Nasce Uma Estrela

Após ser indicado três vezes consecutivas ao Oscar por suas performances nos longas O Lado Bom da Vida, Trapaça e Sniper Americano – nas categorias de melhor ator e ator coadjuvante – Bradley Cooper fez sua estreia como cineasta com o 4º remake de Nasce Uma Estrela e viu sua chance de concorrer à categoria de direção no tradicional prêmio entregue pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, cada vez mais próxima de se concretizar. Não aconteceu, mas, por outro lado, Cooper foi indicado novamente por seu desempenho como o protagonista de Nasce Uma Estrela. Nada mal para o ator que ganhou projeção com a despretensiosa comédia Se Beber, Não Case – um fenômeno inesperado de bilheteria que gerou duas sequências desnecessárias. Cooper, embora não tenha saído vitorioso em nenhuma cerimônia do Oscar até agora, parece ter se tornado uma espécie de figurinha tarimbada da Academia. No entanto, é intrigante que o ator tenha escolhido justamente uma história que já foi contada e recontada diversas vezes no cinema para inaugurar sua carreira como diretor. Ainda mais por ser uma narrativa de teor tão trágico e previsível.

Entretanto, apesar de curiosa em um primeiro momento, sua escolha faz sentido ao tomarmos conhecimento de que se trata de uma questão puramente idiossincrática. Este era o projeto dos sonhos de Bradley Cooper. O próprio ator e, agora, realizador, relatou em entrevistas que muitos amigos (incluindo Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam, no qual o ator se inspirou para compor o visual de seu personagem em Nasce Uma Estrela), tentaram dissuadi-lo da ideia de estrear como cineasta justamente com uma ficção que ganhou um sem número de remakes, mas, mesmo assim, ele se manteve firme em seu propósito, alegando que este foi um projeto que cresceu dentro dele desde seus mais tenros anos e pelo qual ele possuía um imenso carinho. Tanto é que não apenas dirigiu e atuou, como é o responsável pelo argumento do filme. Portanto, é de se estranhar que um projeto tão pessoal tenha resultado em um produto tão frio e quase desprovido de paixão.

A previsibilidade se justifica dado o número de versões que a história ganhou no grande ecrã, a saber: a primeiríssima de 1937, menos conhecida, é um drama dirigido por William A. Wellman, estrelado por Janet Gaynor e Fredric March e indicado a seis estatuetas do Oscar, tendo vencido os prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Fotografia em cores (na época em que a categoria ainda era dividida em Fotografia em Preto e Branco e Fotografia Colorida); O musical de 1954, e talvez a versão mais conhecida e famosa da história, foi dirigido por George Cukor e protagonizado pela estrela Judy Garland ao lado de James Mason. Coincidentemente, recebeu o mesmo número de indicações ao Oscar que o original; O terceiro remake, de 1976, ganhou ares mais pop. Com direção de Frank Pierson, o longa conta com a bem-sucedida cantora Barbra Streisand a frente do elenco, e Kris Kristofferson como seu par romântico. Esta versão difere de suas antecessoras por ser centrada no mundo dos palcos e do rock n’ roll e não mais no universo cinematográfico. Embora um sucesso de púbico na época, foi considerada pela crítica especializada a pior dentre as três produções. E é justamente desta que o novo remake comandado por Bradley Cooper mais se aproxima.

Nesta nova roupagem, a Esther das outras versões, é chamada de Ally e interpretada pela cantora mundialmente conhecida Lady Gaga. E o outrora Norman Maine (ou John Norman Howard, na versão da década de 1970), torna-se Jackson Maine, papel desempenhado pelo supramencionado Cooper. A história desta quarta refilmagem preserva diversos elementos das versões anteriores. Como o original, e o clássico estrelado por Judy Garland, o filme narra a trajetória de uma jovem simples, sonhadora, talentosa e com potencial para se converter em grande estrela. A oportunidade de sua vida surge na forma de um astro mais velho que se apaixona por ela e auxilia a jovem a realizar seu sonho, dando um pontapé inicial em sua carreira ao valer-se do sucesso e popularidade da qual ele já desfruta. No entanto, enquanto a jovem ascende ao estrelato, ele mergulha em uma espiral de decadência, enfrentando problemas com alcoolismo, vendo sua carreira se deteriorar dia após dia e ser condenado ao ostracismo pela crítica e por seu próprio público. Consequentemente, o casamento dos dois é abalado. O momento de maior constrangimento fica por conta da passagem em que a jovem estrela ganha um importante prêmio e tem seu momento de brilho arruinado pelo marido alcoólatra e enciumado de sua fama e consagração.

