadora: Slash Records

Esse disco mostrou para o mundo o que seria o rock dos anos 1990 até meados de 2000. O grupo americano Faith No More se caracterizou fazendo metal com vocais rapeados, tanto que foi batizado pela imprensa na época de funk metal. Essa mistura musical nasceu em 1986, quando o trio de rappers americanos Run-DMC regravou “Walk This Way” do Aerosmith com a participação dos mesmos.

Além do Faith No More (comumente chamado de FNM), o também americano Red Hot Chili Peppers cantava em ritmo de rap, mas sua sonoridade foi apelidada de funk rock, já que musicalmente não tem nada de metal, porém com méritos. Ambos os grupos sempre são apontados como influenciadores da geração nu-metal. Diferentemente da maioria dos ícones do rock de seu país, o Faith No More não tem um grande público dentro dos Estados Unidos como quando se apresentam fora dele. Os co-patriotas The Runaways e Ramones passaram pela mesma situação.

O Faith No More nasceu em São Francisco, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, no ano de 1982. Veio das cinzas do Faith No Man, que era formada e liderada por Mike “The Man” Morris. Os integrantes Roddy Bottum (teclados), Mike Bordin (bateria) e Billy Gould (baixo) preferiram formar outra banda para se livrar de Morris ao invés de demiti-lo. Para a guitarra foi chamado Jim Martin e se batizaram com o nome Sharp Young Me. Porém, um amigo sugeriu Faith No More, cujo nome é um trocadilho com Faith No Man. Nessa fase, diversos músicos foram vocalistas do grupo, entre eles a Courtney Love, que namorava, na época, Roddy Bottum e depois viria a ser a viúva do grunge – sua história com Kurt Cobain do Nirvana é globalmente conhecida. Os vocais acabaram por conta de Chuck Mosley, com quem a banda gravou os seus dois primeiros discos: We Care a Lot (1985) e Introduce Yourself (1987).

Em 1988, a banda demitiu Mosley e os motivos de sua saída até hoje geram discussão entre o público do FNM. A versão oficial seria o problema do primeiro vocalista com o álcool, além de ter causado conflitos em alguns shows da banda. É a mesma razão da demissão de Paul Di’Anno do Iron Maiden. Com a necessidade de encontrar um novo vocalista, eles chamaram o jovem Mike Patton que, na época, tinha apenas 20 anos. Sua entrada veio da indicação do guitarrista Jim Martin, que escutou uma fita demo do vocalista. Era o ponto de partida para a formação clássica do FNM, marcada pelo início da fusão entre o heavy metal com funk e rap, além do uso de teclado. As letras não seguem um padrão, mas a maioria tem elementos como sarcasmo, ironia ou podem ser imprevisivelmente românticas.

Assim que Mike Patton entrou, o Faith No More foi correndo pro Estúdio D, na cidade californiana de Salsalito para gravar o seu terceiro e mais emblemático álbum: The Real Thing. A sua produção ficou a cargo de Matt Wallace. O novo vocalista é autor da maioria das canções. O disco abre com From Out of Nowhere, que era a música de abertura dos shows da banda na época.

A segunda faixa, Epic, é a mais lembrada do grupo. Seu final faz jus ao seu nome com um solo de piano de Roddy Bottum. A terceira faixa, Falling to Pieces, é outro grande êxito da banda. Nela, o baixo de Billy Gould é o seu riff. A quarta faixa é Surprise! You’re Dead!, que é tão rápida que você nem repara o término da canção. O lado A é encerrado com Zombie Eaters.

Já o lado B inicia com a canção-título, que também obteve enorme popularidade. Seu maior atrativo é a bateria de Mike Bordin e o baixo de Billy Gould, que é co-autor ao lado de Mike Patton. As canções Underwater Love e The Morning After não fizeram sucesso como as outras citadas, mas são igualmente ótimas de se escutar. O disco encerra com a instrumental Woodpecker From Mars, que é a única que não foi composta por Mike Patton, mas, sim, por Jim Martin e Billy Gould. Seu título é uma referência ao famoso episódio em que o personagem Pica Pau foi confundido com um marciano. Durante as sessões, foram gravadas mais duas faixas, posteriormente lançadas nas versões em K7 e CD do álbum. Uma é o cover de War Pigs do Black Sabbath, a outra é a balada Edge of The World. Ambas executadas nos consertos do grupo.

Foi com a turnê de The Real Thing que o Faith No More veio ao Brasil pela primeira vez para se apresentar na segunda edição do festival Rock in Rio, que ocorreu no Estádio do Maracanã, em janeiro de 1991. Eles tocaram na terceira noite (dia 20 de janeiro), a mesma do Hanoi Hanoi, Titãs, Billy Idol e Guns N’ Roses. O evento transformou o FNM em uma banda super idolatrada no Brasil na época, tanto que regressaram ao nosso país no mesmo ano para uma mini-turnê. Outra ajuda foi a alta rotatividade de seus videoclipes na recém-chegada MTV Brasil, além de suas canções serem constantemente executadas nas estações de rádio.

Outra prova do efeito Brasil causado no Faith No More foi o fato de seu vocalista, Mike Patton, ter feito amizade com os integrantes do Sepultura, que também se apresentaram no Rock in Rio 2. O grupo mineiro convidou o vocalista para gravar a canção Lookaway para o disco Roots (1996), ao lado do DJ Lethal e de Jonathan Davis (vocalista do Korn). Mike Patton também aprendeu a falar português e usa o idioma toda vez que se apresenta no Brasil e em Portugal. Também não podemos nos esquecer da canção Caralho Voador (!), que foi lançada no seu quinto disco, King For a Day… Fool For a Lifetime (1995) e, apesar de ter sido gravada em inglês, ela possui uma estrofe em português: “Eu não posso dirigir/E agora aparece/Meu dedo enterrado/No meu nariz”.

