Roma

O talento do cineasta mexicano Alfonso Cuarón já foi comprovado em inúmeras obras díspares entre si – no belo A Princesinha (1995); no realista E Sua Mãe Também (2001); no ótimo terceiro capítulo da franquia Harry PotterO Prisioneiro de Azkaban (2004); e no colossal Gravidade (2013) – demonstrando também sua versatilidade e, sobretudo, criatividade na condução de seus longas. Roma, no entanto, se trata de um projeto mais pessoal, diferente de tudo o que o realizador já apresentou anteriormente. A produção original da plataforma de streaming Netflix, e baseado em memórias da infância do próprio diretor na Cidade do México, leva sua assinatura em cada um de seus frames e, ainda, em cada etapa da produção do longa. Cuarón não apenas dirigiu e roteirizou, como produziu, co-editou e cinematografou Roma.

A trama se passa na década de 1970, em um notável trabalho de reconstituição de época, e é centrada em uma empregada doméstica de origem indígena que trabalha para uma família de classe média, e cujas atribuições soam excessivas aos olhos de qualquer espectador, menos da própria. Cleo, interpretada com competência e graciosidade pela estreante Yalitza Aparicio, jamais reclama de seu trabalho de ter de manter toda a casa em ordem e ainda cuidar dos quatro filhos de sua patroa, Sofia (Marina de Tavira) sendo recompensada, muitas vezes com críticas e ingratidão. Tanto a dona da casa quanto a modesta faxineira passam a enfrentar, em determinado momento do filme, uma situação de abandono similar que supera a diferença de classes, afinal a dor é a mesma. Ambas acabam encontrando força juntas, impelidas pela vida e pelo ritmo constante e irrefreável do cotidiano, ainda que persista a relação opressiva patroa/empregada.

Não há espaço para moralismos ou julgamentos. O que vemos na tela é a força de uma mulher humilde e quase sem instrução para continuar sua dura jornada dia após dia, conformada com os obstáculos e dificuldades da vida, ao lado de outra que parece não se atentar para a força que também possui, procurando preservar as aparências, ao mesmo tempo em que encara o desafio de manter intactos os pedaços que ainda restam de seu coração e de sua família. De certa a forma, a primeira a inspira – ainda que esta jamais admita verbalmente, é algo que fica explícito na excelente cena do resgate na praia, uma das melhores de 2018. Assim como a história de Cleo é inspiradora para todos nós.

Roma, apesar do que o título parece sugerir, não se refere à capital italiana e, sim, a um bairro localizado na Cidade do México. Singelo, com uma câmera detalhista e um enfoque em acontecimentos triviais e corriqueiros, o longa é todo em preto e branco, prestando um tributo ao flertar nitidamente com Neorrealismo Italiano, movimento cinematográfico ocorrido durante o final da Segunda Guerra Mundial. Perceptivo na composição de seus quadros e na condução de sua trama, Cuarón concebeu uma obra imperdível e irretocável que merece constantes revisitas.

★★★★½

Andrizy Bento

 

Uma consideração sobre “Roma”

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