Assim como o remake estrelado por Barbra Streisand, este transfere a história dos bastidores de Hollywood para a indústria fonográfica. Ao invés de um vexame no Oscar (como nos filmes de 1937 e 1954), o cenário de seu maior constrangimento é a cerimônia do Grammy, exatamente como no longa de 1976. O final, contudo, se aproxima mais das primeiras versões do que deste último. Difere também no fato de que, desta vez, as origens musicais de Gaga e Cooper são o folk e o country, não o rock – embora, lá pelas tantas, Ally assuma uma vertente mais pop para suas canções. Desse modo, dizer que, aqui, Cooper se tornou um autor é um equívoco dos grandes. Modernizar a narrativa, de forma a adaptá-la para os tempos atuais, não era uma tarefa das mais complexas. A essência da história permanece exatamente a mesma. Todos já sabem o que vai acontecer ao final, pois o grande charme é manter o clímax trágico e punitivo. Nada de realmente autoral.

É incompreensível que a história tenha tanto apelo popular ainda nestes tempos, sendo tão fatalista, impositiva e não dando nenhuma oportunidade de redenção ao protagonista masculino. Em todas as versões, ele está fadado ao fracasso e sua doença nunca é olhada com mais cuidado. O fato de cometer suicídio (e isso não é um spoiler, visto o número de remakes que ganhou) por acreditar que se tornou apenas uma sombra patética do que um dia foi; representar nada mais do que um pesado fardo na vida de sua esposa; e por tê-la envergonhado publicamente, é algo bem problemático e que jamais ganhou o tratamento devido em nenhuma versão da trama. Mas é a jovem estrela quem mais sofre, pois o roteiro constantemente dá a entender que ela deve sua carreira ao marido, o que a leva a sentir culpa, tanto por vê-lo decair enquanto ela ganha os holofotes, quanto por ele cometer suicídio ao acreditar que é insuficiente para a esposa. Os dois são vítimas nessa história e é incômodo ver o quanto o roteiro inflige tamanho sofrimento a ambos.

Além do texto, outros problemas encontrados na produção são de ordem estética. A câmera na mão se justifica para trazer um ar de mais intimidade e proximidade, especialmente nos momentos mais corriqueiros partilhados pelo casal. No entanto, o recurso peca pelo excesso. Acerca das cenas que se passam no palco, é acertada a decisão de filmar tanto pela perspectiva dos astros quanto da plateia que assiste entusiasmada aos concertos. No entanto, estas passagens nunca trazem ao espectador as dimensões grandiosas destes eventos como deveriam. Os estádios superlotados de fãs parecem ínfimos. A montagem compromete o ritmo do longa, repleta de cortes secos e abruptos. Ao optar por uma edição rápida demais, perde-se a oportunidade de mostrar uma evolução mais gradativa do sucesso da personagem e do fracasso do protagonista. O tema musical, Shallow, é até interessante, porém, repetido exaustivamente e lá pela quinta execução, ninguém aguenta mais ouvir. Lady Gaga está competente e funciona muito bem no papel de Ally. Bradley entrega uma de suas melhores atuações – uma vez que, apesar de suas  indicações ao Oscar, o ator é bastante limitado e nunca vai além de uma performance mediana, ou, no máximo correta. Aqui, Cooper apresenta uma entrega admirável e, por vezes, tocante. É inegável também a excelente química entre o duo na tela.

Nasce Uma Estrela não é um desastre cinematográfico, nem mesmo um filme desagradável. Porém, não escapa das artimanhas e dos problemas inerentes a todas as outras versões anteriores. Uma forma de consertar isso seria reescrever a história, a ponto de torná-la disforme e original, perdendo sua identidade e pouco se assemelhando às demais vezes em que foi retratada na tela. Mas, provavelmente, não é isso que o público gostaria de ver, considerando a bilheteria que o longa angariou em sua passagem pelos cinemas de todo o globo.

★½

Andrizy Bento

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