A turnê de The Real Thing rendeu o primeiro vídeo ao vivo da banda, o You Fat Bastards (1990), que foi gravado na Brixton Academy, em Londres, na Inglaterra. Em 1991, ele foi lançado em formato de disco ao vivo, o primeiro da banda. A versão ao vivo de War Pigs, registrada em You Fat Bastards, foi incluída no primeiro volume de Nativity in Black (1994), o disco tributo ao Black Sabbath.

The Real Thing e seu sucessor Angel Dust (1992) são considerados os dois melhores discos da trajetória do FNM. O último álbum citado é lembrado pela regravação da balada Easy do grupo The Commodores. Angel Dust também é lembrado por ter sido o último disco com o guitarrista Jim Martin, que se retirou da música e virou agricultor. Após gravar o já citado King For a Day… Fool For a Lifetime, com o guitarrista de aluguel Trey Spruance, o FNM contratou Jon Hudson para o lugar do, outrora oficial, Jim Martin.

Em 1997, o Faith No More lançou o seu sexto e último disco: Album of The Year. No ano seguinte anunciou o fim de suas atividades ao lançarem a coletânea Who Cares a Lot? Depois, cada integrante criou o seu próprio projeto musical. Os trabalhos pós FNM mais lembrados são dos xarás Mike. Patton criou a banda Fantomas que, inclusive, tocou no Brasil pelo festival Claro Que é Rock, em 2005. Bordin foi tocar na banda de apoio do cantor Ozzy Osbourne. Quando o último se reunia com o Black Sabbath, o baterista era solicitado sempre que o oficial Bill Ward tinha problemas de saúde.

Em 2009, ano em que The Real Thing completou 20 anos de seu lançamento, o Faith No More anunciou o retorno aos palcos com os mesmos músicos que gravaram o último disco, Album of The Year. Sua turnê de reunião teve até passagem pelo Brasil por duas vezes: em 2009 e no festival SWU, em 2011. Em 2015, eles lançaram Sol Invictus, o primeiro disco em 18 anos. Sua turnê rendeu o regresso à sexta edição do festival Rock in Rio, tocando na noite (25 de setembro) que ainda contou com o De La Tierra (grupo formado por músicos de metal da América Latina, como o Andreas Kisser do Sepultura), Mastodom e o Slipknot, que foi a atração principal. Durante o show do Slipknot, o vocalista Corey Taylor manifestou enorme respeito pelo Faith No More.

Agora vamos ao legado. Fazer rock com vocais de rap foi o elemento que trouxe êxito para o Faith No More e para o citado Red Hot Chili Peppers, mas ainda não tinha feito barulho no inicio dos anos 1990. Nesse período, o mundo do rock estava com os ouvidos ocupados pelo grunge de Seattle e, futuramente, pelo britpop da Inglaterra. No Brasil, bandas como o Planet Hemp e Charlie Brown Jr. usaram desse casamento musical e se tornaram ícones do rock nacional na citada década.

No mundo, essa mistura só foi levada a sério após o lançamento do mencionado Roots, o mais prestigiado álbum do grupo Sepultura. A sonoridade valvulada do disco lançado pelo quarteto mineiro era o elemento-chave que faltava para o surgimento do Nu Metal (também chamado de New Metal). Quem também ajudou na sua ascensão foi o festival itinerante OzzFest, nos Estados Unidos, onde bandas como a canadense Kittie e os americanos Papa Roach, Deftones, Soulfly (criado pelo ex-Sepultura, Max Cavalera), Limp Bizkit, System of A Down, Korn e o mencionado Slipknot foram reveladas e ganharam repercussão mundo afora. Linkin Park é outro expoente do New Metal, embora nunca tenham tocado no OzzFest.

Apesar de idolatrarem o Faith No More, o público do metal tradicional não aprovou o Nu Metal. Eles alegam que o subgênero tem efeitos sonoros e scratchs (os riscos que os DJ’s fazem com os LPs nas pick-ups) no lugar dos solos de guitarra e viradas de bateria. Quem também não gosta do Nu Metal são justamente os membros do grupo. Em entrevista concedida em 2002, o vocalista Mike Patton disse o seguinte: “Não nos culpe por essa porcaria, culpe a mãe deles (dos músicos de Nu Metal). Acredite em mim, dentro de alguns anos vamos rir do Nu Metal. Para falar a verdade, eu já estou rindo”.

Agora uma opinião minha sobre o Nu Metal: dessa turma apenas Kittie e Slipknot conseguiram me agradar.

Windson Alves

Uma consideração sobre “The Real Thing (1989) – Faith No More”

  1. Esse CD ficou por muito tempo indisponível no mercado nacional, tanto é que minha cópia na época eu consegui com a ajuda de um gringo australiano que conheci por meio do ICQ… Enviei pra ele uma fita VHS gravada com um show do Faith No More que ele ainda não tinha visto, e o cara me mandou o The Real Thing.
    As maravilhas da Internet quase antes mesmo da Internet ser, com o perdão do trocadilho, “a real thing”!
    Do FNM meu álbum preferido é o KFAD, mas TRT não fica muito atrás. Aliás, nenhum deles fica muito atrás. E se eles voltarem ao Brasil vou vê-los de novo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s