Green Book: O Guia

O timing de lançamento de Green Book não poderia ser mais equivocado. Se lançado há uma década, ou mesmo há uns cinco anos, não encontraria tanta reprovação popular (lembram como o público ovacionou o indigesto e condescendente Histórias Cruzadas, por exemplo?). Diante dos esforços para parecer cada vez mais moderna e alinhada ao politicamente correto, uma vitória de Green Book no Oscar denunciaria o anacronismo da Academia. Seria premiar o Conduzindo Miss Daisy 2.0 quando mesmo o prêmio deste é contestado até hoje, quase três décadas depois. Mas também não seria surpreendente. O Globo de Ouro tentou a mesma cartada, pagando de moderna, promovendo extensivamente Pantera Negra da Marvel Studios (indicado, inclusive, ao prêmio de Melhor Filme de Drama na premiação) e elegeu Green Book como o grande título de 2018. Pior, o longa ainda conquistou o PGA, prêmio do Sindicato dos Produtores de Hollywood, considerado um dos termômetros mais infalíveis do Oscar.

Aparentemente, Green Book vende-se como um filme baseado em fatos que narra a improvável amizade entre o erudito pianista de jazz clássico, Don Shirley, e o motorista ítalo-americano, Tony Vallelonga, egresso de boates da máfia nova-iorquina. A trama é ambientada na década de 1960 e possui um caráter tragicômico. Contratado para ser segurança e motorista de Shirley, durante a turnê de sua banda pela região de Deep South, nos Estados Unidos, Tony, pouco instruído, temperamental, dado a rompantes de violência e um profícuo emissor de comentários racistas, trava uma bonita amizade com seu patrão, um músico negro, com quem aprende valores como respeito, igualdade e empatia. Porém, não é só Tony que aprende com Shirley. O contrário também ocorre. Com a vivência diária e a troca de experiências, o pianista é conquistado pelo espírito livre de seu segurança, pela maneira inconsequente e modesta com que o outro enxerga a vida e o mundo.

Tony, o personagem de Viggo Mortensen, é quem ganha mais destaque na projeção, o que dá aquela desconcertante impressão de que esta é mais uma daquelas histórias que Hollywood está tão habituada a contar: uma trama que redime um homem branco racista e explosivo, mostrando que o papel do negro em sua vida era o de torná-lo um homem melhor. Em suma, o excelente Mahershala Ali aparece aqui como uma extensão do Magical Negro, um trope recorrente no cinema americano. Não é de se espantar, uma vez que a história é escrita por Nick Vallelonga, filho de Tony, e dirigida por Peter Farelly. O que se esperar do outrora diretor de comédias escatológicas como Debi & Lóide, Quem Vai Ficar Com Mary? e Eu, Eu Mesmo e Irene?  

Green Book só não deixa de ser funcional, graças à ótima química entre os dois atores principais. Mortensen, perfeito, tem uma dinâmica notável com Ali e o trabalho de reconstituição de época também é digno de aplausos. Mas além desses dois atributos e da trilha sonora, não há muito que se possa exaltar do longa. Há cenas de uma obviedade gritante e clichês de todos os tipos, como a cena em que, revoltado com o comentário de seu chofer, Shirley abandona o carro em meio a uma intempérie, é seguido por Tony e aproveita o ensejo para dar uma lição de moral em seu motorista. A típica sequência de discussão sob a chuva, realizada apenas para trazer um maior efeito dramático ao diálogo e geralmente vistas em filmes românticos como Diário de Uma Paixão.

Não poderia faltar, também, o momento em que ambos os personagens são detidos e o pianista, com altos contatos, liga para ninguém mais, ninguém menos do que Robert Kennedy para tirá-lo de trás das grades. E lá estão os policiais estereotipados que, humilhados e constrangidos, são forçados a libertar os dois indivíduos presos injustamente. Essa eu já vi até em The Fresh Prince of Bel-Air, sitcom estrelada por Will Smith durante a década de 1990. E convém mencionar a cena em que Don Shirley para na estrada e recosta-se em seu carro caríssimo a fim de observar negros trabalhando sob um sol escaldante, refletindo acerca das disparidades sociais e da desigualdade extensiva existente no mundo. Sim, é um filme baseado em fatos, mas Farelly poderia arranjar outras formas de contar a história do que simplesmente se render às soluções simplistas e chavões narrativos.

O road movie sobre uma amizade inusitada, aprendizado mútuo e respeito às diferenças não demora a se lançar em uma onda de lugares-comuns constantemente perpetuados em tramas do gênero. O filme limita-se a ser um melodrama edificante, de cunho motivacional bem do estilo que a Academia adorava consagrar há bem pouco tempo. Pode ser que as controvérsias recentes de teor religioso e sexual envolvendo tanto o diretor quanto o roteirista do filme acabem por barrar uma possível vitória no Oscar. Mas, de qualquer forma, o fato de que esse tipo datado de cinema ainda gera buzz em temporadas de premiações (vide Três Anúncios Para Um Crime, no ano passado), é algo bastante decepcionante.

★★

Andrizy Bento

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